Kassab, Infraero, ANAC e Outros Aéreos

Num surto de descaso com as boas práticas de urbanismo, o prefeito Gilberto Kassab, de São Paulo, aproveitou as distrações dos cidadãos com as festas de fim de ano e jogou um balão de ensaio: anunciou uma proposta de desapropriação de 2.000 imóveis para ampliar as pistas do aeroporto de Congonhas.  A brincadeira custaria a bagatela de R$ 500 milhões e seria bancada pelo governo federal.  Segundo o prefeito, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, estaria muito inclinado a aceitá-la.

De acordo com a reportagem da Folha de São Paulo de 29.12. 2007, Gilberto Kassab teria afirmado que as 2.000 desapropriações poderiam ser feitas rapidamente.  “Hoje, metade dos imóveis está vazia e a outra metade quer sair (dessa área).  “Na região tem só dois predinhos baixos e o custo de desapropriação deles é pequeno, algo em torno de R$ 30 milhões.”  Vamos ver se Nelson Jobim, o ministro-extraordinário e plenipotenciário do apagão aéreo, embarca nessa canoa furada de interesse das empresas de aviação e outros não tão claros.

Kassab desconsiderou qualquer possibilidade de dar aos viajantes os confortos de uma ligação decente, ferroviária, entre o centro de São Paulo e Viracopos ou Cumbica, a exemplo do que acontece nos países sérios e nas cidades bem administradas.  Nada de pensar nos modelos de Londres, Paris, Milão.  Estudo de viabilidade técnica e econômica, estudo de impacto ambiental, consulta pública?  Que nada!

Nas cidades brasileiras, não é raro que as ações do poder público desvalorize drasticamente os imóveis e a propriedade privada, sem qualquer indenização ou respeito.  Entre os melhoes exemplos disso, no Rio de Janeiro, estão o elevado Paulo de Frontin, a Perimetral, e as linhas Vermelha e Amarela; em São Paulo, o não menos infame Minhocão, cujo nome de batismo é Presidente Costa e Silva.

À excessão da Perimetral, no Rio de Janeiro, todos esses elevados passam a pequeníssimas distâncias – em alguns casos, centímetros – das janelas de prédios que à época da construção eram habitados e habitáveis.  O valor de mercado desses apartamentos foi para muito além e abaixo do brejo.  Ninguém recebeu qualquer tostão de indenização.  Os nomes ou apelidos das vias – linha Vermelha e linha Amarela – dão uma boa idéia de como os governantes e empreiteiras viam e vêem a cidade: uma linha sobre uma planta ou fotografia aérea da cidade.  Sem mais.  Nunca cogitaram, sequer, de sistemas de redução de ruídos como se pode ver às margens de vias de tráfego pesado em países sérios.  Governos e lideranças empresariais que ignoram os cidadãos e as boas práticas da gestão urbana com tal descaramento não podem se credenciar para falar em nome da segurança ou da boa qualidade de vida nas cidades.

Kassab acha que tudo é apenas normal, já que uma boa parte dos imóveis está vazia e os moradores dos demais querem sair de lá.  Primeiro se permite o aumento do número de vôos até a transformação da vida da vizinhança num inferno.  Depois, desapropria-se por trocado.  Ou nada, já que disputas judiciais desse tipo podem levar uma eternidade.

Num país sério, numa cidade bem administrada, iniciativas similares são precedidas de referendos populares.  Em San Francisco, nos EUA, há mais de uma década a população rejeita a construção de mais uma pista no aeroporto da cidade.  Quem quiser que vá pousar em outra cidade, nas proximidades.  Para evitar despesas desnecessárias, os referendos são feitos conjuntamente com as eleições para cargos majoritários e proporcionais.  E os defensores dessa pista adicional já levaram sucessivas sovas nas urnas.

Mas no Brasil o que conta é o vale-tudo.  Inclusive falar num assunto de tamanha importância no dia 29 de dezembro.

***

O estilo Kassab de respeito aos cidadãos pode ser visto no You Tube clicando no endereço www.youtube.com/watch?v=pkxZ_DkLqis

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

O que você pensa a respeito?