Energias Sustentáveis – O Abismo Cultural Entre o Brasil e os Países Sérios

Financistas investem em meio ambiente para ganhar dinheiro e não por ética ou “responsabilidade ambiental”. Há exceções, como em tudo. Exceções que comprovam a regra. Mas qualquer discussão sobre “a ética no sistema financeiro” – incluindo as organizações do tipo Banco Mundial e BNDES – é puro diletantismo. Ainda assim, boas coisas acontecem à medida em que muda o sistema de percepções e valores da sociedade e os financistas vislumbram a possibilidade de novas fontes de lucros.

Sob a liderança de um poderoso grupo financeiro – o Texas Pacific Group -, há alguns meses foi feita a aquisição da pior concessionária de energia elétrica dos EUA, a Texas Utilities (TXU). Essa foi a maior operação de aquisição de uma empresa com capital próprio, isto é, sem o recurso a empréstimos bancários: cerca de R$ 90 bilhões. A decisão não foi tomada em decorrência das preocupações ambientais, mas da expectativa de lucro. A idéia é transformar a TXU numa empresa modelo em termos de fontes renováveis de energia, redução de perdas no sistema, programas de gerenciamento da demanda e outras iniciativas que, ao final de um ciclo, atraiam a atenção dos pequenos investidores em ações, elevando o seu preço.

Ao Texas Pacific Group, uniu-se o banco Goldman Sachs, que ficou com a fama, já que o primeiro não gosta de divulgar as suas operações. O Goldman Sachs já havia se envolvido numa controvertida operação de compra de 270.000 hectares na Terra do Fogo, no Chile, sob a alegação de criar uma reserva. Com benefícios fiscais, é claro, já que a área foi depois doada a uma ONG norte-americana.

Grupos financistas não agem segundo princípios da ética ou do interesse coletivo, mas a presença de consagrados “ambientalistas” em seus quadros certamente facilitam muito a avaliação de iniciativas nas quais a possibilidade de lucro coincida com os interesses sociais. Assim, a iniciativa da compra da Texas Utilities foi originalmente concebida por representantes de duas ONGs sérias – Environmental Defense – ED (www.environmentaldefense.org) e Natural Resources Defense Council – NRDC (www.nrdc.org) em contatos com um alto executivo do Texas Pacific Group – William K. Reilly. Reilly foi presidente do WWF dos EUA na juventude, diretor da Agência de Proteção Ambiental – EPA, depois presidente do Conselho de Administração do mesmo WWF, e assim por diante, com toda uma vida dedicada aos temas ambientais.

A operação deverá ter a aprovação final das autoridades no início de setembro e as duas ONGs acima mencionadas já foram convidadas a ter representantes num Comitê Consultivo para Energias Sustentáveis a ser criado pelos novos acionistas majoritários da Texas Utilities.

Alguém consegue conceber a presença de profissionais com o perfil de Reilly no topo de grandes grupos financeiros ou no conselho de administração de uma grande corporação brasileira (à excessão da área de cosméticos)? Ou uma companhia de eletricidade brasileira negociando coisas tão sérias com ONGs e ainda convidando os seus representantes para participarem de conselhos consultivos, ou simplesmente tendo um conselho consultivo para “energias sustentáveis”.

Esse é o tamanho do fosso cultural que separa o Brasil dos países sérios!

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De toda forma, foi com base nos verdadeiros princípios federativos que a Califórnia elaborou e implementou políticas públicas de eficiência energética que resultaram em ZERO AUMENTO DE CONSUMO de energia durante 30 anos! Lá – como nos países sérios em geral – consultas e audiências públicas são para valer e não meros jogos de cena. Pessoas de fora da máquina administrativa do governo e das corriolas partidárias têm espaço para se pronunciar e são ouvidas! Além disso, mesmo o governador Arnold Schwarzenegger sendo do mesmo partido político do lastimável George W. Bush, isso não impediu a Califórnia de fazer muitas coisas extramente sérias para a questão das mudanças climáticas, em nada compatíveis com o obscurantismo agressivo que há anos é a marca registrada da Casa Branca.

Aqui, ainda somos reféns das regras da mentalidade da coroa portuguesa, e leis estaduais ou municipais incluem frases como “respeitado o disposto na lei federal” ou mesmo citam o número da lei federal ou até de normas que as regulamentam – devida ou indevidamente -, desprezando qualquer bom senso e amarrando tudo a tudo, numa teia que engessa a criatividade, a diversidade de pensamento, a dinâmica social e econômica, e o país. Até recentemente, para dizer que era proibido fumar no avião citava-se o número da lei federal, em lugar de um mero “é proibido fumar neste vôo”… como se o número da lei interessasse a alguém.

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Apesar de listado numa área denominada “blogsfera” da página denominada “Planeta Sustentável” da editora Abril (que tem finalidades puramente comerciais), este blog não guarda qualquer relação profissional ou editorial com a mesma. O Planeta Sustentável da Abril tem o estilo “Globo” e busca atrair visitantes usando uma abordagem na qual uma notícia “ruim” se dilui entre muitas maquiadas com tons róseos. Com a atual população – e ainda por cima crescendo – e os atuais padrões de consumo o planeta não é sustentável. Todo mundo sabe disso.

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

One thought on “Energias Sustentáveis – O Abismo Cultural Entre o Brasil e os Países Sérios”

  1. Eu só queria saber qual é o conceito de países sérios.

    Afinal o que é ser um país SÉRIO? É possível dar um exemplo?

    Resposto do autor:

    Países sérios têm estratégias de longo prazo. E programas para consitentes para implementá-las.

    É fácil dar exemplos. A Alemanha já tinha, na década de 50, metas de 50 anos para a descontaminação de rios, com planos quinquenais e decenais revistos regulamente. A implementação dessas estratégias, planos e programas – e nem os profissionais dos cargos des segundo escalão encarregados da coordenação desss palanos – jamais dependeu do partido que estava no poder, e ao final do período as metas foram alcançadas. Aqui, tivemos os programas de despoluição da baía de Guanabara, do Tietê e do Guaíba, e não houve sequer indícios de melhora na qualidade das águas, quando não ocorreu o contrário.

    A China defifniu políticas de educação pública que envolveram uma “estratégia de pinça” – rápida expansão e melhoria da educação primária, secundária e técnica acoplada com o envio maciço de estudantes universitários para o exterior. Ninguém ficou prometendo a educação para o futuro por décadas.

    A Holanda definiu o seu programa de elevação das barragens para fazer face à elevação do nível dos oceanos há cerca de 20 anos, e os trabalhos prosseguem no ritmo planejado , sem contrair dívidas públicae e sem recorrer à poupança externa.

    Os “tigres asiáticos” também investiram massivamente em educação e em tecnologia, ,sem recorrer, em seu processo de industrialização, ao endividamente externo.

    Em plena II Guerra Mundial, arquitetos inglêses se reuniam para discutir o que seria necessário em termos de formação de profissionais para reconstruir as cidades destruídas pelos bombardeios.

    E por aí afora.

O que você pensa a respeito?