A Amazônia Já Era!

“Mas o que continua sendo um mistério para mim é que, apesar de seu grande potencial, a América Latina permaneceu à margem da história ocidental.  E é desse modo, também, que está entrando no século 21.”   (Eric Hobsbawm)

 

Depois de uma boa viagem pelo exterior no papel de “mascate do etanol”, Lula anunciou que a produção de cana-de-açúcar será permitida na Amazônia.  A ressalva de que isso só ocorrerá “nas áreas já transformadas em pastagens” é apenas uma frase de efeito, já que a cada ano essas áreas se ampliam.  Como de hábito, a abúlica Marina Silva fingiu que não ouviu.

A referência ao etanol foi para que não restem dúvidas de quaquer tipo, já que o presidente não mencionou a produção do biodiesel a partir do babaçu e do dendê – esta última já uma realidade no estado do Pará, com amplos incentivos governamentais.  A produção de óleo de babaçu e de dendê poderia evitar despesas anuais de R$ 3,5 bilhões, que foi quanto custou o transporte de diesel para abastecer o parque de geração térmica da Amazônia em 2006.  Mas quem se importa com isso ou quem vai se atrever a mexer nesse vespeiro de interesses escusos?

Na Amazônia, à produção de etanol e biodiesel já se soma a presença de grandes corporações internacionais de papel e celulose.  A demanda por cavacos de madeira para uso na geração térmica de eletricidade na Europa também cresce rapidamente.  E, como se não bastasse, depois de um primeiro empréstimo irresponsável do Banco Mundial para uma rápida ampliação da criação e abate de gado bovino na Amazônia (Grupo Bertin), o Banco Interamericano e a Corporação Financeira Internacional – IFC (que é parte do Banco Mundial) já finalizam outros pacs na mesma linha da expansão da pecuária na região.  A competição por mais terras produtivas na Amazônia aumentará muito rapidamente e as chances da floresta são desprezíveis diante de tanto pragmatismo.  

Lula não fez qualquer referência à segurança alimentar na região.  Segurança alimentar e monoculturas extensivas são comprovadamente incompatíveis.  Mas quem se importa?  Segurança alimentar para ele é bolsa-família.

Lula, exatamente como FHC, é devoto do livre mercado e continua acreditando no crescimento econômico induzido de fora para dentro, isto é, à base de investimentos estrangeiros.  Os salamaleques à iniciativa privada não resolvem os problemas de educação pública de boa qualidade, a única forma possível de assegurar o acesso dos mais pobres a um melhor nível de renda.  Não há interesse e nem dinheiro do governo para isso.  Mas, certamente, a implantação da infra-estrutura para transportar esses novos produtos da região amazônica até os portos de saída correrá por conta dos cofres públicos. 

Lula voltou da Europa convencido dos temores internacionais de que a Amazônia se transforme numa grande expansão da fronteira agrícola e incorporou a tal da certificação ao seu discurso.  A certificação é excelente “para inglês ver”.  Não é por outra razão que o Forest Stewardship Council – FSC, que em tese certifica a origem das madeiras, foi criado na Inglaterra e passou a estabelecer “princípios e critérios universais e aplicáveis a todas as florestas do mundo”.  A divertida afirmação é repetida sem dó na página do Conselho Brasileiro de Manejo Florestal.  Bobagens para acalmar consciências dos eleitores europeus.

Lula já havia afirmado, no início de seu primeiro mandato, que a Amazônia não seria vista como um santuário.  E nisso demonstrou coragem.   Agora, pode dizer que nunca neste país qualquer intenção de gestão séria dos recursos naturais da Amazônia foi mandada às favas com tanto destemor.

Para a maioria da população da Amazônia, as restrições ao desmatamento sempre foram vistas como meros obstáculos ao crescimento econômico.  Para os ambientalistas de todos os calibres, o maior argumento contrário ao desmatamento sempre foi o o desconhecimento das dinâmicas desses ecossistemas, incluindo a vulnerabilidade dos solos e o regime de chuvas.  Muito pouco foi feito para que esse conhecimento avançasse e o desmatamento continuou – com algumas variações manipuláveis de taxas utilizadas nas comparações entre um ano e outro.  Na prática, não é mais possível esperar pelo conhecimento científico e o tal zoneamento econômico-ecológico, se feito, será apenas uma formalidade. 

Por outro lado, se os países desenvolvidos queriam realmente a Amazônia preservada, já deveriam, há muito, ter oferecido uma remuneração justa pelos “serviços ambientais” prestados pelas florestas nativas.  Não o fizeram e na verdade pouco se importam.  Agora, o grande cassino do livre mercado passa a prevalecer abertamente também na região, o que é bem melhor do que o discurso farsante que prevaleceu no passado.

Nas monoculturas, pouca geração de emprego; e na exportação, nenhum imposto para financiar educação, saúde básica ou habitação.  Fora o que, vale lembrar, quase toda a produção de etanol no Brasil está concentrada nas mãos de alguns poucos grupos e que a participação estrangeira nesse controle cresce rapidamente.  E ainda há quem se orgulhe disso.

***

Um importante passo em direção à correção das distorções do tal livre mercado seria a extinção do Banco Mundial e do Banco Interamericano de Desenvolvimento, mais benéficos às suas próprias burocracias do que aos países pobres.  Felizmente, os países sérios já estão fechando, aos poucos, as fontes de suprimento financeiro dessas instituições moralmente falidas.  Afinal, qual foi mesmo o país que se desenvolveu com o apoio do Banco Mundial e do Banco Interamericano de Desenvolvimento?

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

2 comentários sobre “A Amazônia Já Era!”

  1. Continuamos sem quaquer luz no fim do túnel em relação a uma política ambiental séria para a Amazônia, algo que com em conhecimentos científicos possa extrair dela os benefícios econômicos que o povo lúcido deste país espera.

  2. Ess é um diagnostico assustador – perfeitamente retratado no titulo do artigo -, mas ao mesmo tempo bastante verossimil. Se um problema tão grave e imediato quanto a segurança pública nao recebe dos governos a atencao e o investimento necessarios, o que se dirá do desmatamento da Amazônia. E a exploração econômica burra da floresta ainda dá margem a argumentos como “serao gerados recursos para o resgate da nossa imensa divida social”.

O que você pensa a respeito?