Colapso Ambiental – Colapso da Civilização – II

Em 2007, a Sociedade Norte-Americana de Física lançou um alerta sobre a escassez do gás hélio, se tornará um problema crítico para a humanidade em pouco tempo. 

O hélio é essencial em usos tão cotidianos quanto a ressonância magnética, fibras óticas, produção de chips e lançamento de espaçonaves que colocam satélites de comunicação em órbita.  Embora seja um dos elementos mais abundantes do planeta, os cientistas consideram que o gás hélio não é renovável, e afirmam que ele é insubstituível: “as suas propriedades são únicas e, ao contrário dos combustíveis fósseis, não há formas de assegurar a produção de substitutivos”.  

O hélio é hoje considerado tão essencial quanto o silício.  O gás é extraído de algumas reservas de gás natural  em formações geológicas específicas.  Transformar tudo em tudo – o velho sonho da alquimia – não é uma possibilidade ao alcance da ciência.

O grupo de cientistas do MIT que elaborou o modelo matemático que resultou na percepção de que existem limites para o crescimento não contava com esse tipo de escassez, tão crítica quanto a de muitas matérias-primas e insumos.  Mas o modelo trabalhou com 16 minerais, além do carvão, petróleo e gás natural.  Alumínio, cromo, cobalto, chumbo, cobre, mercúrio, prata e outros.  Na vida cotidiana as pessoas sequer percebem que todos os produtos que usam ou consomem – exceto alguns alimentos  – resultam da transformação dessas matérias-primas, cujas reservas são finitas.

O modelo desenvolvido pelo MIT em 1972 incluiu as reservas então conhecidas desses recursos naturais e diferentes taxas de crescimento do consumo.   Em todo s os cenários, é claro, as projeções de crescimento do consumo dessas matérias-primas e insumos têm um caráter exponencial.

A matemática do crescimento exponencial já é conhecida da humanidade pelo menos desde a Pérsia antiga. Conta a lenda que um súdito pediu ao rei, em retribuição a um serviço prestado, que lhe fosse dada a quantidade de grãos de um cereal calculada da seguinte forma: seria colocado um grão de cereal no primeiro quadrado de um tabuleiro de xadrez, dois no segundo, quatro no terceiro e assim progressivamente.  O rei sorriu, condescendente, achando o pedido singelo e simples, mas logo percebeu que nem mesmo as imensas riquezas de seu reino seriam suficientes para atender ao pedido. De fato, nessa progressão geométrica o décimo quadrado do tabuleiro de xadrez já requer 512 grãos de arroz, número que sobe para 16.384 no décimo-quinto quadrado, e para mais de um milhão no vigésimo-primeiro.  Todo o estoque de grãos do reino estaria exaurido muito antes de que o sexagésimo-quarto quadrado do tabuleiro fosse atingido.

O programa que resultou do modelo matemático desenvolvido pela equipe do MIT recebeu o nome World 3.  Em todas as simulações o crescimento exponencial da demanda fez com que a disponibilidade de diversas matérias-primas e insumos resultou numa expansão bem pequena do período de tempo ao longo do qual ela se encontraria disponível.  Assim, por exemplo, se as reservas então conhecidas fossem multiplicadas por cinco, o crescimento exponencial da demanda faria com que a disponibilidade da matéria-prima ou insumo passasse de 21 para apenas 45 anos.

O modelo incluiu simulações relacionadas às variações de preços e às possibildidades de substituição de uma matéria-prima por outra, e até mesmo possibilidades de reciclagem. 

O World 3 foi revisto e aperfeiçoado em 1992 – por ocasião da Rio-92 – resultando na publicação de um livro que recebeu o título de Além dos Limites.  O título ja dizia bastante.  Mas, então, todos já estavam muito mais interessados na visibilidade política e na badalação do que em números ou na viabilidade das propostas. 

Muito mais tarde, o norte-americano Dennis Meadows e o norueguês Jorgen Randers, dois dos líderes desses estudos realizados pelo MIT, escreveram:

“Em 1972, os modelos matemáticos situavam o fim do crescimento quase 50 anos depois.  Naquela época pareceu-nos que havia tempo suficiente para deliberação, escolha e ação corretiva – mesmo em nível global.”

Hoje em dia as mudanças climáticas inspiram um tal temor, drenam tanto capital e esforços orientados para a inovação tecnológica unicamente na área energética que todas essas outras variáveis foram varridas para baixo do tapete. 

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À época da primeira publicação de “Limites para o Crescimento” – em 1972 –  os percentuais de consumo dos EUA em relação à produção total de alguns mineirais já eram elevadíssimos: 42% do alumínio, 32% do cobalto, 40% do molibidênio, 33% da platina, 38% do níquel, e assim por diante, além de 50% do petróleo.

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As projeções do World 3 erraram em relação à China, cujas taxas de crescimento econômico eram, então, muito inferiores ou pouco conhecidas.  Em 2006, a taxa de crescimento econômico da China chegou a 10,7%.  O país tem, hoje, quase 20% da população mundial.  Agora já se sabe que os chineses chegaram para ficar.  E assumiram os mesmos padrões de consumo do ocidente.  Além de comprar reservas de matérias-primas que consideram estratégicas, inclusive no Brasil.  O caráter exponencial do crescimento econômico se acentuou, o futuro chegou, e o longo prazo passou a ser o horizonte de uma crise na bolsa.  Ou seja, a um palmo do nariz.

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

O que você pensa a respeito?