Bush, Lula e as Energias Renováveis – Um Encontro Sem Agenda

Bush, o símbolo máximo do descaso com as energias renováveis e com os interesses maiores da humanidade, chega ao Brasil em meio à total indiferença da população e a algumas poucas especulações da imprensa. No momento em que alcança os mais baixos índices de popularidade da história de um presidente norte-americano, ninguém sabe ao certo a agenda de seus encontros com Lula. Tirar uma “casquinha” na popularidade do Brasil como produtor de etanol é uma possibilidade. Ou, talvez, depois da derrota no Iraque, apenas conseguir algum apoio contra Hugo Chávez ou falar das imensas ameaças terroristas na tal “tríplice fronteira” brasileira. Quem sabe, ele e Lula pensem que podem dar a impressão de que ainda lhes resta alguma liderança na América Latina.

O que, exatamente, Bush pode oferecer ao Brasil? Nada! Nenhum dos dois consegue explicar a agenda da visita. Abrir o mercado norte-americano para o etanol? Mas a produção brasileira de etanol está, hoje, nas mãos de 5 ou 6 grupos que se preferem continuar a “cafetinar” o Brasil mesmo, aumentando o teor de álcool na gasolina quando lhes é conveniente e exportando o açúcar sempre que isso resulta em melhores lucros. O Japão já tentou conseguir garantias da Petrobras para o fornecimento de álcool, por não confiar nos grandes fornecedores brasileiros. Nesse caso, a estaral funcionaria apenas como um agente intermediário, regulador de estoques, arcando com os prejuízos quando ocorrerem, e nunca com os lucros. Fora isso, os grandes grupos europeus estão fazendo investimentos diretos na produção de etanol e de “biodiesel”, sem necessidade desse tipo de intermediação e contando apenas com os juros subsidiados do BNDES.

Também os norte-americanos estão comprando terras agrícolas. Os próprios relatórios do ministério da Agricultura dos EUA já mencionam, há algum tempo, as imensas oportunidades nessa área, com referências até mesmo à s regiões mais favoráveis para a expansão da agricultura mecanizada: “35 milhões de hectares de áreas de Cerrado ainda virgens, 10 milhões de hectares na Amazonia, e 70-90 milhões de hectares de pastos que podem ser convertidos para a produção de grãos”. Em breve, teremos novos latifúndios voltados para a produção de biodiesel e etanol com baixíssima geração de emprego, nenhuma política de segurança alimentar e novas ondas de êxodo rural do campo para a perifeira das grandes cidades.

As manchetes sobre a agenda do encontro mudam a cada dia! Mais provavelmente, não há qualquer agenda além de alguma tentativa de dar a impressão de que a pauta inclui um ou outro assunto de grande importância. Ninguém supõe que Lula vá entregar a Bush um relatório sobre a situação dos direitos humanos em Guantánamo, um desses bem ao estilo das avaliações periódicas sobre a vida alheia que produz o Departamento de Estado dos EUA.

Inicialmente, quando a visita foi anunciada, a imprensa brasileira especulou sobre a possibilidade de significativos aumentos da produtividade brasileira de biocombustíveis com base na tecnologia agrícola norte-americana. Bactérias geneticamente mofidicadas, enzimas, e outros produtos das pesquisas que o governo norte-americano subsidia desabusadamente e que depois se transformam em moeda de troca sem os riscos da interferência da Organização Mundial do Comércio – OMS. Subsidiar pesquisa básica e aplicada pode, transferir para a iniciativa privada tecnologia desenvolvida pela NASA também pode, mas subsidiar produtos não. A globalização que interessa aos ricos.

Aumento da produtividade agrícola com base nos avanços da engenharia genética? Algo similar já aconteceu com a modificação genética da soja e a pergunta não respondida foi simplícissima: por que razão uma soja mais resistente a pragas não foi desenvolvida pela EMBRAPA? Por simples incompetência ou por haver interesse em beneficiar uma multinacional tornando os produtores brasileiros reféns de sua tecnologia e sementes? O Brasil não precisa de pagar royalties por algo que pode fazer sem dificuldades. A indústria brasileira já está próxima de desenvolver a tecnologia necessária para a produção de biocombustíveis a partir da celulose, e o governo deve mesmo é apoiar esse tipo de desenvolvimento, se possível garantindo que as patentes sejam de propriedade da EMBRAPA e acessíveis aos produtores nacionais.

Os EUA poderia, sim, e muito, contribuir para a rápida expansão das energias renováveis e da eficiência energética no Brasil e no mundo. Isso não será feito pela turma que no momento ocupa a Casa Branca, mas pela negociação direta com instituições e entidades como, por exemplo, Associação dos Governadores do Oeste (www.westgov.org), que tem tomado iniciativas concretas nessas áreas. Essa associação tem como meta a produção de 30.000 MW de geração de eletricidade limpa até 2015, ou seja, mais de 30% da produção brasileira de energia elétrica! Não são poucos os estados norte-americanos que aprovaram leis que, na prática, significam cumprir com o Protocolo de Quioto, retirando, assim, a autoridade da Casa Branca nessas questões.

Governadores brasileiros: ao trabalho! O encontro de Lula e Bush é insignificante para o Brasil e para a América Latina. O contato direto entre governadores certamente será mais proveitoso.

A simples iniciativa de Fernando Collor ao propor que Al Gore seja convidado a falar no Congresso Nacional sobre as mudanças climáticas tem, certamente, muito mais importância do que esse encontro vazio de idéias e de propostas.

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

One thought on “Bush, Lula e as Energias Renováveis – Um Encontro Sem Agenda”

  1. A proposta do Bush é de o Brasil assumir o papel de lider da america latina. Na verdade o que ele quer mesmo, é que nós ensinemos aos nossos vizinhos mais pobres como produzir etanol apartir da cana. Fica facil entender, que isto é uma tatica do “esperto” filhote nazi-republicano para comprar álcool ao preço que bem entender no futuro. Devemos apoiar a iniciativa do Fernando Collor em trazer o Al Gore.

O que você pensa a respeito?