Biocombustíveis e a Mentalidade da Colônia

“Não existe parceria onde o Brasil entra com tudo e os Estados Unidos com nada. Não precisamos deles.”

“O que os Estados Unidos estão fazendo aqui é uma invasão semelhante à do Iraque. Lá, com bombas, e aqui, com dólares.”

“(Eu) disse ao Lula que o Brasil está despreparado para assumir a liderança que tem hoje no setor e, por isso, está perdendo espaço para países como a Alemanha.”

As frases acima são de Bautista Vidal, que teria concebido o Proálcool em 1974, ou pelo menos levado a proposta a Ernesto Geisel, que a aprovou. Não se tratava, então, de promover os biocombustíveis no quadro das mudanças climáticas, mas de conter os impactos do primeiro choque do petróleo sobre a balança comercial brasileira.

Na entrevista concedida a O Globo, tradicional defensor de quaquer um que esteja no poder (exceto quando apoiou o golpe de 64), o físico Bautista Vidal afirma que está articulando a campanha “A Biomassa é Nossa“. Liana Melo, autora da reportagem com tons de entrevista, num texto lúcido, compara esse lema ao grande movimento “O Petróleo é Nosso” que mobilizou o Brasil nas décadas de 40 e 50.

Com essa visita, o Brasil dá as costas aos seus parceiros latino-americanos ou europeus, e se aproxima do que há de mais retrógrado em matéria de energias renováveis.

Outro físico de renome, Rogério Cerqueira Leite, um pouco mais suave, afirma que “a lentidão do governo é compreensível mas indesejável” E, sem causar surpresas, Luiz Pinguelli Rosa, petista de carteirinha, ex-presidente da Eletrobrás, de onde foi defenestrado por Lula sem maiores explicações, e que se encontra, hoje, à frente de uma estatal especialmente criado para abrigar alguns companheiros – a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) -, responsabiliza o setor elétrico pelas inconsistências da matriz energética brasileira, dando um cutucão em dona Dilma Roussef.

Isso tudo na mesma edição na qual se noticia que Lula voltou feliz com mais um bate-papo com George Bush – que tardiamente tenta demonstrar algum interesse pelas energias renováveis mas não abre mão das sobretaxas sobre o etanol brasileiro. Que se dane a Organização Mundial do Comércio – OMC.

Para adoçar a boca dos otários de plantão, fala-se de um estudo do anêmico Núcleo de Assuntos Estratégicos – NAE da presidência da República no qual estariam “mapeados” 79,4 milhões de hectares adicionais para a produção de cana-de-açúcar, boa parte dos quais em Goiás (leia-se, no pouco que resta do Cerrado), em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, no Tocantins, na divisa do Maranhão com o Pará, e até mesmo no sertão da Bahia. Essa área total não é muito diferente da que o Departamento da Agricultura norte-americano (o ministério da Agricultura de lá) há muito já sugere que sejam compradas pelos grandes produtores agrícolas altamente subsidiados dos EUA para plantar cana-de-açúcar e oleaginosas.

Como os brasileiros sempre gostaram dos grandes números, fala-se em 615 novas usinas de álcool até 2025 e, ainda que não esteja dito, há necessidade de infra-estrutura para o escoamento da produção. A ser financiada pelo governo brasileiro, é claro. Com recursos da Nação, é igualmente claro, ainda que serviços básicos de saúde e educação estejam caindo aos pedaços. E que as estradas vicinais que poderiam assegurar o escoamento da produção dos pequenos produtores, os que realmente alimentam o Brasil, estejam como sempre totalmente abandonadas, em particular nas regiões mais pobres.

Esses assuntos já foram tratados em artigos anteriores neste blog e podem ser lidos na área de biocombustíveis. Agora, a confirmação do que foi anteriormente dito faz lembrar a música de Noel Rosa, composta em 1930, com o título “Quem Dá Mais” ou “Leilão do Brasil”, que termina com os seguintes versos:

“Quem dá mais? Quem dá mais de um conto de réis? Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três! Quanto é que vai ganhar o leiloeiro? Que é também brasileiro, E em três lotes Vendeu o Brasil inteiro? Quem dá mais?…..

(A letra completa pode ser lida em http://vagalume.uol.com.br/noel-rosa/quem-da-mais.html).

Mas, justiça seja feita. Não é novo esse leilão do Brasil, como mostra Noel Rosa, bem antigo. FHC aprofundou-o muito durante a época em que foi mandarim da colônia, quando novamente colocou no investimento estrangeiro qualquer esperança de “modernização” do país. Um apagão das esperanças de criar valor verde-amarelo, desenvolvimento endógeno. Lula agora só consuma esse trajeto, numa administração que mais parece a quarta de FHC.

Como bem relembra Bautista Vidal, na década de 70, o então secretário de Estado norte-americano, Henry Kisinger, cinicamente, afirmou que “não admitiremos um outro Japão ao Sul do Equador”. E continuam não admitindo!

A biomassa é nossa? Isso é válido mesmo sabendo que os estrangeiros estão comprando as terras, que o maior benefício social do Proálcool foram os bóias-frias, e que a exportação não gera impostos para pagar nem pelos serviços sociais básicos? Ou será que estamos à beira da situação descrita por Eça de Queiroz em 1871 quando escreveu sobre Portugal?

“Estamos perdidos há muito tempo… O país perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada, os caracteres corrompidos. A prática da vida tem por única direção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido. Não há instituição que não seja escarnecida, ninguém se respeita, não há nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Ninguém crê na honestidade dos homens públicos. Alguns agiotas felizes exploram. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos são abandonados a uma rotina dormente. O Estado é considerado na sua ação fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo. A certeza dessa rebaixamento invadiu todas as consciências. Diz-se por toda a parte que o país está perdido. Algum opositor ao atual governo? NÃO!”

Bautista tem razão. O Brasil já perdeu, já anos, a liderança em biocombustíveis para a Alemanha. Mas perdeu, também, qualquer tipo de “vantagem comparativa” que pudesse ter em matéria de energias renováveis, já que não dominou a tecnologia solar, eólica, de turbinas submersas e outras. Como tampouco está sabendo incentivar a tecnologia nacional no campo dos veículos híbridos, que consomem até 50% menos combustíveis. E não tem uma política consistente para compatibilizar a segurança energética com a segurança alimentar.

Então, quem dá mais?

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

One thought on “Biocombustíveis e a Mentalidade da Colônia”

  1. Portugal começou a melhorar no final do século XX, aderindo à Uniao Européia. Será que nos falta ainda um século? É bem provável. Espero que nao sejamos obrigados, porém, a aderir à União Bolivariana, liderada pela Venezuela e pela Bolívia, cujos líderes ainda estarao em cena até depois de 2020 (ah, ia esquecendo o Kirchner, que ja ameaça ficar para sempre tambem). Desse jeito é muita tentaçãoo para o Lula!

O que você pensa a respeito?