Dom Luiz Flávio Cappio – Água Para Quem Trabalha a Terra

A persistência de Dom Luiz Flávio Cappio pegou o governo com as calças nas mãos.  Lula respondeu com truculência balofa.  Nos bastidores, o governo terminou aceitando ampliar o programa de construção de cisternas coordenado pela Articulação do Semi-Árido – ASA (www.asabrasil.org.br), criada em 1999.  Foi o mínimo, considerado o alheamento do poder público a essa demanda básica, elementar.

Alguns tentam apresentar Dom Luiz como um radical, mas pouco ou nada se divulga sobre as suas razões, mesmo quando as notícias recentes sobre a falta d’água na região sejam no mínimo preocupantes.

De fato, o que obrigou o governo a acionar as termelétricas no nordeste foi a acentuada queda nos niveis de água no reservatório de Sobradinho, que fez com que grande parte das cidades nas proximidades do lago tivessem que passar a ser abastecidas por carros-pipa.  Nas últimas semanas, a imprensa estimou que cerca de 176.000 ficaram sem abastecimento de água.  Mas esse número é muito maior, já que algumas dessas cidades nunca tiveram abastecimento de água, como descrito em artigo publicado neste blog em 2006, artigo que já incluiu a foto abaixo, tirada num período em que Sobradinho estava com a sua capacidade máxima de armazenamento de água.

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Não de uma imagem de um “povoado”, mas de uma pequena cidade no oeste da Bahia – Campo Alegre de Lourdes, com cerca de 30.000 habitantes.  Não se trata, tampouco,de um imagem de tempos passados, mas de 2006, em pleno século XXI.  Lá, a água era recolhida em “barreiros” – locais onde a água de chuva se acumula (inclusive num “barreiro” formado em decorrência da construção de uma estrada de terra para atender a uma mineradora).  Depois, essa água barrenta era transportada em bombonas, em carroças e lombos de burro, e vendida para o abastecimento público.

Na mesma época, a EMBRAPA havia divulgado um relatório que avaliava em 1 milhão de hectares agriculturáveis excedentes ao longo dos rios São Francisco e Parnaíba, que cortam algumas das regiões mais pobres do país.  Como o clima é do semi-árido, com chuvas escassas e concentradas em curtos períodos de tempo.  Em várias dessas micro-regiões, a agricultura é feita com o uso de bombas que utilizam diesel, transportado em pequenas embarcações e canoas.  Sem qualquer serviço de extensão rural, os pequenos agricultores utilizam a irrigação por sulcos escavados com enxadas.  A irrigação por sulcos acentua a erosão dos solos, o que é visível em qualquer passeio de barco ao longo do São Francisco ou do Parnaíba.  Frequentemente, os pequenos agricultores perdem toda a colheita em decorrência da impossibilidade de controlar a quantidade de água que desce pelos sulcos, nos barrancos.  Há, também, consumo desnecessário de diesel.  E, como se não bastasse, quando os motores  quebram, há que transportá-los em canoas até a cidade mais próxima, e lá pode ser necessário aguardar algum tempo por peças de reposição.

Os grandes projetos de irrigação financiados a fundo perdido pelo governo e que fizeram de Petrolina, por exemplo, um pólo de exportação de frutas para o exterior, usualmente beneficiaram apenas as grandes empresas.  À época, muitos desses projetos se encontravam abandonados depois de implantadas parcelas significativas das obras.

Com a expulsão do pequeno produtor para a periferia das grandes cidades, numa reforma agrária às avessas, cresce a demanda de água nas áreas urbanas, o que é o principal argumento do governo para a transposição.  Mas sugere-se à Pastoral da Terra e ao Tribunal de Contas da União que acompanhem as transações de compra e venda de terras e posses ao longo dos canais previtos no projeto de transposição, já que esses pequenos produtores dificilmente ou nunca são informados de seus potenciais benefícios, ou simplesmente não resistem às propostas de aquisição de suas terras.  Assim, será possível saber, no futuro próximo, quem foram os grandes beneficiários do projeto.  Ou que parcela das terras que tiveram acesso à água pertence a grandes latifundiários e multinacionais exportadoras de frutas, de um lado, e pequenos ou mesmo médios produtores brasileiros, do outro.

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Para quem não sabe, Dom Luiz Flávio Cappio, profundo conhecedor da realidade da pobreza ao longo do rio São Francisco, é economista.

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A idéia de utilizar o São Francisco para abastecer o semi-árido é antiga.  O projeto é da administração FHC.  Assim, pode-se dizer que no Brasil há continuidade administrativa.  E, também, da monocultura de idéias e do estilo imperial intolerante em relação a outros pontos de vista.

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

One thought on “Dom Luiz Flávio Cappio – Água Para Quem Trabalha a Terra”

  1. O artigo complementa tudo o que tenho ouvido e lido nos meios de comunicação sobre a transposição do Rio São Francisco: mais uma obra megalomaníaca dos desgovernos brasileiros, agora dirigido pelo timoneiro Lula, que irá beneficiar aos grandes produtores rurais e latifundios quer sejam nacionais ou internacionais que a esta altura já possuem ou têm opções de compra de todas as terras necessarias ao longo do trajeto onde irá passar o sistema de irrigação.

O que você pensa a respeito?