Rio – A Esculhambação Escancarada

Agora, o abandono do Rio, que começou a ser denunciado aqui, já se tornou notícia diária da grande imprensa, que antes empolgava-se apenas com os casos de violência. Afinal, a bagunça urbanística, o descaso, também contribuiu para a violência.

As imagens abaixo encontram-se numa esquina da avenida das Américas, bem pertinho do Pan que a prefeitura tenta mostrar como um coroamento sabe-se lá de que.

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Esses postes não estão assim há uma semana, mas há meses. E o motorista do táxi começou a rir ao passar por ali, comentando que três postes, um ao lado do outro, é algo que não faz qualquer sentido. De fato, algo assim não se vê numa cidade civilizada.

Com a inclinação dos postes, os fios – aparentemente de telefonia -, aproximam-se do nível da cabeça dos passantes. Com algumas chuvas a mais, tocarão o solo. A luz e/ou as comunicações na área serão atingidas, mas isso não constará de nenhum relatório da ANATEL ou da ANEEL. E os cidadãos, com ou sem a interrupção dos serviços, continuarão a pagar as contas como se nada houvesse acontecido.

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Caía a tarde como um viaduto, ou como uma marquise de hotel, ou como estações de metrô de São Paulo, sem que ninguém seja punido. Como se pode transmitir à sociedade alguma sensação de estabilidade institucional com leis urbanas que são mudadas “ao ritmo dos pandeiros”?

Os investimentos em infra-estrutura para o Pan concentraram-se num bairro rico – ainda que com lagoas imundas devido à falta de saneamento. Poderiam ter sido utilizados para “levantar” um bairro menos abastado, mas prevaleceu a especulação imobiliária. Ou melhor, prevaleceu a continuidade da especulação imobiliária que logo transformará a avenida das Américas, a principal via arterial da Barra da Tijuca, num gigantesco engarrafamento de trânsito. A avenida, cujas pistas centrais eram para ser de fluxo mais rápido, aos poucos enchem-se de retornos improvisados ao sabor dos interesses comerciais específicos – com direito à placas de “a Barra pediu, a prefeitura fez”. Mentira! Quem pediu foram os interesses comerciais aos quais interessava o retorno do trânsito naquele local.

E assim, com os canteiros centrais sendo ocupados por postos da Petrobras e por improvisados abrigos para a PM e até para a Defesa Civil, o trânsito flui a cada dia mais lentamente, elevando a tensão acumulada e os custos sociais: aumenta o consumo de gasolina para que as mesmas distâncias sejam percorridas e, também, a perda de tempo que poderia ser utilizada em atividades produtivas.

Atenção para quem deseja investir na Barra: o bairro começa a perder qualidade de vida, o que se fará sentir no ritmo de valorização dos imóveis. A vontade é de dizer aos turistas: não venha ao Rio de Janeiro.

Já tínhamos o custo-Brasil. Agora, temos o custo-esculhambação do Rio de Janeiro, também crescendo bem mais do que o Produto Interno Bruto.

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

2 comentários sobre “Rio – A Esculhambação Escancarada”

  1. Estou vendo que nem tudo no Rio é lindo… Adorei o blog.  Vc escreve maravilhosamente bem.  Desejo todo o sucesso ao blog.

  2. Uiara.
    O Rio vem perdendo posição como destino turístico, apesar de suas belezas naturais privilegiadas e antes notável caráter acolhedor dos cariocas. Os vôos já são diretamente para o Nordeste, e essa tendência tende a se acentuar. Assim, o meu desejo seria escrever um artigo em inglês como o título “Do Not Come to Rio”. Grato por seus comentários sobre o blog.
    Luiz

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