Zeca Linhares – Imagens da Baía de Guanabara

“A Baía do Rio de Janeiro deve ser vista em ‘trajes de gala’.  É mais encantadora quando um verniz de atmosfera diáfana imprime às distâncias uma suave e maravilhosa beleza; quando o manto azul é de um azul perfeito.  (…)  Então, os ribeiros são prata, com as margens pintadas de alaranjado e cobre, ao se erguerem sobre as brancas areias ou encrustadas na floresta; então, as nuvens que passam formam ilhotas flutuantes, enquanto as suas sombras viagem pelas águas do mar interior, de um verde tão puro.”

Novamente, a citação de Sir Richard Burton, que muito viajou e escreveu sobre diversas regiões do mundo, inclusive o Brasil, onde veio em missão diplomática, mas também para examinar minas de ouro e diamante de interesse de empresas inglesas.  As publicações da Universidade de São Paulo que integram a coleção Reconquista do Brasil há muito se encontram esgotadas e merecem nova edição.

A citação não tem a intenção de despertar a nostalgia, mas serve apenas como introdução a mais um excelente trabalho do fotógrafo Zeca Linhares, que continua, persistente, desvendando aspectos da realidade que as pessoas e mesmo a grande imprensa frequentemente não gostam de ver ou mostrar, por já se encontrarem, todos, fartos dos excessos de miséria moral do poder público.

Recentemente, Zeca Linhares passou noites em pequenas embarcações de pescadores artesanais na Baia de Guanabara.  Por lá, o IBAMA, a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e forças policiais andaram, na última semana, em sua rotineira busca por espaço na imprensa.  Dessa vez com atividades de repressão à pesca ilegal.  À pesca ilegal dos muito pequenos, é claro, já que nada – absolutamente NADA – se faz contra as grandes embarcações – inclusive estrangeiras – que praticam pesca de arrasto de fundo,  destruindo a base da cadeia alimentar dos recursos pesqueiros, não muito distante da costa.

As fotos chocam.  A tendência das autoridades é colocar nos pobres a culpa do muito lixo jogado nos rios e na baia.  Omitem-se na provisão de serviços de coleta e disposição final de lixo.  Omitem-se quando intencionalmente fazem cair no esquecimento que depois de gastos cerca de R$ 2 bilhões no naufragado Programa de Despoluição da Baía de Guanabara, as grandes estações de tratamento continuam, há anos, sem funcionar.  Esquecem das auditorias que foram anunciadas nas campanhas eleitorais.  E saem em barqueatas carnavalescas para reprimir pequenas embarcações de pescadores que mal conseguem ganhar o mínimo para seu sustento.  A foto abaixo é de uma das canoas criminosas que atuam na Baia de Guanabara.

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Mas o que esses pequenos coletores de sobras trazem em suas canoas é uma mistura de muito lixo e pouco peixe ou camarão.  O lixo é mais abundante.

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Enfim, uma imagem das margens da Bia no Caju.  Essa área já foi conhecida como Ponta do Camarão.

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E que não se diga que esses são problemas normais da urbanização.  A Austrália recuperou a Baia  de Sidney em poucos anos, quando se preparava para receber as Olimpíadas.  Barcelona removeu um porto semi-abandonado – como o do Rio de Janeiro – e reconstituiu as praias e o acesso ao mar, valorizando ainda mais a cidade.  Não se trata de nostalgia, mas de imagens fortes que dão ao poder público uma ISO 14.000 de incompetência na gestão.  Vale dizer que não se trata apenas desta ou daquela secretaria, mas do sistema.   Numa passagem do belíssimo filme Tropa de Elite, o narrador afirma: “o sistema não trabalha para resolver os problemas da sociedade, mas para resolver os problemas do próprio sistema”.

Parabéns, Zeca Linhares!  Será que alguém patrocinará a exposição dessas fantásticas fotos?  Ou as tais “zelites” do Rio de Janeiro – para usar a expressão brincalhona de Veríssimo – vão começar a acreditar que nunca neste estado um governo trabalhou tanto? 

***

As fotos, em preto e branco, foram feitas usando película.  Para o artigo, foram escolhidas aquelas que mostram a degradação da Baia da Guanabara.  Não se trata de buscar uma “estética da miséria”,  como a turma do Cinema Novo.  Há outras de grande beleza nessa mesma série, como em toda a prodigiosa obra artística de Zeca Linhares.

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

7 comentários em “Zeca Linhares – Imagens da Baía de Guanabara”

  1. Foi com muito prazer que tomei conhecimento deste seu trabalho. Tenho lhe ouvido sempre nas manhãs de minha vinda para a Feema na na BandRio FM, às terças-feiras.

  2. Zeca, cadê o dinheiro dos japoneses? Aqueles milagrosos amigos amarelos que financiaram a limpeza da Baía da Guanabara?

    Meu caro João Pedro,

    O dinheiro dos japas foi 1/3. Outra parte, do BID. E outra de nossos impostos mesmo. Algo em torno de US$ 1 bilhão. O gato comeu o dinheiro! Cadê o gato?

  3. Zeca (Zequinha)

    Procurando imagens de praias do Rio de Janeiro, encontrei essas fotos do grande fotógrafo e poeta!

    Parabéns,

    Maria Augusta (Augustinha)

  4. Parabéns pelo trabalho!!! Aqui em Ubatuba estamos na mesmo luta!!

    abraço

  5. Meu professor na Faculdade da Cidade, Zeca Linhares apresentava aos alunos o melhor da fotografia e nos convidava a buscar o olhar único sobre determinado conteúdo e a se expressar. Aprendi muito com ele.

O que você pensa a respeito?