Bali e a Tardia Realpolitik Ambiental

Um extenso e profundo relatório do Conselho Alemão para as Mudanças Globais alertou os participantes da conferência um tanto turística de Bali para os impactos das mudanças climáticas sobre a segurança mundial: guerras civis localizadas podem se multiplicar rapidamente em decorrência da escassez de água, da redução da produção de alimentos, do aumento da intensidade de tempestades e enchentes, e do crescimento acelerado do número de refugiados ambientais.

Nada muito diferente – ainda que bem mais contundente – do que já se disse num estudo anterior igual profundidade como o Relatório Stern Sobre a Economia nas Mudanças Climáticas patrocinado pelo ministério do Tesouro da Inglaterra (www.hm-treasury.gov.uk, disponível para download no campo intitulado Independent Reviews).  Sem a mesma abrangência mas com perspectiva idêntica, vale citar o notável estudo feito pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – INPE, divugado há cerca de 1 ano, que recomenda ao governo brasileiro que se prepare para remover cerca de 46 milhões de habitantes do litoral.

O relatório, intitulado O Mundo Em Transição – Mudança Climática Como Risco Para A Segurança encontrava-se disponível para download. na versão em inglês, em www.wbgu.de/wbgu_jg2007_engl.html.   Esse relatório foi retirado da internet – talvez por ser muito contundente – e substituído por outro, mais ameno, intitulado O Mundo em Transição – Um Contrato Social Para a Sustentabilidade, no qual pelo menos se reconhece que (a) o mundo encontra-se em transição e (b) que é necessário um novo contrato social.

Nele, como nos anteriores acima citados, o pedigree das fontes não são meras organizações ambientalista.  Qualquer traço de desprezo, descrença ou indiferença em relação às informações e às afirmações dessas equipes multidisciplinares de especialistas não pode ser resultado de outra coisa além de mera denegação ou simples cretinice.

O relatório do German Advisory Council on Global Change tem, entre outros, o mérito da realpolitik: é melhor investir no desenvolvimento da capacidade adaptativa das sociedades do que correr o risco de cair na gestão do caos.  Nada dos usuais rodeios!   As mudanças climáticas são consideradas inevitáveis e também é dada ênfase à administração das ondas de refugiados ambientais.

“Os desafios da gestão global das migrações crescerão e demandarão consideráveis esforços políticos, econômicos e legais.  Isso se aplicará à migração interna nos países afetados (…) e à migração de populações dos países em desenvolvimento para os países mais industrializados.  Nessa situação, serão essenciais os esforços para encontrar uma adequação das leis internacionais para o problema dos migrantes ambientais.”

Essa parece uma avaliação demasiadamente pragmática?  Talvez, mas em nada muito diferente da iniciativa isolada de pesquisadores da EMBRAPA em busca de variedades de feijão ou milho mais resistentes às secas que se intensificarão no nordeste do Brasil.  Com a única diferença de que nos países sérios há um pensamento sistemático e coeso, que permea toda a sociedade e resulta num planejamento de longo prazo consistente com os seus objetivos, bem como na sua implementação.

Com o naufrágio da conferência de Bali, cada nação ou grupo de nações tomará o seu caminho, e a realpolitik prevalecerá, sem as fantasias de uma “humanidade” com metas comuns.  O mundo ficará dividido, fundamentalmente, entre os países membros do G-8 aos quais se adicionam a China e a India.  Cada bloco tomará o seu caminho.  E a posição pedinte dos representantes do governo brasileiro em Bali, foi um naufrágio (mesmo que tenha conseguido alguma grana, não houve consenso dos países sérios sobre a natimorta proposta de pedir mais dinheiro grátis).

E o Brasil, onde vai?  Bem, aqui o governo não convoca conselhos independentes e não chega sequer a admitir o contraditório.  Então, o mais provável é que se limitará a fazer mais do mesmo, enquanto acusa os países ricos e pede um trocado com o pretexto de que precisa de apoio para fazer valer a sua própria lei (que independe de qualquer acordo internacional).

O relatório do Conselho Alemão para Mudanças Globais chama a atenção para o fato de que os riscos de convulsões sociais serão muito maiores nos “estados fracos”, definidos como aqueles que não conseguem deter o monopólio da violência, assegurar o acesso dos cidadãos às suas necessidades básicas e fazer cumprir a lei.  É o caso brasileiro.

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“… no entanto, há ainda aqueles que preferem continuar dormindo em berço esplêndido e viver em feliz ignorância”, escreveu Carlos Nobre em artigo intitulado Sobre um Físico e a Feliz Ignorância, publicado hoje na Folha de São Paulo.  Carlos Nobre é doutor em meteorologia pelo MIT, pesquisador titular do INPE, presidente do Programa Internacional da Geosfera-Biosfera, participante como autor do último relatório do Painel Internacional Sobre Mudanças Climáticas e… brasileiro.

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Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

O que você pensa a respeito?