Colapso Ambiental – Colapso da Civilização – I

Cientistas de todas as formações, a ONU, alguns governos mais sérios e até mesmo grandes grupos empresariais – como seguradoras – já reconhecem que é tempo de se adaptar às inevitáveis mudanças climáticas.  Com ou sem elas, o colapso do desenvolvimento econômico também pode ser inevitável.  E os alertas provenientes das fontes mais sérias já ocorrem há mais de 35 anos.  Neste momento, uma retrospectiva pode contribuir para que não se creia que os muitos alertas começaram recentemente.

Em 1965, Aurelio Peccei, brilhante pensador e líder empresarial italiano – já então preocupado com os problemas do Terceiro Mundo –, em discurso para uma associação de banqueiros, lançou um conjunto de desafios que captou a atenção do Departamento de Estado do governo dos EUA e da Comissão de Ciência e Tecnologia da União Soviética, da OTAN e de outras instituições, bem como de lideranças e cientistas das mais diversas áreas.

Pouco tempo depois, Peccei convenceu a Fundação Fiat a patrocinar um encontro de 30 economistas e cientistas europeus, encontro que ocorreu em 1968.  Esse grupo de reflexão se auto-denominou Clube de Roma, e Peccei ousou dizer que aquele era o começo de uma grande aventura do espírito.

“Se o Clube de Roma teve algum mérito, esse mérito consistiu em ser o primeiro a se rebelar contra a ignorância suicida da condição humana” – afirmou, mais tarde.

O período foi fértil em alertas sobre os riscos de manutenção dos padrões de industrializaçao e consumo no longo prazo.  U Thant, o brilhante secretário-geral da ONU da época, num discurso feito em 1969, afirmou:

“Eu não quero parecer excessivamente dramático, mas das informações a que tenho acesso na minha posição, só posso concluir que os países membros das Nações Unidas têm, talvez, 10 anos para deixar de lado as suas pequenas querelas e lançar uma parceria global para superar a corrida armamentista, para melhorar o meio ambiente humano, e para conter a explosão demográfica (…).  Se essa parceria global não for feita na próxima década, temo que os problemas mencionados alcançarão tais proporções que estarão fora de nossa capacidade de controle.”  

Já no ano seguinte, o Clube de Roma conseguiu a contratação de uma notável equipe multi-disciplinar do Instituto de Tecnologia de Massachusetts – conhecido por sua sigla, MIT – para fazer um estudo sobre o crescimento econômico  dentro dos padrões de consumo que caracterizavam as nações mais industrializadas.  O Clube de Roma e o MIT anteciparam-se largamente à tal da globalização.  A Fundação Volkswagen pagou o trabalho da equipe do MIT, liderada por Dennis Meadows e envolvendo outros 16 cientistas de diversas nacionalidades.

O resultado desses estudos foi publicado em 1972 com o título de “Limites para o Crescimento”.  O pensamento de Aurelio Peccei, do Clube de Roma e do MIT sintetizam bastante bem as inquietações que levaram à Conferência de Estocolmo Sobre o Meio Ambiente Humano, realizada em 1972.  Ainda não existia a fantasia do desenvolvimento sustentável.

Limites para o Crescimento foi fruto de uma sofisticada avaliação computacional das possibilidades e consequências do crescimento populacional e da evolução da demanda e da oferta de matérias-primas e energia.  Depois de Malthus, foi a primeira vez que se falou claramente em limites físicos para o crescimento econômico.  Os autores postularam a necessidade de mudanças profundas nos padrões de desenvolvimento para evitar que fosse ultrapassada a capacidade de sustentação do planeta Terra, algo que, então, parecia distante.  O sofisticado modelo desenvolvido pelo MIT indicou que os padrões de consumo e a qualidade de vida continuar prosseguir melhorando até alguns anos depois de 2015.  Ou seja, a humanidade tinha pouco mais de 50 anos para ajustar-se e evitar que tais limites fossem ultrapassados.  Cinquenta anos parecia, então, um prazo suficiente.

Em 1992, a equipe do MIT fez uma revisão de suas avaliações usando os mesmos modelos matemáticos e computacionais, com ajustes menores.  E o resultado foi uma publicação que recebeu o título de “Além dos Limites”.  A humanidade já havia ultrapassado a capacidade de suporte ou sustentação do planeta.

Esse foi o ano da Conferência das Nações Unidas Sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, e muitos tiveram a certeza de que a tal sociedade global tinha finalmente resolvido levar o tema a sério.  Não foi necessário muito tempo para ficar claro que os governos haviam abandonado as metas da Rio 92.  A Rio + 10, realizada em Johannesburg em 2002, resultou em quase nada ou em retrocessos.  “Ela foi quase totalmente paralisada por múltiplas disputas ideológicas e econômicas, e pelos esforços daqueles que perseguiam os seus estreitos interesses nacionais, corporativos ou individuais” – escreveram, em 2004, os autores de “Limites para o Crescimento” e “Além dos Limites”.

As mudanças climáticas e as questões relacionadas às energias renováveis são apenas um elemento das questões cuidadosamente avaliadas em Limites para o Crescimento.

“Quando escrevemos Limites para o Crescimento tínhamos a esperança de que as sociedades fossem iniciar ações corretivas para reduzir as possibilidades de colapso.  O colapso não é um futuro atraente.  O rápido declínio da população e da economia para níveis que possam ser suportados pelos recursos naturais do planeta ocorrerá sem dúvida num quadro de derrocada da saúde, conflitos, devastação ecológica e grandes desigualdades.  O colapso fora de controle ocorrerá conjuntamente com elevados índices de mortalidade e rápido declínio no consumo.”

Essas afirmações, vindas de uma equipe da melhor estirpe do MIT, não deveriam deixar dúvidas.  Na estimativa dessa equipe, em 2000 a humanidade já havia ultrapassado a capacidade de sustentação do planeta em cerca de 20%.

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As projeções da Agência Internacional de Energia são de um crescimento de 56% nas emissões de gases causadores de mudanças climáticas até 2030, tendo como base os níveis de emissão de 1990.

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

4 comentários sobre “Colapso Ambiental – Colapso da Civilização – I”

  1. Sim, por questões de alma pequena a humanidade não vê o óbvio e anda atrás de uma elite que também não quer ver porque não quer mudar o seu padrãode consumo e as suas atitudes, valores. Um provável colapso? Boa abordagem! Saudações

  2. Poderíamos tentar identificar, ao longo da aventura humana, o nosso break-point, o ponto onde “quebramos”, perdemos o rumo. Será que foi quando queimamos a biblioteca de Alexandria? Será que foi quando adotamos a mecânica de Newton e abandonamos a filosofia Aristotélica? Ou mais recentemente, quando adotamos o lema “a política é a arte do possível “?

  3. Sobre esse tema, pode-se parodiar a frase “o que me incomoda não são os gritos dos maus, mas sim o silêncio dos bons”. Pode-se dizer que “o que incomoda não são os clamores dos que sabem e alertam, mas o silêncio e a omissão dos que têm a obrigação de decidir e tomar medidas práticas”. Ainda adolescente, filho de evangélicos assembleianos, que costumam tomar a Bíblia num sentido literal, ao ler o Apocalise, eu aumentava a minhas dúvidas de então sobre a veracidade textual da palavra profética, porque então aquela escatologia cristã do “final dos tempos” me parecia uma absurda d terrível alegoria destinada a converter, pelo medo aqueles que se não se convertiam pela fé. Hoje, infelizmente, frente as mais antigas e novas constatações científicas sobre as irracionalidade desta espécie nesse belíssimo recanto do universo, sou obrigado a concluir que as professias de João de Patmos estão se cumprindo com uma precisão espantosa. Não obstante as advertências dos profetas e cientistas, os governantes e demais tomadores de decisão continuam a fazer pouco caso para tragédia que estamos construindo. Na verdade o aquecimento global, é apenas uma das facetas a demonstrar que, não obstante os fantásticos progressos científicos e tecnológicos conseguidos pelo homo sapiens (?!) em pouco mais de um milhão e meio de anos, essa espécie está distante anos-luz de um projeto de humanidade e civilização. O trágico é que os quatro cavaleiro do Apocalipso não vão chegar montados em seus cavalos branco, preto, amarelo e vermelho. Na verdade, eles já estão aqui, a evenenar os rios e mares, a incendiar e contaminar a terra, a exterminar os viventes, a atormentar de fome, sede, insetos e doenças! E na escalada em que vamos, inclusive com um arsenal nuclear errante no mercado negro, não me surpreenderia se, em meio a guerra pela água e alimentos no Armagedom das próximas décadas, o planeta, enfim, tenha que ser condenado a se purificar, ardendo em fogo por dez mil anos! Todos os ingredientes para isso já estão sendo cuidadosamente armazenados: fundamentalismo, fanatismo, concentração de poder, tecnologia a serviço da destruição, omissão, ganância, corrupção, etc. Enfim, os dirigentes da humanidade, dos países e das grande corporações estão conseguindo me convencer mais do que o profeta do Juízo Final.

  4. É importante frizar que o ser humano tem a capacidade de inovar, criar, revigorar (entre outras), ou seja, tem em mãos o poder de “recuperar”. Tendo em vista que o ser humano já destruiu o mundo, poderiamos, então, reconstruí-lo. Para que isso saia da hipótese, da teoria e passe a ser um fato, necessitamos largar o nosso estado “inerte” e digo mais, devemos ter um ataque de cólera mundial e pararmos de ser passivos mediante os fatos que vêem ocorrendo perante nossos olhares.

    Eu adoraria que o Homem deixasse de pensar apenas no dinheiro, abandonasse a plena visão financeira e viesse a fazer de fato algo para que assim possamos mudar o mundo e ainda mais, mudar o destino do mundo.

O que você pensa a respeito?