Monthly Archive for dezembro, 2007

Biodiesel e Outras Boas Notícias de Ano Novo

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Ainda com o fracasso do encontro de Bali, há diversas boas notícias de ano novo para os que se preocupam com as mudanças climáticas.  Entre elas, o fato do Brasil iniciar a comercialização obrigatória de B-2 (uma mistura de 2% de óleos vegetais ao diesel fóssil).

Nos EUA, que todos dizem serem os mais reticentes em relação ao controle da emissão de gases causadores de efeito estufa, o ano de 2007 se encerra com centenas de postos de distribuição de B-20 e de B-100.  O B-100 requer pequenas adaptações nos motores e é mais frequentemente utilizado em frotas cativas.  A localização dos postos de abastecimento pode ser obtida na página do ministério da energia do governo norte-americano, em www.eere.energy.gov/afdc/fuels/biodiesel_locations.html, com mapa, endereço e tudo o mais.  Lá, o uso do B-20 e do B-100 é facultativo, mas são grandes e sólidos os estímulos fiscais.

Os EUA fecharam 2007 tendo substituído por biodiesel mais de 1% de seu consumo total de diesel fóssil.  Estão, assim, mexendo na matriz energética sem empurrar combustíveis goela abaixo dos consumidores, mas dando estímulos para que o mercado se regule.

Os EUA também avançam rapidamente nas pesquisas de produção de etanol de segunda geração, a partir dos resíduos vegetais.  Um relatório sobre esse tipo de etanol está disponível na página do Laboratório Nacional de Energia Renovável – NREL (na sigla em inglês), em www.nrel.gov/bioamass, e um vídeo sobre a planta-piloto de produção pode ser visto em www.nrel.gov/learning/re-biofuels.html (ambos apenas em inglês).

Lá, há espaço para discordar do núcleo central do governo, mesmo dentro do governo.  A diversidade de idéias é fundamental para o dinamismo econômico.

Feliz Ano Novo!

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Com os novos contratos feitos na Califórnia, os EUA terão, em breve, o maior parque de geração fotovoltaica (eletricidade a partir da energia solar) do mundo.  A meta do governo republicano de Schawarzennegger é chegar a 2030 com 30% de energia proveniente das fontes renováveis.  Isso, para não falar dos ganhos de eficiência, que fazem com que a Califórnia tenha conseguido manter os mesmos níveis de consumo de energia ao longo dos últimos 25 anos.  A China tornou-se provavelmente no maior usuário mundial de aquecimento de água por energia solar, o que se reflete, também, em economias de geração de energia por fontes de geração. 

Geração de Resíduos e a Febre de Presentes-Embalagens

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Em sua mensagem natalina, o papa Bento XVI deu um recado meia-boca para os católicos e criticou “o uso abusivo dos recursos naturais, sua exploração egoísta e sem precaução alguma”.  Parou por aí.  Nenhuma referência a responsabilidades por esse uso abusivo.

No mesmo dia 24, representantes governamentais da Inglaterra divulgaram estimativas de geração de 3 milhões de toneladas adicionais de lixo no país em decorrência do fato de 3/4 dos brinquedos infantis serem nada mais do que embalagens de plástico e papelão.  No pior caso avaliado, o peso da embalagem foi cinco vezes maior do que o do brinquedo.    A iniciativa foi dos conselhos de várias cidades (correspondentes às nossas câmaras municipais) que pediram providências às autoridades encarregadas de estabelecer padrões para o comércio de produtos.  Um representante da agência de padrões comerciais do Condado de Lancashire declarou-se chocado com o resultado da avaliação.  Representantes dessas agências regulatórias estão notificando os fabricantes de brinquedos de que os excessos de embalagem sobrecarregam os aterros sanitários e contribuem para as mudanças climáticas.  A avaliação de um Peter Pan da Disney mostrou a presença de 270 gramos de embalagem para 109 gramos de brinquedo.  Onde é mesmo que está a tal da responsabilidade social e ambiental da Disney?

As autoridades inglesas estimam que as festas natalinas geram, também, como resíduos, 750 milhões de garrafas e 500 milhões de latas adicionais.

A seis horas de vôo de Londres pode-se pousar em Serra Leoa, o país que ocupa a pior posição mundial entre 177 países no que se refere ao Índice de Desenvolvimento Humano – IDH .  Aí, a taxa de mortalidade materna é de 1 para 6 nascimentos, contra 1 para 3.800 na Inglaterra.  A lista de misérias seria demasiadamente longa, da mesma forma que a lista de soluções simples, como vacinação.  No Brasil, 60% das crianças que escreveram para Papai Noel e colocaram as cartas nos Correios de Pernambuco ainda pediram comida.

O recado de Bento XVI poderia ter sido mais claro.  Não deve ser genérica a crítica a exploração sem precauções e egoísta de recursos ambientais.  Mas há que se reconhecer que é bem difícil mandar uma mensagem natalina diante desse contraste, da mesma forma que se torna questionável até mesmo o uso da palavra humanidade.  Parabéns às autoridades dos condados inglêses que não hesitaram em fazer e em divulgar a pesquisa sobre os abusos da indústria de embalagens sob a alegação de que desejavam perturbar o espírito natalino!

Uma política pública para embalagens já é mais do que devida.  As embalagens para “enfeitar o pavão” têm um custo para os consumidores, um custo social – representado pelos gastos com a coleta, o transporte e a disposição final de lixo – e um custo ambiental.  Onde a tal responsabilidade social e ambiental das empresas que vendem esses produtos?

A simples obrigatoriedade de que o peso da embalagem conste da mesma ao lado do peso do produto pode ser um primeiro passo.  Ao mesmo tempo, uma avaliação dos custos da embalagem e do produto embalado seria no mínimo divertida, já que a febre de consumo no Natal é frequentemente vista como um sinal positivo de abundância e riqueza.  Esse seria um belo presente de Natal das autoridades ambientais para o modelo de produção que deveria ser orientado pelo tão badalado desenvolvimento sustentável.
 

Dom Luiz Flávio Cappio – Água Para Quem Trabalha a Terra

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A persistência de Dom Luiz Flávio Cappio pegou o governo com as calças nas mãos.  Lula respondeu com truculência balofa.  Nos bastidores, o governo terminou aceitando ampliar o programa de construção de cisternas coordenado pela Articulação do Semi-Árido – ASA (www.asabrasil.org.br), criada em 1999.  Foi o mínimo, considerado o alheamento do poder público a essa demanda básica, elementar.

Alguns tentam apresentar Dom Luiz como um radical, mas pouco ou nada se divulga sobre as suas razões, mesmo quando as notícias recentes sobre a falta d’água na região sejam no mínimo preocupantes.

De fato, o que obrigou o governo a acionar as termelétricas no nordeste foi a acentuada queda nos niveis de água no reservatório de Sobradinho, que fez com que grande parte das cidades nas proximidades do lago tivessem que passar a ser abastecidas por carros-pipa.  Nas últimas semanas, a imprensa estimou que cerca de 176.000 ficaram sem abastecimento de água.  Mas esse número é muito maior, já que algumas dessas cidades nunca tiveram abastecimento de água, como descrito em artigo publicado neste blog em 2006, artigo que já incluiu a foto abaixo, tirada num período em que Sobradinho estava com a sua capacidade máxima de armazenamento de água.

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Não de uma imagem de um “povoado”, mas de uma pequena cidade no oeste da Bahia – Campo Alegre de Lourdes, com cerca de 30.000 habitantes.  Não se trata, tampouco,de um imagem de tempos passados, mas de 2006, em pleno século XXI.  Lá, a água era recolhida em “barreiros” – locais onde a água de chuva se acumula (inclusive num “barreiro” formado em decorrência da construção de uma estrada de terra para atender a uma mineradora).  Depois, essa água barrenta era transportada em bombonas, em carroças e lombos de burro, e vendida para o abastecimento público.

Na mesma época, a EMBRAPA havia divulgado um relatório que avaliava em 1 milhão de hectares agriculturáveis excedentes ao longo dos rios São Francisco e Parnaíba, que cortam algumas das regiões mais pobres do país.  Como o clima é do semi-árido, com chuvas escassas e concentradas em curtos períodos de tempo.  Em várias dessas micro-regiões, a agricultura é feita com o uso de bombas que utilizam diesel, transportado em pequenas embarcações e canoas.  Sem qualquer serviço de extensão rural, os pequenos agricultores utilizam a irrigação por sulcos escavados com enxadas.  A irrigação por sulcos acentua a erosão dos solos, o que é visível em qualquer passeio de barco ao longo do São Francisco ou do Parnaíba.  Frequentemente, os pequenos agricultores perdem toda a colheita em decorrência da impossibilidade de controlar a quantidade de água que desce pelos sulcos, nos barrancos.  Há, também, consumo desnecessário de diesel.  E, como se não bastasse, quando os motores  quebram, há que transportá-los em canoas até a cidade mais próxima, e lá pode ser necessário aguardar algum tempo por peças de reposição.

Os grandes projetos de irrigação financiados a fundo perdido pelo governo e que fizeram de Petrolina, por exemplo, um pólo de exportação de frutas para o exterior, usualmente beneficiaram apenas as grandes empresas.  À época, muitos desses projetos se encontravam abandonados depois de implantadas parcelas significativas das obras.

Com a expulsão do pequeno produtor para a periferia das grandes cidades, numa reforma agrária às avessas, cresce a demanda de água nas áreas urbanas, o que é o principal argumento do governo para a transposição.  Mas sugere-se à Pastoral da Terra e ao Tribunal de Contas da União que acompanhem as transações de compra e venda de terras e posses ao longo dos canais previtos no projeto de transposição, já que esses pequenos produtores dificilmente ou nunca são informados de seus potenciais benefícios, ou simplesmente não resistem às propostas de aquisição de suas terras.  Assim, será possível saber, no futuro próximo, quem foram os grandes beneficiários do projeto.  Ou que parcela das terras que tiveram acesso à água pertence a grandes latifundiários e multinacionais exportadoras de frutas, de um lado, e pequenos ou mesmo médios produtores brasileiros, do outro.

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Para quem não sabe, Dom Luiz Flávio Cappio, profundo conhecedor da realidade da pobreza ao longo do rio São Francisco, é economista.

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A idéia de utilizar o São Francisco para abastecer o semi-árido é antiga.  O projeto é da administração FHC.  Assim, pode-se dizer que no Brasil há continuidade administrativa.  E, também, da monocultura de idéias e do estilo imperial intolerante em relação a outros pontos de vista.

Cultivando o Mar Brasileiro – Uma Nova Fronteira Agrícola?

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Quem quer a concessão de 169 hectares de área no mar, no litoral de Pernambuco, para criar bijupirá?  A Secretaria Especial de Aquicultura e Pesca anuncia que o edital será lançado ainda este mês.  Como se sabe, este é um excelente período para lançar editais com os prazos mínimos previstos em lei – 45 dias – de maneira a dar uma chance para quem ainda não marcou as cartas.  A localização dos 169 hectares – não são 170 e nem 168 – é no litoral de Pernambuco, e evidentemente muitas informações sobre correntes, ventos, temperaturas das água ao longo do ano, nutrientes, disponibilidade de infra-estrutura de acesso para desembarque e processamento do produto, além de toda a arquitetura tecnológica, bem como de análise de viabilidade técnica e econômico-financeira já deve ter sido feita por algum proponente.  Se bobear, até a carta-consulta ao Banco do Nordeste do Brasil – BNB já deve ter sido aprovada.  Assim agem alguns órgãos do governo, ao sabor dos interesses da iniciativa privada.

Há alguns meses, o mesmo Valor Econômico havia dado a notícia de que grupos espanhois estavam interessados nas atividades pesqueiras na costa do Brasil.  Criada em 2003, a Secretaria, nem tão ilustre mas bastante desconhecida, cuida de cotas de óleo diesel subsidiado para “pescadores profissionais, amadores da pesca e indústria pesqueira”.  Subsídio ao óleo diesel para alguns, acréscimo no preço do gás natural para subsidiar a Bolívia, do outro.

A aquicultura já deveria ter-se transformado numa prioridade nacional há muito tempo, mas caminha a passos de cágado, tanto no litoral oceânico quanto nos rios e, em particular, nos lagos formados pelas grandes hidrelétricas.  Se o assunto tivesse sido levado a sério no início da primeira administração de Lula, quando uma proposta de licenciamento ambiental de todas as hidrelétricas construídas no passado foi levada aos altos escalões do Ministério do Meio Ambiente, a questão do combate à fome já estaria resolvida, e por caminhos mais sólidos.

Excetuado o estado de Santa Catarina, o Brasil está atrasado, atrasadíssimo mesmo, em matéria de aquacultura.  Na França, na década de 70, já estava concluído o zoneamento costeiro indicando as áreas apropriadas para atividades com requisitos específicos ou conflitantes entre si (turismo e aquacultura, de um lado, e atividades portuárias, do outro).  Ah – as criações de ostras, mexilhões e coquilles Saint-Jacques da Bretanha!

Há muito a fazer.  É imenso o potencial da aquacultura para a alimentação humana e até mesmo para o combate às mudanças climáticas, com a formação de fazendas de algas marinhas que podem receber créditos de carbono e produzirem ração animal.

Enfim, antes começar com uma licitação específica com total aparência de cartas marcadas para a criação de bijupirá do que deixar-se ficar na usual apatia que caiu o setor em nome do agribusiness.

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Na década de 70, a notável figura do almirante Paulo Moreira da Silva, fundador e diretor do Instituto de Pesquisas da Marinha, afirmava que o mar brasileiro tinha pouco potencial pesqueiro.  Quando consultado sobre o assunto, respondou sorrindo: “o mar verde é sinônimo de plancton; o mar azul é pobre”.  Paulo Moreira da Silva lançou a coleção Estudos do Mar Brasileiro, e não chegou a aventurar-se em águas interiores, mas foi o idealizador das colônias de pesca.  O autor deste blog deve a ele aspectos fundamentais de sua formação profissional.

Mudanças Climáticas, Energias Renováveis e Eficiência Energética

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Agora que o encontro sócio-ambiental-político-turístico de Bali naufragou e os países sérios resolveram cuidar dos problemas relacionados às mudanças climáticas de maneira independente uns dos outros, há que atender a pedidos de informações sobre coisas boas que estão sendo feitas em diversos lugares do mundo para reduzir o impacto das mudanças climáticas.

1.   Uma empresa de Nova York terminou a fase de testes e iniciou a implantação comercial de turbinas submersas que utilizam tanto a energia do rio Hudson quanto à da maré.  Espera-se que em poucos anos a tecnologia já esteja gerando eletricidade limpa para abastecer 1 milhão de residèncias ou algo como 3,5 milhões de habitantes, o que é mais do que 20% da população (ainda que não da energia consumida na cidade).  Turbinas submersas não são um segredo sequer para o Brasil, que não dispõe de autonomia tecnológica nessa área (no Brasil, os fabricantes de turbinas são estrangeiros).  Já há turbinas similares até mesmo no Rio de Janeiro, no complexo de Lajes, há décadas, com tecnologia canadense.  Esse tipo de geração ainda não avançou mais no Brasil por não interessar à mão forte das empreiteiras que cafetinam o setor elétrico.  Mas, sim, é possível utilizar turbinas submersas na Amazônia e mesmo aqui no rio Paraíba do Sul.  Se houver interesse pela geração de energia elétrica de menor custo e impacto ambiental desprezível, é claro.

2.   Objetivando melhorar o desempenho energético da cidade de Nova York, o prefeito Bloomberg estabeleceu prazo para a conversão de toda a frota de táxi para a utilização de veículos híbridos (aqui, o país recua rapidamente no uso do gás natural automotivo como instrumento de redução da poluição urbana, ainda que a Petrobras continue a desperdiçar gás nas plataformas por não ter investido em transmissão e liquefação).  Os veículos híbridos talvez sejam os únicos que atendem aos novos padrões de eficiência automotiva aprovados pelo Congresso norte-americano e que podem ser copiados pelo Brasil, como ocorreu no passado.  Ou será que a indústria automotiva é que vai decidir quando e por quanto quer transferir a tecnologia para as filiais brasileiras?

3.   Seria possível aumentar a geração de energia elétrica no Brasil em cerca de 10% com investimentos relativamente reduzidos na repotencialização e na automação das hidrelétricas mais antigas.  Repotencialização é a troca dos grupos geradores por outros, mais novos e mais eficientes.  Automação envolve os sistemas eletrônicos capazes de ajustar a vazão de água à demanda do sistema, fechando as comportas e retendo mais água (ou mais energia) no interior dos reservatórios.  O assunto foi recentemente levado ao ilusório presidente de Furnas, Luiz Paulo Conde, não tendo gerado sequer reações de curiosidade, como ocorreria com uma geradora privada.

4.   A Alemanha trilhou rapidamente o caminho da energia solar, incorporando tanto o simples aquecimento de água – são equipamentos que se pagam em 18 meses, ao preço da energia elétrica e tributos no Brasil – quanto a geração fotovoltaica feita até mesmo por unidades residenciais, com a implantação de medidores que fazem a contagem nos dois sentidos, isto é, também das residências (ou centros comerciais, empresariais, industriais) para a rede, otimizando o balanço energético do país.  Na Califórnia, como em outros estados norte-americanos, a geração fotovoltaica só agora penetra na contrução civil, com os abatimentos nos impostos e, sobretudo, à possibilidade de que os equipamentos sejam amortizados ao longo do prazo, incorporados ao financiamento das edificações.   Nada mal, já que um grande obstáculo à energia fotovoltaica encontra-se no pagamento adiantado da energia que será gerada nos próximos 8-10 anos.

5.   Correntes de cientistas apostam no hidrogênio veicular sem, no entanto, dar prazos ou detalhes do ”estado da arte”.   Arte mesmo será a produção em larga escala de algas marinhas para a produção de biocombustíveis e de alimento de alto valor protéico de  modo a (a)  evitar a concorrência com os usos de terras agrícolas para a produção de alimentos, e (b) ampliar a área de captura de carbono.  Os estudos de viabilidade técnica e econômica avançam rapidamente.

6.   A Austrália está iniciando a construção de uma torre de um quilômetro de altura para captura da energia solar com tecnologia inteiramente inovadora.  O vídeo com a visão ”artística-futurista” do projeto pode ser visto na página da empresa Enviromission,  apoio do governo, em www.enviromission.com.au/project/video/video.htm.  Para os mais afoitos, vale, no entanto, dizer que a empresa ainda não conseguiu se capitalizar para iniciar a implantação do projeto, apesar do forte apoio do governo australiano.  Ainda cruzando os dedos para que a empresa seja bem-sucedida, é sempre bom lembrar que mega-projetos desse tipo demandam também grandes quantidades de energia na extração e transformação de matérias-primas para a construção civil e na fabricação dos equipamentos, além do transporte.

7.  O Congresso dos EUA aprovou uma nova lei sobre energias renováveis e eficiência energética que impõe padrões de eficiência a equipamentos, veículos, materiais de construção, sistemas de transporte público, sistemas de transmissão e distribuição, além de subsídios à pesquisa e ao desenvolvimento de iniciativas coerentes com a lei.  Trata-se, sem dúvida, de um avanço importante e é necessário dizer que ainda não subscrevendo ao Protocolo do Quioto, à Convenção Sobre a Biodiversidade e a outros acordos internacionais, metade da população norte-americana já vive em estados que arpovaram metas semelhantes àquelas do Protocolo de Quito.   Bush baixou um pouco a crista, mas não cedeu no fundamental que une democratas e republicanos: os EUA não fazem nada em nome do interesse comum, tudo em nome de seus próprios interesses.  Não o fizeram durante o governo Clinton-Gore, e só o farão quando o mundo se alinhar com as próprias políticas energéticas norte-americanas.

8.  Diz-se que os chineses transferiram a tecnologia espacial recentemente adquirida para os sistemas de aquecimento de água, e a aplicaram, também,  ao aquecimento domiciliar.  A tecnologia usada por satélites e naves espaciais requer que o lado voltado da unidade que está voltado para o sol transmita calor para o lado que está voltando para o vazio do cosmo numa rapidez muito maior do que aquela captada pela tecnologia meio “caseira” ainda utilizada no Brasil.  Com os programas de substituição do aquecimento com energia do carvão por energia solar, a China ficou durante anos como líder absoluta na captação de créditos de carbono.

9.   A cidade de São Paulo promulgou lei que prevê a obrigatoridade de que novas construções incluam sistemas de captação e estocagem de água da chuva.  A isso deveria se adicionar a obrigatoriedade do uso de sistemas solares de aquecimento de água para evitar os picos de demanda causados pelos chuveiros elétricos.  A modernização tecnológica dos sistemas de aquecimento solar de água de maneira a atingir os níveis de eficiência de seus similares chineses deve se tornar uma prioridade de governo ou das federações das indústrias (a Federação das Indústrias do Estado do Paraná já enviou várias missões comerciais à China, sem esperar por decisões do poder público ou da abúlica Confederação Nacional da Indústria).

10.   Cresce a percepção da necessidade de que alimentos sejam produzidos localmente, tanto em função da percepção da segurança alimentar como algo bem fundamentalmente diferente das bolsas-familias da vida como para que produtos orgânicos não sejam transportados por via aérea de um lado para o outro do mundo.  Cresce, também, a atenção dos consumidores dos países sérios para a presença ou não de hormônios na carne de frango e de gado, bem como no leite.  Nesses países, isso já é visível nos rótulos das embalagens de leite.

A lista é longa, mas ainda muito distante de ser suficiente para reverter o crescimento das emissões de carbono.  A contenção e reversão do crescimento populacional são imprescindíveis mas não estiveram presentes nesse conjunto de apresentações oratórias ocorridas em Bali.

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O que a imprensa brasileira tentou noticiar como “acordo histórico” ocorrido em Bali depois das lágrimas do secretário-geral da ONU foi apenas um adiamento de 2 anos para qualquer tomada da decisão que deveria ocorrer em Bali.  Os representantes de Bush tiveram que recuar para que, internamente, o moribundo cacique gringo ganhe alguma sobrevida política.  Depois da derrota no Iraque, ser derrotado por um Congresso que agora tem maioria democrata e aprovou, dias antes desse pouco ou nada relevante “mapa do caminho” de Bali, uma lei de energia e de eficiência energética bastante bem arquitetada, deve ser duro.  Alguém já deve ter dito a Bush que há muito nem o republicano Schawarzenegger segue a trilha da Casa Branca, agora Branquela.

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A outra boa notícia na área de meio ambiente é a greve de fome de Dom Luiz Cappio contra a tolice que é a “transposição” do São Francisco.  A greve de fome é um jejum, já usado outras vezes por grandes líderes políticos e espirituais da humanidade, como Gandhi.  As organizações ambientalistas que foram contra o projeto, agora já devidamente cooptadas pelo sistema, permanecem caladas.

Bali e a Tardia Realpolitik Ambiental

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Um extenso e profundo relatório do Conselho Alemão para as Mudanças Globais alertou os participantes da conferência um tanto turística de Bali para os impactos das mudanças climáticas sobre a segurança mundial: guerras civis localizadas podem se multiplicar rapidamente em decorrência da escassez de água, da redução da produção de alimentos, do aumento da intensidade de tempestades e enchentes, e do crescimento acelerado do número de refugiados ambientais.

Nada muito diferente – ainda que bem mais contundente – do que já se disse num estudo anterior igual profundidade como o Relatório Stern Sobre a Economia nas Mudanças Climáticas patrocinado pelo ministério do Tesouro da Inglaterra (www.hm-treasury.gov.uk, disponível para download no campo intitulado Independent Reviews).  Sem a mesma abrangência mas com perspectiva idêntica, vale citar o notável estudo feito pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – INPE, divugado há cerca de 1 ano, que recomenda ao governo brasileiro que se prepare para remover cerca de 46 milhões de habitantes do litoral.

O relatório, intitulado O Mundo Em Transição – Mudança Climática Como Risco Para A Segurança encontra-se disponível para download. na versão em inglês, em www.wbgu.de/wbgu_jg2007_engl.html.  

Nele, como nos anteriores acima citados, o pedigree das fontes não são meras organizações ambientalista.  Qualquer traço de desprezo, descrença ou indiferença em relação às informações e às afirmações dessas equipes multidisciplinares de especialistas não pode ser resultado de outra coisa além de mera denegação ou simples cretinice.

O relatório do German Advisory Council on Global Change tem, entre outros, o mérito da realpolitik: é melhor investir no desenvolvimento da capacidade adaptativa das sociedades do que correr o risco de cair na gestão do caos.  Nada dos usuais rodeios!   As mudanças climáticas são consideradas inevitáveis e também é dada ênfase à administração das ondas de refugiados ambientais

“Os desafios da gestão global das migrações crescerão e demandarão consideráveis esforços políticos, econômicos e legais.  Isso se aplicará à migração interna nos países afetados (…) e à migração de populações dos países em desenvolvimento para os países mais industrializados.  Nessa situação, serão essenciais os esforços para encontrar uma adequação das leis internacionais para o problema dos migrantes ambientais.” 

Essa parece uma avaliação demasiadamente pragmática?  Talvez, mas em nada muito diferente da iniciativa isolada de pesquisadores da EMBRAPA em busca de variedades de feijão ou milho mais resistentes às secas que se intensificarão no nordeste do Brasil.  Com a única diferença de que nos países sérios há um pensamento sistemático e coeso, que permea toda a sociedade e resulta num planejamento de longo prazo consistente com os seus objetivos, bem como na sua implementação.

Com o naufrágio da conferência de Bali, cada nação ou grupo de nações tomará o seu caminho, e a realpolitik prevalecerá, sem as fantasias de uma “humanidade” com metas comuns.  O mundo ficará dividido, fundamentalmente, entre os países membros do G-8 aos quais se adicionam a China e a India.  Cada bloco tomará o seu caminho.  E a posição pedinte dos representantes do governo brasileiro em Bali, foi um naufrágio (mesmo que tenha conseguido alguma grana, não houve consenso dos países sérios sobre a natimorta proposta de pedir mais dinheiro grátis).

E o Brasil, onde vai?  Bem, aqui o governo não convoca conselhos independentes e não chega sequer a admitir o contraditório.  Então, o mais provável é que se limitará a fazer mais do mesmo, enquanto acusa os países ricos e pede um trocado com o pretexto de que precisa de apoio para fazer valer a sua própria lei (que independe de qualquer acordo internacional).

O relatório do Conselho Alemão para Mudanças Globais chama a atenção para o fato de que os riscos de convulsões sociais serão muito maiores nos “estados fracos”, definidos como aqueles que não conseguem deter o monopólio da violência, assegurar o acesso dos cidadãos às suas necessidades básicas e fazer cumprir a lei.  É o caso brasileiro.

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“… no entanto, há ainda aqueles que preferem continuar dormindo em berço esplêndido e viver em feliz ignorância”, escreveu Carlos Nobre em artigo intitulado Sobre um Físico e a Feliz Ignorância, publicado hoje na Folha de São Paulo.  Carlos Nobre é doutor em meteorologia pelo MIT, pesquisador titular do INPE, presidente do Programa Internacional da Geosfera-Biosfera, participante como autor do último relatório do Painel Internacional Sobre Mudanças Climáticas e… brasileiro.

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Quem Está Nos Enganando?

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dá se foram, para Bali, um montão políticos que querem dar a impressão a seus eleitores de que estão fazendo o melhor para uma negociação global sobre as mudanças climáticas.   Pobre Bali!

Desde muito antes, a imprensa internacional percebeu que lá não se tomaria qualquer decisão relevante, e não deu ao encontro nem mesmo uma pequena fração do espaço e das manchetes concedidos aos relatórios científicos do Painel Internacional de Mudanças Climáticas, conhecido por sua sigla em inglês, IPCC.  O encontro de Bali deu chabu por antecipação.

Já se sabe que não está em questão apenas a emissão de carbono que causa as mudanças climáticas, mas todo o modelo de produção e consumo adotado pela assim autodenominada “civilização ocidental”, que já não se limita ao Ocidente.  Nela, as pessoas se sentem mais satisfeitas por ganharem dinheiro e  consumir do que por apender a tocar um instrumento, a pintar, ou a partilhar com amigos.  Aqueles, sim, tornaram-se os valores sociais máximos e excludentes dos demais.

Há poucas semans, a Agência Internacional de Energia – www.ieg.org - alertou para o fato de que, mantidos esses padrões de produção e consumo, a demanda de energia crescerá em cerca de 30% até 2020, época em que a civilização do petróleo já estará bem próxima de seu fim.

Evidentemente, não se trata apenas de energia, mas de seu uso para transformar matérias-primas em bens de consumo.  Mas como cada tema é tratado em separado, quanto mais se debate mais fica tudo igual.  E o Brasil subsidiando a eletricidade utilizada na fabricação de latinhas de alumínio.

Em Bali, realiza-se um encontro de políticos e de diplomatas, duas categorias profissionais pouco ou nada confiáveis.  Diplomacia é uma palavra que tem origem no grego antigo, com o significado de objeto duplo, papel dobrado em dois, e talvez aquele que vê com dois olhos, e que é pouco confiável.  Só os franceses conseguiram dar a essa palavra um tom de elegância, mas os anglo-saxões ficaram com a expressão assuntos externos (foreign affairs).  Diplomatas não decidem nada, apenas levam e trazem recados.

Quanto aos políticos, ninguém sequer imagina a possibilidade de que cogitem do envio de uma mensagem a seus eleitores propondo mudanças radicais no sistema de valores que caracteriza a sociedade de consumo.

O que já estava dito desde antes do primeiro encontro de cúpula sobre o desenvolvimento sustentável – em 1972! – é que esse modelo de desenvolvimento não é sustentável.  O mundo não tem matérias-primas suficientes para que a Índia e a China alcancem os mesmos padrões de desenvolvimento – leia-se, de consumo – que os países altamente industrializados.

Parte da responsabilidade pelo fracasso antecipado do encontro de Bali se deve à noção formulada pelos economistas do Banco Mundial e consagrada pelo Protocolo de Quioto de que seria possível a adoção de mecanismos de mercado para resolver o problema das emissões de carbono.  Pois bem, o Protocolo de Quioto fracassou, as emissões globais de carbono aumentaram e continuam a crescer, mas até mesmo ONGs como o Greenpeace – que já foi símbolo de alguma luta – ainda tentam acreditar nos tais mecanismos de mercado.

Por sua própria natureza, os mecanismos de mercado nunca se aplicaram aos assim denominados bens comuns.  E não serão suficientes para que o preço do carbono que se deixa de emitir seja igual ao preço do carbono emitido, simplesmente por não terem o mesmo valor de mercado.

Os países sérios sabem disso e continuarão formulando e implementando políticas de segurança alimentar e energética local, regional.  Enquanto Lula e seus pagadores de dívidas sociais continuarão a insistir na abertura desses mercados para os produtos primários brasileiros de baixo valor agregado - entre os quais se incluem, agora, os óleos vegetais com um novo codinome: biocombustíveis.

Terminada a farsa montada no cenário balinês, tudo voltará ao velho debate sobre crescimento econômico, ou seja, mais produção e mais consumo das mesmas coisas.

Há algum tempo, um filósofo de botequim fez um grafite na porta do banheiro de um bar da Califórnia: venda o lixo velho, compre lixo novo (sell old junk, buy new junk).  Lá mesmo, recentemente, milhares de adolescentes fizeram filas durante dias para comprar seus novos iPhones.

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China e Índia, países com taxas de desenvolvimento elevadas, já disseram claramente que não aceitam a imposição de limites às suas emissões de gases causadores de mudanças climáticas, ainda que se comprometam com programas de eficiência energética.  Já o Brasil, com suas baixíssimas taxas de crescimento econômico, continua na ladainha do “me dá um dinheiro aí”, mendigando uma bolsa-família planetária e, se possível, inter-galática, pirotécnica.  Lula e outros representantes do governo insistem numa sobretaxa para o petróleo, mesmo quando não conseguem sequer fazer com que a CPMF seja utilizada para a gestão de um sistema de saúde pública minimamente decente.  E celebram o lançamento da televisão digital capenga, anunciando o subsídio a conversores do sinal.  É o PAC da vacuidade mental!