Mudanças Climáticas, Energias Renováveis e Eficiência Energética

Agora que o encontro sócio-ambiental-político-turístico de Bali naufragou e os países sérios resolveram cuidar dos problemas relacionados às mudanças climáticas de maneira independente uns dos outros, há que atender a pedidos de informações sobre coisas boas que estão sendo feitas em diversos lugares do mundo para reduzir o impacto das mudanças climáticas.

1.   Uma empresa de Nova York terminou a fase de testes e iniciou a implantação comercial de turbinas submersas que utilizam tanto a energia do rio Hudson quanto à da maré.  Espera-se que em poucos anos a tecnologia já esteja gerando eletricidade limpa para abastecer 1 milhão de residèncias ou algo como 3,5 milhões de habitantes, o que é mais do que 20% da população (ainda que não da energia consumida na cidade).  Turbinas submersas não são um segredo sequer para o Brasil, que não dispõe de autonomia tecnológica nessa área (no Brasil, os fabricantes de turbinas são estrangeiros).  Já há turbinas similares até mesmo no Rio de Janeiro, no complexo de Lajes, há décadas, com tecnologia canadense.  Esse tipo de geração ainda não avançou mais no Brasil por não interessar à mão forte das empreiteiras que cafetinam o setor elétrico.  Mas, sim, é possível utilizar turbinas submersas na Amazônia e mesmo aqui no rio Paraíba do Sul.  Se houver interesse pela geração de energia elétrica de menor custo e impacto ambiental desprezível, é claro.

2.   Objetivando melhorar o desempenho energético da cidade de Nova York, o prefeito Bloomberg estabeleceu prazo para a conversão de toda a frota de táxi para a utilização de veículos híbridos (aqui, o país recua rapidamente no uso do gás natural automotivo como instrumento de redução da poluição urbana, ainda que a Petrobras continue a desperdiçar gás nas plataformas por não ter investido em transmissão e liquefação).  Os veículos híbridos talvez sejam os únicos que atendem aos novos padrões de eficiência automotiva aprovados pelo Congresso norte-americano e que podem ser copiados pelo Brasil, como ocorreu no passado.  Ou será que a indústria automotiva é que vai decidir quando e por quanto quer transferir a tecnologia para as filiais brasileiras?

3.   Seria possível aumentar a geração de energia elétrica no Brasil em cerca de 10% com investimentos relativamente reduzidos na repotencialização e na automação das hidrelétricas mais antigas.  Repotencialização é a troca dos grupos geradores por outros, mais novos e mais eficientes.  Automação envolve os sistemas eletrônicos capazes de ajustar a vazão de água à demanda do sistema, fechando as comportas e retendo mais água (ou mais energia) no interior dos reservatórios.  O assunto foi recentemente levado ao ilusório presidente de Furnas, Luiz Paulo Conde, não tendo gerado sequer reações de curiosidade, como ocorreria com uma geradora privada.

4.   A Alemanha trilhou rapidamente o caminho da energia solar, incorporando tanto o simples aquecimento de água – são equipamentos que se pagam em 18 meses, ao preço da energia elétrica e tributos no Brasil – quanto a geração fotovoltaica feita até mesmo por unidades residenciais, com a implantação de medidores que fazem a contagem nos dois sentidos, isto é, também das residências (ou centros comerciais, empresariais, industriais) para a rede, otimizando o balanço energético do país.  Na Califórnia, como em outros estados norte-americanos, a geração fotovoltaica só agora penetra na contrução civil, com os abatimentos nos impostos e, sobretudo, à possibilidade de que os equipamentos sejam amortizados ao longo do prazo, incorporados ao financiamento das edificações.   Nada mal, já que um grande obstáculo à energia fotovoltaica encontra-se no pagamento adiantado da energia que será gerada nos próximos 8-10 anos.

5.   Correntes de cientistas apostam no hidrogênio veicular sem, no entanto, dar prazos ou detalhes do “estado da arte”.   Arte mesmo será a produção em larga escala de algas marinhas para a produção de biocombustíveis e de alimento de alto valor protéico de  modo a (a)  evitar a concorrência com os usos de terras agrícolas para a produção de alimentos, e (b) ampliar a área de captura de carbono.  Os estudos de viabilidade técnica e econômica avançam rapidamente.

6.   A Austrália está iniciando a construção de uma torre de um quilômetro de altura para captura da energia solar com tecnologia inteiramente inovadora.  O vídeo com a visão “artística-futurista” do projeto pode ser visto na página da empresa Enviromission,  apoio do governo, em www.enviromission.com.au/project/video/video.htm.  Para os mais afoitos, vale, no entanto, dizer que a empresa ainda não conseguiu se capitalizar para iniciar a implantação do projeto, apesar do forte apoio do governo australiano.  Ainda cruzando os dedos para que a empresa seja bem-sucedida, é sempre bom lembrar que mega-projetos desse tipo demandam também grandes quantidades de energia na extração e transformação de matérias-primas para a construção civil e na fabricação dos equipamentos, além do transporte.

7.  O Congresso dos EUA aprovou uma nova lei sobre energias renováveis e eficiência energética que impõe padrões de eficiência a equipamentos, veículos, materiais de construção, sistemas de transporte público, sistemas de transmissão e distribuição, além de subsídios à pesquisa e ao desenvolvimento de iniciativas coerentes com a lei.  Trata-se, sem dúvida, de um avanço importante e é necessário dizer que ainda não subscrevendo ao Protocolo do Quioto, à Convenção Sobre a Biodiversidade e a outros acordos internacionais, metade da população norte-americana já vive em estados que arpovaram metas semelhantes àquelas do Protocolo de Quito.   Bush baixou um pouco a crista, mas não cedeu no fundamental que une democratas e republicanos: os EUA não fazem nada em nome do interesse comum, tudo em nome de seus próprios interesses.  Não o fizeram durante o governo Clinton-Gore, e só o farão quando o mundo se alinhar com as próprias políticas energéticas norte-americanas.

8.  Diz-se que os chineses transferiram a tecnologia espacial recentemente adquirida para os sistemas de aquecimento de água, e a aplicaram, também,  ao aquecimento domiciliar.  A tecnologia usada por satélites e naves espaciais requer que o lado voltado da unidade que está voltado para o sol transmita calor para o lado que está voltando para o vazio do cosmo numa rapidez muito maior do que aquela captada pela tecnologia meio “caseira” ainda utilizada no Brasil.  Com os programas de substituição do aquecimento com energia do carvão por energia solar, a China ficou durante anos como líder absoluta na captação de créditos de carbono.

9.   A cidade de São Paulo promulgou lei que prevê a obrigatoridade de que novas construções incluam sistemas de captação e estocagem de água da chuva.  A isso deveria se adicionar a obrigatoriedade do uso de sistemas solares de aquecimento de água para evitar os picos de demanda causados pelos chuveiros elétricos.  A modernização tecnológica dos sistemas de aquecimento solar de água de maneira a atingir os níveis de eficiência de seus similares chineses deve se tornar uma prioridade de governo ou das federações das indústrias (a Federação das Indústrias do Estado do Paraná já enviou várias missões comerciais à China, sem esperar por decisões do poder público ou da abúlica Confederação Nacional da Indústria).

10.   Cresce a percepção da necessidade de que alimentos sejam produzidos localmente, tanto em função da percepção da segurança alimentar como algo bem fundamentalmente diferente das bolsas-familias da vida como para que produtos orgânicos não sejam transportados por via aérea de um lado para o outro do mundo.  Cresce, também, a atenção dos consumidores dos países sérios para a presença ou não de hormônios na carne de frango e de gado, bem como no leite.  Nesses países, isso já é visível nos rótulos das embalagens de leite.

A lista é longa, mas ainda muito distante de ser suficiente para reverter o crescimento das emissões de carbono.  A contenção e reversão do crescimento populacional são imprescindíveis mas não estiveram presentes nesse conjunto de apresentações oratórias ocorridas em Bali.

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O que a imprensa brasileira tentou noticiar como “acordo histórico” ocorrido em Bali depois das lágrimas do secretário-geral da ONU foi apenas um adiamento de 2 anos para qualquer tomada da decisão que deveria ocorrer em Bali.  Os representantes de Bush tiveram que recuar para que, internamente, o moribundo cacique gringo ganhe alguma sobrevida política.  Depois da derrota no Iraque, ser derrotado por um Congresso que agora tem maioria democrata e aprovou, dias antes desse pouco ou nada relevante “mapa do caminho” de Bali, uma lei de energia e de eficiência energética bastante bem arquitetada, deve ser duro.  Alguém já deve ter dito a Bush que há muito nem o republicano Schawarzenegger segue a trilha da Casa Branca, agora Branquela.

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A outra boa notícia na área de meio ambiente é a greve de fome de Dom Luiz Cappio contra a tolice que é a “transposição” do São Francisco.  A greve de fome é um jejum, já usado outras vezes por grandes líderes políticos e espirituais da humanidade, como Gandhi.  As organizações ambientalistas que foram contra o projeto, agora já devidamente cooptadas pelo sistema, permanecem caladas.

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

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