As trapaças do Protocolo de Quioto e o humor inteligente

Ambientalista no Brasil virou sinônimo de chato.  E com razão.  Profissionais sérios de meio ambiente – como os cientistas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) – não se autodenominam ambientalistas.  Pessoas normais preocupadas com as questões ambientais não dão valor a essas designações voltadas para o marketing, mas sim aos fatos, e tocam as suas vidas.  Ambientalistas, aqui, também são vistos como do contra e palpiteiros, além de mal-humorados.Mas não é assim em todos os lugares.  Na Inglaterra, um grupo de pessoas preocupadas com as mudanças climáticas resolveu ironizar as bobagens estruturais do Protocolo de Quioto com muito bom humor e crítica séria.  E criaram um movimento engraçadíssimo denominado Trapaça Neutra, ou Mentira Neutra.  Nele, alguém pode fazer algo que é contra os seus princípios e procurar um broker, um corretor, para encontrar uma forma de investir em atividades ou atitudes consoantes com esses princípios.”Traia a sua namorada ou namorado e invista em alguém que seja fiel” – por exemplo. “Minta para o seu melhor amigo e compense a sua culpa investindo em alguém que seja sincero.”  Ou: “trapaceie na política de seu país e compense a sua trapaça pagando por belas propostas em outro país”.  E por aí afora.A ironia não é apenas com o marketing ambiental mas também com a inércia que se cria a partir desse sistema de compensação de responsabilidades – ou de irresponsabilidades, similar à venda de indulgências denunciada por Lutero e que deu origem ao protestantismo.  Como resultado do Protocolo, o mundo tentou acreditar que seria possível reduzir as emissões globais de gases causadores de mudanças climáticas através de um sistema de mercado: emitem-se os gases nos países altamente industrializados e compram-se créditos de carbono em países menos industrializados, em geral investindo em projetos simpáticos que resultem na redução das emissões ou no aumento da captura de carbono.

Uma deliciosa ilustração do bom humor do grupo pode ser encontrada num vídeo em sua página na internet, www.cheatneutral.com.  Infelizmente o site ainda está só em inglês, mas é engraçadíssimo e merece tradução para o português.  “Ajudando você porque você não consegue se ajudar” é o slogan do grupo.

Para quem não fala inglês, vale dizer que, ao final do vídeo, há uma entrevista feita nos estúdios da BBC.  Fictícia ou verdadeira, os entrevistados dizem a verdade: as enganações do Protocolo de Quioto só adiaram a ação política imprescindível para reduzir de forma significativa as emissões de gases causadores das mudanças climáticas.

Com isso, não se quer dizer que muita gente séria não acreditou no Protocolo, na origem do qual estiveram principalmente bons economistas e outros nem tão bons que aplicaram princípios da teoria econômica capitalista à solução dos problemas relacionados aos bens comuns da humanidade.  Entre o os bens comuns, o ar.  A idéia era atribuir um valor monetário à emissão dos gases causadores de mudanças climáticas partindo-se do axioma(*) que sustenta a teoria econômica convencional: valor é o valor de mercado, e só tem valor o que tem valor de mercado.

Esse tipo de bobagem foi intensamente estimulado por instituições financeiras internacionais que deveriam trabalhar pelo desenvolvimento, em particular o Banco Mundial, talvez a instituição mais especializada na mentira neutra.

Vale a pena assistir ao vídeo e, se necessário, pedir a um amigo que traduza ao menos o mais divertido.

Vai lá!

www.cheatneutral.com

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(*) – Axioma é um ponto de partida de uma teoria.  Um axioma não precisa ser provado ou demonstrado, mas é considerado algo óbvio ou um consenso inicial necessário para a construção da teoria.

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

O que você pensa a respeito?