Óleos Vegetais Puros – Uma Bela Alternativa Para o Programa Nacional do Biodiesel

Desenha-se, no Paraná, uma bela alternativa para os erros do Programa Nacional do Biodiesel, que se encadeam e potencializam de forma perigosa.

Uma visita a uma Cooperativa Witmarsum permite constatar a viabilidade técnica — e, em breve, a viabilidade econômica — das mini-usinas decentralizadas para a produção de óleo vegetal que pode ser usado diretamente nos motores ciclo-Otto sem as complicações e os custos da mistura ao diesel do petróleo.

A extração mecânica, sem solventes, significa uma quantidade de óleo cerca de 35% menor, mas o balanço final é positivo: tanto o óleo quanto o resíduo têm propriedades alimentícias e valor de mercado muito superiores. Assim, os pequenos produtores não se tornam reféns das grandes esmagadoras, têm alternativas para os seus óleos — tanto podem fazer o óleo comestível de boa qualidade quanto o combustível para os veículos -, passam a dispor de resíduos de maior valor protéico e adequados à fabricação de alimentos para consumo humano ou à ração animal, e alcançam a tão falada segurança alimentar e energética.

A questão central do uso direto do óleo vegetal nos motores que operam com diesel é a sua filtragem, e os autores do projeto trouxeram da Alemanha a solução simples: a remoção de resíduos superiores a 5 micra, e já testam equipamentos fabricados no Brasil que permitem alcançar uma pureza na faixa de 0,5 micra sem maiores complicações ou custos.

Depois de uma fase de testes, os responsáveis pela mini-usina em operação passaram a conceber algo muito mais ousado: uma mini-usina que possa ser transportada numa carreta com não mais do que 3 metros quadrados, cujo protótipo já se encontra pronto.

prototipo-de-mini-usina-sobre-plataforma-transportavel.JPG

O projeto têve um apoio relativamente modesto do Ministério do Desenvolvimento Agrário – MDA e do Governo do Estado do Paraná. “Modesto” quando comparado com os gigantescos volumes de recursos que estão sendo alocados para os projetos dos grandes produtores através do BNDES e dos leilões da ANP/Petrobras para a compra antecipada de gigantescas quantidades de óleo ainda inexistente (compra antecipada que viabiliza empréstimos com juros subsidiados junto ao BNDES). E “modesto”, também, quando cotejado com a sua importância sócio-econômica.

Agora, há necessidade de um esforço concentrado para que essa mini-usinas comecem a ser fabricadas em série, com as dimensões soliciatadas por cada pequeno produtor ou associação/cooperativa de pequenos produtores. Apoio e incentivos econômicos “de verdade”, e não apenas essas irrisórias isenções de PIS e COFINS dadas à s indústrias que comprarem matérias-primas dos pequenos agricultores. Isenções ou reduções significativas de de IPI e de IR na fabricação dos equipamentos, de ICMS na sua comercialização, por prazo determinado e até que esse mercado seja criado e encontre-se consolidado.

Uma comprovação pragmática de que essa abordagem estratégica é boa e tem viabilidade econômica e financeira é a distribuição das usinas de produção de óleos vegetais para uso como combustível na Alemanha, como se pode ver na figura abaixo, na qual as pequenas bandeiras amarelas representam as pequenas usinas decentralizadas e o outro símbolo representa as grandes instalações industriais.

alemanha-mini-usinas.jpg

A mistura do óleo vegetal ao diesel de origem fóssil é uma bobagem institucional. A meta de 2% e depois 5% de óleo vegetal em substituição ao diesel poderia ser aplicada na matriz energética, considerado o consumo nacional de diesel, com base na conversão das frotas de caminhões das grandes transportadoras e das frotas de ônibus. Os custos do transporte e da mistura de óleos seriam evitados, possibilitando até mesmo fazer uma substituição rápida do diesel utilizado nos grupos geradores que abastecem pequenas e médias cidades na Amazônia, requerendo subsídios para o transporte de R$ 3,5 bilhões em 2006, através da famosa Conta de Consumo de Combusíveis – CCC (ou seja, de todos os brasileiros).

O governo do Paraná dará um belo exemplo de políticas públicas à nação se em lugar de criar apenas uma vitrine optar por apoiar de forma contundente a produção em série das mini-usinas.

Witmarsum é uma cooperativa de alemães que migraram para a Ucrânia e de lá para Santa Catarina, antes de se estabelecerem, há cerca de 50 anos, no Paraná, e algumas (poucas) informações podem ser encontradas em http://www.cooperativawitmarsum.com.br. Uma visita à Witmarsum é uma lição de vida e de como se pode fazer a coisa certa.

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

2 comentários sobre “Óleos Vegetais Puros – Uma Bela Alternativa Para o Programa Nacional do Biodiesel”

  1. Me interessei pelo assunto. Quero me informar mais profundamente sobre assunto. Tenho dois cunhados que são pequenos produtores rurais no município de Pederneiras – SP e estão querendo montar algum negócio deste tipo. Eles querem pesquisar se é viável montar uma pequena fabrica de óleo vegetal onde hatitam.

    Mas aqui nessa região se torna muito difícil informação sobre esse ramo. Já procuramos o SEBRAE em Bauru mas estão aguardando um retorno há
    muito tempo. Segundo essa instituição eles não têm nada no momento para apresentar, eles vão pesquisar o assunto.
    Peço a vocês se é posivel nos ajudar com alguma informação sobre o assunto.
    Aguardo resposta pelo E-mail airesj@uol.com.br

    Muito obrigado.

    Prezado José Aires,

    Enviarei alguma coisa diretamente para o seu endereço eletrônico. Não deveria ser difícil para o SEBRAE informar-se, se eles tivessem dedicado uns 10 minutos a pesquisar. Mas o Brasil tem essa mania de grandes negócios, grandes usinas de álcool, com um interesse pelos pequenos produtores que é apenas de fachada, eleitoreiro, coisa de intelectual da USP ou do COPPE. Sim, é possível monar uma pequena unidade de produção de óleo vegetal com a vantagem de poder alternat entre a produção de óleo vegetal para fins alimentares e óleo para utilizar em motores diesel (evitando os impostos escorchantes cobrados no Brasil e mandando a ANP às favas). O melhor é fazer isso através de uma pequena cooperativa ou associação de produtores.

    Grato pela visita ao blog.

    Luiz Prado

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