Mudanças Climáticas, Geleiras e a Política da Lata d'Água na Cabeça

Há gente que trabalha sério em meio ambiente.  O Serviço Mundial de Monitoramento de Glaciais (ou Geleiras) está nesse grupo.  Não se trata, é claro, de uma ONG ambientalista, mas de uma extensa rede de instituições de pesquisas científicas de 30 países.  Nada mal para calar petroleiras que pagam congressos “científicos” nos EUA com o objetivo de informar que as mudanças climáticas não são tão graves. 

 A coleta de informações sobre o comportamento das geleiras iniciou-se em 1894 com a fundação da Comissão Internacional dos Glaciais, durante o VI Congresso Internacional de Geologia, em Zurique, na Suíça.  Há décadas, o Serviço Mundial de Monitoramento de Glaciais coleta informações padronizadas sobre a massa, o volume, a área e o perímetro das geleiras.

Em seu último relatório, essa rede de cientistas constatou que as 30 mais importantes geleiras do mundo estão se reduzindo a taxas recordes.  Entre 1980 e 1999, a redução média das geleiras foi de 30 centímetros por ano.  Mas desde 2000 essa média subiu para 50 centímetros anuais.  E nos últimos anos a taxa média subiu para 1,5 metros por ano.  O recuo mais alto deu-se numa geleira da Noruega, cuja redução está se dando a uma taxa de 3,10 metros anuais.  Como se sabe, crescimentos exponenciais são perigosos.

O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente alertou para as consequências dramáticas desse recuo das geleiras, em particular para a Índia, que é abastecida de água por rios que se formam nas geleiras dos Himalaias.  E também para a costa oeste dos EUA, cuja água depende dos glaciais da Serra Nevada e das Montanhas Rochosas.  Na Califórnia, os trabalhos orientados para a adaptação à nova realidade já se encontram em andamento e vem se acelerando.

Os alertas se estendem à África.  Alguns cientistas estimam que as famosas neves do Kilimanjaro desaparecerão antes de 2020, da mesma forma que geleiras andinas, responsáveis pelo abastecimento de água do Peru.  O glacial de Quelccaya, o maior dos trópicos, vem sendo estudado desde 1974.  Numa de suas vertentes, conhecida como Qori Kalis, o ritmo de recuo da massa de gelo vem superando os 60 metros anuais, e alguns geólogos situam em 2012 os primeiros sinais graves do colapso do abastecimento de água de áreas de produção agrícola e cidades peruanas, com conseqüências sobre as vazões de água dos rios Madeira – onde deverá se iniciar em breve a construção de grandes hidroelétricas.

Mas, afinal, esses são assuntos de longuíssimo prazo, num mundo em que os prazos que interessam se restringem àqueles relacionados ao fechamento do ano contábil e à distribuição de dividendos.

A lista das instituições e países que participam do monitoramento do comportamento dos glaciais pode ser encontrada em http://www.geo.unizh.ch/wgms/nc.html , que é parte da página do Serviço Mundial de Monitoramento dos Glaciais na internet – http://www.geo.unizh.ch/wgms.

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Um famoso pensador alemão dizia que as sociedades, como as pessoas, só se colocam os problemas que têm condições de resolver.  O governo alemão já não se preocupa tanto com os “tapetões” internacionais sobre mudanças climáticas e concentra-se num conjunto de políticas de adaptação.  Não deixa de ser uma demonstração de que ele já encontrou um caminho para a solução dos problemas decorrentes dessas mudanças climáticas.  Se não me falha a memória, o pensador alemão chamava-se Karl Marx.

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

4 comentários sobre “Mudanças Climáticas, Geleiras e a Política da Lata d'Água na Cabeça”

  1. Pois é, nem precisa ir longe. Como você mencionou, os glaciais tropicais nos países andinos vizinhos do Brasil estão desaparecendo. Estima-se que 30 a 40% da água que abastece Quito e La Paz dependem de glaciais; e que os glacialies andinos entre a Bolívia e a Venezuela diminuiram de 2.940 km2 em 1970 para 2.494 km2 em 2000. Cerca de 22% dos glaciais do Paru já desapareceram. Segundo Francou et al (2006), o Glacial Chacaltaya, na Bolívia, já perdeu grande parte de sua área e deverá desaparecer em 2010. Espero que os países e eleitores do mundo reflitam e venham a aderir não somente a políticas de adaptação e mitigação nos diversos setores da atividade humana, mas também – ou principalmente, de adaptação do padrão civilizatório, adotando modos de vida menos consumistas.

  2. Como sempre, lúcido, oportuno e consistente… gostei do toque do ‘pensador alemão’ . Recomendei a um colega físico e antropólogo, e vou divulgar mais…

  3. Realmente, somente a mudança dos nossos padrões de consumo poderá dar condições de sobrevivência aos habitantes do nosso planeta Terra.
    As mudanças climáticas já fazem parte do nosso cotidiano.
    Quando jovem na década de 50 dava para se saber qual a estação em que nos encontra\ávamos ao longo do ano. O verão terminava com as águas de março, como cantou Tom Jobim. A primavera, estação das flores, podia ser vista nas ruas arborizadas e nas mangueiras dos terrenos.
    Hoje não temos mais essas notícias que a natureza nos dava de graça ao longo do ano.

    Concordo que não podemos mais continuar com os rumos das discussões nos “tapetões internacionais”. Já é hora de formular políticas de adaptação à nova realidade climática.

    Comentário do autor – Mudar os padrões de consumo signfica dizer aos 2,5 bilhões de chineses e indianos que eles não devem ter geladeiras, aparelhos de ar-condicionado, carros e essa tralha toda! E dizer aos norte-americanos e aos europeus que eles têm que reduzir drasticamente o consumo de iPhones e outras porcarias, e usar mais casacos e menos aquecimento durante o inverno. Sinceramente, não consigo sequer vislumbrar isso acontecendo. Faz-me lembrar um cartão postal daqueles gratuitos, de publicidade, que ficam na saída dos banheiros, e que vi num bar em San Francisco: “venda o lixo velho, compre lixo novo”.

    A passagem não será pacífica mas, ao contrário, muito mais dolorosa ainda do que todas as outras grandes mudanças ocorridas na história da humanidade.

  4. “A passagem não será pacífica mas, ao contrário, muito mais dolorosa ainda do que todas as outras grandes mudanças ocorridas na história da humanidade.”

    Vejam que isso significará provavelmente novas guerras entre nações, e também novas guerras dentro das nações. Tal como rola entre pobres e ricos todo dia nas grandes cidades do nosso “pacífico” país. Mas em uma ou duas décadas esses conflitos irão se diversificar, interconectando-se. Quem viver verá.

    Resposta – Duas décadas é um prazo bastante otimista.

O que você pensa a respeito?