Marina Silva, Madeira Ilegal e Espetáculo Policialesco

O governo brasileiro tem dois pesos e duas medidas para tratar a questão da proteção das florestas amazônicas: lá fora, pede apoio financeiro e apregoa uma espécie de indenização pelos serviços ambientais por elas prestados; aqui dentro, manda a a polícia contra cidadãos pobres que não têm outra fonte de renda além da atividade de extração de madeira.  A desculpa esfarrapada é a usual: por trás dessa gente pobre há o interesse das grandes madeireiras, plantadores de soja, pecuaristas e blá-blá-blá.  Nessa retórica vazia, os tais povos da florestas são os esquecidos de sempre.

Esse mesmo governo tem dois pesos e duas medidas, também, quando se trata de seus interesses, das suas percepções da realidade, e dos interesses e percepções dos cidadãos.  E, no caso, insiste em sonegar uma informação fundamental para a proteção das florestas amazônicas: cerca de 70% dessas florestas são de propriedade do poder público!  Afinal, qual é mesmo a situação das reservas legais nas florestas amazônicas de propriedade do poder público?

Não há qualquer justificativa técnica para que 80% das propriedades situadas na Amazônia sejam reservas legais.  Esse é apenas um número inventado ao sabor das notícias sempre renovadas de que são altos os índices de desmatamento.  O percentual pulou de 50% para 80% através de Medida Provisória talhada em cima das coxas para enganar a imprensa e os otários.  E nada mudou.  Nem mesmo a capacidade do poder público de gerir as suas próprias florestas, situadas em unidades de conservação tais como parques nacionais ou estaduais.

A política de conveniências ao sabor dos embates do noticiário não muda a realidade: nessa linha, será preciso colocar um policial ao lado de cada cidadão que vive da exploração dos recursos madeireiros da Amazônia.  E mandar tropas para mais uns 300 municípios!  Enquanto isso, o Ministério do Meio Ambiente insiste em que a polícia deve retirar a madeira cortada ilegalmente – 13 mil metros cúbicos – do pequeno município de Tailândia.  O adiamento talvez se deva à falta de caminhões!  E a proposta é levar essa madeira para onde?  Ah – as graves questões da política ambiental brasileira.

Enquanto isso, nos países ditos desenvolvidos, há o mesmo alerta.  Diante de novos relatórios sobre a importância das florestas tropicais para os até hoje vãos esforços para conter as mudanças climáticas, cientistas e economistas ingleses alertam: não é preciso qualquer nova tecnologia, mas apenas um sistema de incentivos que faça com que as florestas valham mais se preservadas do que derrubadas.

Até aí, tudo bem, o papel aceita tudo.  Resta saber quem serão os beneficiários dessa proposta, se um dia vier a se tornar realidade.  Os cofres públicos que funcionam como intermediários entre os bolsos dos cidadãos e o sistema financeiro ou os tais povos da floresta?

A questão do desmatamento não se resume à Amazônia.  É a mesma em outros florestas tropicais úmidas, do Congo à Indonésia.  Representantes de Papua-Nova Guiné, um dos mais pobres países do mundo, já afirmaram em muitos foruns internacionais que não terão condições de deter o avanço do desmatamento sem incentivos financeiros adequados.  Depois do naufrágio do Protocolo de Quioto, a tentativa de usar os chamados mecanismos de desenvolvimento limpo como fiel da balança no frágil equilíbrio entre os padrões de consumo dos países ricos e as disponibilidades de recursos naturais continua sendo uma ilusão acadêmica.

E o desmatamento de florestas nativas avança, também, sob o olhar complacente de todos, no Canadá, para a extração de areias betuminosas, e na Austrália, para a mera produção de celulose e papel.

Só no Brasil é que o problema ainda é tratado como mero espetáculo policial para dar a impressão de que algo sério está sendo feito e de que o governo age com firmeza.  Seria bem melhor mudar a ladainha.

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No Brasil de Marina Silva, a extração de minérios em áreas de preservação permanente é expressamente permitida por mera resolução do Conselho Nacional de Meio Ambiente.  Os interesses mais poderosos também falam mais alto.  Já para os cidadãos as regras são outras, mais severas.  Para eles existem programas e entidades de defesa da cidadania.

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Marina Silva, a santa de procissão de Lula, na prática obedece a Capobianco, Secretário-Geral do Ministério que, sendo paulista e originário de uma ONG, não entende nada de Brasil.  Lula já disse a amigos que considera Capobianco “uma espinha de peixe entalada na minha garganta”.  Hora de pedir o boné e ir para casa.  As operações espetaculares na Amazônia não escondem a disfuncionalidade geral do Ministério em quase todas as suas áreas de atuação.

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Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

One thought on “Marina Silva, Madeira Ilegal e Espetáculo Policialesco”

  1. Como vivemos em um mundo capitalista, a solução é uma solução capitalista. O investimento para o plantio de uma árvore é mínimo quando comparado ao valor dessa árvore depois de alguns anos. Há vários tipos de vegetais de pequeno a grande porte, a começar de algas de água doce, que podem ser utilizadas em programas auto-sustentáveis de recuperação ambiental. Tais projetos geram emprego e renda para investidores e trabalhadores. No momento, os bancos ainda não estão emprestando dinheiro para projetos assim pois eles tem clientela que lhes dá ganhos certos em outras áreas e tradicionalmente bancos não se interessam por inovadores. No entanto, a partir do momento que inovadores começarem a faturar, os bancos irão se interessar em oferecer financiamento para seus projetos.

    No momento, estamos ainda lutando para alçar vôo em nosso projeto em Ilha de Guaratiba, bairro da Zona Oeste do município do Rio de Janeiro.

    Por outro lado, as florestas ainda não destruídas do Brasil podem tornar-se auto-sustentáveis se nelas fizermos investimentos adequados tais como hotelaria de turismo ecológico, clínicas de tratamento para dependentes químicos, tabagismo, alcoolismo, extração de fitoterápicos etc.

    Portanto, este é um momento adequado para aqueles que o percebem e podem investir trabalho e recursos financeiros em projetos que além de preservar, gerar empregos, integrar a sociedade à preservação de florestas, gerar ganhos financeiros honestos.

O que você pensa a respeito?