Monthly Archive for janeiro, 2008

Florestas Amazônicas – O Governo Não Consegue Cuidar Nem de Suas Próprias Terras

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Entre agosto e dezembro de 2007, foram desmatados 62 hectares de florestas nativas no interior do Parque Estadual do Cristalino, ao norte de Mato Grosso.  Os parques e reservas estão entre as categorias de unidades de conservação que, se a lei fosse respeitada, são – ou deveriam ser – de propriedade do pode público.  O parque, parte das florestas amazônicas, tem 184.000 km2 , dos quais 13.000 km2 são pastagens formadas antes de sua criação, enquanto outros 17.000 km2 foram desmatados depois.

Para quem não é do ramo, vale informar que essa situação de falta de regularização fundiária e ocupação por outras atividades é predominante na quase totalidade dos parques nacionais e estaduais brasileiros.  Dominados por biólogos – com as mais variadas especialidades, de ornitólogos a entomólogos -, os parques não atendem aos objetivos fundamentais de assegurar o convívio entre o ser humano e a natureza.  Nada de cientistas sociais! É bastante difícil que um ser urbano aprenda a amar a natureza com base apenas em programas de educação ambiental e sem a oportunidade de um convívio real com ela já na fase adulta.  Os parques brasileiros nem de longe podem se comparar aos maravilhosos parques norte-americanos que são vistos nos canais de televisão especializados.  Quando criou o primeiro parque nacional dos EUA, no início do século XX, Theodore Rooselvelt discursou enfatizando a importância da iniciativa para que os cidadãos pudesem conhecer a fenomenal beleza de sua própria nação.

Agora, com uma reunião de emergência e o anúncio de medidas rigorosas para conter –pela centésima vez – o desmatamento na Amazônia, Lula e Marina Silva tiveram os seus discursos contestados quase imediamente.  A resposta mais contundente veio da Confederação Nacional da Agricultura – CNA –, que deu no governo um tapa sem luvas de pelica mesmo.

Em sua resposta às acusações de que os agricultores e pecuaristas são os principais responsáveis pelo desmatamento da Amazônia, a CNA informa que o governo federal é detentor de 76% das terras situadas na Amazônia Legal, e a ele caberia cuidar de suas próprias terras e das florestas nelas existentes.

Nessa nota, a CNA defende o Zoneamento Ecológico-Econômico (ZEE) que está previsto na Lei 6.938, que estabeleceu a Política Nacional de Meio Ambiente em 1981.  Ou seja, já caminhamos para 26 anos, neles incluídos cinco anos de governo Lula, sem que o tal ZEE tenha sido feito.

“As atividades agropecuárias, por falta de ordenamento territorial, precisam de um referencial para fins de regularização das áreas já consolidadas.  Esse ordenamento é dado pelo Zoneamento Ecológico-Econômico (ZEE) que até o momento não saiu do papel.”

“Quanto à soja na Amazônia, essa cultura ocupa 1,4% da Amazônia Legal, sendo insigificante a sua produção no bioma amazônico – 3 milésimos da extensão do bioma.”

“Por outro lado, o governo tem ocultado outras atividades com importante papel na ocupação e exploração insustentável do espaço territorial amazônico.  Os assentamentos rurais têm tido a sua parcela de responsabilidade minimizada, senão negada.  Esses já somam 42 milhões de hectares na Amazônia, de um total de aproximadamente 75 milhões de hectares em todo o país.  De que estão vivendo essas pessoas que se encontram literalmente favelizadas nessas zonas rurais, sem qualquer espécie de apoio, orientação e assistência técnica, fomento adequado etc?”

De fato, por meio do Decreto 6.321/07 o governo garante, inconstitucionalmente, a prática de ilícitos ambientais nos assentamentos, institucionalizando a impunidade.  Essa não é a primeira vez que o governo sacramenta a política de dois pesos e duas medidas.

O uso de Áreas de Preservação Permanente – APPs – já vem sendo flexibilizado há algum tempo pelo Conselho Nacional de Meio Ambiente – Conama –, que nelas permite atividades de mineração, assentamentos em áreas urbanas (leia-se favelas) “quando houver necessidade de regularização fundiária”, e tudo o mais que ele próprio, o governo, considere como de interesse social.  Ou seja, a preservação permanente só não vale para o cidadão comum e que paga impostos.

Aqui, vale citar, também, um excelente texto de João Meirelles Filho (o mais recente pode ser encontrado em http://www.consciencia.net/2006/0128-meirelles-filho-amazonia.html).

“Se você acha que a culpa do desmatamento é do governo, você tem razão. (…) Como você se sente diante do circo anual quando o chefe da Nação esbraveja ao ver as taxas de desmatamento fora de controle e solta decretos a torto e a direito (…)?  Você acha que seus chefes realmente levam a sério este assunto?  O que eles pensam quando servem a seu George (o Bush) um churrasco na Granja do Torto?”

José Meirelles responsabiliza, também, os consumidores da carne produzida na Amazônia.  A responsabilidade dos consumidores é, no entanto, duvidosa, senão descartável, já que ninguém sabe de onde vem a carne que compra. E uma certificação de origem da carne seria tão ineficaz quanto a certificação que os gringos – com o seu Forest Stewardship Council (www.fsc.org) – fazem das madeiras nobres que saem da Amazônia com destino aos países ricos, que podem pagar por elas. 

Em qualquer caso, é praticamente impossível exigir ou mesmo compreender a imposição da reserva legal de 80% das propriedades privadas situadas na Amazônia quando o governo, além de não conseguir cuidar de suas próprias terras, não consegue sequer cuidar dos parques nacionais e outras unidades de conservação.

Esse altíssimo percentual de reserva legal é, na verdade, um tributo que os produtores que têm as suas terras legalizadas pagam à opinião pública para salvar a cara da corte, hoje sediada em Brasília. Nenhum governo no mundo contaria com a adesão de produtores proprietários de terra diante desse quadro no qual apenas são chamados a assumir responsabilidades pela proteção das florestas.

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O desmatamento é resultado da lógica inexorável do sistema, que não mudará o seu curso.  Os produtores de soja e criadores de gado não são diferentes dos mineradores, que podem fazer qualquer coisa em áreas de preservação permanente.  Não é diferente no Canadá ou na Austrália.  Se ao menos os parques e reservas nacionais e estaduais situados na Amazônia e no restante do país fossem geridos de maneira minimante razoável, o Brasil já teria uma bela história para contar no que se refere à proteção de florestas e da biodiversidade.

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Lula e a cúpula do governo afirmam suspeitar da veracidade do Instituto Nacional de Pesquisa Espacial – INPE.  Exatamente a mesma posição que têm Bush e os seus assessores em relação às informações da NASA sobre as mudanças climáticas.

Colapso Ambiental – Colapso da Civilização – II

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Em 2007, a Sociedade Norte-Americana de Física lançou um alerta sobre a escassez do gás hélio, se tornará um problema crítico para a humanidade em pouco tempo. 

O hélio é essencial em usos tão cotidianos quanto a ressonância magnética, fibras óticas, produção de chips e lançamento de espaçonaves que colocam satélites de comunicação em órbita.  Embora seja um dos elementos mais abundantes do planeta, os cientistas consideram que o gás hélio não é renovável, e afirmam que ele é insubstituível: “as suas propriedades são únicas e, ao contrário dos combustíveis fósseis, não há formas de assegurar a produção de substitutivos”.  

O hélio é hoje considerado tão essencial quanto o silício.  O gás é extraído de algumas reservas de gás natural  em formações geológicas específicas.  Transformar tudo em tudo – o velho sonho da alquimia – não é uma possibilidade ao alcance da ciência.

O grupo de cientistas do MIT que elaborou o modelo matemático que resultou na percepção de que existem limites para o crescimento não contava com esse tipo de escassez, tão crítica quanto a de muitas matérias-primas e insumos.  Mas o modelo trabalhou com 16 minerais, além do carvão, petróleo e gás natural.  Alumínio, cromo, cobalto, chumbo, cobre, mercúrio, prata e outros.  Na vida cotidiana as pessoas sequer percebem que todos os produtos que usam ou consomem – exceto alguns alimentos  – resultam da transformação dessas matérias-primas, cujas reservas são finitas.

O modelo desenvolvido pelo MIT em 1972 incluiu as reservas então conhecidas desses recursos naturais e diferentes taxas de crescimento do consumo.   Em todo s os cenários, é claro, as projeções de crescimento do consumo dessas matérias-primas e insumos têm um caráter exponencial.

A matemática do crescimento exponencial já é conhecida da humanidade pelo menos desde a Pérsia antiga. Conta a lenda que um súdito pediu ao rei, em retribuição a um serviço prestado, que lhe fosse dada a quantidade de grãos de um cereal calculada da seguinte forma: seria colocado um grão de cereal no primeiro quadrado de um tabuleiro de xadrez, dois no segundo, quatro no terceiro e assim progressivamente.  O rei sorriu, condescendente, achando o pedido singelo e simples, mas logo percebeu que nem mesmo as imensas riquezas de seu reino seriam suficientes para atender ao pedido. De fato, nessa progressão geométrica o décimo quadrado do tabuleiro de xadrez já requer 512 grãos de arroz, número que sobe para 16.384 no décimo-quinto quadrado, e para mais de um milhão no vigésimo-primeiro.  Todo o estoque de grãos do reino estaria exaurido muito antes de que o sexagésimo-quarto quadrado do tabuleiro fosse atingido.

O programa que resultou do modelo matemático desenvolvido pela equipe do MIT recebeu o nome World 3.  Em todas as simulações o crescimento exponencial da demanda fez com que a disponibilidade de diversas matérias-primas e insumos resultou numa expansão bem pequena do período de tempo ao longo do qual ela se encontraria disponível.  Assim, por exemplo, se as reservas então conhecidas fossem multiplicadas por cinco, o crescimento exponencial da demanda faria com que a disponibilidade da matéria-prima ou insumo passasse de 21 para apenas 45 anos.

O modelo incluiu simulações relacionadas às variações de preços e às possibildidades de substituição de uma matéria-prima por outra, e até mesmo possibilidades de reciclagem. 

O World 3 foi revisto e aperfeiçoado em 1992 – por ocasião da Rio-92 – resultando na publicação de um livro que recebeu o título de Além dos Limites.  O título ja dizia bastante.  Mas, então, todos já estavam muito mais interessados na visibilidade política e na badalação do que em números ou na viabilidade das propostas. 

Muito mais tarde, o norte-americano Dennis Meadows e o norueguês Jorgen Randers, dois dos líderes desses estudos realizados pelo MIT, escreveram:

“Em 1972, os modelos matemáticos situavam o fim do crescimento quase 50 anos depois.  Naquela época pareceu-nos que havia tempo suficiente para deliberação, escolha e ação corretiva – mesmo em nível global.”

Hoje em dia as mudanças climáticas inspiram um tal temor, drenam tanto capital e esforços orientados para a inovação tecnológica unicamente na área energética que todas essas outras variáveis foram varridas para baixo do tapete. 

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À época da primeira publicação de “Limites para o Crescimento” – em 1972 –  os percentuais de consumo dos EUA em relação à produção total de alguns mineirais já eram elevadíssimos: 42% do alumínio, 32% do cobalto, 40% do molibidênio, 33% da platina, 38% do níquel, e assim por diante, além de 50% do petróleo.

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As projeções do World 3 erraram em relação à China, cujas taxas de crescimento econômico eram, então, muito inferiores ou pouco conhecidas.  Em 2006, a taxa de crescimento econômico da China chegou a 10,7%.  O país tem, hoje, quase 20% da população mundial.  Agora já se sabe que os chineses chegaram para ficar.  E assumiram os mesmos padrões de consumo do ocidente.  Além de comprar reservas de matérias-primas que consideram estratégicas, inclusive no Brasil.  O caráter exponencial do crescimento econômico se acentuou, o futuro chegou, e o longo prazo passou a ser o horizonte de uma crise na bolsa.  Ou seja, a um palmo do nariz.

Colapso Ambiental – Colapso da Civilização – I

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Cientistas de todas as formações, a ONU, alguns governos mais sérios e até mesmo grandes grupos empresariais – como seguradoras – já reconhecem que é tempo de se adaptar às inevitáveis mudanças climáticas.  Com ou sem elas, o colapso do desenvolvimento econômico também pode ser inevitável.  E os alertas provenientes das fontes mais sérias já ocorrem há mais de 35 anos.  Neste momento, uma retrospectiva pode contribuir para que não se creia que os muitos alertas começaram recentemente.

Em 1965, Aurelio Peccei, brilhante pensador e líder empresarial italiano – já então preocupado com os problemas do Terceiro Mundo –, em discurso para uma associação de banqueiros, lançou um conjunto de desafios que captou a atenção do Departamento de Estado do governo dos EUA e da Comissão de Ciência e Tecnologia da União Soviética, da OTAN e de outras instituições, bem como de lideranças e cientistas das mais diversas áreas.

Pouco tempo depois, Peccei convenceu a Fundação Fiat a patrocinar um encontro de 30 economistas e cientistas europeus, encontro que ocorreu em 1968.  Esse grupo de reflexão se auto-denominou Clube de Roma, e Peccei ousou dizer que aquele era o começo de uma grande aventura do espírito.

“Se o Clube de Roma teve algum mérito, esse mérito consistiu em ser o primeiro a se rebelar contra a ignorância suicida da condição humana” – afirmou, mais tarde.

O período foi fértil em alertas sobre os riscos de manutenção dos padrões de industrializaçao e consumo no longo prazo.  U Thant, o brilhante secretário-geral da ONU da época, num discurso feito em 1969, afirmou:

“Eu não quero parecer excessivamente dramático, mas das informações a que tenho acesso na minha posição, só posso concluir que os países membros das Nações Unidas têm, talvez, 10 anos para deixar de lado as suas pequenas querelas e lançar uma parceria global para superar a corrida armamentista, para melhorar o meio ambiente humano, e para conter a explosão demográfica (…).  Se essa parceria global não for feita na próxima década, temo que os problemas mencionados alcançarão tais proporções que estarão fora de nossa capacidade de controle.”  

Já no ano seguinte, o Clube de Roma conseguiu a contratação de uma notável equipe multi-disciplinar do Instituto de Tecnologia de Massachusetts – conhecido por sua sigla, MIT – para fazer um estudo sobre o crescimento econômico  dentro dos padrões de consumo que caracterizavam as nações mais industrializadas.  O Clube de Roma e o MIT anteciparam-se largamente à tal da globalização.  A Fundação Volkswagen pagou o trabalho da equipe do MIT, liderada por Dennis Meadows e envolvendo outros 16 cientistas de diversas nacionalidades.

O resultado desses estudos foi publicado em 1972 com o título de “Limites para o Crescimento”.  O pensamento de Aurelio Peccei, do Clube de Roma e do MIT sintetizam bastante bem as inquietações que levaram à Conferência de Estocolmo Sobre o Meio Ambiente Humano, realizada em 1972.  Ainda não existia a fantasia do desenvolvimento sustentável.

Limites para o Crescimento foi fruto de uma sofisticada avaliação computacional das possibilidades e consequências do crescimento populacional e da evolução da demanda e da oferta de matérias-primas e energia.  Depois de Malthus, foi a primeira vez que se falou claramente em limites físicos para o crescimento econômico.  Os autores postularam a necessidade de mudanças profundas nos padrões de desenvolvimento para evitar que fosse ultrapassada a capacidade de sustentação do planeta Terra, algo que, então, parecia distante.  O sofisticado modelo desenvolvido pelo MIT indicou que os padrões de consumo e a qualidade de vida continuar prosseguir melhorando até alguns anos depois de 2015.  Ou seja, a humanidade tinha pouco mais de 50 anos para ajustar-se e evitar que tais limites fossem ultrapassados.  Cinquenta anos parecia, então, um prazo suficiente.

Em 1992, a equipe do MIT fez uma revisão de suas avaliações usando os mesmos modelos matemáticos e computacionais, com ajustes menores.  E o resultado foi uma publicação que recebeu o título de “Além dos Limites”.  A humanidade já havia ultrapassado a capacidade de suporte ou sustentação do planeta.

Esse foi o ano da Conferência das Nações Unidas Sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, e muitos tiveram a certeza de que a tal sociedade global tinha finalmente resolvido levar o tema a sério.  Não foi necessário muito tempo para ficar claro que os governos haviam abandonado as metas da Rio 92.  A Rio + 10, realizada em Johannesburg em 2002, resultou em quase nada ou em retrocessos.  “Ela foi quase totalmente paralisada por múltiplas disputas ideológicas e econômicas, e pelos esforços daqueles que perseguiam os seus estreitos interesses nacionais, corporativos ou individuais” – escreveram, em 2004, os autores de “Limites para o Crescimento” e ”Além dos Limites”.

As mudanças climáticas e as questões relacionadas às energias renováveis são apenas um elemento das questões cuidadosamente avaliadas em Limites para o Crescimento.

“Quando escrevemos Limites para o Crescimento tínhamos a esperança de que as sociedades fossem iniciar ações corretivas para reduzir as possibilidades de colapso.  O colapso não é um futuro atraente.  O rápido declínio da população e da economia para níveis que possam ser suportados pelos recursos naturais do planeta ocorrerá sem dúvida num quadro de derrocada da saúde, conflitos, devastação ecológica e grandes desigualdades.  O colapso fora de controle ocorrerá conjuntamente com elevados índices de mortalidade e rápido declínio no consumo.”

Essas afirmações, vindas de uma equipe da melhor estirpe do MIT, não deveriam deixar dúvidas.  Na estimativa dessa equipe, em 2000 a humanidade já havia ultrapassado a capacidade de sustentação do planeta em cerca de 20%.

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As projeções da Agência Internacional de Energia são de um crescimento de 56% nas emissões de gases causadores de mudanças climáticas até 2030, tendo como base os níveis de emissão de 1990.

Acordos Internacionais e Esquizofrenia Energética

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Há cerca de 2 anos, a British Petroleum derramou um rio de dinheiro no mercado publicitário tentando mudar a percepção pública de sua sigla – BP.  Em todos os luminosos de Times Square, em Nova York, lia-se BP – Beyond the Limits (BP - Além dos Limites).  A publicidade afirmava o compromisso da empresa com energias renováveis.  E, de fato, quem visita de maneira superficial a página da BP na internet é capaz de acreditar que se trata de uma empresa verde.  A BP, como outras petroleiras, inclusive a Petrobras, tenta, com afã, acreditar ou fazer com que os outros acreditem que são empresas de energia caminhando em direção às energias renováveis.  Para isso, as petroleiras contam com o apoio da mídia, que além de bons contratos de propaganda tenta com igual afã – no melhor estilo Globo – garimpar boas notícias sobre o meio ambiente para não assustar a clientela.

A BP está se preparando mesmo é para investir R$ 5,2 bilhões numa área até agora intocada do Canadá, na extração de combustível fóssil das chamadas areias betuminosas.  Só a extração desse combustível – isto é, sem falar no uso final do combustível dela resultante -  resultará na emissão de 100 milhões de toneladas anuais de gases causadores de mudanças climáticas.  Isso para não mencionar o desmatamento de 140.000 kmde florestas nativas e a contaminação de imensos volumes de água. 

Na verdade, a BP é apenas mais uma petroleira entrando no que já está sendo chamado de “corrida do petróleo”, num paralelo com a  ”corrida do ouro” do antigo faroeste.  Nessa corrida já estão a anglo-holandesa Shell e a norte-americana Esso.  E a proposta conta com o enfático apoio do governo do Canadá, já que com as areias betuminosas o país passará a ser o segundo maior detentor de reservas de combustíveis fósseis, logo depois da Arábia Saudita.

Evidentemente, acusar apenas a BP é uma atitude um tanto esquizofrência, já que se ela não participar dessa corrida do petróleo outras petroleiras o farão, como já estão fazendo.  A corrida já se estende, por antecipação, à Antárdida e a outras áreas onde se encontram jazidas de petróleo de grande profundidade e cuja exploração vem se tornando viável com o aumento dos preços dessa fonte de energia.

Além disso, denunciar a atuação das empresas de petróleo sem fazer o mesmo em relação ao comportamento de seus países de origem – que subscreveram ao Protocolo de Quioto – não faz sentido.

Alguém acredita mesmo, com toda a sinceridade, que a humanidade está preparada, política ou culturamente, para abrir mão de uma Arábia Saudita de petróleo, mesmo ao custo do colapso climático e talvez civilizatório?

Quem acredita pode, talvez, olhar para a China, onde se situam mais da metade das 45.000 maiores hidrelétricas do mundo.  Com uma sólida bases tecnológica e financeira, empresas e bancos chineses estão, hoje, participando da construção de pelo menos 46 grandes hidrelétricas em 26 países, tais como Laos, Paquistão e Nigéria.  Contratos bilionários para gerar energia limpa, renovável?  Tudo como parte do pacote de ajuda a países mais pobres, mas em troca de acesso a reservas de petróleo e minérios.  A China tem anunciado metas ambiciosas de eficiência energética e de participação de energias renováveis em sua matriz energética.  Mas, evidentemente, sem abrir mão do tal do crescimento econômico, que demanda mais e mais energia.

A adoção de fontes renováveis de energia não resultará em redução do consumo de combustíveis fósseis, mas em seu aumento até o limite do possível.  Ou seja, a emissão de gases causadores de mudanças climáticas também continuará a crescer, exceto em alguns bolsões de riqueza onde a população e os níveis de consumo já se estabilizaram.

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Na produção de um barril de petróleo convencional são emitidos 29 kg de CO2, o que coloca os países produtores de petróleo entre os maiores responsáveis pela emissões causadoras das mudanças climáticas per capita.  Na produção de combustível fóssil a partir das areias betuminosas essas emissões sobem para 125 kg de CO2 por barril.

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No Canadá, nenhum cretino dirá que a exploração de novas reservas não contribuirá para as mudanças climáticas como afirmou um representante do governo brasileiro quando questionado pela imprensa na entrevista coletiva em que foi feito o anúncio da descoberta das reservas de grande profundidade de Tupi.

Kassab, Infraero, ANAC e Outros Aéreos

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Num surto de descaso com as boas práticas de urbanismo, o prefeito Gilberto Kassab, de São Paulo, aproveitou as distrações dos cidadãos com as festas de fim de ano e jogou um balão de ensaio: anunciou uma proposta de desapropriação de 2.000 imóveis para ampliar as pistas do aeroporto de Congonhas.  A brincadeira custaria a bagatela de R$ 500 milhões e seria bancada pelo governo federal.  Segundo o prefeito, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, estaria muito inclinado a aceitá-la.

De acordo com a reportagem da Folha de São Paulo de 29.12. 2007, Gilberto Kassab teria afirmado que as 2.000 desapropriações poderiam ser feitas rapidamente.  “Hoje, metade dos imóveis está vazia e a outra metade quer sair (dessa área).  ”Na região tem só dois predinhos baixos e o custo de desapropriação deles é pequeno, algo em torno de R$ 30 milhões.”  Vamos ver se Nelson Jobim, o ministro-extraordinário e plenipotenciário do apagão aéreo, embarca nessa canoa furada de interesse das empresas de aviação e outros não tão claros.

Kassab desconsiderou qualquer possibilidade de dar aos viajantes os confortos de uma ligação decente, ferroviária, entre o centro de São Paulo e Viracopos ou Cumbica, a exemplo do que acontece nos países sérios e nas cidades bem administradas.  Nada de pensar nos modelos de Londres, Paris, Milão.  Estudo de viabilidade técnica e econômica, estudo de impacto ambiental, consulta pública?  Que nada!

Nas cidades brasileiras, não é raro que as ações do poder público desvalorize drasticamente os imóveis e a propriedade privada, sem qualquer indenização ou respeito.  Entre os melhoes exemplos disso, no Rio de Janeiro, estão o elevado Paulo de Frontin, a Perimetral, e as linhas Vermelha e Amarela; em São Paulo, o não menos infame Minhocão, cujo nome de batismo é Presidente Costa e Silva.

À excessão da Perimetral, no Rio de Janeiro, todos esses elevados passam a pequeníssimas distâncias – em alguns casos, centímetros – das janelas de prédios que à época da construção eram habitados e habitáveis.  O valor de mercado desses apartamentos foi para muito além e abaixo do brejo.  Ninguém recebeu qualquer tostão de indenização.  Os nomes ou apelidos das vias – linha Vermelha e linha Amarela – dão uma boa idéia de como os governantes e empreiteiras viam e vêem a cidade: uma linha sobre uma planta ou fotografia aérea da cidade.  Sem mais.  Nunca cogitaram, sequer, de sistemas de redução de ruídos como se pode ver às margens de vias de tráfego pesado em países sérios.  Governos e lideranças empresariais que ignoram os cidadãos e as boas práticas da gestão urbana com tal descaramento não podem se credenciar para falar em nome da segurança ou da boa qualidade de vida nas cidades.

Kassab acha que tudo é apenas normal, já que uma boa parte dos imóveis está vazia e os moradores dos demais querem sair de lá.  Primeiro se permite o aumento do número de vôos até a transformação da vida da vizinhança num inferno.  Depois, desapropria-se por trocado.  Ou nada, já que disputas judiciais desse tipo podem levar uma eternidade.

Num país sério, numa cidade bem administrada, iniciativas similares são precedidas de referendos populares.  Em San Francisco, nos EUA, há mais de uma década a população rejeita a construção de mais uma pista no aeroporto da cidade.  Quem quiser que vá pousar em outra cidade, nas proximidades.  Para evitar despesas desnecessárias, os referendos são feitos conjuntamente com as eleições para cargos majoritários e proporcionais.  E os defensores dessa pista adicional já levaram sucessivas sovas nas urnas.

Mas no Brasil o que conta é o vale-tudo.  Inclusive falar num assunto de tamanha importância no dia 29 de dezembro.

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O estilo Kassab de respeito aos cidadãos pode ser visto no You Tube clicando no endereço www.youtube.com/watch?v=pkxZ_DkLqis