Etanol – Afinal, Quem Manda Nessa Bagunça?

O ministro Luiz Carlos Guedes Pinto (Agricultura), um dos muitos ilustres desconhecidos do mais alto escalão do governo federal, deve achar ou tem certeza de que os cidadãos são completamente otários e não sabem fazer contas. Ele afirma que o governo deve elevar novamente o percentual de álcool na gasolina muito em breve, já que o recente aumento de 20% para 23% não atende ao pleito dos usineiros, que desejam 25%.

Na leitura da reportagem, ficamos sabendo que é uma tal Comissão Interministerial de Açúcar e Álcool que decide sobre o teor de álcool na gasolina. E nós que pensávamos que havia uma autoridade regulatória qualquer, independente, cuidando dos interesses do conjunto da economia e dos bolsos dos brasileiros. Mas não! Trata-se dos interesses de meia dúzia de grandes grupos que não têm qualquer compromisso com o Brasil: quando os preços do açúcar estão bons, fazem açúcar e exportam, e o teor do álcool na gasolina diminui; ou, ao contrário, nos fazem engolir um pouco mais de seu álcool.

Segunda a notícia, o ministro acha que esse novo aumento do teor de álcool na gasolina assegura uma boa “remuneração para os produtores sem onerar DEMAIS os consumidores”. Reconhece, assim, que os consumidores é que pagam a conta, sem explicitar o que pode ser considerado “demais” e nem qual é o valor da fatura.

De fato, há uma outra conta oculta e que não se expressa apenas nos preços, e sim no menor poder calorífico do álcool, 30% inferior ao da gasolina comum. Ou seja, para um aumento de 5% do teor de álcool na gasolina – como os usineiros “reivindicam” – os consumidores estarão subsidiando (novamente!) os usineiros em cerca de 1,5% do valor pago pelo combustível que lhes é enfiado goela abaixo.

Foi assim desde o início do Proálcool, quando a coisa se disfarçava através de subsídios dados pelo governo. Mas como o governo vive do que arrecada, o subsídio sempre foi, na verdade, pago pelos usuários dos veículos. Agora, a conta vai direto para o otário do consumidor, como um verdadeiro imposto, já que não há possibilidade de escolha.

Deve-se acrescentar esse tipo de ‘tributo compulsório” à carga tributária que já pagam os brasileiros, que se afirma ser a mais elevada do mundo? Certamente!

É hora dos economistas reverem os seus cálculos e, mais do que isso, os seus conceitos. Afinal, os indicadores econômicos talvez até registrem um alta nos índices inflacionários, mas certamente indicarão uma MELHORA, pelo menos setorial, no desempenho da economia. Afinal, as pessoas consumiram mais. Que maluquice!

Afinal, por que não deixar a alternativa da gasolina pura concorrer com o álcool puro, agora cantado em prosa e verso como uma energia renovável? Eles não ficam sempre dizendo que o setor sucro-alcooleiro do Brasil é o mais competitivo do mundo, já totalmente maduro e consolidado? Ou essa história de livre mercado é balela e não se aplica às áreas dominadas por alguns grupos de interesse cartoriais sempre amigos do poder?

Como disse o Macaco Simão, “o Brasil é um país tão católico que até a gasolina já vem batizada”! E na surdina, sem que isso esteja claramente dito nos pontos de venda. Coisas de nossas raízes portuguesas: cotovelo discretamente encostado na balança para aumentar o peso durante o papo amigável, e quilo de 900 gramas.

Na sequência, é o Programa Nacional do Biodiesel que vai para o espaço. O próximo artigo será sobre isso.

NOTA – Perdoem-me os leitores, o blog ficou fora do ar por quase 48 horas devido ao excesso de visitas! Já aumentamos a largura da banda de 200 MB para 300 MB e depois para 400 MB. Em breve teremos 1 Giga, permitindo mais acessos simultâneos.

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

O que você pensa a respeito?