“Não acredite em tudo que a sua cabeça lhe diz!” – Lula, Bush e Mudanças Climáticas

A frase do título estava escrita num adesivo colado no vidro de um carro na Califórnia. Dá para lembrar o blá-blá-blá de Lula e Bush diante das propostas dos países sérios em relação à necessidade de medidas para conter o avanço das mudanças climáticas. Ambos parecem sempre acreditar no que as cabeças lhes dizem.

Lula fingiu um protesto veemente contra a falta de compromissos consensuais claros sobre a redução das emissões de gases causadores de mudanças climáticas na reunião do G-8, ainda sabendo que a Europa e o Japão continuarão a avançar com ou sem os EUA. Lula reclamou mas não propôs nada, exceto que os países ricos devem aumentar a sua contribuição financeira para os pobres. Essa repetitiva obsessão com a caridade desconsidera o fato de que todos os países que escaparam do subdesenvolvimento nas últimas décadas não contaram com qualquer ajuda externa, nem mesmo das tolas organizações financeiras tipo Banco Mundial. China e Coréia do Sul contaram mesmo foi com investimentos massivos e prolongados em educação e tecnologia, além de todo um conjunto de políticas públicas setoriais.

Lula talvez talvez tenha ficado com uma pontinha de inveja da decisão do G-8 de liberar US$ 60 bilhões para a África. Mas no campo específico das mudanças climáticas não propôs e nem poderia propor, já que, como Bush, não consegue estabelecer relações entre eficiência no uso de energia e avanços tecnológicos, de um lado, e redução das emissões desses gases, do outro. O Brasil não tem políticas públicas de eficiência energética e não dá atenção nem mesmo ao imenso potencial de aumento da geração com a simples “repotencialização” e automação de suas hidrelétricas mais antigas (“repotencialização” é a troca de velhas turbinas por outras mais modernas, aumentando significativamente a geração com um custo muito abaixo daquele resultante da construção de novas hidrelétricas). Afinal, projetos de “repotencialização” não dão lucro para as grandes empreiteiras.

O Brasil não domina tecnologia para a geração elétrica solar ou eólica. Na verdade, não domina sequer a tecnologia de fabricação de turbinas para hidrelétricas, que é exclusividade de multinacionais instaladas no país. Tendo abraçado e passado a venerar o tal “investimento externo”e abandonado o conceito de nação, o Brasil continuará pagando pedágio para o desenvolvimento de seus recursos naturais. O capital que entra, sai, sob a forma de remessa de lucros e pagamentos de royalties pela tecnologia. As empresas brasileiras, hoje, não dominam nem mesmo o mercado interno de creme dental! Fabrica ônibus híbridos para exportação e não os adota nas grandes cidades altamente poluídas por não ter políticas ambientais claras e sistemas de incentivos fiscais direcionados para o interesse público. Quando a Eletrobras paga mais caro por um tipo de geração de eletricidade por fontes “alternativas”, acaba gerando mais impostos, ao contrário até mesmo dos EUA, onde a geração eólica é estimulada por reduções nos impostos.

Lula insiste na “tese” de que não há conflitos entre a produção massiva de biocombustíveis para exportação e acredita no que sua cabeça lhe diz, apesar da FAO já ter tornado públicos os primeiros relatórios indicando aumentos substantivos nos preços dos alimentos em decorrência do aumento da concorrência pelo uso de terras agrícolas. Lula insistiu na “redenção do pequeno agricultor nordestino” através do biodiesel da mamona ainda que ninguém sensato vá produzir óleo de mamona para usar como combustível – já que os preços desse óleo para usos mais nobres são muito mais elevados. Como concebido, o Programa Nacional do Biodiesel vai é transformar esses pequenos produtores em reféns das grandes esmagadoras e, depois, em favelados. Afinal, que pequeno produtor pode participar de um leilão de compra da Petrobras, onde o “lance mínimo” é de 1 milhão de litros?

Por seu lado, Bush também acredita no que a sua cabeça lhe diz, se é que ele tem uma que não se limita a repetir o que lhe dizem as grandes petroleiras. Mesmo os republicanos já sabem que Bush está cometendo um grande erro ao negar-se a colaborar com a humanidade. A obiteração da consciência na alta administração norte-americana é tamanha que o chefão da NASA chegou a declarar, recentemente, que “ninguém pode dizer que clima é o clima ideal para a humanidade”! Total falta de limites para a arrogância vazia.

Grandes investidores norte-americanos já apostam numa mudança total de atitude logo após o seu mandato. Contagem regressiva para o grande alívio que será a transmissão do cargo, não importando para quem. Nem mesmo os republicanos não suportam mais o que está acontecendo na Casa Branca e comentam, abertamente, que não são ouvidos. Nos EUA, governadores e prefeitos continuam tomando iniciativas importantes para a redução das emissões de carbono e grandes investidores já começaram a tomar o mesmo rumo. Recentemente, dois gigantes financeiros – Texas Pacific Group e Goldman Sachs – adquiriram a mais “suja” empresa de energia elétrica dos EUA – a TXU Energy, do Texas – com o objetivo de fazer um rápido aumento no seu valor de mercado (valor das ações) através de uma transformação radical baseada nas energias renováveis e na eficência energética. Foi o maior investimento direto (chamado equity nos EUA, isso é, investimento com capital próprio) desse tipo da história: cerca de US$ 50 bilhões. Grupos com o histórico de de só considerarem projetos com altas taxas de retorno não firmariam o compromisso de substituir a impalantação de uma dezena de novas usinas térmicas por energia eólica se não estivessem totalmente confiantes de que o panorama do setor vai mudar totalmente ao final da “administração” Bush.

Lula e Bush poderiam fazer o G-2! Ambos acreditando em tudo o que as suas cabeças lhe dizem. Lula colocaria a culpa nos ricos, Bush dobraria a aposta em sua proposta de que o Brasil sirva de capataz da produção de etanol nos países mais pobres da América Latina. E, de repente, quem sabe, “rola uma graninha” para cessar a destruição da Amazônia.

Essa é uma proposta que já vem sendo discutida há algum tempo. Mas, afinal, quanto vale a floresta amazônica? O valor “de mercado” dos créditos de carbono – definidos pelos países que integram o G-8 -, o valor da madeira em pé, o valor da madeira beneficiada, ou esses valores e mais os lucros cessantes pela não expansão da fronteira agrícola? E qual o valor simbólico de uma negociação desse tipo para o Brasil? Para os adoradores do livre-mercado, que não entendem o que não pode ser quantificado, basta lembrar que, no passado, a Casa Branca mandou um parque nacional sob gestão privada das negociações envolvendo a venda da Paramount para a Sony. No parque vive a águia de cabeça branca ou águia-careca que é símbolo dos EUA.

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Evidentemente, a chanceler alemã e presidente da União Européia Angela Merkel tratou Bush de maneira diplomática ao declarar que as propostas dele eram bem vindas. De toda forma, a União Européia já havia entrado num acordo sobre as suas próprias metas. Angela Merkel ignorou a presença e os comentários de Lula, cuja participação na cúpula do G-8 se deu fundamentalmente no momento da foto.

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O conceito de “valor simbólico” é diferente do de “valor da marca”. Assim, tanto a Microsoft como a Coca-Cola sabem exatamente qual o valor de suas marcas, que está lançado em suas contabilidades. Aqui, nada. No Rio de Janeiro, descarta-se o valor da marca FEEMA – Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente, o mais antigo órgão especificamente de meio ambiente do Brasil, por um capricho.

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Que percentual da “neblina” que cobre a cidade do Rio de Janeiro no inverno se deve à poluição acumulada em condicões desfavoráveis de dispersão atmosférica?

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

O que você pensa a respeito?