Reuso Industrial de Água e Boas Práticas de Engenharia

Email This Post Email This Post

Com razoável atraso – o que não impede que se louve a iniciativa -, o governo do Rio de Janeiro prepara medidas relacionadas ao reuso industrial de água.

Mas ainda foca em garantir receitas extras para a Cedae, a Compahia Estadual de Águas e Esgotos que não consegue nem sequer reduzir as suas perdas e não tem especialidade em reuso -, além de dar ao assunto um tom de soluções rapidíssimas incompatíveis com a necessária elaboração de projetos de engenharia.

De fato, não há soluções do tipo “café solúvel” e as empresas não podem ser forçadas a comprar água de reuso da concessionária – ou seja, água descartada no meio ambiente, depois da remoção de impurezas – sob pena de que seja criado um imenso desestímulo para essa atividade.  Ou o que se quer é fazê-las engolir uma Odebrecht Ambiental da vida como intermediária para cobrar um pedágio ao levar água da ETE Alegria para a Refinaria de Duque de Caxias?

Ao contrário, o objetivo maior, em escala nacional, deve ser impedir que as concessionárias cobrem pela água que devolvem ao meio ambiente, ainda que depois de tratamento.  Esse tipo de impedimento do reuso já aconteceu em Cubatão num momento em que se cogitou da possibilidade da refinaria lá situada usar os esgotos municipais tratados.  À época, a concessionária privada resolveu que tinha direito a cobrar um “pedágio” pelo que até então lançava num rio.  Resultado: projeto inviabilizado e a Sabesp optando por fazer uma nova captação para atender a refinaria.

Já na década de 1990, o reuso de esgotos da Grande Vitória para abastecer as usinas da Vale foi inviabilizado pelo jogo político-partidário, com a prefeitura da capital decidindo cobrar impostos pelo esgoto com o qual nunca havia se preocupado e a própria concessionária estadual preocupada com a possível perda de uma receita demasiadamente fácil, ainda que recebida às expensas da falta de abastecimento em bairros da periferia, mais pobres.

Excelentes exemplos do atraso mental e institucional das partes envolvidas, todas com cartas escondidas na manga, avessos ao jogo limpo e transparente, com prejuízos para o conjunto da sociedade e para a boa gestão dos recursos hídricos.

Para se ter ideia de como podem ser complexos os projetos de reuso de água para fins de utilização em processos industriais, escolhemos três exemplos (todos da mesma empresa de engenharia apenas por uma questão de facilidade na busca na internet).

O primeiro é um projeto implantado na Austrália e que recebeu o nome de Fábrica de Água de Gippsland, envolvendo o reuso de águas de esgotos domésticos e industriais para o abastecimento de uma fábrica de papel e celulose.  Ninguém ali estava pensando em ganhar dinheiro com a tubulação de 78 km, mas com a boa engenharia e com a seleção da tecnologia adequada.  Nada de empreiteiras!

O segundo é um projeto de reuso de água de tratamento de esgotos municipais para o abastecimento da Refinaria de El Segundo, na Califórnia, cuja concepção se iniciou em 1990 e a inauguração se deu em 1994.

O terceiro é um projeto cuja água também se origina de uma estação de tratamento municipal para o abastecimento de uma usina de geração térmica de eletricidade na cidade de Redlands, uma região semi-árida a 80 km de Los Angeles.

Em todos os casos, da elaboração de bons projetos de engenharia até a sua implantação, foram necessários alguns anos.  Não há projetos na prateleira dos supermercados!  Além disso, todos os projetos citados – como de um modo geral ocorre quando se necessita de água para abastecimento industrial – envolveram tecnologias não disponíveis no Brasil, mas que devem ser importadas, como filtração com membranas e similares.

Para reduzir o impacto da seca sobre as atividades industriais, há muitos caminhos e o mais aconselhável começar a pensar em exigir estudos de viabilidade técnica e econômica, com projetos de engenharia de boa qualidade, além da concessão de isenção de impostos sobre os equipamentos importados a serem utilizados no reuso de água.

Essa isenção pode ser dada por um determinado prazo para que os fabricantes tenham tempo de avaliar a conveniência de fabricá-los no Brasil (até porque a vida útil das membranas não é muito longa e há necessidade de sua substituição periódica).

***

Há cerca de 7 meses, o autor deste blog apresentou uma proposta de ante-projeto de lei promovendo o reuso de água.  A adoção desse ante-projeto como base para o projeto que será encaminhado à Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro é excelente, ainda que um pouco tardia.

O ante-projeto aqui publicado também foi apresentado a lideranças políticas – estaduais e federais – de Minas Gerais e de São Paulo.  Nenhuma delas se interessou.  Agora, ao que parece, São Paulo começa a despertar.

***

Atualmente, a tecnologia permite que uma unidade de tratamento transforme água do Tietê ou do canal do Mangue em água potável, com todos os equipamentos dentro de um container.  Mas mesmo para isso há necessidade de fazer as encomendas antes, e não quando a casa desabar sobre a cabeça de todos.

A dessalinização em grande escala é uma lorota, tem um preço muito elevado e serve apenas para a produção de água potável.  Tentar impor essa tecnologia para água de reuso industrial – como noticiado – sob a ameaça de supressão imediata de outorgas de captação é inaceitável – em particular sem a decretação do estado de emergência pública – e pode dar a impressão de tentativa de beneficiar fornecedores pré-selecionados.  A tecnologia de membranas para nano-filtração não tem qualquer novidade e há excelentes fabricantes na Alemanha, nos EUA, e mesmo na França.  Conceda-se às indústrias um prazo para apresentar projetos de reuso, e inclua-se a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) entre elas.

 ***

Se vai ser iniciada uma grande campanha para evitar o desperdício de água, que tal começar pelos imensos desperdícios da própria Cedae?  E por regras mais claras para que todas as concessionárias implantem programas de redução de perdas, com macro e micro medição tecnicamente adequadas?

 

 

 

 

Colapso de Água e de Energia X Soluções Inovadoras

Email This Post Email This Post

As autoridades públicas brasileiras, em todos os níveis de governo, parecem atordoadas ou perdidas na mesmice diante da crise e riscos de colapso no abastecimento de eletricidade e de água no país (neste caso, com maior ênfase em algumas regiões envolvendo os estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais).

Não deixa de ser divertido ver os ministros da área econômica falando em controle da inflação e em retomada do crescimento como se essas duas crises sequer existissem, ainda que elas tendam a colocar em risco o conjunto da economia e mesmo a colocar em grave risco a ordem pública.  Essas autoridades parecem pensar apenas dentro das caixinhas dos fluxos financeiros, do equilíbrio das contas públicas via aumento nos impostos, do controle do consumo de energia e de água via penalidades tarifárias, e por aí afora.

Mais do mesmo não vai levar o país a lugar nenhum! – exceto, talvez, ao caos e ao colapso.

E se as autoridades setoriais e todos os níveis de poder se unissem, por exemplo, para acelerar a implantação de um programa consistente de micro geração distribuída de eletricidade, com foco na energia fotovoltaica, como fizeram e continuam fazendo vários países cuja ênfase na na segurança energética, não se limitando ao arroz com feijão da geração hidrelétrica ou térmica (incluindo a nuclear, uma excelente opção que países como o Japão não podem mais aceitar e que causa apreensão nos EUA em decorrência da localização em regiões costeiras)?

Não há uma responsabilidade apenas federal na crise de energia.  Estados e municípios podem fazer muito pela geração distribuída, como também na definição de padrões de eficiência energética nas edificações… desde que as autoridades econômicas – em todos os níveis  (mas em particular o ministro Joaquim Levy) –  não achem que os aumentos de tributos devem incidir da maneira indiferenciada sobre, por exemplo, painéis solares e cremes de beleza.

O mesmo raciocínio vale para a crise de água.  E se as mesmas autoridades se unissem para desencadear uma grande ofensiva voltada para o reuso da água em sua plenitude, além da mesmice das multas, elevações de tarifas ou mesmo proibição de alguns usos, como ocorreu em cidades da Califórnia, do Texas, e na Austrália.

Há muita coisa boa a fazer na gestão dos recursos hídricos além de campanhas publicitárias medíocres e de declarações não menos tolas, como a presidente da Copasa ao fazer de conta que uma redução de 30% no consumo na região metropolitana de Belo Horizonte era um passo importante… adiando o colapso no abastecimento de 3 para 4 meses.

No atual quadro de escassez de água, não faz absolutamente nenhum sentido o lançamento de esgotos coletados – tratados ou não – nos oceanos, através de emissários submarinos ou mesmo em rios que simplesmente  desaguam no mar.  Na Alemanha, há décadas, capta-se água dos rios para fazer a recarga dos lençóis freáticos, prática que já vem sendo adotada na Califórnia com a água de estações de tratamento de esgotos (com níveis de tratamento muito superiores aos brasileiros).

É altamente recomendável que todos se unam em torno de propostas e na implementação de soluções em lugar de ficarem tentando obter respostas através das concessionárias de água e esgoto… que não as têm.  Ou apontar o dedinho para o céu e dizer que “tudo depende de São Pedro” ou que “Deus é brasileiro” – cretinamente.

***

Se as autoridades – inclusive as econômicas -, a iniciativa privada (diretamente ou através de suas representações setoriais como  Fiesp, Firjan e Fiemg), as associações de engenheiros e outras quiserem fazer algo de inovador na área de gestão de recursos hídricos sem ter que começar do zero – talvez possam encontrar maneiras de aproveitar a experiência alheia enviando delegações à Conferência de Reuso Comercial e Industrial de Água que ocorrerá nas próximas semanas, no Texas.  E/ou ao XXX Simpósio Anual de Reuso de Água (isso mesmo, 30°, 30 anos consecutivos) que se realizará em Seattle, em setembro.

Vale, também, buscar a cooperação técnica com as associações de reuso de água dos EUA, ou da Alemanha ou da Austrália, ou todas.  Com esse tipo de cooperação, será possível obter importantes subsídios técnicos e normativos.

O que não dá é para continuar pensando apenas em grandes obras, que é o que as concessionárias de serviços de água e governantes sempre gostaram.

Porque são muito grandes as chances de que tenhamos que nos adaptar a uma nova realidade climática, como já estão fazendo esses países que não se recolhem à negação do óbvio – aquilo que todos os grandes centros de meteorologia do mundo estão dizendo há anos, e cada vez mais.

 

 

Recomendações ao Ministro Eduardo Braga – Eficiência na Gestão e Apagão Mal Disfarçado

Email This Post Email This Post

A adoção das tarifas com bandeiras são apenas uma forma de aumento das tarifas e desconsidera a experiência internacional na área da gestão da demanda de eletricidade.  Um mero aumento das tarifas tem impactos negativos generalizados e não possibilita a utilização economicamente ótima ou mais adequada da energia gerada por hidrelétricas ou termelétricas.

O paradigma adotado pelos países mais amigáveis da utilização saudável da teoria econômica entenderam muito cedo a necessidade de harmonizar a curva da demanda de maneira a utilizar ao máximo e da melhor maneira possível a capacidade instalada de geração.

A compreensão dos princípios econômicos da gestão eficiente é bastante fácil: o sistema elétrico – como o de água, de telefonia e tantos outros – está dimensionado para atender à demanda máxima em qualquer instante,  também conhecida como demanda de pico.  Assim, as instalações permanecem ociosas durante uma boa parte do ciclo de 24 horas, em particular quando muitas as indústrias e o comércio não estão operando, e mesmo a demanda residencial está em seu mínimo.

A linguagem dos países que avançaram no gerenciamento da demanda denomina – há décadas – esses dois extremos de “picos” e “vales” (fazendo um paralelo com a geografia).

Como uma parte do preço da energia está relacionada à remuneração do investimento fixo feito nas instalações geradoras – novamente, hidrelétricas ou termelétricas -, tem-se uma utilização ótima ou muito mais eficiente do sistema quando se desloca a demanda de pico para os horários fora do pico ou de demanda mínima.

Isso não é novidade.  E tanto que há muito as tarifas para os grandes consumidores são diferenciadas de maneira a estimulá-los a deslocar certas atividades de alto consumo energético para a madrugada.

Os avanços tecnológicos permitiram o desenvolvimento daquilo que veio a ser conhecido como smart grids e smart meters.  Basicamente, as concessionárias e os responsáveis pela operação do sistema (no caso do Brasil, o Operador Nacional do Sistema) têm um instrumento para informar aos consumidores em tempo real qual o preço da eletricidade em qualquer momento, bem como qual será o preço da energia ao longo do ciclo de 24 horas, ou nos fins de semana.

Assim, os consumidores residenciais e outros também podem optar por deslocar atividades de intenso consumo energético para horários de menor demanda, quando as instalações físicas estão operando muito abaixo de sua capacidade.  A implantação de tais sistemas não requer mudanças nas redes, mas apenas nos medidores e nos sistemas de gerenciamento de cargas.  Os benefícios são enormes para toda a economia e para o conjunto da sociedade.

Com medidores inteligentes, até mesmo uma dona de casa pode optar por ligar a sua máquina de lavar uma hora mais tarde, deslocando a demanda de pico.

Smart grids e smart meters – cuja presença vem se universalizando nos países mais desenvolvidos – não são exatamente uma novidade no Brasil.  De fato, em meados de 2012, um dos gigantes mundiais de todos os tipos de equipamentos e de gestão de energia – a Siemens – anunciou a aquisição de uma empresa brasileira que já vinha atuando no ramo.

Mais ou menos na mesma época, a Companhia Paulista de Força e Luz – CPFL – maior grupo do setor elétrico brasileiro – iniciou o primeiro projeto piloto com alguma escala objetivando atender 20.000 usuários.

Com a já usual – demasiadamente usual – instabilidade dos marcos regulatórios brasileiros, já em janeiro de 2013 a ANEEL mudou as regras do jogo, o que resultou numa redução do mercado – estimado de US$ 10 bilhões – à metade, com prejuízos para a geração de empregos e para a boa gestão do sistema elétrico brasileiro.

Como é crescente a velocidade com que medidores inteligentes vêm sendo adotados em países com políticas de eficiência energética verdadeiramente sérias, já é tempo de deixar de lado as oscilações de humor da ANEEL E fazer algum planejamento para deixar de lado as “bandeiras” que punem os consumidores sem, lhes dar opção ou aumentar a eficiência da gestão, acelerando a opção pela adoção dessas novas tecnologias.

***

Há décadas, os “apagões” ou o racionamento de eletricidade é feito com previsão de horários, o que fazia com que pessoas não pegassem elevadores minutos antes dos cortes de eletricidade e evitassem outros inconvenientes.  Isso já ocorria quando a canção dizia “Rio de Janeiro/cidade que me seduz/de dia falta água/de noite falta luz.  Assim como está sendo feito agora, fingindo acidentes, os prejuízos e incômodos são muito maiores, com riscos de queima de aparelhos e equipamentos, além de muita gente presa nos metrôs de São Paulo.

 ***

Já é mais do que tempo de incentivar e facilitar a micro geração distribuída, além de muitas outras iniciativas de eficiência energética, na geração, na transmissão, e na distribuição.  Não dá para ficar de braços cruzados esperando que a área econômica resolva todos os problemas do país!

 

 

Seca e Racionamento de Água… Mas com Cobrança e Multas para os Clientes das Concessionárias de Água e Esgoto

Email This Post Email This Post

Desde que se iniciou o não declarado racionamento de água em São Paulo – região metropolitana e diversos municípios – foi possível observar uma inesgotável sequência de absurdos e inapetência para a formulação de políticas públicas minimamente sérias nessa área.

O governador insiste em consultar a concessionária dos serviços públicos de água e esgoto sobre as previsões climatológicas, em lugar de consultar quem entende do assunto, em particular o Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais e o novo presidente da SABESP faz cara de bobo da corte durante uma entrevista, aponta o indicador para cima e diz que tudo depende de São Pedro.  O Brasil é mesmo o país da piada pronta.

Além disso, uma sucessão de inundações sem que qualquer água fosse encaminhada aos reservatórios que abastecem a região metropolitana ou de alguma forma retida para posterior tratamento e utilização, ou mesmo simples infiltração e recarga do aquífero subterrâneo.

E, finalmente o anúncio de uma punição sob a forma de multa para usuários/clientes das concessionárias, anúncio marcado pelo malabarismo com palavras de maneira a não dizer que multa é multa.

Nenhuma avaliação dos impactos desta última iniciativa sobre a economia – pobres usuários comerciais ou industriais que expandirem as suas atividades já tendo feito todos os investimentos possíveis em reuso de água.  Nada sobre a razoabilidade da multa aplicada aos consumidores residenciais.  Então, apenas para dar um exemplo demasiadamente simples, se uma família passa a deixar os netos com a mãe idosa porque não encontra creches, lá vem vem multa porque haverá elevação de consumo no apartamento ou casa.

Nem uma só palavra sobre a elevação dos preços de captação direta nos rios para usos industriais, que estimularia investimentos de curto prazo na reutilização e reuso de água.

Tampouco qualquer programa consistente de redução das imensas perdas técnicas e comerciais da Sabesp. Ao contrário, apenas elogios à eficiência dessa concessionária, contando com a incapacidade da imprensa de fazer questionamentos sobre as fontes de referência relativas às declarações referentes a perdas em outros países.

Não se anunciou qualquer intenção sequer de realizar estudos de engenharia para rever os sistemas de drenagem – ao menos para evitar os imensos prejuízos econômicos das inundações (na maior parte impactando os contribuintes, mas não deixando de ser prejuízos também macroeconômicos por essa razão) – de maneira a reter maior quantidade das águas dessas enchentes.

E nenhuma política de apoio massivo ao reuso da água pelos usuários finais.

 

Restrições ao uso da água com a aplicação de penalidades existiram e existem em países sérios, mas nunca esse tipo de multa.  Na Califórnia que já entra em seu quarto ano de seca, proibiu-se a rega de gramados e a lavagem de carros nas residências, com o descumprimento da proibição resultando em pesadas multas.  Mas proibir alguém de receber hóspedes e, portanto, aumentar o consumo, é uma inovação da política preguiçosa!

Seguir esse caminho não é uma boa proposta no caso do Rio de Janeiro onde

(a) são imensas as perdas técnicas e comerciais,

(b) a cobrança é frequentemente feita com base num misto de área construída com o consumo medido para o prédio ou condomínio (residencial ou comercial), o que faz com que nunca se atinja o consumo medido, mesmo lavando carros e regando jardins (ou seja, o exemplo é péssimo),

(c) como parte de uma política de incentivo ao reuso em larga escala, tem sido desconsiderado o aumento de preço da captação direta nos rios para uso industrial; sem esse tipo de aumento, não se promove a eficiência no uso da água por grandes consumidores (como é o caso da CSN, que capta 6 m³/s, ou da Refinaria Duque de Caxias que há anos avança apenas a passos de cágado em seus investimentos em reuso interno); nada a temer, já que as tecnologias de reuso para indústrias de consumo intensivo de água já são amplamente conhecidas (países sérios diferenciam a captação direta para fins residenciais/comerciais, industriais e agrícolas, até mesmo isentando pequenas captações de cobrança);

(d) a prefeitura do Rio de Janeiro ignora a aplicação de regulamentos específicos sobre a captação e retenção de águas de chuva que resultam em consideráveis oportunidades de reuso, tais como o Decreto 23.940/2004 e a Lei 5.279/2001, sem que o MPRJ se manifeste.

Esses são apenas alguns exemplos.  Para evitarmos exemplos no estrangeiro do que podem ser políticas públicas de gestão de recursos hídricos diante dos extremos climáticos, vale uma visita aos muitos documentos disponíveis na página da FINEP – Programa de Pesquisa em Saneamento Básico, até o presente solenemente ignorados pelas instâncias de decisão política.

***

As perdas no setor agrícola do Rio de Janeiro em decorrência da atual seca já se fazem sentir há muitos meses sem que providências elementares tenham sido tomadas.

***

Em 23 e 25 de março de 2015, ocorrerá no Rio de Janeiro um Congresso Internacional sobre Reuso de Água e Dessalinização.  É tempo do governo do estado preparar-se para ter algo a apresentar e talvez designar uma comissão de políticas públicas para a gestão de recursos hídricos, que deve envolver, além de órgãos públicos, pesquisadores e especialistas em políticas públicas.  Seria recomendável, também, que a indústria se preparasse, já inscrevendo profissionais que atuam na área.

***

Uma série de artigos sobre o tema já foram publicados neste blog.  Talvez mereça uma releitura aquele intitulado Reuso de Água – Avanços nos Países Sérios, Lerdeza no Brasil.

Operação Lava-Jato, Máfia das Empreiteiras e Oportunidade de Mudança de Paradigma

Email This Post Email This Post

O governo brasileiro já anda querendo colocar panos quentes nas suas aliadas empreiteiras.  Para isso, resolveu misturar as dívidas desses gigantes de incompetência com as dívidas da Petrobras, e anuncia ter “descoberto” que todas juntas e misturadas (a usual geléia geral da enganação)  resultam num potencial rombo no casco dos bancos (só no Brasil) superior a R$ 130 bilhões.  Isso, consideradas apenas as empresas até agora investigadas pela operação Lava Jato, ou seja, ainda não incluída a menina dos olhos do mesmo “governo”, das estatais e dos bancos oficiais: a Odebrecht.

A alegação para os “panos quentes” é a possibilidade de que se declaradas inidôneas e não podendo mais trabalhar para o governo essas cafetinas de contratos com o setor público não paguem os gigantescos empréstimos com os bancos.  Movem-se os pauzinhos para a manutenção do statu quo.  Afinal, os contratos dessas empreiteiras restringem-se ao poder público e às estatais, porque para trabalhar para o setor privado elas não têm as qualificações mínimas de engenharia e competitividade,

O argumento não sobrevive sequer à análise mais superficial.  Em primeiro lugar, porque as dívidas das empreiteiras não têm qualquer relação com as dívidas da Petrobras!  Em segundo, porque ainda não foram estimados os ativos físicos e financeiros dessas empreiteiras – de máquinas pesadas e edificações até participação em hidrelétricas, concessões de estradas e aeroportos, além da área imobiliária em que recentemente se meteram, o que permitiria a sua falência sem maiores problemas para os credores.

De fato, se não puderem trabalhar para o “governo”, a falência é o caminho natural… e o mais saudável.  Os ativos físicos e financeiros – como a receita das concessões – que foram dados aos bancos como garantias – seriam redistribuídos, os equipamentos pesados seriam leiloados e adquiridos por empresas menores que poderiam crescer, os engenheiros encontrariam novas posições e talvez passassem a ter a voz ativa que não têm quando trabalham para essas grandes empreiteiras, o governo e as estatais teriam uma oportunidade de repensar a sua forma de fazer contratos para a realização de obras, as empresas de boa engenharia seriam fortalecidas e outros seriam criadas.

Nos países altamente desenvolvidos os projetos de todos os tamanhos não são elaborados e executados por “empreiteiras”.  Os contratos são feitos com empresas de engenharia e de arquitetura, os projetos são implantados sob a supervisão de cérebros, não de músculos (para não falar da corrupção).  Grandes empresas de engenharia de países sérios não têm ativos físicos – aqui exigidos nas concorrências sob a forma de patrimônio líquido!  Os seus ativos são as qualificações de seus profissionais e a capacidade gerencial para a implantação dos projetos.

Nos países sérios, as empresas de engenharia não ganham em cima do cimento, do vidro e de outros materiais comprados de terceiros, aqui embutidos nos preços e nos infindáveis aditivos aos contratos.  Ganham, sim, sob a forma de bonificação, quando conseguem reduzir os custos e os prazos de implantação dos projetos.  Elas subcontratam empresas especializadas em escavações, estruturas, fornecimento e colocação de acabamentos – da maneira mais eficiente possível para o cliente!  Elas não querem que as obras atrasem e que seja usado mais concreto, mas que sejam entregues nos prazos ou mesmo antes  com a melhor engenharia – o que resulta em benefícios para os clientes.

Nas olimpíadas de Londres, o consórcio de empresas de engenharia e de arquitetura selecionado para fazer a revisão dos projetos e o gerenciamento das obras devolveram aos cofres públicos cerca de US$ 1 bilhão que conseguiu economizar em relação ao orçamento original.  O nome disso é gestão com excelentes qualificações de engenharia e arquitetura!

Um outro fenomenal exemplo de que é possível projetar e implantar os mais complexos projetos dentro do orçamento e do prazo inicialmente previsto foi conduzido pela Shell e pela estatal de petróleo do Qatar, com o nome de Pearl, um exemplo que certamente pode interessar à Petrobras e a quem realmente desejar mudar os paradigmas que permitiram o domínio das obras do poder público por meras empreiteiras, com base num processo de seleção antiquado e altamente vulnerável.

E o “governo” sabe perfeitamente disso, mas continua fazendo cara de paisagem porque não é afeito a inovações, deixa-se levar pela inércia e até mesmo pela apatia.  Mas há que rever o próprio conceito de concorrência pública baseado no tal “patrimônio líquido” como principal forma da pontuação e até mesmo como pré-requisitos para a participação em concorrências públicas.

Esta é uma excelente oportunidade para uma total mudança de paradigmas!

Se a preguiça for demasiada, que tal convidar representantes dos governos e de empresas privadas de países sérios para explicarem aos órgãos de classe – isto é, associações de engenharia e arquitetura, e não à máfia das empreiteiras – dos vários estados e até mesmo às estatais como é feita a seleção das empresas de engenharia lá!  Ou será que alguém imaginaria alguém fazendo contratos de fornecimento de projetos de engenharia e de obras físicas com base na mais do que caduca Lei 8.666 ainda em vigor no Brasil?  Os músculos não podem continuar a comandar os cérebros, os ativos em máquinas e equipamentos não podem prevalecer sobre a excelência da engenharia e a gestão de implantação de projetos!

Aliás, onde estão os engenheiros brasileiros que não se manifestam?

***

A corrupção, por incrível que pareça, é só uma parte do problema!  A Polícia Federal e o Judiciário não vão calcular, por exemplo, os lucros cessantes pelos fenomenais atrasos no Complexo Petroquímico de Itaboraí – COMPERJ e na recentemente “meio inaugurada”  Refinaria Abreu e Lima, entre outras.

E, apenas como exemplos, tampouco lhes cabe avaliar a péssima qualidade dos serviços de pavimentação dos sistemas de BRT do Rio de Janeiro, que poucos meses depois das obras já mostravam tantas irregularidades e deterioração das pistas, da mesma forma que as obras, já atrasadíssimas, de “transposição do rio São Francisco”.

Chamem, por favor, auditorias de engenharia, e não apenas escritórios de investigação e advocacia para ver se os protocolos formais foram ou não cumpridos.

***

Note-se que na unidade de processamento de gás que recebeu o nome Pearl há um reuso total da água resultante do beneficiamento do gás natural!

 ***

A OAS já começou a virar pó.  E se os credores, inclusive os bancos, executassem não apenas os equipamentos, mas também as concessões para revendê-las a quem sabe fazer as operações sem ter que repassar um jabá para ninguém?  Ninguém pode ter concessões ou participação em concessões de aeroportos, estádios de futebol, estradas e muito mais, sob a formal tutela de um grupo de investimentos financeiros, tudo dentro do mesmo balaio de caranguejos.

 

 

 

 

Novas Iniciativas na Geração de Energia Fotovoltaica – Índia, Nichos de Mercado e Outros Comentários

Email This Post Email This Post

Ao final de 2014, o governo da Índia aprovou a implantação de 20.000 MW adicionais de capacidade instalada de geração de energia solar fotovoltaica nos próximos 4-5 anos, apenas em grandes “parques solares” (isto é, não considerando as instalações residenciais, comerciais e outras de pequeno porte.  O anúncio do novo programa trás informações adicionais sobre o esquema de implementação, que envolverá o uso de terras marginais ou de baixa produtividade, a disponibilização de vias de acesso, de linhas de transmissão e de comunicações, entre outras formas de apoio aos investidores privados.

A Índia vem testando, também, o conceito de utilização de painéis solares sobre canais de irrigação de maneira a evitar a utilização de solos com potencial agrícola e reduzir a evaporação da água, além de explorar as sinergias entre a geração fotovoltaica e e a irrigação.  Uma instalação para testes – com capacidade de 1 MW – já foi concluída no Canal de Narmada, no Estado de Gujarat – que até o momento é líder em iniciativas de grandes centrais solares no país.

Esse tipo de experiência – a cobertura de canais de transporte de água com painéis solares – já vem sendo feita na Califórnia desde 2010-2011, com os mesmos objetivos.

Seria recomendável que o Brasil considerasse esse tipo de uso nas regiões onde existem canais de irrigação na região nordeste e até mesmo no projeto de “transposição do São Francisco”, cujas características certamente envolvem altas taxas de evaporação e energia para o bombeamento de água.  (As grandes empreiteiras brasileiras não gostam nada da ideia de evitar a implantação de linhas de transmissão, ainda quando mais onerosas do que a implantação de energia fotovoltaica).

Outras iniciativas na área da energia fotovoltaica incluem a colocação de sistema de geração flutuantes em reservatórios de hidrelétricas e em áreas de estocagem de resíduos de mineração.  Há notícias de pelo menos dois sistemas flutuantes de geração fotovoltaica em reservatórios, ambos no Japão, com capacidades instaladas de 7,5MW e 13,4MW.  O governo brasileiro deveria viabilizar esse tipo de abordagem nos reservatórios das hidrelétricas da região Nordeste, onde são altíssimas as taxas de evaporação – além dos índices de insolação.

***

Para os mais interessados em energias renováveis, vale subscrever à newsletter da Rede de Políticas de Energia Renováveis para o Século XXI, onde já se encontra disponível para download o relatório referente ao ano de 2014 (vale chamar a atenção para a necessária separação entre a geração hidroelétrica convencional e outras formas de energias renováveis).

A capacidade instalada total mundial de geração fotovoltaica cresceu de 3,7 GW em 2004 para 139 GW em 2013.  A Alemanha continua disparada na liderança neste quesito, com quase 35 GW de capacidade instalada, seguida, pela ordem, da China – cerca de 20 GW -, Itália, Japão, EUA , Espanha, França e Reino Unido. Os líderes em capacidade instalada de geração fotovoltaica per capita em 2013 eram, pela ordem, Alemanha, Itália, Bélgica, Grécia, República Tcheca e Austrália.  Mas a mais rápida expansão deu-se na China, que instalou 12,9 GW num único ano, atingindo 20 GW de capacidade instalada total.  Depois do desastre de Fukushima, o Japão acelerou o passo e instalou 6,9 GW de capacidade de geração em 2013, atingindo 13,6 GW de capacidade total (a maior parte em telhados de edificações).

Vale chamar a atenção do governo brasileiro para a referência feita no relatório – página 48 – de que muitas concessionárias estão se esforçando para evitar a micro-geração distribuída e até mesmo a geração para consumo próprio por temerem perder receitas.  Aqui, ainda quando não exista uma resistência declarada, os trâmites administrativos podem transformar a implantação de qualquer tipo de micro-geração distribuída conectada à rede num exercício de alpinismo.

***

A nova iniciativa do governo da Índia antecipa previsões da Agência Internacional de Energia de que já em 2025-2030 o país estará entre as lideranças mundiais na geração fotovoltaica.

E o “gigante adormecido”, onde fica nesse campo?  Ou não fica, fica na mesmice dos escândalos com as grandes empreiteiras e nas promiscuas relações das concessionárias com a ANEEL, limitadas aos reajustes nos valores das tarifas?

O Brasil ainda não tem uma fabricação própria de células fotovoltaicas e nem mesmo uma indústria de purificação de silício (matéria prima para a fabricação de um tipo mais convencional de célula fotovoltaica).  E não é por falta de cientistas e pesquisadores, mas por falta de governo e de capacidade de criar mercados estratégicos.

De fato, apenas como exemplo, pelo menos desde 1999, o Núcleo de Tecnologia em Energia Solar da da PUC-RGS desenvolve pesquisas que chegaram a ser premiadas, após um desses prêmios noticiou-se que a Petrobras os ajudaria a passar da escala piloto para a escala comercial, e nada – absolutamente nada – aconteceu.

 Agora, Itaipu é a bola da vez das promessas vagas.  Depois de um estudo de viabilidade técnico e econômica que avançou a passos de cágado, a estatal teria a intenção de amealhar investidores privados e iniciar a produção de painéis solares num futuro indeterminado.  Daí até o mercado o caminho será longo, e a invasão chinesa já se terá consolidado (mesmo o Brasil sendo apenas um país de economia periférica).

Gestão Ambiental e Obras Públicas – Uma Simbiose Devastadora

Email This Post Email This Post

A poucos dias das mudanças nas administrações estaduais e na federal, há um deserto de ideias, conceitos, propostas, planos de governo.  A única exceção é o anúncio mais do que óbvio da necessidade de equilibrar as contas, sem qualquer indicação de que isso será feito, ao menos em parte, com a diminuição do “custo-Brasil” embutido na infindável burocracia que exige fotocópias autenticadas até mesmo de comprovantes de residência.  Ao que tudo indica, serão mesmo é aumentados os impostos, taxas, tarifas e similares.

Na área ambiental do governo do Rio de Janeiro, poderia esperar-se que pelo menos a “secretaria do ambiente” (bleargh) deixasse de colocar o seu peso maior em obras públicas de todos os tipos: da construção de habitações populares sob o pretexto de realocar habitantes de áreas de preservação permanente até a canalização de rios que mandaram às favas as mesmas áreas de preservação permanente, para não falar nas dragagens que motivaram um escândalo de concorrência de cartas-marcadas, contratação de consórcios para projetos de saneamento básico (sem a mínima capacidade de gerir esse tipo de trabalho) e por aí afora.

A realização de obras públicas descaracteriza as funções precípuas do órgão ambiental.  O seu único objetivo é a divisão do bolo orçamentário no quadro do loteamento partidário que faz da administração pública um grande gambiarra com módulos estanques, cada um no seu quadradinho, sem qualquer comunicação entre os grupos.

Não há um só caso de órgão ambiental no mundo que realize obras públicas!

Se essa linha de raciocínio fizesse algum sentido, por que não entregar a questão da redução das desigualdades sociais ao IBGE já que este órgão as mede através de pesquisas e estatísticas?  Ou conceder à ANVISA um mandato para a fabricação de medicamentos?

A realização de obras públicas por contratação direta adotada nos últimos anos foi um imenso retrocesso para a gestão ambiental do estado do Rio de Janeiro.  Vale lembrar os tempos em que os “ambientalistas” lutavam para redefinir as funções do antigo Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal – IBDF, que tinha tanto dinheiro de incentivos fiscais o plantio de florestas que literalmente deixava às moscas a gestão dos parques nacionais.  Evidentemente, na balança, o dinheiro pesava mais do que a regulamentação e qualquer conjunto de medidas de longo prazo.

O mais divertido é que enquanto o órgão encarregado da gestão ambiental passou a fazer obras públicas – sejamos sinceros, não há diferença prática entre o INEA e a Secretaria, exceto no papel -, o uso dos recursos das compensações ambientais previstas na lei do SNUC foi tercerizado para uma ONG, sob o pretexto de torná-lo mais dinâmico, ao mesmo tempo em que essas vultosas quantias ficavam ao abrigo das inspeções do Tribunal de Contas do Estado – TCE.

Isso para não falar das “compensações ambientais” não previstas em lei mas impostas “na mão grande” para que as licenças ambientais fossem liberadas ou os termos de ajustes de conduta fossem assinados.

Rapidamente, a gestão ambiental propriamente dita assumiu um papel secundário em relação às obras.  Daí, o mesmo tipo de deserto de ideias mencionados no início deste artigo.  Acrescente-se a esse tipo de absurdo o oportunismo com características de uma biruta de aerporto de antigamente: o órgão ambiental chegou ao cúmulo marqueteiro de falar em comprar radares para fazer previsões do tempo no momento em que isso talvez pudesse lhe dar a aparência de alguma vaga inovação.

Espera-se que o novo governo – ainda sendo amplamente de continuidade – corrija essas distorções que literalmente jogaram a gestão ambiental para um plano secundário, senão inexpressivo.

Se não forem adotadas linhas de pensamento inovadoras, podem-se dar por encerradas as esperanças na melhoria da qualidade ambiental no estado ou da existência da secretaria e do órgão ambiental como indutores dessa melhoria.  A essas alturas, a mesmice será uma pá de cal.

 

Evidentemente, o licenciameento ambiental como feito atualmente não é suficiente e não conduzirá a nenhum tipo de recuperação da qualidade ambiental.  Muitas inovações conceituais precisam ser introduzidas, e não é difícil procurar os exemplos nos paises que realmente resolveram os seus problemas ambientais nacionais.

O deputado André Correa, que assumirá a pasta, tem nas mãos uma excelente oportunidade de recuperar a gestão ambiental do estado e de promover uma renovação bastante ampla de conceitos e de políticas públicas setoriais.

***

O novo governo do estado já prestaria um grande serviço ao meio ambiente se aumentasse drasticamente os valores cobrados pela captação e consumo de água bruta quando as possibilidades de reuso são tão gritantes.  Uma CSN da vida consumir 6 m³/s de água do Paraíba do Sul aos preços atuais não a leva a sequer pensar em investir em eficiência no uso dos recursos hídricos.  O mesmo aplica-se à Refinaria Duque de Caxias, que compra água bruta da CEDAE quando poderia, há muito, ter promovido o reuso em maior escala e o reaproveitamento da água de chuva.

Essa abordagem é bem diferente da tolice agora anunciada pelo governo de São Paulo que passará a cobrar mais de quem consumir mais água da SABESP, com impacto negativo sobre a ampliação das atividades comerciais e até mesmo industriais, sem nenhuma consideração sobre a eficiência no uso da água ou a redução das imensas perdas dessa mesma concessionária.

***

A nova administração privada do aeroporto de Viracopos (Campinas) está promovendo o reuso integral das águas de chuvas – até mesmo daquelas captadas nas redes de drenagem das pistas de pouso -, das águas cinzas e das água negras.  A Infraero e a ANAC bem que poderiam ir até lá aprender um pouquinho de gestão ambiental e adotar normas de referência para os aeroportos brasileiros.

 

Estudos de Impacto Ambiental “Escangalhados” e (Outros) Desmandos da Petrobras

Email This Post Email This Post

Já se disse, aqui, que o Estudo de Impacto Ambiental – EIA que levou ao licenciamento do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro – COMPERJ foi a pá de cal na validade desse dispositivo da legislação ambiental brasileira.  Entre outras coisas, por não conter uma definição final de dois pilares imprescindíveis para o licenciamento até mesmo de uma oficina mecânica de pequeno porte: a fonte de abastecimento de água e o local de descarga dos efluentes.

O responsável por este “desmanche” da gestão ambiental no Brasil tem nome e endereço.

A partir daí, o COMPERJ tornou-se objeto de escândalos diversos, entre os quais a elevação do orçamento original de R$ 8,4 bilhóes para R$ 47,7 bilhões, segundo dados de relatório do Tribunal de Contas da União – TCU divulgados pela imprensa.  E isso para não falar nos lucros cessantes não contabilizados em decorrência do imenso atraso nas obras: previsto para entrar em operação em setembro de 2013, agora já se fala em agosto de 2016, esculhambando o município de Itaboraí, em vez de estruturá-lo.

Mas a bagunça não termina aí: só agora aproxima-se a fase final de licenciamento do gasoduto que levará a matéria-prima até o COMPERJ, gasoduto cuja construção pode levar alguns anos.  Seria essa uma das muitas caras da má gestão nos projetos da Petrobras?

Os documentos do EIA-RIMA encontram-se disponíveis na pagina da Rede Ambiente Participativo – RAP (mês de dezembro), o correto seria realizar mais de uma audiência pública (e não apenas uma, em Maricá, já que o gasoduto atravessa mais de um município), e o Grupo de Apoio Técnico – GATE do Ministério Público do Rio de Janeiro deu, há algum tempo, um parecer técnico bastante contundente contra o traçado originalmente proposto (além de apontar diversas outras insuficiências críticas no próprio EIA).

O essencial do parecer técnico é a total omissão de alternativas tecnológicas: por que passar pela bucólica praia de Jaconé e como?  Por algum costão, com tubulações enterradas, ou talvez por outra localização.  Um estudo de impacto ambiental elaborado “nas coxas” não vai considerar esses “detalhes” e nem a redução de valor turístico/paisagìstico potencial da praia ou das propriedades na praia.  Que se dane quem ali investiu para ter algum tipo de “aposentadoria” no futuro ou o fato do Município não conter previsões de uso do solo para esse tipo de ocupação.

A desconsideração de alternativas tecnológicas e locacionais é com frequência desconsiderada, ainda que exigida pela Resolução 001/86 do CONAMA.  Ou alguém ja ouvir falar de alguma licença ambiental – ao menos com base em EIA-RIMA – que tenha sido recusada no Brasil, ou forçada a considerar, de fato, alternativas tecnológicas e locacionais.

Fora essa parte do engodo, vale mencionar que o parecer do GATE ressalta a inexistência de análise de risco, também obrigatória em casos desse tipo.

***

Aqui, o inteiro teor de uma petição inicial contra a Petrobras, ação já ajuizada nos EUA, e na qual se menciona claramente Sergio Grabrielli  e Graça Foster como tendo assinado documentos contendo informações falsas para os investidores (parágrafo 5).  A Odevrecht é mencionada na petição como tendo superfaturado contratos no valor de US$ 835 milhões (parágrafo 8). O  COMPERJ é mencionado no parágrafo 35 como objeto de superfaturamentos.

Note-se, esta é apenas a petição inicial, não um julgamento.  Há outras petições similares já ajuizadas pedindo que os acionistas norte-americanos – individuais ou fundos de investimento – sejam compensados pelas perdas.  E os brasileiros, onde ficam?

***

Como perguntar não ofende, quais as razões de tão estrondoso silêncio por parte do sindicato dos petroleiros diante de tantos escândalos, quando fizeram tanto  barulho no passado denunciando supostas tentativas de privatização da Petrobras?  Silêncio obtido em troca de cargos e contratos?

 

 

 

Concessão de Unidades de Conservação em Minas Gerais- Iniciativas Obscuras, Mal Ajambradas, ao Apagar das Luzes

Email This Post Email This Post

Ao apagar das luzes da administração estadual e após as eleições o Governo do Estado de Minas Gerais publicou o edital de licitação para a concessão, por 25 anos, da Rota das Grutas Peter Lund, que inclui “três áreas estaduais protegidas: o Parque Estadual do Sumidouro, o Monumento Natural Estadual Peter Lund e o Monumento Natural Estadual Gruta Rei do Mato.  O edital, publicado em 4/11/2014 estabelece o prazo para entrega de propostas até 13/1/2015, ou seja, inclui o período de festas de final do ano ao longo do qual dificilmente alguma empresa ou consórcio trabalhará na análise de viabilidade econômica e financeira da concessão.

E, como se não bastasse, em seu Anexo XI – Plano de Negócios Referencial, estabelece como “custos de atividades comuns a todas as unidades de conservação: portaria, estacionamento, transporte interno, restaurante, lanchonete, pousada, loja, foto e filmagem, caminhada, cicloturismo, rapel, tirolesa, arvorismo, observação de vida selvagaem, aluguel de equipamentos e aluguel de cicloturismo”  (ítem 5 do assim chamado “Plano de Negócios Referencial”), e como “Cuistos de atividades exclusivas do Parque Estadual do Sumidouro: quiosque, albergue, escalada, espeleoturismo, aventura, espeleoturismo vertical e aluguel de cavalgada”.

Como se não bastassem esses termos vagos, genéricos, que permitem ao vencedor da licitação cobrar dos visitantes pelas atividades que bem quiserem, o edital deixa em aberto, para decisões futuras, outras importantes fontes de receita consideradas “atividades acessórias” (item 4.1).

“Cabe ao parceiro privado estabelecer quais serão as atividades de exploração
comercial das UCs, que gerarão as receitas das atividades acessórias. Dentre
as possibilidades de exploração comercial foram elencados quatro macro
grupos; (a) atividades de ecoturismo, (b) hospedagem, (c) alimentação e
serviços e (d) visitação. Por estarem diretamente atreladas à projeção da
demanda de visitação, essas receitas apresentam tendência de crescimento.”

Nesse modelo, o visitante pode preparar-se para ser achacado se quiser visitar qualquer dessas unidades de conservação.  O consórcio vencedor primeiro gerará caixa (dinheiro) para depois decidir se e em que vai investir – ou fazer parceria – em termos de instalações de recepção, como pousadas e campings.  Além disso, considerada a modelagem financeira primária incluída no edital – sem os usuais variados cenários de um trabalho profissional de empresas -, se não alcançada a receita prevista na simulação de “equilíbrio econômico-financeiro”, o estado de aportar os recursos para tanto.  Ou seja, um presente para empresários (amigos?) que não querem realmente investir, ao menos numa primeira etapa.  Poderão cafetinar as unidades de conservação sem riscos.

Ainda que a participação da iniciativa privada na geração de receitas que requerem investimentos nas unidades de conservação brasileiras seja altamente recomendável e até urgente, recomenda-se à nova administração estadual a suspensão do edital e a sua reavaliação.

O modelo alternativo – mais aconselhável para assegurar a visitação às unidades de conservação – consiste na concessão de atividades específicas no seu interior, em particular daquelas que envolvam maiores investimentos, como a construção de pousadas, campings, restaurantes, etc.  Neste caso, mantem-se o controle das tarifas de ingresso e estacionamento, de maneira a impedir que se repitam os altos preços para a mera entrada e estacionamento no Parque Nacional do Iguaçu – R$ 31,20 por brasileiro que não resida nos municípios do entorno, valor ao qual devem ser acrescidos R$ 17,00 para o estacionamento, totalizando R$ 141,80 para uma família de 4 pessoas… apenas para chegar até o mirante e contemplar as cataratas!

Além disso, os preços mais elevados para estrangeieoa do Mercosul e ainda mais escorchantes para estrangeiros de outros países do mundo – R$ 52,20 por pessoa – é coisa que faz com que os visitantes de fora do país se sintam discriminados de maneira negativa, ou achacados.  Os preços para o acesso ao Parque Nacional do Iguaçu, sendo necessário consulta direta aos diversos “sub-concessionários” para verificar os preços praticados para atividades como rafting ou passeios de helicóptero (que tanto incomodam os visitentes “comuns” e os hóspedes do hotel).

Um grande contranste com os preços de acesso praticados, por exemplo, no Parque Nacional de Yellowstone – US$ 25 para veículos de passeio, não importando quantas pessoas estejam em seu interior, US$ 12 por visitante que prefira entrar caminhando ou de bicicleta, ou US$ 50 por um passe anual para veículos não comerciais (tampouco importando quantos passageiros neles se encontrem – como se pode ver na página desse parque.

Isso para não falar na arquitetura no caso da implantação de hotéis, pousadas, campings ou estacionamento de motorhomes com sistemas de fornecimento de energia, água e coledta de esgotos – instalações de recepção de turistas que realmente promovem a visitação, aos parques, de pessoas de todas as idades e outras características – como mulheres em estado de gravidez mais avançada, crianças de colo e similares.

Finalmente, mas não menos importante, vale notar que a licitação cumpre o prazo mínimo necessário estabelecido em lei.  Mas, se há o desejo de atrair mais concorrentes, por que não ampliar esse prazo e fazer maior divulgação – pelo menos em todo o território nacional, para que outros interessados possam visitar a área, conhecer as partes cuja regularização fundiária já foi feita (esse é o nome dado para a imprescindível aquisição dos imóveis dentro do parque), preparar verdeiros “planos de negócios”, em lugar do simulacro de análise de viabilidade que se encontra no edital?

***

No grande loteamento que caracterizam a administração pública no Brasil, vale notar a abertura da convocação para a licitação: “O Instituto Estadual de Florestas – IEF, com a interveniência do Estado de Minas Gerais, por meio da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável – SEMAD…”

 

Floresta da Tijuca – O Bom, o Mau e o (Muito) Feio

Email This Post Email This Post

A restauração e reforma do Açude da Solidão no Parque Nacional da Floresta da Tijuca foi uma excelente iniciativa.  Ninguém sabe qual a destinação da imensa quantidade de areia dragada do fundo do açude – areia com valor comercial -, mas esse tipo de sonegação de informação é mais a regra do que a excessão.  Fora isso, dois pontos merecem destaque.  O primeiro é que ainda faltam mais bancos e locais para que as pessoas realmente desfrutem da tranquilidade do local.  O segundo é que ficou claramente demonstrado – dentro de um Parque Nacional! – que a regra da “área de preservação permanente” às margens de reservatórios naturais e artificiais é uma tolice arrematada.

A alegação dos defensores dessa regra otária sempre foi a de que a manutenção da vegetação nativa é o único caminho para a estabilização das margens de rios, lagos, lagoas e reservatórios.  Isso contra toda a experiência existente no Brasil e, muito mais, no exterior.

 

Açude da Solidão - Plantas na Contenção.webpequena

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A foto abaixo mostra uma das melhores técnicas de contenção dos processos erosivos, amplamente adotada nos países sérios, em particular em lagos e lagoas.

Ah – mas se um proprietário privado tenta fazer algo assim aqui, logo aparecem os “ambientalistas” e algum promotor de mentalidade mais “literal” – sem qualquer conhecimento técnico ou capacidade de buscar uma opinião especializada – para impedir, bloquear, processar até mesmo os especialistas do setor público que tenham concedido a autorização, num verdadeiro ataque de hidrofobia.

 

Açude da Solidão - Contenção das Margens com Talvegue.webpequena

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O pontilhão abaixo – feito com estrutura de concreto, pedras e madeira (não necessariamente certificada, um requisito igualmente tolo quando uma árvore tombou naturalmente ou mesmo alcançou a sua plena maturidade) obedeceu a um projeto um tanto exagerado – podia ser algo mais leve, com algum senso arquitetônico -, mas merece elogios.

 

Açude da Solidão - Pontilhão.webpequena

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Há, no entanto, constrastes bastante marcantes com essas melhorias, entre os quais o total abandono da edificação onde durante muito tempo funcionou o restaurante Cascatinha, edificação situada no local original da residência de Nicolas Antoine Taunay.  Uma lástima, ainda que um abandono não maior do que os marcos em homenagem a Taunay e ao Barão d’Escragnolle, o mapa da floresta feita com ladrilhos portugueses que se encontra na área do estacionamento em frente ao antigo restaurante, ou mesmo a lindíssima banheira em mármore de Carrara.

 

Restaurante Cascatinha - Prédio Abandonado.webpequena

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Numa demonstração do desinteresse pela estética da Cascatinha e do Parque, ao lado da queda d´água há uma horrenda instalação da CEDAE (ops, da “Nova” CEDAE), que poderia simplesmente ser oculta com alguma pequena edificação em pedra com uma entrada pela parte não visível para os visitantes.

 

Cascatinha CEDAE.webpequena

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O tipo de sinalização colocado bem diante da Cascatinha é outra demonstração do descaso com o bom senso e a estética do local.

Sinalização na Cascatinha.webpequena

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Porém,  maior do que todas as agressões à paisagem como as citadas, destaca-se a horrenda sinalização ao longo de todo o longo percurso de um cabo de alta tensão colocado às margens das vias de circulação de pedestres e veículos.

 

Sinalização cabos de alta tensão.webpequena

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Desnecessários outros comentários sobre esse emporcalhamento do Parque, fruto do descaso, do desrespeito aos visitantes e da falta de cultura de seus administradores.

O Parque precisa de um novo Escragnolle e de outro Raimundo Castro Maya.

***

Aliás, quanto se pretende arrecadar anualmente com a concessão dos serviços de acesso ao Cristo Redentor e quais os planos de aplicação desses (certamente vultosos) recursos?

Fora isso, quanto recebe o Parque pela existência das 10 horrendas torres de sustentação de antenas variadas que poderiam ser no mínimo disfarçadas na paisagem que agridem?