Acordos Internacionais e Esquizofrenia Energética

Há cerca de 2 anos, a British Petroleum derramou um rio de dinheiro no mercado publicitário tentando mudar a percepção pública de sua sigla – BP.  Em todos os luminosos de Times Square, em Nova York, lia-se BP – Beyond the Limits (BP – Além dos Limites).  A publicidade afirmava o compromisso da empresa com energias renováveis.  E, de fato, quem visita de maneira superficial a página da BP na internet é capaz de acreditar que se trata de uma empresa verde.  A BP, como outras petroleiras, inclusive a Petrobras, tenta, com afã, acreditar ou fazer com que os outros acreditem que são empresas de energia caminhando em direção às energias renováveis.  Para isso, as petroleiras contam com o apoio da mídia, que além de bons contratos de propaganda tenta com igual afã – no melhor estilo Globo – garimpar boas notícias sobre o meio ambiente para não assustar a clientela.

A BP está se preparando mesmo é para investir R$ 5,2 bilhões numa área até agora intocada do Canadá, na extração de combustível fóssil das chamadas areias betuminosas.  Só a extração desse combustível – isto é, sem falar no uso final do combustível dela resultante –  resultará na emissão de 100 milhões de toneladas anuais de gases causadores de mudanças climáticas.  Isso para não mencionar o desmatamento de 140.000 kmde florestas nativas e a contaminação de imensos volumes de água. 

Na verdade, a BP é apenas mais uma petroleira entrando no que já está sendo chamado de “corrida do petróleo”, num paralelo com a  “corrida do ouro” do antigo faroeste.  Nessa corrida já estão a anglo-holandesa Shell e a norte-americana Esso.  E a proposta conta com o enfático apoio do governo do Canadá, já que com as areias betuminosas o país passará a ser o segundo maior detentor de reservas de combustíveis fósseis, logo depois da Arábia Saudita.

Evidentemente, acusar apenas a BP é uma atitude um tanto esquizofrência, já que se ela não participar dessa corrida do petróleo outras petroleiras o farão, como já estão fazendo.  A corrida já se estende, por antecipação, à Antárdida e a outras áreas onde se encontram jazidas de petróleo de grande profundidade e cuja exploração vem se tornando viável com o aumento dos preços dessa fonte de energia.

Além disso, denunciar a atuação das empresas de petróleo sem fazer o mesmo em relação ao comportamento de seus países de origem – que subscreveram ao Protocolo de Quioto – não faz sentido.

Alguém acredita mesmo, com toda a sinceridade, que a humanidade está preparada, política ou culturamente, para abrir mão de uma Arábia Saudita de petróleo, mesmo ao custo do colapso climático e talvez civilizatório?

Quem acredita pode, talvez, olhar para a China, onde se situam mais da metade das 45.000 maiores hidrelétricas do mundo.  Com uma sólida bases tecnológica e financeira, empresas e bancos chineses estão, hoje, participando da construção de pelo menos 46 grandes hidrelétricas em 26 países, tais como Laos, Paquistão e Nigéria.  Contratos bilionários para gerar energia limpa, renovável?  Tudo como parte do pacote de ajuda a países mais pobres, mas em troca de acesso a reservas de petróleo e minérios.  A China tem anunciado metas ambiciosas de eficiência energética e de participação de energias renováveis em sua matriz energética.  Mas, evidentemente, sem abrir mão do tal do crescimento econômico, que demanda mais e mais energia.

A adoção de fontes renováveis de energia não resultará em redução do consumo de combustíveis fósseis, mas em seu aumento até o limite do possível.  Ou seja, a emissão de gases causadores de mudanças climáticas também continuará a crescer, exceto em alguns bolsões de riqueza onde a população e os níveis de consumo já se estabilizaram.

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Na produção de um barril de petróleo convencional são emitidos 29 kg de CO2, o que coloca os países produtores de petróleo entre os maiores responsáveis pela emissões causadoras das mudanças climáticas per capita.  Na produção de combustível fóssil a partir das areias betuminosas essas emissões sobem para 125 kg de CO2 por barril.

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No Canadá, nenhum cretino dirá que a exploração de novas reservas não contribuirá para as mudanças climáticas como afirmou um representante do governo brasileiro quando questionado pela imprensa na entrevista coletiva em que foi feito o anúncio da descoberta das reservas de grande profundidade de Tupi.

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

O que você pensa a respeito?