Barra da Tijuca – Degradação das Lagoas e Notícias Requentadas

Há políticos que para se manterem na mídia não hesitam em requentar notícias.   E há, também, jornalistas jovens que embarcam na arapuca por preguiça ou incapacidade de analisar o material que lhes é apresentado como novidade.

Nessa linha, retorna o tema é a degradação do complexo lagunar de Jacarepaguá: Tijuca, Jacarepaguá, Marapendi e Camorim.  Com a explosão urbanística da região resultante da total desfiguração do Plano Lúcio Costa, as notícias dos jornais freqüentemente referem-se às lagoas “da Barra da Tijuca”.

O problema é conhecido, há muito tempo, até pelo gato da padaria.  A causa fundamental da degradação das lagoas é o lançamento de esgotos sem tratamento, causando assoreamento, mau cheiro, infestação por mosquitos.  Num país sério, essas lagoas costeiras teriam poluição zero e seriam utilizadas para o lazer da população.  Mas, aqui, mesmo havendo a capacidade e a vontade dos moradores de pagar pelo tratamento dos esgotos, o problema se arrasta e piora a cada dia.  A responsabilidade é de uma só pessoa jurídica, e portanto fácil de ser punida: a Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro – CEDAE, agora “rebatizada” com o nome de fantasia “Nova CEDAE”.  (O Rio de Janeiro já teve, também, a “Nova Polícia” sem que a segurança melhorasse uma vírgula).

A “Nova CEDAE” descobriu uma forma de aparecer nos jornais com notícias mensais sobre gatos em casas de ricos (gatos na linguagem popular são ligações irregulares, e a descoberta dessas ligações evidentemente não pode se constituir num plano de negócios).  Mas, ao final de nove meses da pretensa inovação, a CEDAE ainda não disse como fará para colocar em funcionamento as muitas estações de tratamento de esgotos que não funcionam.

Nesse quadro de descaso e incompetência, falar em medidas emergenciais para as lagoas da Barra é pura tolice.  A única medida efetiva seria a definição – pela enésima vez – de um cronograma para a implantação da rede de esgotos e para o ínicio da operação da estação de tratamento.

Dizer aos jornalistas que o emissário submarino está operando normalmente é outra forma de enganar incautos, já que a rede de coleta cobre apenas uma pequena fração da área.  Para quem não sabe, a implantação da rede iniciou-se em 1986 com um trecho mínimo e, desde então, avançou muito pouco, quase nada.  São só 20 anos de atraso para concluir o sistema.  O que não é coletado continua indo para as lagoas.

Para não ter que ficar procurando imagens sensacionais sobre o estado de degradação das lagoas e plantá-las na imprensa, é suficiente caminhar por trilhas do Parque Natural Municipal Bosque da Barra, concebido como uma reserva de vegetação de restinga já no Plano Lúcio Costa.

O parque foi inaugurado em 1983.  Na entrada, um pequeno aviso informa aos visitantes que o acesso às trilhas depende de autorização da administração.  Esse tipo de cerceamento tem certamente por objetivo impedir que os visitantes vejam o estado de abandono em que se encontra uma boa parte dos 500.000 metros quadrados dessa que deveria ser uma área de lazer – por oposição ao trecho ao qual o acesso é permitido, bem cuidado mas com esparsas sombras, quase nenhum lugar para sentar e nenhum bebedouro.

Num dos lados de uma pequena ponte, um trecho de lagoa limpa; no outro, a imundície que se vê nas duas fotos a seguir (na primeira, são também visíveis as manchas de gordura).

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Um pouco mais adiante, os estágios finais da degradação, quando o assoreamento faz com que o espelho d’água se aproxime do desaparecimento, indicado pelo abundância da vegetação conhecida como taboa.

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E, mais ao fundo, um grande número de trechos em que a água parada, isolada em poças, charcos, transformou-se em imenso criadouro de mosquitos.

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Se fosse uma casa particular, as autoridades sanitárias chamariam a imprensa para ver a origem dos focos do mosquito transmissor da dengue e a aplicação da multa.  Mas como é uma área administrada pela prefeitura, nada.  No Brasil, o governo encontra-se acima da lei e alheio à Nação.  É imune às regras que se aplicam aos cidadãos e à iniciativa privada, inclusive no que se refere à gestão ambiental.  Alguém consegue imaginar uma indústria poluindo as lagoas como faz a CEDAE sem ser severamente punida pelas autoridades ambientais e processada pelo Ministério Público?

Então, falar em dragagem é tolice.  Uma tolice de agrado dos políticos, que adoram um pacote de medidas emergenciais mesmo quando os problemas e suas causas são velhos conhecidos.  Dragagem em ano eleitoral é mamão com açúcar – já que a medição é feita por metros cúbicos e dificilmente o fiscal estará no local na hora de calcular o volume retirado.  Dragagens abrem as portas para polpudas caixas dois, três, quatro e cinco. 

Novamente, nessas lagoas não há nada novo, nada imprevisto, nada emergencial: só descaso e omissão do poder público, que fala do assunto de modo a mascarar a própria irresponsabilidade.

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Tentar atribuir a degradação do ecossistema lagunar de Jacarepaguá à população pobre com base nas fotos de alguns sofás e pneus lançados em trechos onde há ocupações favelizadas é uma atitude mal intencionada.   Levar alguns ambientalistas mais ingênuos para coletar lixo das praias e lagoas na tentativa de ganhar uns votinhos é um deboche diante da agressão praticada pela CEDAE e da omissão do poder público.

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A decisão de mudar a denominação para Nova CEDAE faz lembrar que há muitos anos e em todos os estados os carros de polícia passaram a ser pintados com as cores da administração da vez, esvaziando qualquer noção de tradição dessas corporações.  As pinturas são cômicas, com cores espalhafatosas, e destinam-se a transformar esses carros em veículo de publicidade dos governadores.  No caso do governo federal, o logotipo do momento ainda tem ares mais carnavalescos, com tons de retardamento mental – “Brasil – Um País de Todos”.  E os símbolos da República que se danem.

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

10 comentários sobre “Barra da Tijuca – Degradação das Lagoas e Notícias Requentadas”

  1. Esta novela da poluição das lagoas da Barra já virou uma opereta de má qualidade.

  2. O artigo está ótimo! Ainda não tinha visto ninguém escrever ou dizer que o problema é da “Nova CEDAE”, que já foi da velha e pelo visto continua a mesma, agora com nova no nome mas com corpo de velha e ordinária.

  3. “Nova” CEDAE? E daí?…

    Mais uma das inumeráveis imoralidades explícitas.

  4. Essa questão remonta à década de 70, quando efetivamente iniciou-se a ocupação desordenada da Barra e a CEDAE (recém-criada já como cabide-mór de empreguismo) já se omitia em relação às suas obrigações como concessionária dos serviços públicos de água e esgotos., apesar de sempre cobrar da população local a tal taxa de esgoto sem ter o serviço em seu “plano de negócios”. HAhaha!!!!!!

    Quanto a esse negócio de Nova Cedae está me parecendo a mesma coisa que já fizeram o Carlos Minc, o secretário libertário(que coisa antiga) e o filho do vascaíno que é ministro – Sérgio Cabral -, que se tornou “ministro” do Tribunal de Contas do Município, cargo vitalícia (que fim de carreira lamentável jogando por terra todas as suas pseudo convicções socialistas e de luta contra os privilégios).

    O secretário “libertário”, que enfiava batatas nos canos de descarda dos ônibus, partiu para mais um projeto de vaidade pessoal fazendo aprovar a lei de criação do Instituto Estadual de Meio Ambiente – INEA, fundindo a FEEMA, a SERLA e o IEF). Ou seja, extinguiram 3 órgãos depauperados, “petetizarando-os” de cima a baixo (sem concurso público e cheiso da cargos-fantasmas), e repassaram atividades de Estado inerentes aos funcionários de carreira para funcionários terceirizados e pagos pela iniciativa privada. Criaram, assim, um monstro sem rumo, sem estrutura técnica e política suficiente para enquadrar a CEDAE e correlatas.

    Aliás, onde está o Ministério Publico nisso tudo? Nada a dizer sobre a contração de mais de 200 funcionários pela ou atraves da Federação das Indústria do Estado do Rio de Janeiro – FIRJAN, justamente para licenciar obras da prórpria indústria

  5. O artigo é atual e muito bom. O grande problema é antigo: as autoridades não toleram críticas, o que é uma atitude lastimável.

  6. De fato, não chegamos a ser uma nação? Que Nação? Onde vence o egoísmo e a visão de cerca de um palmo à frente não se pode falar em nação. A elite se sente bem olhando para o seu próprio umbigo e encontra-se acima das leis. A política se transoformou na negociação de interesses pessoais. Agir numa questão específica contra o responsável pelo dano apesar de ser o caminho óbvio vira uma “canseira”. Porém, pensar globalmente e agir localmente ainda é um bom lema; Apesar de todos os obstáculos, de toda a inércia, se desistirmos piora, ainda que pareça ser impossível piorar. No entanto, a tendência do povo inerte é não agir, sentar num bar, umas cervejas, suor, um jogo de cartas, um futebol, carnaval, depois Copa do Mundo, e a alienação. Talvez seja a mesma preguiça medíocre da elite política e econômica, e nada mais.

  7. Achei muuuito interesante o artigo!
    Estou cursando o 3º ano de vihilância sanitária e saúde ambiental na Fiocruz, e como defesa de monografia quero questionar a falta de tratamento do esgoto lançado ao mar pelo emissário submarino da Barra da Tijuca, mas precisava saber de onde começou essa história, além, é claro, da falta de decência com as lagoas!

    Resposta – A CEDAE acha que não havendo risco de transmissão de doença por via hídrica em meio salino, está tudo bem. Pouco se importa com a qualidade estética das praiias. Mais ou menos como acreditar que dá para ficar numa banheira de cocô desde que previamente pasteurizado.

    A licença originalmente emitida pela FEEMA para o emissário da Barra previa a estação de tratamento secundário, e depois a Constituição do Estado do Rio de Janeiro (1989) incorporou a exigência para todos os lançamentos de esgotos. NUNCA ninguém agiu para fazer cumprir a Constituição (exigindo, por exemplo, que a CEDAE apresentasse estudo para o tratamento dos esgotos in natura lançados através do emissário de Ipanema. Omissão total, agravada quando a ALERJ aprovou um projeto do deputado Noel de Carvalho que, servindo de moleque de recados do Palácio Guianabara (Garotinhos) e da CEDAE definiu, em lei, como tratamento secundário, algo totalmente diferente do que consta em qualquer manual de engenharia do mundo. (Na verdade, nem me lembro se era tratamento primário ou secundário, mas pouco importa, foi uma indecência).

    A FEEMA, ao longo dos últimos 20 anos, contribuiu de maneira decisiva para a “cagada” nas lagoas, ao exigir estações de tratamento compactas para os condomínios. Agiu um nome dos fabricantes desses equipamentos. Mesmo na hipótese remota de que essas estações funcionariam dentro das epsecificações – 45=5-% de remoção da carga orgânica, isso só adiou uma solução para o problema. Além do que, como tais estações não removem o fósforo (P), nutriente causador da eutroficação das lagoas, a situação deteriour-se até o ponto em que se encontra.

    O “projeto” atual da CEDAE não tem tratamento e, o que é pior, não tem metas de implantação da rede. E os caras ainda têm a cara de pau de falar que há “ligações clandestinas”. Se há, é porque a empresa gosta mais de um factóide multando um condomínio de ricos do que da fiscalização das conexões às redes coletoras onde as cooca, lentamente, a passos de cágado.

    Mas essa é a nomra. No Programa de Despoluição da Baía de Guanabara as ligações domiciiares não foram feitas ou são numercamente desprezíveis. Assim, lá estão as estações de tratamento que não tratam nada. Algo em torno de US$ 1 bilhão desperdiçados. E nada de auditorias, nem ambientais e nem do TCE.

  8. Muita propaganda e pouca ação. O que vemos é que o problema continua e apesar de anunciarem gastos milionários a situação das lagoas esta cade vez pior. Basta de propaganda, queremos ação. De nova, a CEDAE só tem o nome.

  9. O projeto de saneamento dessa área começou em 1986. Depois de um quarto de século, ainda não tem prazo para terminar. Nada de projetos executivos e de cronogramas; zero transparência! E, como coroamento da estupidez retrógrada, cassaram por decreto a licença ambiental de todas as estações de tratamento dos shoppings e condomínios em lugar de estimular o melhor tratamento e o reúso da água (bem mais barato do que a captação, adução e tratamento de mais água). A CEDAE é ponta de lança do atraso político-institucional no estado do Rio de Janeiro, do autoritarismo arrogante e mentiroso, do descaso com o meio ambiente. E ainda tem biólogo que faz ambientalismo de algibeira para vender consultoria tentando convencer os outros que os responsáveis são os condomínios e as “ligações clandestinas” – esse pretexto para tentar acobertar a incompetência e a omissão da estatal. Um sistema público de coleta é notoriamente mais barato e muito mais eficiente do que centenas de pequenas estações de tratamento instaladas e operadas isoladamente. Mas, o que importa a tal da realidade quando o que se quer mesmo é cafetinar o velho problema?

O que você pensa a respeito?