Monthly Archive for outubro, 2007

Rio de Janeiro – Cidade Lagoa e "Planejamento Urbano"

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Cidade lagoa
(Sebastião Fonseca e Cícero Nunes)

Essa cidade que ainda é maravilhosa
Tão cantada em verso e prosa
Deste o tempo da vovó

Tem um problema vitalício e renitente
Qualquer chuva causa enchente
Não precisa ser toró

Basta que chova mais ou menos meia hora
É batata, não demora
Enche tudo por aí

Toda cidade é uma enorme cachoeira
Que da praça da Bandeira
Vou de lancha a Catumbi

Que maravilha nossa linda Guanabara
Tudo enguiça, tudo para
Todo trânsito engarrafa

Quem tiver pressa seja velho ou seja moço
Entre n’água até o pescoço
E peça a Deus pra ser girafa

Por isso agora já comprei minha canoa
Pra remar nessa lagoa
Cada vez que a chuva cai

E se uma boa me pedir uma carona
Com prazer eu levo a dona
Na canoa do papai

A canção foi gravada, entre outros, pelo grande Moreira da Silva e, mais recentemente, por Monica Salmaso, em seu belíssimo álbum Iaiá.  Cidade Lagoa foi provavelmente composta na década de 50 ou início da década de 60.  Sebastião Fonseca, nascido em 1912, já fazia sucesso na década de 30, com  Carmen Miranda e Dircinha Batista; o seu apogeu veio na década de 40, quando suas composições foram gravadas por Nelson Gonçalves e por Francisco Alves.  Sebastião Fonseca também já fazia versos na década de 30.  Assim, fica evidente que as enchentes em nossa bela Cidade Lagoa são crônicas e resultam da total indiferença em relação às boas práticas de engenharia na área da infra-estrutura de drenagem de águas pluviais, como em tantas outras.

O bom humor expresso em Cidade Lagoa, patrimônio cultural intangível que notabilizou os cariocas, anda bastante esmaecido, não se mostrando capaz de superar os problemas vitalícios e renitentes, agora bem mais graves. 

Quando terminou a segunda guerra mundial, os americanos queriam simplesmente abandonar Colônia, totalmente devastada por bombardeios aéreos.  Diziam que o custo de sua reconstrução seria tão alto que sairia mais barato construir uma cidade nova, em outro lugar.  Konrad Adenauer, que não era otário e sabia o tamanho da fatura que os gringos mandariam após a guerra, simplesmente descartou a proposta com base no argumento de que os maiores investimentos haviam permanecido intactos simplesmente por estarem sob a terra: a infra-estrutura de abastecimento de água, coleta de esgotos e drenagem de águas pluviais.  Colônia é uma das mais antigas cidades européias, tendo sido fundada em 30 a.C pelos romanos.  Com a negativa de Helmut Kohl (Kohl em alemão significa Colônia), a cidade reconstruiu a sua catedral e o seu pequeno centro histórico, tonando-se uma das mais belas, modernas e dinâmicas cidades européias da atualidade.  E às margens de um rio Reno totalmente limpo, com marrecos e tudo.

No Brasil, os políticos não gostam nada de obras enterradas e têm apego à cafetinagem de obras suntuosas, visíveis, ainda quando inúteis, tais como mudar o “visual” dos quiosques da orla de Copacabana para o benefício de um único “grupo investidor”.

Redes de distribuição de água são parte da infra-estrutura indispensável à vida cotidiana, mas tardaram a ser implantadas nas favelas, onde até pouco tempo prevaleciam as bicas, os pontos de distribuição onde as pessoas iam buscar a água com suas latas.  Já essa história de redes de coleta de esgoto e de águas pluviais quase nunca estiveram entre as prioridades eleitorais.  E quando estiveram foi para construir estações de tratamento sem redes de coleta de esgotos.  Ou seja, construir a parte visível para os eleitores.  Em São Paulo, com Orestes Quércia, não foi diferente do Rio de Janeiro da última década.

No campo da drenagem, a pergunta é simples: existem planos diretores de macrodrenagem ao qual tenham se seguido planos de microdrenagem nos municípios da Região Mtropolitana do Rio de Janeiro?  Não.  As leis federais exigiram que municípios acima de certo porte tenham planos diretores urbanos e esses quase sempre se limitaram à ocupação das superfícies, o chamado zoneamento urbano, sem sequer considerar aspectos elementares do planejamento urbano como dimensionamento de sistemas viários que são função da densidade populacional em cada área das cidades.  Mesmo os novos planos diretores urbanos, feitos às pressas por determinação legal, não incluíram aspectos relacionados ao planejamento adequado da infra-estrutura de esgotamento sanitário e drenagem de águas pluviais.

Quando há um trecho de rua que alaga após alguns minutos de chuva e a população estrila, colocam-se manilhas de um diâmetro qualquer.  Se o caimento das manilhas converge para os mesmos pontos é outro assunto.  De remendo em remendo, chega-se ao remendão, à grande gambiarra da infra-estrutura urbana, igual àquela que berra aos olhos quando se olha para a fiação aérea.

E, como se não bastasse, os ”planos diretores” (só mesmo usando aspas) são periodicamente revistos para atender aos interesses dos poderosos da construção imobiliária.  O objetivo é sempre a mesmice simplória: aumentar o gabarito das edificações.  Isso ocorreu recentemente em Vargem Grande, no Rio de Janeiro, e ocorrerá em breve na cidade de São Paulo, poucos anos depois da última revisão do plano diretor com a qual muita gente relaxou e gozou.

O que ocorre, no entanto, é que, quando se aumenta a densidade populacional, é necessário ampliar a infra-estrutura de abastecimento de água e de esgotamento sanitário, e esses custos não são sequer estimados durante cômicas audiências públicas em que os políticos se revezam num falatório sem fim.  No final, aprova-se o que foi proposto, sem considerar os custos sociais da ampliação dessa infra-estrutura.  Mas, além disso, refazer a infra-estrutura depois que as ruas estão pavimentadas resulta num custo muito mais elevado, já que se faz necessário quebrar as ruas novamente, escavar, retirar o que lá estava.  Com esse custo adicional, faltam recursos para as obras nas áreas mais pobres, que deixam de se beneficiar dos investimentos públicos.  A mais-valia resultante desses investimentos é apropriada pelas grandes incorporadoras.

Ou seja, temos, aqui, oposto de Colônia: a infra-estrutura não existe ou é insuficiente e já se quer empilhar mais gente.  Helmut Kohl e os alemães certamente ficariam perplexos com o fato de serem utilizadas expressões como plano diretor ou planejamento urbano para denominar essa anarquia.

***

O saco de maldades desse tipo de “planejamento urbano” é de tal natureza que as empresas de água e esgoto não são sequer consultadas.  Elas que se danem.  Qualquer construtora pode ir lá e conseguir, no balcão, um certificado da “possibilidade de abastecimento”.  Torná-lo realidade é outro problema, para ser resolvido por outra administração.  Mas vale dizer que as prefeituras são cúmplices desse tipo de comportamento predatório quando delegam os serviços públicos de água e esgoto sem sequer se propor a exercer qualquer fiscalização.  E assim as ruas são quebradas periodicamente, gerando um custo social adicional sob a forma de grandes engarrafamentos de trânsito.

***

Mesmo nas cidades mais recentes dos países sérios, como Miami, não se constrói um prédio sequer sem audiência pública e a certeza de que existam vagas suficientes no distrito escolar da rede pública de ensino primário.  Ou seja, no bairro.  Distrito escolar é palavra desconhecida nos “planos diretores” das cidades brasileiras.  Em meio a gigantescos engarrafamentos, o tempo perdido entre as residências e as escolas contribui para que estas últimas sejam pouco atrativas para as crianças. 

CEDAE – Estiagem e Espaço Fugaz na Mídia

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Empresas sérias de serviços públicos de água e esgotos têm planos de contingência para situações inesperadas.  Assim, em países sérios, elas podem reportar às autoridades que há uma período de estiagem e é dado início à interrupção de várias atividades cujo consumo de água não é essencial, como a rega de jardins ou a lavagem de veículos.  Essas empresas interagem com órgãos públicos sérios, que têm planejamento de longo prazo, com balanços hídricos para cada microrregião indicando o crescimento da demanda e as disponiblidades de água em perídos de cheia e de seca.

O Brasil passa por um período de estiagem que levou um grande número de municípios do Nordeste e do Centro-Oeste a decretarem estado de emergência.  Também no Sudeste, no litoral de São Paulo, a falta d’água induziu os turistas a reduzirem a estada durante o feriadão.

Mas, no Rio de Janeiro, prevaleceu a manipulação política da estiagem e tentou-se atribuir a falta d’água em diversas cidades ao “roubo de água”.   O caminho entre a leviandade e o mais reles cinismo pode não ser tão longo nessas manifestações oportunistas de busca de um bode expiatório que dê aos eleitores incautos a sensação fugaz de que está em curso  importante mudança de atitude na gestão pública.  Apenas a usual politicagem.  Mas que a grande imprensa caia nessa arapuca deixa no ar a sensação de conivência com a farsa.

Qual é exatamente o percentual de “furto de água” sobre a vazão normal dos rios?  Seria essa a causa da falta ou escassez de água em cidades como Magé, onde residências de alguns bairros não recebem uma gota d’água há semanas e as pessoas começam a buscar a alternativa de poços que – segundo uma moradora – não fornecem uma água de boa qualidade, mas permite lavar roupa e louças?  O percentual do tal “furto de água” sobre a adução regular e a demanda não foi informado, já que a notícia foi resultado de um sobrevôo de helicóptero.  Quais os números das séries históricas de vazão nesses mananciais?  Os sistemas de medição de vazão dos rios do estado não estão operacionais?  Qual o balanço hídrico para esses sistemas de adução – isto é, a relação entre as vazões históricas mínimas e o crescimento da demanda?

Na verdade, o grande furto praticado no Brasil no campo da gestão dos recursos hídricos é a cobrança de uma taxa dos usuários que não reverte para o seu benefício ou para melhorias no trecho no rio ou na bacia hidrográfica, mas cai na vala comum do “Tesouro”. 

Uma empresa que perde algo em torno de 45% da água captada e produzida não merece qualquer credibilidade quando se trata de tentar acusar qualquer um por “furto de água”. 

Agora que a moda da “ligação clandestina de esgotos” passou e já não tem mais qualquer apelo para o jornalismo de baixa qualidade, tenta-se introduzir a moda do furto de água como forma de assegurar a exposição na mídia, ainda que fugaz. 

Conflitos entre diversos tipos de uso de águas existem no mundo há muito e, em países sérios, as instituições para resolvê-los foram criadas no início do século XX.  Lá, no entanto, as empresas de água e esgoto são prestadoras de serviços, não há as tais “perdas técnicas” (que deveriam ser chamadas por “perdas por falta de técnica”), os projetos de aumento da capacidade dos reservatórios são concebidos com antecedência e os programas de reuso e reutilização de água são uma constante.

Como se sabe, esses conflitos entre os vários usos de água tendem a aumentar.  Mas aqui, o populismo barato continua prevalecendo sobre o trabalho sério, com as bençãos da imprensa.   Aliás, qual é mesmo o planejamento para o abastecimento de água e esgotamento sanitário para os próximos 10 anos, nas áreas de concessão da empresa?

***

O diretor-executivo da Águas de Niterói, empresa privada, foi mais sensato ao declararar que “é preciso fiscalizar, dar educação ambiental e reflorestar”.   Mas educação ambiental é inútil se não houver, também, punição.  Como não há planos de contingência – já que o poder público é omisso -, mesmo em tempos de estiagem é comum ver pessoas lavando calçadas e carros, ou regando jardins mesmo nessas situações de emergência.

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A FEEMA descobriu o óbvio: a entrada em operação de um emissário submarino no qual é lançada uma fração desprezível do esgoto de um conjunto de bairros sem tratamento prévio não melhorou em absolutamente NADA as condições dos corpos d’água.  Se a CEDAE quisesse dar informações minimamente consistentes à população e à imprensa, já teria dado a todos o acesso a um medidor de vazão instalado na entrada do emissário.  Medidores desse tipo, com registro contínuo e automático de vazão são simples e baratos.  Quando se quer falar algum tipo de verdade, é claro.

Cianobactérias e Microcistinas – Visibilidade na Imprensa ou Trabalho Sério?

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Uma paranóia sobre a contaminação das águas do complexo lagunar de Jacarepaguá por microcistinas está sendo deliberadamente transmitida à imprensa para justificar uma nova interdição de pequeno trecho da praia da Barra da Tijuca.  Não há justificativa para tal iniciativa, exceto o deslocamento da atenção da população e da imprensa - da continuidade do despejo de esgotos nas lagoas para uma questionável sensação de que existe vontade política, com evidentes componentes exibicionistas, de transmitir a sensação de que algo de muito importante, corajoso, inovador está sendo feito na área ambiental.  Aos fatos!

Microcistinas são substâncias químicas produzidas por cianobactérias e que podem ser altamente tóxicas para plantas, animais e humanos.  Os efeitos das variantes de microcistinas sobre a saúde são variados em função do tipo e da toxidade, existindo muitas variantes.  Como as preocupações com o assunto aumentam no mundo inteiro, a Organização Mundial de Saúde – OMS, da ONU, vem produzindo diretrizes que, inicialmente, se concentraram sobre a presença de cianobactérias na água potável.  Tais diretrizes foram seguidas por outras, sobre a presença das cianobactérias na água utilizada para irrigação e nas fezes, em decorrência de muitos países utilizarem águas residuais para irrigação ou aquacultura.  Finalmente, vieram os estudos sobre os danos potenciais e das cianobactérias nas águas utilizadas para recreação por contato primário, isto é, basicamente o banho, em particular em lagos e lagoas de água doce.  O número de ocorrências de problemas de saúde decorrentes do contato primário em meio salino – água do mar – é relativamente desprezível.

De fato, a ocorrência de blooms de algas (reprodução excessiva) que incluem cianobactérias é muito mais comum em lagos, lagoas e reservatórios de água doce, em decorrência da contaminação e da eutroficação (excesso de nutrientes).

Os efeitos das variantes de microcistinas no meio ambiente ainda são pouco conhecidos, da mesma forma que o tempo de degradação em diferentes condições de pressão e temperatura, o tipo e a persistência da toxicidade após a sua decomposição etc. 

Dentre os casos reportados de danos à saúde pública pela presença de microcistinas, a contaminação da água de abastecimento público são os mais freqüentes.  O primeiro caso bem documentado ocorreu na Austrália em 1878. 

Microcistinas foram detectadas em virtualmente todas as amostras tomadas durante a ocorrência de blooms de algas nos EUA, na Europa, na Austrália, no Japão, na Suíça, na Suécia, na Dinamarca.  Mais recentemente, amostragens foram feitas na América do Sul, na África e na Ásia, indicando que a ocorrência de blooms de cianobactérias são comuns, podendo ocorrer com maior ou menor freqüência, e diferentes níveis de riscos para a saúde pública.  Um bloom de algas pode incluir a presença de cianobactérias tóxicas e não-tóxicas.

Microcistinas são bioacumulativas, isto é, acumulam-se na cadeia alimentar.  Devem ser evitados mexilhões provenientes de áreas com ocorrências de blooms de algas, mas nos países sérios a recomendação das autoridades em relação aos peixes é para que sejam removidas apenas as vísceras antes do consumo.

Novamente, os estudos epidemiológicos dos danos causados pela presença de cianotoxinas em seres humanos indicam que a maior freqüência ocorre quando a contaminação se dá na água potável.  Uma exceção se tornou no  caso mais importante - e mais escandaloso - de saúde pública e mortalidade causada por cianotoxinas: a contaminação da água utilizada na hemodiálise de pacientes em Caruaru, em Pernambuco.  No Brasil, também foram reportados 2.000 casos de gastroenterite decorrente do consumo de água do reservatório de Itaparica, na Bahia, em 1988, resultando em 88 mortes.

Há relatos de problemas de pele e indícios de efeitos gastrointestinais ou bronco-respiratórios (alérgicos) causados pelo banho na água do mar em áreas onde ocorriam blooms de algas.  Reações dérmicas mais fortes ocorreram em decorrência do contato com um tipo específico de cianobactérias – Lyngbya majuscula -, como resultado da acumulação dessas bactérias sob os trajes de banho.  No entanto, vale repetir, a maior parte ou a quase totalidade dos casos reportados se deram na recreação de contato primário durante a ocorrência de blooms de algas em lagos e lagoas e não em meio salino.

Assim, uma resposta séria ao problema das intoxicações ou reações alérgicas causadas pela presença de microcistinas teria que começar pelo monitoramento da água nos locais de captação e na água distribuída pela Nova CEDAE e outras empresas ou serviços municipais que atuam no setor, e não no interesse pela visibilidade para a mídia de pequenos trechos da praia interditados ao banho.  Essas medições são feitas com periodicidade variável em alguns reservatórios da SABESP – a estatal de águas e esgotos de São Paulo.  E os resultados são divulgados.

No Rio de Janeiro, quem é mesmo que monitora a qualidade da água distribuída pela CEDAE e a eficiência das estações de tratamento de esgostos, e segundo que critérios?

Fora isso, para falar na avaliação dos probemas potenciais de saúde pública nas lagoas da Barra e no trecho em que, durante a maré vazante, essa água flui para o mar, é melhor falar, também, no mesmo tipo de ocorrência na Lagoa Rodrigo de Freitas.  E com estudos feitos por gente da área de saúde pública, como a Fundação Instituto Osvaldo Cruz.

Zeca Linhares – Imagens da Baía de Guanabara

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“A Baía do Rio de Janeiro deve ser vista em ‘trajes de gala’.  É mais encantadora quando um verniz de atmosfera diáfana imprime às distâncias uma suave e maravilhosa beleza; quando o manto azul é de um azul perfeito.  (…)  Então, os ribeiros são prata, com as margens pintadas de alaranjado e cobre, ao se erguerem sobre as brancas areias ou encrustadas na floresta; então, as nuvens que passam formam ilhotas flutuantes, enquanto as suas sombras viagem pelas águas do mar interior, de um verde tão puro.”

Novamente, a citação de Sir Richard Burton, que muito viajou e escreveu sobre diversas regiões do mundo, inclusive o Brasil, onde veio em missão diplomática, mas também para examinar minas de ouro e diamante de interesse de empresas inglesas.  As publicações da Universidade de São Paulo que integram a coleção Reconquista do Brasil há muito se encontram esgotadas e merecem nova edição.

A citação não tem a intenção de despertar a nostalgia, mas serve apenas como introdução a mais um excelente trabalho do fotógrafo Zeca Linhares, que continua, persistente, desvendando aspectos da realidade que as pessoas e mesmo a grande imprensa frequentemente não gostam de ver ou mostrar, por já se encontrarem, todos, fartos dos excessos de miséria moral do poder público.

Recentemente, Zeca Linhares passou noites em pequenas embarcações de pescadores artesanais na Baia de Guanabara.  Por lá, o IBAMA, a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e forças policiais andaram, na última semana, em sua rotineira busca por espaço na imprensa.  Dessa vez com atividades de repressão à pesca ilegal.  À pesca ilegal dos muito pequenos, é claro, já que nada – absolutamente NADA - se faz contra as grandes embarcações – inclusive estrangeiras – que praticam pesca de arrasto de fundo,  destruindo a base da cadeia alimentar dos recursos pesqueiros, não muito distante da costa.

As fotos chocam.  A tendência das autoridades é colocar nos pobres a culpa do muito lixo jogado nos rios e na baia.  Omitem-se na provisão de serviços de coleta e disposição final de lixo.  Omitem-se quando intencionalmente fazem cair no esquecimento que depois de gastos cerca de R$ 2 bilhões no naufragado Programa de Despoluição da Baía de Guanabara, as grandes estações de tratamento continuam, há anos, sem funcionar.  Esquecem das auditorias que foram anunciadas nas campanhas eleitorais.  E saem em barqueatas carnavalescas para reprimir pequenas embarcações de pescadores que mal conseguem ganhar o mínimo para seu sustento.  A foto abaixo é de uma das canoas criminosas que atuam na Baia de Guanabara.

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Mas o que esses pequenos coletores de sobras trazem em suas canoas é uma mistura de muito lixo e pouco peixe ou camarão.  O lixo é mais abundante.

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Enfim, uma imagem das margens da Bia no Caju.  Essa área já foi conhecida como Ponta do Camarão.

zecacaju.jpg

 

E que não se diga que esses são problemas normais da urbanização.  A Austrália recuperou a Baia  de Sidney em poucos anos, quando se preparava para receber as Olimpíadas.  Barcelona removeu um porto semi-abandonado – como o do Rio de Janeiro – e reconstituiu as praias e o acesso ao mar, valorizando ainda mais a cidade.  Não se trata de nostalgia, mas de imagens fortes que dão ao poder público uma ISO 14.000 de incompetência na gestão.  Vale dizer que não se trata apenas desta ou daquela secretaria, mas do sistema.   Numa passagem do belíssimo filme Tropa de Elite, o narrador afirma: “o sistema não trabalha para resolver os problemas da sociedade, mas para resolver os problemas do próprio sistema”.

Parabéns, Zeca Linhares!  Será que alguém patrocinará a exposição dessas fantásticas fotos?  Ou as tais “zelites” do Rio de Janeiro – para usar a expressão brincalhona de Veríssimo – vão começar a acreditar que nunca neste estado um governo trabalhou tanto? 

***

As fotos, em preto e branco, foram feitas usando película.  Para o artigo, foram escolhidas aquelas que mostram a degradação da Baia da Guanabara.  Não se trata de buscar uma “estética da miséria”,  como a turma do Cinema Novo.  Há outras de grande beleza nessa mesma série, como em toda a prodigiosa obra artística de Zeca Linhares.

A Amazônia Já Era!

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“Mas o que continua sendo um mistério para mim é que, apesar de seu grande potencial, a América Latina permaneceu à margem da história ocidental.  E é desse modo, também, que está entrando no século 21.”   (Eric Hobsbawm)

 

Depois de uma boa viagem pelo exterior no papel de “mascate do etanol”, Lula anunciou que a produção de cana-de-açúcar será permitida na Amazônia.  A ressalva de que isso só ocorrerá “nas áreas já transformadas em pastagens” é apenas uma frase de efeito, já que a cada ano essas áreas se ampliam.  Como de hábito, a abúlica Marina Silva fingiu que não ouviu.

A referência ao etanol foi para que não restem dúvidas de quaquer tipo, já que o presidente não mencionou a produção do biodiesel a partir do babaçu e do dendê – esta última já uma realidade no estado do Pará, com amplos incentivos governamentais.  A produção de óleo de babaçu e de dendê poderia evitar despesas anuais de R$ 3,5 bilhões, que foi quanto custou o transporte de diesel para abastecer o parque de geração térmica da Amazônia em 2006.  Mas quem se importa com isso ou quem vai se atrever a mexer nesse vespeiro de interesses escusos?

Na Amazônia, à produção de etanol e biodiesel já se soma a presença de grandes corporações internacionais de papel e celulose.  A demanda por cavacos de madeira para uso na geração térmica de eletricidade na Europa também cresce rapidamente.  E, como se não bastasse, depois de um primeiro empréstimo irresponsável do Banco Mundial para uma rápida ampliação da criação e abate de gado bovino na Amazônia (Grupo Bertin), o Banco Interamericano e a Corporação Financeira Internacional - IFC (que é parte do Banco Mundial) já finalizam outros pacs na mesma linha da expansão da pecuária na região.  A competição por mais terras produtivas na Amazônia aumentará muito rapidamente e as chances da floresta são desprezíveis diante de tanto pragmatismo.  

Lula não fez qualquer referência à segurança alimentar na região.  Segurança alimentar e monoculturas extensivas são comprovadamente incompatíveis.  Mas quem se importa?  Segurança alimentar para ele é bolsa-família.

Lula, exatamente como FHC, é devoto do livre mercado e continua acreditando no crescimento econômico induzido de fora para dentro, isto é, à base de investimentos estrangeiros.  Os salamaleques à iniciativa privada não resolvem os problemas de educação pública de boa qualidade, a única forma possível de assegurar o acesso dos mais pobres a um melhor nível de renda.  Não há interesse e nem dinheiro do governo para isso.  Mas, certamente, a implantação da infra-estrutura para transportar esses novos produtos da região amazônica até os portos de saída correrá por conta dos cofres públicos. 

Lula voltou da Europa convencido dos temores internacionais de que a Amazônia se transforme numa grande expansão da fronteira agrícola e incorporou a tal da certificação ao seu discurso.  A certificação é excelente “para inglês ver”.  Não é por outra razão que o Forest Stewardship Council – FSC, que em tese certifica a origem das madeiras, foi criado na Inglaterra e passou a estabelecer “princípios e critérios universais e aplicáveis a todas as florestas do mundo”.  A divertida afirmação é repetida sem dó na página do Conselho Brasileiro de Manejo Florestal.  Bobagens para acalmar consciências dos eleitores europeus.

Lula já havia afirmado, no início de seu primeiro mandato, que a Amazônia não seria vista como um santuário.  E nisso demonstrou coragem.   Agora, pode dizer que nunca neste país qualquer intenção de gestão séria dos recursos naturais da Amazônia foi mandada às favas com tanto destemor.

Para a maioria da população da Amazônia, as restrições ao desmatamento sempre foram vistas como meros obstáculos ao crescimento econômico.  Para os ambientalistas de todos os calibres, o maior argumento contrário ao desmatamento sempre foi o o desconhecimento das dinâmicas desses ecossistemas, incluindo a vulnerabilidade dos solos e o regime de chuvas.  Muito pouco foi feito para que esse conhecimento avançasse e o desmatamento continuou – com algumas variações manipuláveis de taxas utilizadas nas comparações entre um ano e outro.  Na prática, não é mais possível esperar pelo conhecimento científico e o tal zoneamento econômico-ecológico, se feito, será apenas uma formalidade. 

Por outro lado, se os países desenvolvidos queriam realmente a Amazônia preservada, já deveriam, há muito, ter oferecido uma remuneração justa pelos “serviços ambientais” prestados pelas florestas nativas.  Não o fizeram e na verdade pouco se importam.  Agora, o grande cassino do livre mercado passa a prevalecer abertamente também na região, o que é bem melhor do que o discurso farsante que prevaleceu no passado.

Nas monoculturas, pouca geração de emprego; e na exportação, nenhum imposto para financiar educação, saúde básica ou habitação.  Fora o que, vale lembrar, quase toda a produção de etanol no Brasil está concentrada nas mãos de alguns poucos grupos e que a participação estrangeira nesse controle cresce rapidamente.  E ainda há quem se orgulhe disso.

***

Um importante passo em direção à correção das distorções do tal livre mercado seria a extinção do Banco Mundial e do Banco Interamericano de Desenvolvimento, mais benéficos às suas próprias burocracias do que aos países pobres.  Felizmente, os países sérios já estão fechando, aos poucos, as fontes de suprimento financeiro dessas instituições moralmente falidas.  Afinal, qual foi mesmo o país que se desenvolveu com o apoio do Banco Mundial e do Banco Interamericano de Desenvolvimento?