Afinal, Quem Estamos Enganando?

“Afinal, quem estamos enganando?”.  A pergunta foi feita por Auden Schendler, um dos precursores da responsabilidade ambiental das empresas, assunto que lhe rendeu prêmios e muito dinheiro, quando percebeu que seus primeiros esforços nessa área não tiveram nenhuma conseqüência ou tiveram conseqüências negativas.  Auden trabalhou diretamente com o brilhante físico Amory Lovins, fundador do Rocky Mountain Institute, de onde saíram muitas das melhores soluções na área de eficiência energética.  E ambos sabiam que a grande publicidade em torno da tal responsabilidade ambiental das empresas de esqui de Aspen já tinha se tornado  feitiço contra o feiticeiro por resultar na atração de um público muito maior.  Mesmo com todas as medidas de eficiência energética adotadas e amplamente divulgadas para fins de publicidade, o consumo de energia subira rapidamente, tanto quanto a demanda por neve artificial.  Hoje, ambos, Auden e Amory, sabem que a responsabilidade ambiental das empresas tem mais objetivos publicitários do que resultados concretos.

Na mesma linha de pensamento, Ricardo Neves escreveu recentemente um divertidíssimo artigo onde parte da hipótese de que Dunga tenha que abandonar critérios ténicos para convocar a seleção e adotar critérios política e ambientalmente corretos: cotas étnicas e também para gays, o gramado dos estádios devendo ser feito com gramas nativas e os deslocamentos da seleção incluindo um troco para as certificadoras de emissões de carbono.  A brincadeira, enfatiza o autor, destina-se a chamar a atenção para o fato de que o objetivo fundamental das empresas é o lucro.

“A história das corporações de negócios tem mostrado que são justamente as mais controversas empresas as que mais levantam o argumento da responsabilidade social corporativa.  As petroleiras, a indústria do tabaco, as cadeias de fast-food, megaempresas que esmagam a concorrência e destróem a fina tessitura urbana  onde se instalam – essas são seguramente as que gastam os maiores orçamentos em ações e atividades de propaganda, publicidade, relações públicas e marketing de relacionamento.  Não sejamos cínicos.  Isso acaba sendo uma atitude construída para dizer à sociedade: olha, somos grandes e lucrativos, mas não somos tão maus quanto parecemos.”

De fato, são bem piores do que parecem e jamais divulgarão que percentual de seus lucros aplicam em responsabilidade social e ambiental e que percentual desse valor vai para o puro marketing da atividade de responsabilidade ambiental.  Isso, sem falar nos benefícios fiscais.  Ou nas trocas de multas por compensações ambientais de interesse exclusivo dos órgãos governamentais de meio ambiente, frequentemente mal disfarçando os interesses eleitorais daqueles que ocupam cargos políticos nesses órgãos.

Se querem, mesmo, apresentar balanços transparentes de sua responsabilidade social e ambiental, é imprescindível deixar claros os indicadores acima citados.

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A referência aos danos “à fina tessitura urbana” provocada por essas empresas que tanta publicidade fazem de suas atividades na área de responsabilidade social e ambiental trás à mente a uma prática verdadeiramente daninha da Petrobras Distribuidora: a colocação de postos de abastecimento em áreas públicas, em particular em canteiros centrais das vidas públicas, até mesmo na orla marítima.  A BR vai dizer que ela apenas cede a bandeira.  Escapismo.  Que pare, então, de ceder a sua bandeira para esse tipo de iniciativa, que além de prejudicar o trânsito e agredir a paisagem urbana, distorce o mercado.  Alguém já se perguntou por que só ou quase exclusivamente a Petrobras consegue essas facilidades?

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Numa iniciativa tão truculenta e autoritária quanto inútil, o governador Sergio Cabral promulgou uma lei de sua própria iniciativa obrigando as empresas que prestam serviços de acesso público à internet (lan houses) a requerer, anotar e manter em arquivo as informações referentes à identidade dos usuários, bem como data, horário e identificação do terminal em que foi feito o acesso.  Nessa linha de raciocínio – se é que há, aí, algum vestígio de raciocínio -, seria interessante fazer o mesmo em locais que disponibilizam ao público terminais de telefonia convencional.  Ou colocar câmeras fotográficas nos orelhões!.  Como a internet também é um meio de comunicação, vale perguntar se a lei não viola o princípio constitucional da privacidade nessa área.

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

One thought on “Afinal, Quem Estamos Enganando?”

  1. A questao ambiental agora é o grande mote das ações de marketing. Mas é apenas marketing mesmo, em muitos casos. A Ipiranga tem uma campanha sobre a qualidade do ar dizendo que se você abastecer o carro com o cartão Ipiranga a empresa vai plantar árvores para neutralizar a emissão de carbono dos nossos carros (veja que bondade, eles se propõem a resolver o problema que criamos ao nos locomover).

    Ora, na verdade a campanha nao resiste a uma análise óbvia. Se eles querem plantar árvores, neutralizar carbono e ser responséveis, podem plantar independente da gente abastecer. Até porque são eles vivem de vender derivados do petróleo. Condicionar este plantio ao nosso consumo é uma evidência de que não é a consciencia ambiental que motiva a empresa. Um bom motivo para desconfiarmos que não plantarão árvores coisa nenhuma.

O que você pensa a respeito?