CEDAE – Estiagem e Espaço Fugaz na Mídia

Empresas sérias de serviços públicos de água e esgotos têm planos de contingência para situações inesperadas.  Assim, em países sérios, elas podem reportar às autoridades que há uma período de estiagem e é dado início à interrupção de várias atividades cujo consumo de água não é essencial, como a rega de jardins ou a lavagem de veículos.  Essas empresas interagem com órgãos públicos sérios, que têm planejamento de longo prazo, com balanços hídricos para cada microrregião indicando o crescimento da demanda e as disponiblidades de água em perídos de cheia e de seca.

O Brasil passa por um período de estiagem que levou um grande número de municípios do Nordeste e do Centro-Oeste a decretarem estado de emergência.  Também no Sudeste, no litoral de São Paulo, a falta d’água induziu os turistas a reduzirem a estada durante o feriadão.

Mas, no Rio de Janeiro, prevaleceu a manipulação política da estiagem e tentou-se atribuir a falta d’água em diversas cidades ao “roubo de água”.   O caminho entre a leviandade e o mais reles cinismo pode não ser tão longo nessas manifestações oportunistas de busca de um bode expiatório que dê aos eleitores incautos a sensação fugaz de que está em curso  importante mudança de atitude na gestão pública.  Apenas a usual politicagem.  Mas que a grande imprensa caia nessa arapuca deixa no ar a sensação de conivência com a farsa.

Qual é exatamente o percentual de “furto de água” sobre a vazão normal dos rios?  Seria essa a causa da falta ou escassez de água em cidades como Magé, onde residências de alguns bairros não recebem uma gota d’água há semanas e as pessoas começam a buscar a alternativa de poços que – segundo uma moradora – não fornecem uma água de boa qualidade, mas permite lavar roupa e louças?  O percentual do tal “furto de água” sobre a adução regular e a demanda não foi informado, já que a notícia foi resultado de um sobrevôo de helicóptero.  Quais os números das séries históricas de vazão nesses mananciais?  Os sistemas de medição de vazão dos rios do estado não estão operacionais?  Qual o balanço hídrico para esses sistemas de adução – isto é, a relação entre as vazões históricas mínimas e o crescimento da demanda?

Na verdade, o grande furto praticado no Brasil no campo da gestão dos recursos hídricos é a cobrança de uma taxa dos usuários que não reverte para o seu benefício ou para melhorias no trecho no rio ou na bacia hidrográfica, mas cai na vala comum do “Tesouro”. 

Uma empresa que perde algo em torno de 45% da água captada e produzida não merece qualquer credibilidade quando se trata de tentar acusar qualquer um por “furto de água”. 

Agora que a moda da “ligação clandestina de esgotos” passou e já não tem mais qualquer apelo para o jornalismo de baixa qualidade, tenta-se introduzir a moda do furto de água como forma de assegurar a exposição na mídia, ainda que fugaz. 

Conflitos entre diversos tipos de uso de águas existem no mundo há muito e, em países sérios, as instituições para resolvê-los foram criadas no início do século XX.  Lá, no entanto, as empresas de água e esgoto são prestadoras de serviços, não há as tais “perdas técnicas” (que deveriam ser chamadas por “perdas por falta de técnica”), os projetos de aumento da capacidade dos reservatórios são concebidos com antecedência e os programas de reuso e reutilização de água são uma constante.

Como se sabe, esses conflitos entre os vários usos de água tendem a aumentar.  Mas aqui, o populismo barato continua prevalecendo sobre o trabalho sério, com as bençãos da imprensa.   Aliás, qual é mesmo o planejamento para o abastecimento de água e esgotamento sanitário para os próximos 10 anos, nas áreas de concessão da empresa?

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O diretor-executivo da Águas de Niterói, empresa privada, foi mais sensato ao declararar que “é preciso fiscalizar, dar educação ambiental e reflorestar”.   Mas educação ambiental é inútil se não houver, também, punição.  Como não há planos de contingência – já que o poder público é omisso -, mesmo em tempos de estiagem é comum ver pessoas lavando calçadas e carros, ou regando jardins mesmo nessas situações de emergência.

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A FEEMA descobriu o óbvio: a entrada em operação de um emissário submarino no qual é lançada uma fração desprezível do esgoto de um conjunto de bairros sem tratamento prévio não melhorou em absolutamente NADA as condições dos corpos d’água.  Se a CEDAE quisesse dar informações minimamente consistentes à população e à imprensa, já teria dado a todos o acesso a um medidor de vazão instalado na entrada do emissário.  Medidores desse tipo, com registro contínuo e automático de vazão são simples e baratos.  Quando se quer falar algum tipo de verdade, é claro.

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

3 comentários sobre “CEDAE – Estiagem e Espaço Fugaz na Mídia”

  1. Lendo o jornal diariamente entro em contato com várias matérias que me remetem a uma preocupação com o meio ambiente. Artigos que falam de empresas que poderiam e deveriam gerenciar os problemas destacados. Através destas matérias publicadas surge uma eterna interrogação: – Qual seria a melhor proposta para se buscar uma solução adequada? Não muitas pessoas poderiam se capacitar para tanto e o resto do mundo que tem um interesse verdadeiro que se encontre uma solução fica aguardando e mais uma vez aguardando.

    Mas fugindo um pouco desta esperança de uma solução por parte de alguem capaz, preocupo-me tambem com a alienação das pessoas e a falta de engajamento em situações tão simples como o desperdício de água e energia, com a falta de participação no serviço de coleta seletiva, com a falta de espírito comunitário, com o desrespeito com a limpeza urbana e muito mais. Assim como devemos cobrar soluções dos governos etc deveriamos tambem cobrar nem que seja uma pequena colaboração de todos.

  2. Creio que a situação é grave mesmo, e que, em que pese a responsabilidade das autoridades, há que se criar certa conscientização sobre o uso adequado dessa maravilhosa, necessária e vital substância.

  3. A falta de água no Rio de Janeiro é coisa muito séria. E envolve um ser oculto: a Light. Dentre outros reservatórios, a Light mantém dois, na região Piraí/Barra
    do Piraí. São os reservatórios de Santana e Santa Cecília. Tais reservatórios (que hoje pouco reservam, pois estão assoreados e em processo permanente de assoreamento, servem exclusivamente para a derivação das águas do ex-Rio Piraí e do sofrido Rio Paraiba. É claro que o assoreamento decorre de várias causas. Destaco duas que são de responsabilidade exclusiva da própria Light. A primeira, quase impossível de ser corrigida, diz respeito à época da implantação desse complexo de captação. A desapropriação foi curta. Não foram desapropriadas como deveriam as “faixas ciliares” em torno dos lagos. Isso pode ter ocorrido com a desculpa de reduzir custos. A segunda, sem desculpas, porque depende de se efetuarem dragagens periódicas, o que é possível do ponto de vista técnico e financeiro. O que a Light tem feito é uma “enganação” em termos de dragagem, pois limita-se ao lago de Santana (que se mostra ao longo da estrada Piraí/Barra do
    Piraí) e o serviço é de retirar algumas plantas que nascem no leito do lago. Quem passa pela estrada, imagina (e apenas imagina) que aquelas máquinas com rodas d’água estejam fazendo dragagem. Não estão. Conclusão: reservatórios assoreados, menos água acumulada. Menos água acumulada, mais derivação de água do rio. Mais derivação de água do rio, rio mais seco. Por outro lado, reservatório assoreado, menor capacidade de acumulação para abastecimento nos períodos de estiagem. Menor capacidade de acumulação de água, menor capacidade de controlar enchentes. Incapacidade de controle de enchente, inundação de áreas indesejáveis. Essa é uma situação que continua a se agravar.

O que você pensa a respeito?