Educação Ambiental Engajada e de Excelente Qualidade

A maior parte dos programas de educação ambiental poderia ser resumida às aulas de biologia, geografia, química, ciências naturais e outras disciplinas ensinadas nas escolas.  Mas uma excelente peça de educação ambiental realmente contundente foi produzida por organizações norte-americanas e até o momento vista por mais de 1,5 milhão de pessoas, além de ser exibida em grande número de escolas e centros comunitários dos EUA, Ásia e África.

O vídeo se inicia com a apresentadora Annie Leonard mostrando um iPod e perguntando ao expectador se ele tem um desses?  Já se perguntou de onde vieram os materiais utilizados  em sua fabricação?  Pois eu fico obcecada com essa pergunta!”  E aí ela joga o iPod fora.

A partir daí, ao longo de 20 minutos de grande dinamismo Annie Leonard afirma que o sistema baseado no consumo está em crise pela simples razão de que o mundo das matérias-primas é finito, limitado.  Na seqüência, a animação mostra o governo norte-americano de joelhos limpando as botas das corporações, depois de afirmar que o símbolo do governo deveria ser um tanque de guerra.

“Onde eu vivo, nos EUA, 5% da população mudial consome 30% das matérias primas.  Se todos consumissem como nos EUA, precisaríamos de 3 a 5 planetas Terra.  E aí, o que fazemos?  Vamos buscar essas matérias primas nos países mais pobres, cujas populações não têm acesso nem a elas e nem aos produtos delas resultantes.  Nesse nosso sistema econômico, se você não consome, você não tem valor.”

Na seqüência, são fornecidos números sobre as substâncias tóxicas – cancerígenas e outras – utilizadas na fabricação de quase tudo o que se consome em uma economia altamente industrializada.  Um travesseiro tem uma substância química para retardar o fogo e libera tóxicos até mesmo quando o usuário dorme.  Deve haver uma maneira mais simples de se fazer um travesseiro!

Nos EUA, 200 milhões de toneladas de substâncias tóxicas são liberadas no meio ambiente a cada ano.  E o local onde esses tóxicos mais se acumulam é no leite materno.

“E aí, o que eles fazem?”, pergunta Annie Leonard.  Exportam as fábricas para os países mais pobres, onde se apropriam de seus recursos naturais.  Mas isso de nada adianta, já que as substâncias tóxicas voltam trazidas pelos ventos, pelos oceanos e, sobretudo, pelos materiais utilizados nos próprios bens de consumo.

“Nós nos tornamos uma nação de consumidores.  Não somos mais pessoas – mães, pais, filhos, amigos –, mas consumidores.  Temos que comprar, comprar, comprar.  É esse o nosso objetivo maior?  Não é melhorar o sistema de saúde ou de transporte?  Estamos trabalhando muito mais e sendo menos felizes.  Não temos tempo para as nossas famílias, para os nossos amigos, para o lazer.”

“Tudo isso não aconteceu por acaso” – continua a apresentadora.  A concepção de uma sociedade de consumo foi intencional e ocorreu logo depois da II Guerra Mundial.  “Eu li as publicações da década de 50 e vi como elas eram claras sobre a obsolescência programada.  Tratava-se de fabricar um produto que tivesse que ser substituído em pouco tempo.  Nisso estava incluída a percepção da obsolescência por parte dos cidadãos.  Muda-se um detalhe do desenho do produto e o cidadão acha que precisa comprar um novo para não parecer antiquado em relação ao seu colega de trabalho.”

A maior parte dos bens de consumo vendidos nos EUA torna-se lixo em cerca de seis meses.  Reciclar é bom, mas largamente insuficiente, já que a maioria dos produtos está desenhada de uma forma que não permite a reciclagem e principalmente porque para cada quilo de produto final são gerados 70 quilos de resíduos desde a extração e o beneficiamento das matérias-primas.

Annie Leonard termina com uma mensagem de esperança, afirmando que em muitos lugares do mundo há gente lutando contra todas essas coisas.  E que o mais importante é retomar o controle do governo. “Eles dizem que essa proposta não é realista.  E eu afirmo que a proposta deles é que não é realista, já que todo o sistema está em crise porque os recursos naturais do planeta são limitados.”

Annie não explica como e onde se deve começar para conseguir uma redução radical do consumo e uma mudança profunda de valores, estilos de vida.  Mas produziu, sem dúvida, a melhor peça da história da usualmente maçante educação ambiental.

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A apresentação, de cerca de 20 minutos, pode ser vista em www.storyofstuff.comSeria excelente – mas é improvável – que alguma autoridade ambiental ou uma empresa dessas que alardeia responsabilidade ambiental providenciasse a tradução e a divulgação do vídeo no Brasil.

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Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

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