Governos Sérios e Ecossistemas Humanos

Na Califórnia, os problemas ambientais relacionados à s mudanças climáticas já se agravaram muito, criando riscos para o abastecimento de água, para a produção agrícola e para o transporte nos canais de navegação. Há meses, o governo do estado criou uma Comissão do Delta dos rios Sacramento e San Joaquín, com representantes de todos os interessados – desde as empresas de água e municípios, passando pela comunidade de ambientalistas e associações de agricultores, e indo até cientistas. As perspectivas são sombrias. Lá, já não se finge que o nível do mar não está subindo, que a formação de neve nas montanhas não está se reduzindo sensivelmente, ou que as mudanças climáticas são reversíveis. Ninguém diz que “existe a possibilidade” de que essas coisas aconteçam ou que vão acontecer “no futuro, um dia”. Todos reconhecem que essa já é uma realidade e que se trata de proteger um ecossistema humano. Não há 10 alternativas.

Os últimos relatórios da Comissão – denominada Visão do Delta (Delta Vision) – indicam que a redução das disponibilidades de água para abastecimento humano e para os outros fins já é um fato. E que a subida do nível do mar já ameaça o sistema de diques, com a perda potencial de 250.000 hectares de terras agrícolas altamente fértil, além de 1,5 milhão de hectares de terras medianamente férteis. Novos desenvolvimentos urbanos não podem ser autorizados, e esse é, também, um problema gravíssimo.

Hoje, 21 de agosto de 2007, as conclusões e pontos de vista das principais correntes de opinião foram apresentadas e transmitidas ao vivo através da internet – a transmissão – ou “webcast” – foi amplamente divulgada ((http://www.gov.ca.gov/). Os cientistas deixaram claro que há que ser feita uma opção entre a proteção dos ecossistemas e a proteção dos interesses humanos. E que é preciso tomar decisões no menor prazo possível.

Em seu pronunciamento final, o governador chamou a atenção para o fato de que “há um elefante na sala” e não podemos fingir que isso não é um fato. E que ele se orgulha de ter tirado esse assunto de debaixo do tapete. Ao final, pediu à Comissão que continuasse trabalhando num projeto de longo prazo, para ser implantado ao longo dos próximos 20-25 anos (os custos serão elevadíssimos). Falou por 3 minutos, da mesma forma que a senadora Felstein, que fez o seu pronunciamento antes dele, sem que nenhum dos dois tenha tentado transformar a audiência pública num palanque eleitoral, como frequentemente ocorre na terra do Pau-Brasil.

Os documentos produzidos pela Visão do Delta nos últimos meses estão à disposição dos interessados em http://deltavision.ca.gov. Nada escondido, nada decidido em gabinetes fechados. Isso se chama de transparência na formulação de políticas públicas consistentes.

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“Webcastings” ou transmissões pela net de encontros como esse têm a vantagem de assegurar a participação de um maior número de pessoas sem os custos do deslocamento e sem a necessidade de que cada instância do poder público tenha o seu canal de televisão!

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Aqui, relatórios sérios sobre mudanças climáticas, como os produzidos pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – INPE, que sugerem a necessidade de remoção de cerca de 40 milhões de habitantes do litoral brasileiro “até o final do século” e a crescente desertificação do semi-árido nordestino, nem são considerados pelo governo, em seus vários níveis, na formulação de políticas públicas. A desertificação do semi-árido seguramente gerará êxodo rural para a periferia das grandes cidades.

Esses relatórios encontram-se disponíveis na página do Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos do INPE, no endereço abaixo. Atenção, não se trata de um “grupo ambientalista”, mas do mais importante centro de pesquisas do governo brasileiro nessa área.. com reconhecimento internacional.

Os relatórios do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas – IPCC e o Relatório Stern também se encontram lá, ainda que apenas em ingles. Seria bom se alguém sério financiasse a tradução dos mesmos para que um maior número de jovens estudantes pudesse saber exatamente o que está acontecendo e quais os prognósticos que resultaram de consenso na comunidade científica internacional.

Diante desses prognósticos, todos os outros problemas ambientais passam a ser apenas periféricos.

http://www6.cptec.inpe.br/mudancas_climaticas/prod_probio.shtml

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

2 comentários sobre “Governos Sérios e Ecossistemas Humanos”

  1. É bom saber que em alguns lugares os problemas ambientais têm sido tratados com a preocupação e seriedade que o assunto merece. Varrer os problemas para baixo do tapete, anunciar medidas que no dia seguinte serão esquecidas só para ter um espacinho na imprensa, limitar o planejamento ao curtíssimo prazo, tomar decisões importantes a portas fechadas, sem qualquer participação popular ou dos setores interessados, são recursos sempre utilizados pelo pseudos-governantes do Brasil, e ainda mais agora por Lula e sua turma. É uma pena que por aqui um problema tão grave quantos as mudanças climáticas continue sendo tratado de maneira leviana.

  2. Que país inconsequente o nosso. O descalabro é tanto que mina esperanças de mudança. Não sei se conhece na íntegra o poema “All watched over by machines of loving grace”, de Richard Brautigan…

    “Eu gosto de pensar (e quanto antes melhor!)
    em uma campina cibernética
    onde mamíferos e computadores
    vivem juntos em mútua
    programação harmoniosa
    como água pura
    tocando o céu claro…”

    Escrito em 1967, esse pedacinho tão simples faz-me crer que o gerenciamento do ecossistema (quiça de todos os sistemas da terra do pau brasil) por máquinas seria muito mais generoso e eficiente.

O que você pensa a respeito?