Monthly Archive for dezembro, 2006

Estudo de Impacto Ambiental – Mera Formalidade?

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O ano de 2007 anuncia-se difícil para Marina Silva, na hipótese de que ela tenha alguma sobrevida, ainda que meramente formal, no MMA, e para Carlos Minc, que assume a secretaria de Meio Ambiente no estado do Rio de Janeiro.

Na esfera federal, o sinal verde do Supremo Tribunal Federal – STF para que o IBAMA emita a licença ambiental da “transposição” do São Francisco resultará numa “ordem unida” do Palácio do Planalto. Feliz como um cidadão que ganha na mega-sena, um desses ministros cujo nome só aparece em ocasiões muito especiais – Pedro Brito (Integração Nacional) já anuncia a licitação de obras para janeiro, depois de seu ministério já ter “explodido” cerca de R$ 500 milhões – ou seja, 12,5% do valor estimado do projeto – com empresas de consultorias contratadas para gerenciá-lo, incluindo a “negociação das licenças ambientais” (segundo a Folha de São Paulo de 20/12/2006).

Recomenda-se ao Tribunal de Contas da União – TCU que faça, desde já, uma auditoria nos inúmeros projetos de irrigação que se encontram com as obras quase concluídas ou bastante avançadas mas sem recursos para que possam entrar em operação. Todas com custos bem menores do que a tal “transposição” por se situarem nas proximidades do rio São Francisco. Ainda que a CODEVASF não divulgue dados atualizados, o TCU pode começar os projetos Pontal Sul e Maria Teresa, em Petrolina, os projetos Caraíbas e Pedra, no município de Santa Maria -, todos em Pernambuco; assim como o projeto Salitre, na Bahia.

Vale, também, verificar se o mega-projeto de “transposição” beneficia pequenos agricultores ou apenas as grandes empresas exportadoras, que geram pouco emprego e não deixam no Brasil quase nenhum imposto – ou seja, recursos para educação, saúde básica, saneamento!

Recomenda-se, ainda, que o TCU examine como se deram as transações de compra e venda de terras ao longo do traçado dos canais de adução de água desse projeto de “transposição” nos últimos 2-3 anos.

Os riscos ambientais – sobretudo se consideradas as autorizações já concedidas para a captação de água – são, sem dúvida, bastante altos, e incluem a possibilidade de entrada da língua salina pela foz do rio São Francisco, com a inevitável perda das terras agrícolas no trecho mais próxiimo da foz.

Mas a sociedade deve, também, ter acesso a informações claras à relação custo-benefício. Qual será o preço da água em cada trecho do projeto? As taxas de evaporação ao longo do percurso serão elevadas – um custo indireto de bombeamento não contabilizado nas estimativas da taxa de retorno do projeto. A capacidade de geração de eletricidade das hidrelétricas do São Francisco será reduzida. Há que falar de valores! Valores de investimento e custos operacionais futuros trazidos ao valor presente!

Com a emissão da licença, Marina Silva perderá o apoio de muitas dessas ONGs que nos últimos dias foram convidadas a assinar um manifesto para mantê-la no cargo, e será vitrine para muitas outras manifestações de protesto. Ou será que o bispo Luiz Flávio Cappio, que fez greve de fome pela suspensão do projeto e assim ganhou a imprensa nacional, já foi tranferido para uma tranquila vila na Itália e não está mais disposto a revelar o conteúdo de sua negociação com Lula, guardada a sete-chaves?

No Rio de Janeiro, o licenciamento da nova refinaria da Petrobras será, certamente, um problema. De um lado, pelos impactos que causará à zona costeira, direta ou indiretamente. Do outro, pelo fato da decisão de localização ter desconsiderado – por razões políticas? – opções que seguramente conduziriam à interiorização do desenvolvimento e a implantação em área na qual os recursos naturais não estejam sob pressão significativamente menos intensa. A gaiatice da dupla Rosinha-Garotinho introduzindo o slogan “a refinaria é nossa” não pegou, mas o fato é que a Petrobras jamais fez um comentários substantivos sobre os impactos sócio-ambientais positivos e negativos das diversas opções de localização da refinaria.

Evidentemente, a estratégia da Petrobras será tentar o licenciamento da refinaria como uma unidade isolada, sem considerar as instalações necessárias ao escoamento dos derivados de petróleo e as atividades periféricas de maior impacto ambiental e urbanísticó. Isso é o que foi feito, por exemplo, com o Rodoanel em São Paulo, licenciado aos pedaços para tornar inevitável a passagem na vizinhança da Serra da Cantareira, uma área de reserva de Mata Atlântica e com mananciais de grande importância para o abastecimento de água da região metropolitana de São Paulo. Essa estratégia contou, evidentemente, com a plena aceitação – diríamos mesmo conivência – da CETESB e do IBAMA. Ela é inadmissível no caso da nova refinaria!

A prática de primeiro tomar a decisão – inclusive de localização – e depois apresentar o estudo de impacto ambiental como um conjunto de medidas mitigatórias ocorre, também, quando as petroleiras atuam em outros países subdesenvolvidos.

Como exemplo, vale relatar o que aconteceu quando a Texaco resolveu colocar uma estação de liquefação de gás e de um porto no delta do rio Congo… antes de qualquer estudo de alternativas tecnológicas e de localização. Em princípio, a empresa não pareceu importar-se com a proteção dos manguezais do estuário, ainda quando informada que os EUA eram signatários de um tratado internacional objetivando a proteção desses ecossistemas por sua importância para a pesca. Na sequência, a empresa ficou supresa quando analistas ambientais falaram na única linguagem que a empresa entende: os custos de dragagem periódica ali do canal até o porto seriam elevados por se tratar do estuário de um rio de planície, com altas cargas de transporte de sedimentos. E aí, sugeriu-se o exame da opção do carregamento do gás liquefeito em alto mar (offshore ship loading), uma alternativa tecnologica que sequer havia sido considerada.

Finalmente – apenas para finalizar esse exemplo de total descaso com os estudos de impacto ambiental – quando perguntada sobre a origem dos 20.000 postos de trabalho temporários que seriam gerados na fase da implantação do projeto, a gerente de meio ambiente da Texaco – Sheryl Maruca – afirmou que seriam contratados profissionais filipinos, de melhor qualificação profissional que os angolanos. Questionada sobre as providências para a desmobilização do canteiro de obras – em torno do qual certamente surgiria um sem número de atividades econômicas que sustentariam milhares de famílias angolanas -, ela respondeu secamente: “o país é deles” (assim como quem diz, “os angolanos que cuidem disso”).

No outro extremo, na Califórnia, quando uma petroleira alegou que não daria as informações sobre o plano de prevenção de acidentes à comissão de gerenciamento costeiro durante o processo de licenciamento de plataformas de petróleo em alto mar por se tratar de área de competência exclusiva do governo federal, a comissão respondeu com uma singela carta informando que nesse caso não seria autorizada a passagem de um metro de oleoduto sequer na costa californiana. A petroleira rapidamente mudou de idéia.

As diferenças de atitude resultam do grau de desenvolvimento (inclusive ou principalmente mental, cultural). Estudos e impacto ambiental bem feitos são uma ferramenta para o desenvolvimento sustentável, e não apenas um procedimento burocrático estafante ou, como parece acreditar dona Dilma Roussef, um obstáculo ao desenvolvimento. Quem duvidar, basta olhar o que ocorre nos países “sérios”, onde não se constrói um edifício residencial sem garantias de disponibilidade de vagas de ensino primário e secundário no “distrito escolar”, da mesma forma que não se faz uma obra de construção ou reforma de uma escola sem considerar aspectos como isolamento acústico e grau de aproveitamento da luz do dia.

PS – No dia seguinte à atualização deste blog, a administração Rosinha Garotinho demoliu ou fechou os olhos para a demolição do Estádio de Remo da Lagoa durante a madrugada, numa operação com todas as características de clandestinidade. A imprensa não foi avisada para que não houvesse imagens (exceto, dizem, a Globo). Ali, pretende-se construir uma nova arquibancada, apenas 2 metros mais alta do que a existente, de modo abrigar cinemas. Trata-se de mais um absurdo urbanístico e o licenciamento desse projeto será, certamente, mais um desafio da nova administração ambiental do estado, já que a anêmica secretaria municipal de Meio Ambiente encontra-se, evidentemente, sob suspeita em relação a mais essa proposta de apropriação privada indevida e danosa de espaços públicos na ex-cidade maravilhosa. A Constituição prevê a competência concorrente da União, Estados e Municípios na gestão ambiental, e a lei prevê a intervenção dos orgâos “superiores” em caso da omissão dos órgãos estaduais ou municipais.

Os Custos Sociais da Incompetência na Gestão Ambiental e do Atraso Mental das “Elites”

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A importância das questões ambientais como alavanca ou freio ao “desenvolvimento” está novamente na berlinda em consequência da apatia e da falta de criatividade das autoridades do setor. Falamos do Brasil, é claro, já que nos demais países essa dimensão do desenvolvimento econômico e social já foi plenamente absorvida como elemento essencial à sustentabilidade do desenvolvimento econômico. Aqui, na roça, é que se fala em sustentabilidade referindo-se à manutenção das elevadas taxas de lucros dos bancos e de retorno sobre o capital investido das grandes corporações.

Mesmo no caso dos EUA, onde a Agência de Proteção Ambiental (EPA) saiu de uma relativa liderança para a subserviência incondicional à ignorância crassa de Bush filho e seus bárbaros, pelo menos metade dos governos estaduais continuam avançando rapidamente com belas iniciativas para a melhoria da qualidade de vida através das boas práticas de gestão ambiental. Afinal, o que pode ser o tal desenvolvimento senão a melhoria da qualidade de vida?

O atraso mental das “elites” brasileiras no que se refere aos custos econômicos da poluição e do mau uso dos recursos naturais pode ser melhor entendido com algumas poucas informações sobre como o assunto foi percebido nos países sérios desde o início do século XX (pelo menos).

Debates teóricos sobre como incorporar os custos sociais na teoria econômica já ocorriam no século XIX, mas esse é um tema um tanto árido. Então, vamos aos fatos.

Em 1913, O Instituto Mellon de Pesquisa Industrial de Pittsburgh, na Pennsylvania estimou os custos sociais da poluição atmosférica na cidade em em cerca de US$ 10 milhões anuais (valores da época, cerca de US$ 200 milhões em valores de hoje). Em 1936, uma revisão dessa estimativa publicada num relatório sobre a saúde pública da cidade situou esses custos em US$ 9,36 per capita/ano. Estudos conduzidos nos anos 30 e início dos anos 40 em em New York, Chicago, Boston, Baltimore e outras cidades norte-americanas situaram os custos sociais da poluição atmosférica na faixa de US$ 10 a US$ 30 per capita/ano. Em 1932, o custo social total da poluição atmosférica em New York foi calculado em US$ 100 milhões/ano (ou US$ 1,5 bilhão em valores de hoje).

Esses estudos não incluiam, evidentemente, o sofrimento humano, que não pode ser quantificado, mas sim o absenteísmo ao trabalho provocado por doenças respiratórias, os valores das consultas médicas e dos medicamentos, o aumento das taxas de corrosão dos materiais metálicos expostos a uma atmosfera mais ácida (em decorrência do dióxido de enxôfre), e a redução do espaço de tempo entre cada pintura externa das edificações.

Nos países sérios, desde o pioneiro estudo quantitativo do Instituto Mellon de Pesquisa Industrial, as pesquisas desse tipo se sucederam e aperfeiçoaram. Em 1927, o Instituto Internacional de Agricultura de Roma demonstrou que as emissões das termelétricas afetavam de maneira decisiva a fertilidade dos solos e o metabolismo das plantas. O estudo demonsrou que elementos como potássio, cálcio e manganês eram removidos dos solos agrícolas pelas chuvas ácidas. E como os produtos agrícolas se tornavam tóxicos, os animais que comiam a forragem produzida nesses solos também eram afetados. “É possível afirmar com segurança que a presença de 0,002 por cento de ácido sulfúrico na atmosfera pode causar a redução drástica da produtividade agrícola”. Em 1953, um resumo dos estudos feitos em diferentes países informava que a redução da produtividade agrícola oscilava entre 30 e 90% na Tchecolováquia (dependendo da proximidade das usinas de geração térmica), 50% na Inglaterra, e também 50% em testes laboratoriais.

Na Inglaterra, o relatório final de uma pesquisa feita no campo da saúde pública demonstrou perdas econômicas no valor de 27 milhões de homens-hora de trabalho em decorrência de bronquite crônica. Em Newcastle, 36% dos homens e 17% das mulheres com mais de 30 anos sofriam de bronquite crônica.

Não é possível sequer imaginar as nossas “elites” – federações das indústrias ou as autoridades da área de saúde pública, os governos neo-liberais de FHC e Lula – apoiando estudos epidemiológicos que demonstrassem os custos sociais da poluição desse calibre. Qual nada! É melhor sonegar os dados sobre a poluição atmosférica ou nem tê-los, como se faz em São Paulo, onde a qualidade “oficial” do ar é sempre boa, apesar do smog ser visível, gritante, saltar aos olhos. Mas opta-se por usar médias de 24 horas já que por uma boa parte do tempo a cidade dorme e o trânsito é reduzidíssimo, em lugar de médias de 8 horas e até de 1 hora previstas na regulamentação nacional e internacional.

Custos sociais são, assim, aqueles incidentes sobre o bolso dos cidadãos pela ação, omissão, incompetência ou indiferença não apenas das atividades econômicas produtivas mas também do próprio poder público.

Como um exemplo trivial – até banal, mas interessante para trazer a questão dos custos sociais para a realidade cotidiana – vale perguntar se a indústria automobilística “brasileira”, os engenharia e arquitetura – CREAs e de economia -CORECONs, o Conselho Nacional de Trânsito – CONATRAN e outros já se interesssaram estimar o custo social da péssima qualidade da pavimentação das ruas do Rio de Janeiro sob a dinastia Cesar Maia? Ou seja, em quanto aumentam os gastos com a manutenção dos veículos e os índices de acidentes.

A foto de Zeca Linhares, abaixo, mostra algo que não é um caso isolado e comprova o descaso das empresas contratadas para fazer remendos no asfalto e a total ausência de normas técnicas para a pavimentação das ruas. De fato, no Rio, a prefeitura consegue verdadeiras obras de arte em matéria de pavimentação: além da buraqueira, poças d’água ao lado de bocas-de-lobo e mesmo em ladeiras ou viadutos, e “murundus” estranhos. Isso tudo torna dirigir uma aventura perigosa e com um custo muito mais elevado do que o razoável.

pavimentacao-calomboweb.jpg

Custos sociais da poluição, da má gestão dos recursos naturais, mas também da simples péssima gestão da coisa pública se somam à imensa carga tributária que seguramente entrava o desenvolvimento do país. Mas os CONATRANs e CREAs da vida não perdem tempo com esses “detalhes”.

PS – Dois dias depois de atualizar o blog com este artigo, a imprensa mostrou como as “obras emergenciais” do tipo “tapa-buraco” nas estradas federais foram inúteis. Mais de R$ 400 milhões jogados fora em obras contratadas sem licitação cerca de um ano antes das eleições. Os caminhoneiros são forçados a reduzir drasticamente a velocidade – um custo social -, enquanto a suspensão e os pneus vão para o brejo numa única viagem. Isso, dias depois de dona Dilma Roussef admitir que faltava planejamento como se estivesse fazendo a descoberta da década! E as “elites”, mudas, parece até que lhes cortaram as cordas vocais.

Os Custos Sociais da Incompetência na Gestão Ambiental e do Atraso Mental das "Elites"

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A importância das questões ambientais como alavanca ou freio ao “desenvolvimento” está novamente na berlinda em consequência da apatia e da falta de criatividade das autoridades do setor. Falamos do Brasil, é claro, já que nos demais países essa dimensão do desenvolvimento econômico e social já foi plenamente absorvida como elemento essencial à sustentabilidade do desenvolvimento econômico. Aqui, na roça, é que se fala em sustentabilidade referindo-se à manutenção das elevadas taxas de lucros dos bancos e de retorno sobre o capital investido das grandes corporações.

Mesmo no caso dos EUA, onde a Agência de Proteção Ambiental (EPA) saiu de uma relativa liderança para a subserviência incondicional à ignorância crassa de Bush filho e seus bárbaros, pelo menos metade dos governos estaduais continuam avançando rapidamente com belas iniciativas para a melhoria da qualidade de vida através das boas práticas de gestão ambiental. Afinal, o que pode ser o tal desenvolvimento senão a melhoria da qualidade de vida?

O atraso mental das “elites” brasileiras no que se refere aos custos econômicos da poluição e do mau uso dos recursos naturais pode ser melhor entendido com algumas poucas informações sobre como o assunto foi percebido nos países sérios desde o início do século XX (pelo menos).

Debates teóricos sobre como incorporar os custos sociais na teoria econômica já ocorriam no século XIX, mas esse é um tema um tanto árido. Então, vamos aos fatos.

Em 1913, O Instituto Mellon de Pesquisa Industrial de Pittsburgh, na Pennsylvania estimou os custos sociais da poluição atmosférica na cidade em em cerca de US$ 10 milhões anuais (valores da época, cerca de US$ 200 milhões em valores de hoje). Em 1936, uma revisão dessa estimativa publicada num relatório sobre a saúde pública da cidade situou esses custos em US$ 9,36 per capita/ano. Estudos conduzidos nos anos 30 e início dos anos 40 em em New York, Chicago, Boston, Baltimore e outras cidades norte-americanas situaram os custos sociais da poluição atmosférica na faixa de US$ 10 a US$ 30 per capita/ano. Em 1932, o custo social total da poluição atmosférica em New York foi calculado em US$ 100 milhões/ano (ou US$ 1,5 bilhão em valores de hoje).

Esses estudos não incluiam, evidentemente, o sofrimento humano, que não pode ser quantificado, mas sim o absenteísmo ao trabalho provocado por doenças respiratórias, os valores das consultas médicas e dos medicamentos, o aumento das taxas de corrosão dos materiais metálicos expostos a uma atmosfera mais ácida (em decorrência do dióxido de enxôfre), e a redução do espaço de tempo entre cada pintura externa das edificações.

Nos países sérios, desde o pioneiro estudo quantitativo do Instituto Mellon de Pesquisa Industrial, as pesquisas desse tipo se sucederam e aperfeiçoaram. Em 1927, o Instituto Internacional de Agricultura de Roma demonstrou que as emissões das termelétricas afetavam de maneira decisiva a fertilidade dos solos e o metabolismo das plantas. O estudo demonsrou que elementos como potássio, cálcio e manganês eram removidos dos solos agrícolas pelas chuvas ácidas. E como os produtos agrícolas se tornavam tóxicos, os animais que comiam a forragem produzida nesses solos também eram afetados. “É possível afirmar com segurança que a presença de 0,002 por cento de ácido sulfúrico na atmosfera pode causar a redução drástica da produtividade agrícola”. Em 1953, um resumo dos estudos feitos em diferentes países informava que a redução da produtividade agrícola oscilava entre 30 e 90% na Tchecolováquia (dependendo da proximidade das usinas de geração térmica), 50% na Inglaterra, e também 50% em testes laboratoriais.

Na Inglaterra, o relatório final de uma pesquisa feita no campo da saúde pública demonstrou perdas econômicas no valor de 27 milhões de homens-hora de trabalho em decorrência de bronquite crônica. Em Newcastle, 36% dos homens e 17% das mulheres com mais de 30 anos sofriam de bronquite crônica.

Não é possível sequer imaginar as nossas “elites” – federações das indústrias ou as autoridades da área de saúde pública, os governos neo-liberais de FHC e Lula – apoiando estudos epidemiológicos que demonstrassem os custos sociais da poluição desse calibre. Qual nada! É melhor sonegar os dados sobre a poluição atmosférica ou nem tê-los, como se faz em São Paulo, onde a qualidade “oficial” do ar é sempre boa, apesar do smog ser visível, gritante, saltar aos olhos. Mas opta-se por usar médias de 24 horas já que por uma boa parte do tempo a cidade dorme e o trânsito é reduzidíssimo, em lugar de médias de 8 horas e até de 1 hora previstas na regulamentação nacional e internacional.

Custos sociais são, assim, aqueles incidentes sobre o bolso dos cidadãos pela ação, omissão, incompetência ou indiferença não apenas das atividades econômicas produtivas mas também do próprio poder público.

Como um exemplo trivial – até banal, mas interessante para trazer a questão dos custos sociais para a realidade cotidiana – vale perguntar se a indústria automobilística “brasileira”, os engenharia e arquitetura – CREAs e de economia -CORECONs, o Conselho Nacional de Trânsito – CONATRAN e outros já se interesssaram estimar o custo social da péssima qualidade da pavimentação das ruas do Rio de Janeiro sob a dinastia Cesar Maia? Ou seja, em quanto aumentam os gastos com a manutenção dos veículos e os índices de acidentes.

A foto de Zeca Linhares, abaixo, mostra algo que não é um caso isolado e comprova o descaso das empresas contratadas para fazer remendos no asfalto e a total ausência de normas técnicas para a pavimentação das ruas. De fato, no Rio, a prefeitura consegue verdadeiras obras de arte em matéria de pavimentação: além da buraqueira, poças d’água ao lado de bocas-de-lobo e mesmo em ladeiras ou viadutos, e “murundus” estranhos. Isso tudo torna dirigir uma aventura perigosa e com um custo muito mais elevado do que o razoável.

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Custos sociais da poluição, da má gestão dos recursos naturais, mas também da simples péssima gestão da coisa pública se somam à imensa carga tributária que seguramente entrava o desenvolvimento do país. Mas os CONATRANs e CREAs da vida não perdem tempo com esses “detalhes”.

PS – Dois dias depois de atualizar o blog com este artigo, a imprensa mostrou como as “obras emergenciais” do tipo “tapa-buraco” nas estradas federais foram inúteis. Mais de R$ 400 milhões jogados fora em obras contratadas sem licitação cerca de um ano antes das eleições. Os caminhoneiros são forçados a reduzir drasticamente a velocidade – um custo social -, enquanto a suspensão e os pneus vão para o brejo numa única viagem. Isso, dias depois de dona Dilma Roussef admitir que faltava planejamento como se estivesse fazendo a descoberta da década! E as “elites”, mudas, parece até que lhes cortaram as cordas vocais.

Dilma, Marina, e os Entraves ao Desenvolvimento

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Voltaremos aos usos múltiplos dos reservatórios das hidrelétricas – essas hidrelétricas cafetinadas pelo setor elétrico em detrimento de qualquer planejamento integrado para os recursos hídricos!

Hoje, apenas algumas imagens que permitem uma reflexão sobre quem é mais responsável pelo baixo índice de desenvolvimento do Brasil: a turma do setor elétrico ou a do meio ambiente? Ou todo o resto, com a imperial incapacidade de formular e implementar projetos associada à “opção pelos ricos”, isto é, pelos banqueiros, ainda quando em detrimento do sistema de saúde público ou da segurança no controle dos transportes aéreos.

O setor elétrico, sob a gestão de Dilma Roussef, prometeu (pela centésima vez, nas últimas décadas), a universalização do acesso à eletricidade. Grandes fanfarras e muito marketing para mais um “Luz Para Todos”. Passados dois anos, não há informações oficiais sobre os resultados.

No sertão nordestino, uma pequena casa que se encontra a não mais que 200 metros da rede de baixa tensão. Há cerca de 20 anos prometeram a extensão da rede ao casal que nela reside. Felizes, eles adquiriram eletrodomésticos. A geladeira, que nunca funcionou, virou um armário, e a televisão se perdeu por nunca ter sido ligada e inexistirem peças de reposição. Ainda têm esperanças de que agora os recém eleitos tenham a generosidade de lhe conceder esse presente: o acesso à eletricidade.

O governo precisa visitar o sertão!

A mais comum é a conexão dos domicílios dos pequenos produtores rurais à rede enquanto as suas glebas, situadas 2-3 km adiante continuam sem eletricidade para acionar uma simples máquina agrícola de debulhar o milho, remover a casca da mamona ou acionar uma bomba d’água.

Das muitas cenas desse tipo que entravam o desenvolvimento econômico e a redução da pobreza, encontrei a mais impressionante no sul de Alagoas. Uma centena de famílias instalou-se na localidade há 20 anos, as casas foram construídas às margens da estrada de terra batida, a linha de transmissão em média tensão passa em frente aos lotes desde sempre para atender uma usina de cana, mas esses pequenos produtores rurais não conseguem ter acesso à eletricidade.

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Durante anos, os moradores da localidade foram ao prefeito e à CEAL – Companhia Energética de Alagoas pedir acesso à rede de eletricidade. Teriam ido ao Papa, se necessário. Pediram-lhes “abaixo-assinados”, um compromisso com um “político influente” desses que vivem de cafetinar ambulâncias e outras promessas, e muita paciência. Mas luz que é bom, nada. Até que a CEAL disse à associação de moradores que só faltava o transformador! E a associação de moradores comprou um transformador, que lá se encontra, encostado, há 2-3 anos, comprovando o desamparo e inspirando o desânimo.

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Evidentemente, a rede continua atendendo ao engenho do grande produtor situado um pouco mais adiante.

Será que já existe algum relatório sobre o andamento do tal programa de universalização do acesso à eletricidade, ainda que “universalização” (agora entre aspas)? Ou as concessionárias locais continuam fazendo o que bem entendem, inexistindo qualquer oportunidade ou incentivo para a formação de cooperativas de eletrificação rural? Aqui, vale lembrar que até mesmo no país onde o dinheiro é um deus, os EUA, as cooperativas de eletrificação rural desempenharam papel decisivo na universalização do acesso a esses serviços. E com sucesso!

Descaso similar encontra-se mesmo às margens do rio São Francisco, onde os pequenos proprietários rurais não têm acesso á eletricidade. Na foto a seguir, uma imagem da pobreza rural vizinha da abundância de água. O clima e o regime pluviométrico são os mesmos de todo o sertão, e esses pequenos produtores não têm como fazer uso da água e, portanto, da terra! É fácil imaginar o que faria um país sério em matéria de geração de produção e renda no meio rural em situação similar!

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Dona Dilma – bolsa-família é bom, mas usos produtivos da energia elétrica são ainda melhores! Dona Marina, a quase total remoção da mata ciliar ao longo de todo o rio São Francisco, bem como de seus reservatórios, aumentando a erosão e o assoreamento, são (ou deveriam ser) de competência de seu ministério que nunca ousou se pronunciar de maneira programática em relação ao absurdo programa de transposição das águas para beneficiar grandes latifundiários!

Finalmente, imagens de uma pequena cidade que ainda é abastecida por água coletada nos “barreiros” e transportada em lombos de burros para as residências… também nas proximidades do São Francisco. Primeiro, o “barreiro”, no caso formado pela construção de uma estrada para atender a uma mineração; depois, o “sistema de abastecimento” da cidade.

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Dilma Roussef, que antes de deixar o cargo no ministério de Minas e Energia criou mais uma estatal – a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) – para abrigar alguns assessores, aproveita-se agora do momento de transição para golpear Marina Silva abaixo da linha da cintura. A EPE, que ficou todo esse tempo na mesmice do melhor aproveitamento apenas hidrelétrico dos recursos hídricos, deve tê-la alertado, recentemente, de sua própria falta de criatividade e da necessidade de encontrar um bode expiatório.

Dona Dilma pedo o apoio de Lula para não “judicializar” (sic) o licenciamento das obras que certamente são de interesse das grandes empreiteiras (sim, ela assassina o idioma, ainda que ares de “eficientização” e estilo diferente do “noço guia”). Já dona Marina tenta se escorar num abaixo-assinado envolvendo 500 organizações não-governamentais…. como se existissem 500 organizações ambientalistas realmente representativas no Brasil. Mas jamais têve a ousadia de colocar o setor elétrico em seu papel de apenas mais um usuário dos recursos hídricos e manteve-se em sua usual posição escorregadia durante todo o debate sobre o absurdo projeto de transposição do São Francisco para atender aos interesses dos grandes proprietários rurais de outros estados.

Agora, elas que se entendam. Ou não! Mas o que entrava mesmo o desenvolvimento é a total falta de projetos – e não apenas de projetos de infra-estutura. Só agora, o governo descobriu que não tinha projetos de infra-estrutura?! E discute as prioridades a portas fechadas, na moita, quase na clandestinidade, no Brasil deles mesmos.

PS – É bem verdade que a falta de projetos é crônica e não começou agora. Já vem de muitas administrações. A aridez de idéias e propostas é superior a aridez do sertão. Na era FHC, houve um único projeto: a venda de ativos. O chato é que essa abulia continuou no primeiro governo Lula.

Hidrelétricas – Desleixo e Mau Uso dos Recursos Hídricos

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Com a truculência que lhe é ou foi peculiar – abrandada depois que têve que substituir o brontossauro José Dirceu -, Dilma Roussef resolveu sair em defesa de alguns poucos interesses corporativos ligados à construção de hidrelétricas atacando a tradicional lentidão do IBAMA. Nenhum argumento concreto, além da afirmação de que os prazos para o licenciamento ambiental deve ser menor. Dilma desconsiderou, assim, a usual má qualidade dos estudos de impacto ambiental, além da oposição de importantes segmentos da sociedade entre os quais se incluem o Ministério Público e cientistas de notório saber a alguns projetos mal concebidos. E ameaçou passar por cima das competências legais do Conselho Nacional do Meio Ambiente – CONAMA e da competência concorrente da União, dos Estados e dos Municípios na proteção ambiental.

Falando sobre uma área cuja pasta é ocupada por um ministro de Minas e Energia que mais parece, ele próprio, um “apagão”, Dilma quis transferir para a área ambiental, preventivamente, as responsabilidades pelas eventuais consequências das crônicas debilidades da política energética brasileira e bateu abaixo da linha da cintura.

Alguns dias depois, para a surpresa de todos, Dilma reconheceu que falta planejamento em muitas áreas do governo, e fez uma referência específica à área de transportes, na qual o péssimo estado da infra-estrutura causa prejuízos anuais à nação estimados em cerca de R$ 30 bilhões (sem contar os custos sociais, isto é, os danos causados aos veículos ou a redução de sua vida útil).

Por seu lado, Marina Silva, que não se mostrou, nem de longe, combativa como Chico Mendes, adotou uma atitude defensiva e se limitpu a dizer que há poucas pendências relacionadas ao licenciamento de novas hidrelétricas e a criticar a proposta de novas usinas nucleares com o débil argumento de que o Brasil não dispõe de um sistema seguro de disposição de resíduos radioativos.

Com o governo Lula atropelado pela “crise” do gás boliviano e pela lentidão da Petrobras em deixar de queimar gás em flares nas plataformas de petróleo, Dilma teme por um novo apagão e não parece disposta a exercer o papel de Pedro Parente, encarregado, no governo FHC, de assumir o “papelão” de transferir a responsabilidade para São Pedro, quando havia excesso de eletricidade no sul do país.

Com essa conversa fiada, Dilma desconsidera o fato de que o Brasil nunca têve uma política de eficiência energética minimamente consistente, seja pelo lado da demanda, seja no campo da oferta. Um conjunto de iniciativas sérias nessa área poderia compensar a resistência da sociedade à projetos de hidrelétricas que resultem em graves impactos ambientais, sociais e econômicos.

Para aumentar a eficiência energética no campo da oferta, a mera repotencialização (troca das turbinas antigas, de baixa eficiência) e a automação das hidrelétricas projetadas e construídas nas décadas de 50, 60 e 70. Nada muito diferente da substituição de um motor de carro fabricado naquela época! Essa alternativa poderia resultar em significativo aumento da geração de eletricidade em prazos muito menores do que a construção de novas hidrelétricas, com custos de capital também reduzidos. Mas, com essa opção, não há obras para as grandes empreiteiras que sempre influiram de forma decisava no setor elétrico (como em tantos outros). Então, o governo insiste em fingir que não sabe dessa alternativa.

Por seu lado, Marina Silva não chegou a ter grandes iniciativas à frente do MMA – além de vangloriar-se pelo trabalho da Polícia Federal (que, de fato, merece todos os aplausos, e não apenas na área ambiental) e da redução das pressões sobre o desmatamento na Amazonia decorrentes da queda do preço da soja nos últimos anos. Mas soube cooptar ONGs para apoiá-la!

Na verdade, o MMA, o IBAMA e o CONAMA foram apáticos e nada criativos em relação ao setor elétrico. Poderiam e deveriam ter proposto ao CONAMA um resolução estabelecendo diretrizes e prazos para o licenciamento de todas as hidrelétricas acima de uma certo porte construídas antes da lei que instituiu a “política nacional de meio ambiente”. Assim fizeram os órgãos estaduais de meio ambiente fizeram com as indústrias!

Entre essas diretrizes estariam os estudos de viabilidade técnica e econômica da repotencialização dessas hidrelétricas.

Mas as diretrizes não se limitariam a esse aspecto. Essas barragens já foram concebidas de maneira antiquada até mesmo para os padrões da época! Em nenhum caso consideraram o conceito elementar dos usos múltiplos, isto é, do planejamento integrado envolvendo geração de eletricidade, a navegação, a irrigação, o controle de cheias, a piscicultura e as atividades de lazer.

Para ilustrar o conceito de usos múltiplos, tomemos o exemplo histórico da Companhia Hidrelétrica do São Francisco – CHESF. A idéia inicial era seguir o modelo da Autoridade do Vale do Tennessee (TVA, na sigla em inglês). Criada em 1933 por ousada iniciativa de Roosevelt para combater os impactos da Grande Depressão numa das regiões mais pobres dos EUA, a TVA aborveu todos os poderes dos demais órgãos governamentais em toda a região. As hidrelétricas desse vale foram construídas com os olhos voltados para a compatibilização e a otimização de todos os usos da água, e os objetivos da TVA foram alcançados.

Ao contrário, no Brasil, criou-se a CHESF, com as atividades voltadas exclusivamente para a mera geração de eletricidade. E, ao contrário da TVA, a construção das barragens inviabilizou a navegação em vários trechos do rio, reduziu de forma drástica a pesca (o “peixamento” feito com base na criação de alevinos é uma “medida mitigatória” de mera fachada), e a pobreza no vale do São Francisco persiste. Ao longo do rio podem ser encontrados milhares de pequenos produtores rurais que desconhecem práticas modernas de irrigação e não têm acesso à eletricidade! Nas proximidades, pequenas cidades que sequer têm abastecimento de água e seus moradores usam água coletada em “barreiros” e transportada em bombonas transportadas em lombos de burro. A erosão provocada pelo desmatamento é visível em qualquer trecho do rio, reduzindo ainda mais as possibilidades de navegação comercial (hidrovias para transporte de produtos foram construídas na China já no século XV e ainda hoje são um importante meio de transporte na Europa). Mas o assoreamento decorrente desses processos erosivos já serviu para despertar a cobiça dos grupos que se propõe a ganhar vultosas quantias com dragagens, que nada resolvem se não há a proteção e a recomposição das matas ciliares, nem mesmo no entorno dos reservatórios.

O alheiameto da CHESF ao planejamento integrado do uso das águas foi de tal ordem que para cuidar da irrigação resultou na criação – em 1974 – de uma outra empresa governamental – a Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco – CODEVASF. Até hoje, os projetos da CODEVASF beneficiaram muito mais os grandes proprietários de terra e a produção agrícola para a exportação do que os pequenos produtores. Como se não bastasse, neste momento diversos macro-projetos de irrigação permanecem paralisados depois de 80-90% dos investimentos já terem sido feitos… justamente pela falta de planejamento a que se referiu Dilma Roussef.

Para agravar o quadro institucional de gestão dos recursos hídricos, as competências legais da CHESF e da CODEVASF foram estendidas ao rio Parnaíba, única alternativa de peso para o desenvolvimento agrícola no estado mais pobre da federação. O rio Parnaíba encontra-se em estado lastimável de degradação!

No início da atual administração, a proposta de estabelecer normas e prazos para o licenciamento das antigas hidrelétricas – sem a necessidade dos estudos de impacto ambiental convencionais – foi levada aos altos escalões do MMA. Durante os encontros, ressaltaram-se as oportunidades para a piscicultura, que poderia contribuir de forma decisiva para o programa Fome Zero. Evidentemente, o zoneamento da área dos reservatórios teria que ser seguido por investimentos em toda a cadeia produtiva – incluindo a evisceração e a frigorificação dos produtos. Houve um esboço de reação de alguns técnicos que mencionaram a eutroficação dos reservatórios em caso de uso de rações. O argumento foi imediatamente contestado com a informação de que nos “países sérios” já existem rações formuladas de forma a evitar esse tipo de impacto, e que elas seriam produzidas no Brasil tão logo houvesse a demanda. Em pouquíssimo tempo, a proposta se transformou em nada mais do que uma portaria da ministra orientando o IBAMA a facilitar a colocação de “gaiolas de peixes” nos reservatórios pelos pescadores artesanais… como expressão de uma percepção não menos artesanal das políticas públicas de meio ambiente.

Ainda há tempo! Só faltam alguns “detalhes”: criatividade, ousadia, visão de longo prazo e capacidade de planejamento. O licenciamento das antigas hidrelétricas daria forma e colocar números nas propostas de repotencialização para assegurar o aumento da geração de energia elétrica no curto prazo e o melhor aproveitamento da água retida nos reservatórios (através da automação). E, sobretudo, se constituiria num fecundo nascedouro de projetos de cuja a falta se queixa Dilma Roussef. As diretrizes para o licenciamento abrangeriam desde o monitoramento e iniciativas voltadas para a reversão dos processos erosivos que reduzem a vida útil dos reservatórios e a própria vazão da água dos rios, passando por estudos de viabilidade técnica e econômico-financeira da implantação de eclusas para viabilizar a navegação, estendendo-se até atividades ordenadas de piscicultura e lazer (para não falar nos simples caminhos para que os peixes que sobem o rio nas piracemas possam se reproduzir).

PS – Vale lembrar que, no Brasil, as hidrelétricas acabaram com as principais hidrovias naturais. Os processos erosivos também contribuiram e continuam contribuindo com o seu quinhão para o mesmo objetivo. Rios que eram navegáveis podem, hoje, ser atravessados camihando tranquilamente com água pelo joelho. E a tal da Agência Nacional de Águas – ANA para que serve, exatamente?