Etanol, Biodiesel e Outras Tolices

Cresce a dificuldade de assegurar um mínimo de alimentos para os mais pobres do mundo.  Esse é o resultado do rápido aumento nos preços dos produtos agrícolas decorrente do aumento da demanda por biocombustíveis.  Não se trata de uma opinião, mas de uma constatação da FAO, a agência da ONU para agricultura e alimentação.

“Estamos vendo um crescente número de pessoas com fome.  E a quantidade de comida que a FAO pode adquirir para tentar dar algum alimento para essas crianças caiu para 40% do que era há 5 anos.”

Essa declaração da diretora-executiva da FAO, Josette Sheeran, feita há poucos dias, não repercutiu na imprensa brasileira.  Aqui, ainda se anuncia como algo sensacional a decisão da Petrobras de investir numa mega-usina de biodiesel em Minas Gerais.  Misturam-se decisões eleitoreiras – ganhar votos em território governado por outro partido – com a velha crença colonial de que os recursos naturais são inesgotáveis.  Um mega-projeto desse tipo só pode gerar monocultura e migração dos pequenos proprietários rurais para a periferia das grandes cidades.

A estimativa da FAO é de que 100 milhões de toneladas de grãos estão sendo redirecionadas anualmente para a produção de biocombustíveis.  Em escala global, a maior parte desse percentual é constituída de milho – 12% de todo o milho produzido no mundo.  Mas no Brasil a quase totalidade do biodiesel é proveniente da soja.  A redução da produção de alimentos básicos da dieta dos brasileiros – como feijão – já foi anunciada pela EMBRAPA há algum tempo.  O aumentos dos preços dos alimentos que constituem a cesta básica dos brasileiros de menor renda pesou de maneira decisiva na inflação de 2007.

Os resultados desse direcionamento dos cereais para a produção de biocombustíveis já vêm sendo anunciados pelos órgãos do governo norte-americano desde o início de 2007.  A cotação de cereais subiu para patamares nunca antes atingidos, com aumento de 25% nos preços do trigo, do milho e da soja.  O aumento da demanda de cereais pela China e Índia influiram nesse aumento, mas não foram apontados pelas autoridades norte-americanas como o principal fator, que continua sendo a demanda por biocombustíveis.

Faz-se urgente a criação de cinturões verdes em torno das cidades brasileiras por razões de segurança alimentar, incluindo menores custos de transporte, um dos mais graves efeitos perversos dos preços garantidos pelo governo aos poucos produtores de etanol.  Há décadas, o etanol brasileiro é subsidiado de muitas formas.  Entre elas, pela constante variação no teor obrigatório de mistura à gasolina utilizada pelos consumidores brasileiros.  Isso, sim, é que é parceria público-privada!  Uns ficam com a receita garantida e outros com a gasolina malhada.

Além dos cinturões verdes por razões de segurança alimentar – que não pode se restringir à caridade com dinheiro público -, a única coisa que se pode acrescentar a esse quadro perverso é o rápido aumento da eficiência energética, a utilização de energias renováveis que não demandem terras agrícolas (inclusive os biocombustíveis de segunda geração).  E, o que é mais importante, ações no sentido da rápida mudança nos padrões de consumo.

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

O que você pensa a respeito?