Pensando o futuro – A quarta revolução industrial – Alertas da Bloomberg

São várias as fontes de análise da economia e das finanças que a cada dia enfatizam cenários futuros de grandes mudanças – algumas das quais algo assustadoras por seu potencial de maior desequilíbrio social.  Tais fontes falam abertamente numa “quarta revolução industrial“que transformará rapidamente os cenários da produção e do trabalho, com a supressão de 30 a 40% dos empregos hoje convencionais até 2040.

Isso tudo já vem sendo dito há alguns anos num círculo mais restrito de cientistas, além das elites corporativas e mesmo políticas dos países sérios. (Optamos por denominar “países sérios” – em lugar de “desenvolvidos” – aquele grupo de nações capazes de ‘ver” e planejar para um futuro de 20-30 anos ou mais, em lugar do usual “exercício fiscal” ou “mandato” dos países que vivem apenas em seu dia a dia.)

Na forma mais acessível a um grande público até certo ponto leigo do que vem acontecendo no campo da ciência e da tecnologia, uma dessas fontes de alerta para as grandes mudanças que se avizinham tem sido a Bloomberg, que tem publicado diversos artigos sobre o assunto numa tentativa de alertar os seus clientes corporativos para o assunto.  No último dos artigos da série cujo título é – em tradução livre –  Pensando o Futuro -, lê-se:

“O mundo encontra-se no limiar de uma quarta revolução industrial.  Rápidos avanços num conjunto de tecnologias, incluindo a inteligência artificial, impressão em 3-D, robótica, big data (funções analíticas de massivas quantidades de dados), genética, imagens para diagnósticos médicos, e visão computadorizada vão alterar praticamente todas as profissões e atividades industriais de maneiras potencialmente radicais.”

Evidentemente, o Brasil não chegou a preparar-se para uma inclusão nesse tabuleiro da “IV Revolução Industrial”.  Não se trata de ter alguns cientistas aqui e ali – no meio acadêmico – que “compreendam” essas tecnologias, mas sim de ter toda a cadeia produtiva que vai do conhecimento científico até a introdução dos produtos no mercado e a consolidação desses mercados, preferencialmente por mais de uma empresa.

Então, aplica-se o ditado inexistente mas com plena validade: “em terra de cego quem tem um olho emigra”, como fez recentemente a neurocientista Suzana Herculano-Houzel.

Fora isso, caberia às elites políticas e econômicas – se existissem ou tivessem visão para isso – estarem atentas para o fato de que essas análises indicam uma radical transformação nas profissões, nas relações de trabalho e próprio mercado de trabalho.   Nessas áreas, as relações de trabalho convencionais, estáveis, seriam substituídas por serviços sob demanda, sem “carteiras assinadas”, sem estabilidades, com cada especialista cuidando de suas próprias atividades e… de suas próprias vidas (em muitos casos podendo trabalhar de onde quiser, no horário de sua maior conveniência).

Essa não é uma conspiração do capital contra o trabalho!  É simplesmente o alvorecer de uma nova realidade, de um novo mundo, mais uma vez moldado pelos avanços no conhecimento que se expressa sob a forma de ciência e tecnologia aplicadas às atividades humanas porque as tornam mais precisas, eficazes, produtivas, ou seja, com melhores resultados.

Reclamar não adianta.  Fazer análises com os obsoletos conceitos das caixinhas “esquerda X direita”, “capital X trabalho”, tampouco.  Agir seria imprescindível.  Mas quem levanta a bandeira de um conjunto de setores estratégicos nos quais o Brasil deveria avançar na direção do domínio de pelo menos algumas dessas áreas?

***

Infelizmente, a Bloomberg não se preocupou em apresentar os artigos e os correspondentes “programas de televisão” que produziu sob a denominação geral de “Forward Thinking” em outro idioma que não o inglês… e nossas “lideranças políticas” são quase totalmente monoglotas (para não falar na direção da quase totalidade das empresas públicas).

Mas, para os interessados, aqui vão os títulos da série, até agora, podendo os mesmos serem acessados aqui:

(a) A Marcha das Máquinas – Uma Máquina Em Breve Estará Fazendo o Seu Trabalho e a Ascensão do Robô Significará o Declínio da Humanidade?

(b) Como as Megacidades Estão Mudando o Mundo

(c) Um Desafio de US$ 28 trilhões para Espatifar o Teto de Vidro – Como Consertar um Problema que Afeta Metade da Humanidade?

(d) Desativando a Bomba Relógio Demográfica – Como Pode uma Nação Lidar com Pressões Demográficas Voláteis?

(e) Para os Mais Ricos, Para os Mais Pobres – Qual o Custo e os Riscos da Desigualdade?

(f) Quais Serão os Contornos de um Mundo Sustentável? – Que Tecnologias Tornam Obsoletos os Nossos Hábitos Energéticos e de Transporte?

Seria MUITO bom se a Bloombert legendasse as imagens e disponibilizasse esses artigos em diversos idiomas, incluindo o “brasileiro” – pelo menos como uma contribuição – ainda que improvável – ao despertar de uma elite pensante no país.

***

Por uma falha de configuração do WordPress, o campo para comentários ao último artigo só se abre clicando no título dele.

 

Semana Mundial da Água em Estocolmo – E o Brasil, nada…

Neste domingo, inicia-se a Semana Mundial da Água, um dos mais amplos conjuntos de palestras, seminários, conferências e outras atividades internacionais relacionadas ao tema.  A Semana é promovida pelo Instituto Internacional da Água de Estocolmo, cidade que figura entre as lideranças mundiais em diversos aspectos da gestão ambiental, incluindo o que é talvez o mais importante Centro de Resiliência das Cidades, com seminários e conferências periódicas, além de seus cursos normais.

O Brasil parece muito afastado disso tudo.  A programação da Semana Mundial da Água sequer aparece nos calendários de eventos do MMA (segundo informações pessoais), e o evento tampouco parece ser de conhecimento da Agência Nacional de Águas – ANA, do improvável Conselho Nacional de Recursos Hídricos – CNRH (com suas múltiplas câmaras técnicas), das secretarias estaduais de meio ambiente, das concessionárias de serviços de água e esgoto, da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental – ABES, e de tantos outros órgãos que poderiam – ou devemos dizer deveriam? – manter-se atualizados na dinâmica de trocas de informações, conhecimentos, tecnologias com tais centros mundiais de referência.

O Brasil avalia-se pelo seu próprio umbigo e parece interessado apenas em consolidar-se como exportador de matérias primas de baixo valor agregado.  Em particular neste momento, no qual para além de uma crise econômica e institucional o país está imerso num torpor mental sem precedentes, a abertura para novas ideias, conceitos, conhecimentos, tecnologias seria fundamental para “arejar as ideias”.  A economia não é feita só e nem principalmente de números, mas de gente real que atua de forma dinâmica e criativa num mundo real.

Nesta Semana Mundial da Água será debatido um assunto que deveria ser de grande importância para o Brasil, em particular para Minas Gerais, se algum interesse existisse por uma gestão ambiental séria e inovadora: os impactos negativos da mineração sobre a água.  Abaixo, em tradução livre, um trecho da ementa dos debates sobre esse tema específico:

“Os recursos minerais e energéticos têm o potencial de impulsionar o crescimento em muitos países em desenvolvimento.  Um importante fator para as operações de mineração é a água.  De um lado, ela é fundamental para o desenvolvimento da indústria de mineração; mas, do outro, os recursos hídricos podem ser poluídos e sobre-utilizados pelos processos de mineração.  (…) Enquanto a indústria de mineração está fundamentalmente interessada na quantidade de água, para os países é essencial a sustentabilidade da água tanto em quantidade e qualidade suficientes os seus diversos usos.  (…) Regulamentos, monitoramento e soluções técnicas inovadoras são essenciais para proteger os recursos hídricos em áreas de mineração.” (os itálicos são nossos)

A ideia de barragens de resíduos minerais contaminantes misturados com água precisa ser banida gradualmente do “mapa das minas”.  De um lado, porque é uma aceitação tácita das contaminação das águas superficiais e subterrâneas sob a máscara da mera evaporação.  De outro, porque esse é o único segmento industrial que ignora sumariamente o princípio do poluidor-pagador ou, como dizem os economistas, da “internalização dos custos ambientais de suas atividades” – princípios fundamentais da legislação ambiental brasileira e de todos os países.  Em palavras simples, os custos de tratamento da água utilizada pelas atividades de mineração devem ser plenamente assumidos pelas mesmas, sem o que eles são “socializados”, isto é, rateados pela população – em geral pela mais pobre – sob a forma de escassez e de utilização de água altamente poluída.

O lero-lero barato e xucro de que isso colocaria o Brasil em desvantagem em relação a outros países fornecedores de minérios não se sustenta com base em nenhum tipo de argumento.  NE-NHUM, ZERO!  Em particular quando comparado com (a) as acentuadas quedas nos custos de tratamento de águas ocorrida nas duas últimas décadas, e (b) custos da poluição e de desastres ambientais como o “mar de lama” da Samarco.

Aos números – e não apenas aos lucros -, seus preguiçosos!

Acordos de leniência com criminosos: perde-se uma oportunidade de passar o Brasil a limpo

Em maio de 2016, um estudo do Fundo Monetário Internacional estimou que a corrupção tem um impacto médio de 2% do Produto Interno Bruto dos países.

Assumindo essa média para o Brasil – país em que a corrupção certamente é acima da média mundial -, teríamos algo como R$ 118 bilhões em 2015, quando o PIB recuou em relação ao ano anterior, ou seja, a quase totalidade do deficit orçamentário autorizado pelo Congresso para o mesmo ano.

A corrupção, no entanto, como estimada dessa forma, não inclui lucros cessantes de projetos não concluídos no prazo ou mesmo abandonados pelo caminho.  Ou de projetos mal concebidos, mal implementados, e que logo passam a representar prejuízos reais para o conjunto da economia.

A imensa quantidade de aditivos contratuais para a realização de projetos públicos no Brasil é um bom indicador da má concepção na elaboração e na contratação dos mesmos.

Acordos de leniência com empresas que lideraram a maior parte dessa corrupção talvez não sejam um bom caminho para a economia.  Leniência, no dicionário Houaiss, significa algo que “suaviza e acalma”.  Ah – dizem alguns, mas sem um acordo com o crime seriam grandes as perdas para a economia nacional.

Seriam?  A “inteligência” específica dessas empresas não é a engenharia, mas o roubo.  A engenharia está na cabeça dos engenheiros – que já se sentem animados a deixá-las e fundarem novas empresas -, enquanto os equipamentos podem ser vendidos ou alugados.  Não há razões para salvar o criminoso da punição, exceto a sua capacidade de influir nas decisões do poder público.

O que seria da sociedade se a todos os criminosos fosse dado um tratamento “suave” pelo simples fato de confessar os seus crimes.

Mas, para desarticular os mecanismos de corrupção é fundamental mudar as regras do jogo para a contratação de obras e serviços públicos.  Como comentou um brilhante jovem promotor de justiça, “a prova de que a Lei 8.666 (que regula as concorrências públicas) é muito boa está no fato de que a IBM, a Microsoft e outros países utilizam os mesmos critérios”.

Perfeito!  O fato é que a Lei 8.666 é fundamental para a corrupção que se alastrou no Brasil.  De fato, envelopes fechados que não permitam a apresentação de soluções alternativas por empresas caracterizadas pela excelência na engenharia – ou seja, vetam a criatividade -, exigências absurdas de experiência prévia e, por último mas não menos importante, requisitos de patrimônio líquido são um acinte às práticas contemporâneas de contratação.

Começando pelo final, nos países sérios, empresas de engenharia, entre outras, não têm nenhum patrimônio além da engenharia de alta qualidade, que utilizam da concepção à pré-operação assistida dos projetos para os quais são contratadas. Por que imobilizariam capital em sedes suntuosas,  prédios, veículos, equipamentos pesados ou mesmo computadores?  Usam tudo isso sob a forma de contratos de leasing com as empresas especializadas, e contratam equipamento pesado quando têm necessidade dele, e pelo período necessário.  Não lhes cabe ficar inventando projetos apenas para dar algum uso a retroescavadeiras – que aqui vemos paralisadas durante os períodos noturnos e em fins de semana.  Como disse o diretor de um desses gigantes da engenharia – uma empresa fundada em 1915 e com mais de 50.000 projetos entregues no mundo inteiro – “não são os músculos que comandam nossos projetos, mas o cérebro”.

Outro ponto interessante é a exigência de experiência prévia.  Esse tipo de requisito tem sido usado das maneiras mais cínicas, tais como “já ter colocado piso de mármore – ou granito – em saguões de aeroportos com área mínima de X mil metros quadrados”.  Assim, numa penada, desqualificam-se todas as empresas que têm melhor tecnologia e querem entrar no mercado.  Desincentiva-se justamente a criatividade, a tecnologia, e mantem-se o padrão do “homem-hora”.

Esses são apenas dois exemplos.  Mas suficientes para entender por que as empreiteiras brasileiras só conseguem contratos com o poder público, nunca com a iniciativa privada.  Multinacionais de engenharia já estão consolidadas no Brasil e fazem os serviços para seus clientes igualmente multinacionais, não entram na seara dos contratos públicos.  Até porque, não pagam propinas e não aceitam ganhar com a má qualidade na gestão dos projetos.  Por seu lado, as multinacionais que atuam nos mais variados campos, tampouco contratam esses obsoletos mastodontes da engenharia.  E não apenas as multinacionais – basta tentar descobrir quem foram as empresas contratadas para a execução dos grandes shoppings ou dos mais recentes empreendimentos hoteleiros no Rio de Janeiro para ver se há, entre elas, alguma grande empreiteira dessas que agora buscam acordos de leniência.

Contratar a ex-ministra do STF Ellen Gracie para chefiar comitês internos de investigação sobre corrupção é uma boa iniciativa.  Mas ouvir todas as partes em busca de uma solução mais profunda será melhor.  Que tal convidar as multinacionais de engenharia para a mesa de negociações, para saber por que elas não participam de concorrências públicas no Brasil, e quem sabe até visitar países mais avançados para entender como neles são feitas as contratações de obras e serviços públicos?

***

Nenhum acordo de leniência deveria desconsiderar os custos das investigações e processuais!

São Paulo – Promessas de reuso não saem do anúncio midiático

Em novembro de 2014, o governador Geraldo Alckmin anunciou que, até dezembro de 2015, São Paulo teria duas estações de tratamento de esgotos qualificadas para o reuso na produção de água potável.  Depois disso, nada.

Tratava-se daquilo que se denomina “reuso potável indireto”, ou seja, o tratamento dos esgotos a um nível de pureza que permite o seu lançamento para alimentar as fontes de captação ou para ser direcionado a um reservatório onde análises da água confirmem o seu grau de potabilidade.  Daí, para as estações de tratamento de água.

O que Alckmin anunciou tinha um efeito só “político”?

O tratamento de esgotos para reuso – incluindo o reuso potável direto, isto é, a reintrodução na rede de abastecimento – já não são mais uma novidade há algum tempo em alguns países, como os EUA e Cingapura (que já se planeja para 2060, como se pode ver na página da Agência Nacional de Águas neste último país; lá também se pode ver um croquis sumário de outros exemplos de reuso potável direto ou indireto nos EUA).

Na verdade, a SABESP tem – desde 2002 – estudos para o reuso da água das estações de tratamento de esgotos da região metropolitana, mas eles só saíram do papel com a força do lobby política da Odebrecht/Braskem, que levou à criação do Aquapolo, para abastecimento do polo petroquímico desta última.  E, ainda assim, com zero transparência no que se refere às práticas contábeis.

O que a turma aqui está esperando?  Uma nova e previsível “crise hídrica”?  Ou órgãos como a Agência Nacional de Águas – ANA, Conselho Nacional de Recursos Hídricos – CNRH, Ministério do Meio Ambiente e seus equivalentes estaduais… acordarem, saírem do marasmo?

Os custos de purificação/reuso de água em escala das concessionárias se reduziram tanto nas últimas duas décadas se reduziram tanto que seriam recomendáveis programas de cooperação técnica e de introdução de novas tecnologias como parte das políticas públicas na área de saneamento.  Fazer apenas mais do mesmo não levará o Brasil a avançar muito, se é que o país não está retrocedendo.

 

 

Dissemina-se o uso de água residuais e de escorrimento superficial (chuvas) para a recarga de aquíferos

Dissemina-se o uso de águas residuais – depois de tratadas – e de água de chuva para a recarga de aquíferos subterrâneos, aumentando as disponibilidades e a segurança hídrica.  Essa prática, velha conhecida em países como a Alemanha – onde é fonte de 2/3 do abastecimento público -, acaba de ser objeto de um estudo bastante amplo elaborado pela Academia Nacional de Ciências dos EUA – e publicado pela sua editora, encontrando-se disponível para download gratuito mediante uma inscrição simples que não requer mais do que o endereço eletrônico e uma senha (o campo com o uso a que se destina o download é facultativo).

Para os que interessam pelo assunto – segurança no abastecimento de água -, recomenda-se a leitura ao menos do Sumário Executivo e dos títulos dos capítulos.

Há anos, a Finep, com apoio da CEF e de outros órgãos, vem promovendo bons estudos sobre temas relacionados às alternativas de reuso de esgotos sanitários para diversas finalidades econômicas, e já é tempo de estimular esse tipo de reuso, assegurados bons níveis de tratamento e desinfecção.  Mas, além da linguagem e do formato excessivamente acadêmicos – tais documentos se iniciam com longas listas de nomes de autores -, até agora houve pouca ou nenhuma aplicação prática de suas conclusões.  Ainda assim, já é hora de se considerar a recarga de aquíferos com águas de escorrimento superficial – chuvas – como algo mais sério para aumentar a segurança hídrica, ao mesmo tempo que evita ou reduz enchentes e a subsidência dos solos urbanos, com seus elevados custos para a infraestrutura (como já se pode observar na região metropolitana de São Paulo).

No Brasil, o setor público caminha lentamente – quando caminha – em matéria de gestão de água.  E com pouca ou nenhuma transparência.  Apenas para exemplo, quem quiser folhear a descrição de um programa de US$ 143 milhões (isso mesmo, em dólares) com empréstimo do Banco Mundial no valor de US$ 107 milhões de dólares, pode se divertir.  Trata-se da descrição de uma árvore de Natal, envolvendo uma multiplicidade de órgãos do governo brasileiro (talvez a tal da “base aliada”) e sem que se encontre uma relação de resultados concretos… ainda que a finalização da apresentação do projeto tenha se dado em junho de 2011.  Conta a lenda que no quadro do projeto foi contratada uma “Política Nacional de Reuso de Água”.  Ou terá sido de esgotos?

Fora isso, vale notar que o Rio de Janeiro, a tal “Cidade Olímpica”, tem desde 2004, um muito bem elaborado decreto que regulamenta a retenção de água de chuva quando a houver impermeabilização de solos exatamente para evitar enchentes, assegurar a infiltração e recarga do aquífero, e abrir uma porta para o reuso dessas águas… que nunca foi levado a sério.  Ou alguém aí sabe de um conjunto de shoppings, supermercados, estádios de futebol e similares que tenham feito estruturas de retenção da água de chuva na fase de construção ou reforma, como determina o Decreto Municipal de 23.940, de 30.1.2004, que torna obrigatória a retenção das águas de escorrimento superficial e sua potencial utilização para reuso?  É esse o Rio que se diz “cidade resiliente” ou “cidade inteligente” (smart city)?

Não custa lembrar que com as mudanças climáticas as chuvas tendem a ser mais concentradas no tempo e as secas mais prolongadas.  Ou, como dizem os meteorologistas no mundo todo, o que era anormal já passa, aos poucos, a ser “o  novo normal”.  Nesse quadro, estratégias para a disponibilização de reservas de água são fundamentais.  A recarga dos aquíferos brasileiros é mais do que suficiente nas atuais condições climáticas.  Isso não significa que continue sendo por muito tempo, em função da contaminação e da impermeabilização das áreas de recarga.