Monthly Archive for abril, 2008

Golpe de Misericórdia nos Biocombustíveis?

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“Os EUA e a União Européia tiveram uma atuação criminosa ao contribuir para o aumento explosivo dos preços globais dos alimentos em decorrência dos estímulos ao uso colheitas para a produção de biocombustíveis”- afirmou o relator da ONU (www.un.org/apps/news/story.asp?NewsID=26478&Cr=food&Cr1=ziegler).  A declaração foi feita durante o encontro sobre a crise global de alimentos que se iniciou ontem na Suíça.

No mesmo pronunciamento, ele propôs uma moratória de 5 anos na produção de biocombustíveis.

Esse pode ser considerado o golpe de misericórdia na ilusão de que seria possível uma expansão indefinida das fronteiras agrícolas do mundo de maneira a assegurar a substituição tanto do petróleo quanto de seus derivados.  Ilusão, sim.  Não porque não exiistam as tecnologias, mas em função da população já existente no planeta e de seu contínuo crescimento.

Jean Ziegler, o relator especial da ONU, enfatizou, também, a manipulação dos mercados internacionais por empresas como a Cargill, que controla 25% da produção mundial de cereais, e pediu novas medidas medidas regulatórias para conter esse poder dos oligopólios e dos mercados futuros sobre a produção e os preços dos alimentos. 

Nada muito diferente do poder quase sem limites que os produtores de soja e de etanol têm sobre o governo brasileiro, inclusive fazendo Lula circular pelo mundo como um antiquado vendedor de enciclopédias clamando pelo fim dos subsídios europeus e  norte-americanos à produção agrícola.  Em especial quando isso aconteceu nos mesmos dias em que o governo brasileiro aceitou os termos impostos pela bancada ruralista para perdoar ou adiar o pagamento de dívidas bilionárias, reduzindo os juros a patamares desprezíveis.  Ou seja, uma política de fortes subsídios aos poderosos, em nada diferente do que fizeram governos anteriores.

Ziegler também criticou  “a política aberrante” do FMI e do Banco Mundial que estimularam países pobres a orientarem a produção agrícola para a exportação em substituição à produção de alimentos para consumo de suas populações.   Tudo com o único objetivo de assegurar o pagamento de dívidas externas.

Vale ressaltar que todo esse caos já se configura quando a regra, no caso brasileiro, é a adição de apenas 2% de óleos vegetais ao diesel e de um percentual que oscila em torno de 20% de etanol à gasolina (percentual sempre manipulado em função dos interesses da indústria sucro-alcooleira, controlada por 3 ou 4 grandes grupos, e sob o domínio crescente de fundos de investimento estrangeiros puramente financeiros).

Isso sem falar na massiva aquisição de terras por grupos estrangeiros para a produção de biocombustíveis para a exportação nos anos recentes.  Essas monoculturas geram poucos empregos e aumentam a pressão no sentido do êxodo rural para a periferia das grandes cidades.  Também nas cidades de porte médio a favelização é visível e se acentua a cada dia.

Afirmar que o aumento da demanda de alimentos pela China é o principal fator do aumento dos preços é mera enganação de má-fé, já que o uso de alimentos para a… alimentação é apenas natural e inevitável.

Falar em “modernização das técnicas agrícolas” de maneira a evitar a expansão da fronteira agrícola em direção à Amazônia e ao Pantanal também é enganação.  Essa modernização pressupõe taxas mais elevadas de aplicação de fertilizantes derivados do petróleo e mecanização.

Além disso, os europeus que fazem politicagem buscando a certificação devem saber perfeitamente que eles podem importar biocombustíveis produzidos em outras regiões do Brasil sem deixar de contribuir para o aumento das pressões no sentido aa inevitável expansão das fronteiras agrícolas nos ecossistemas que fingem querer proteger.

Já é tempo de se desenhar uma política de segurança alimentar que não seja restrita à bolsa-família.   E isso não ocorrerá através do “zoneamento econômico-ecológico” cuja ênfase esteja na proteção de uma biodiversidade ainda pouco conhecida.  São necessárias políticas de verdade para a segurança alimentar e energética.

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Sistemas similares à bolsa-família foram usados em muitos países hoje altamente industrializados durante quase todo o seçulo XX, em particular nos momentos de crise.  Mas em conjunto com outras políticas públicas, sistêmicas e de longo prazo, inexistentes no Brasil há bastante tempo.

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O secretário-geral da ONU ressaltou, em seu discurso de encerramento da conferência, a crescente possibilidade de “distúrbios sociais”, mesmo nas áreas urbanas, em função da escassez e dos preços dos alimentos.  A melhor denominação para tais “distúrbios” é violência mesmo.

Carl Sagan – Sobre a Relevância da Humanidade

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Conta-se que em recente encontro internacional de Física, Stephen Hawkins teria feito uma curta intervenção durante uma sessão sobre mudanças climáticas: “Não há razões para tanta aflicão.  Afinal, é só a espécie humana que está em risco.”  Do ponto de vista de um físico renomado, incansável em sua luta contra doença – ou seja, um homem cheio de esperança -, essa observação parece apenas natural.  De fato, para as ciências exatas, o ser humano não é o centro da criação e não desempenha qualquer papel especial no universo, como ocorre em boa parte das religiões.

Num outro recanto do planeta, o Brasil, um país no qual o presidente parece cada vez mais desnorteado no autismo da continuidade do poder, Blairo Maggi, odiado pelas seitas ambientalistas por ser um hábil representante dos grandes produtores de soja, torna-se o primeiro governador a enviar para a Assembléia Legislativa do Estado (de Mato Grosso) um projeto de zoneamento ecológico-econômico que amplia as áreas protegidas e desagrada de forma contundente a sua base de apoio.  Talvez o tenha feito para demonstrar que um projeto desse tipo não passa em lugar nenhum do Brasil.  Dias depois, Blairo Maggi diz com todas as letras o que os mais rigorosos especialistas já sabem há décadas: não é possível alimentar as pessoas sem desmatamento.

Mudando de hemisfério, na Califórnia, que é quase um país, já que se encontra usualmente pelo menos uma década à frente do restante dos EUA, a coisa toma o mesmo rumo.  Um comissão multidisciplinar de altíssimo nível formada para debater os graves problemas ambientais do estado - denominada Visão do Delta (Delta Vision) escolhe um cientista para apresentar o primeiro relatório dos estudos que incluem investimentos de bilhões de dólares para assegurar o abastecimento de água, a navegabilidade dos rios e canais, a proteção dos diques feitos desde o início do século XX para “ganhar terras agrícolas”.  Questionado por um “ambientalista” sobre a sobrevivência de uma espécie de peixe sem valor comercial, o cientista responde com um frase seca: “estamos, aqui, tratando da sobrevivência de um ecossistema humano“.

Afinal, a espécie humana é compatível com a proteção da biodiversidade?  Se considerarmos casos particulares, como os gorilas, sim.  No geral, em nenhuma hipótese.  Dado o crescimento populacional e o afã de governos e corporações imersas em “responsabilidades sociais e ambientais” objetivando a incorporação de 1, 2, 3 bilhões de novos consumidores ao mercado da mesmice, não existe qualquer chance de se alcançar um desenvolvimento sustentável em escala global.  Mudar os padrões de consumo?  Bom, é melhor deixar esse assunto de lado.

No YouTube, pode-se encontrar um pequeno filme narrado pela voz de Carl Sagan, um dos mais renomados astrônomos de nossa era.  O vídeo foi feito ao contrário, buscando encaixar as últimas palestras, já que Carl Sagan faleceu em 1995.

Vale dedicar uns 5 ou 6 minutos para vë-lo em http://www.youtube.com/watch?v=EjpSa7umAd8&eurl.

A astronomia é um ciência que nos dá a dimensão de nossa verdadeira importância.

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Uma coisa é mais do que certa.  O último estadista a colocar forte ênfase no controle do crescimento demográfico foi Mao-Tsé-Tung.  Por que será que não se toca mais nesse assunto, tão fundamental para as dimensões da inevitável crise em escala planetária?

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Vale, também, saber um pouco sobre a grandeza – amplitude e profundidade -, bem como sobre os notáveis esforços de Carl Sagan para acender uma vela na escuridão em que vive a humanidade em http://pt.wikipedia.org/wiki/Carl_Sagan.

O IBAMA e o Abraço do Afogado – O Início do Fim da Truculência

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Ainda há esperança para as políticas de gestão ambiental no Brasil: aumentam os casos em que o poder judiciário confirma decisões de primeira instância contra os surtos de autoritarismo truculento do IBAMA.

Desta vez, com a decisão do Tribunal Regional Federal – TRF no sentido  de que o IBAMA não tem competência para estabelecer normas, realizar atividades de fiscalização ou aplicar multas em assuntos que são de incumbência dos órgãos estaduais de meio ambiente.

Numa instrução normativa de 2003 – sem qualquer base técnica, como a maioria dos regulamentos do Conselho Nacional de Meio Ambiente – CONAMA e do IBAMA -, o órgão decidiu proibir a aviação agrícola num trecho de suposta Mata Atlântica do estado do Paraná, com prejuízos para centenas de pequenos produtores de banana e palmito.  O Tribunal Regional Federal da 4ª. Região apenas confirmou a decisão de primeira instância, que já havia considerado, na sentença, que “as instruções normativas não se prestam a introduzir inovações na ordem jurídica”.

Outras decisões similares já foram tomadas pelo mesmo TRF do Rio  Grande do Sul, que simplesmente extinguiu uma ação contra um produtor de arroz autuado pelo IBAMA por um suposto desmatamento, com base no mesmo entendimento de que a fiscalização caberia ao órgão técnico estadual.

Ações semelhantes estão sendo propostas em outras unidades da federação.

Quanto tempo ainda será necessário para que os municípios entendam que podem fazer o mesmo e não se sujeitar às bobagens do Conselho Nacional de Meio Ambiente – CONAMA que, num surto de autoritarismo, resolveu decidir em que condições eles (os municípios) podem exercer as suas competências no campo da gestão ambiental.  Com isso, em nome de uma pretensa “hierarquia das leis”, o CONAMA simplesmente jogou no lixo o fato de que, nos termos da Constituição, os entes federados são a União, os Estados e os Municípios, e de que a competência para a gestão ambiental é concorrente, isto é, uma atribuição conjunta de todos os entes federados.  Essa timidez dos municípios permite aos órgãos ambientais estaduais e ao IBAMA a truculência de querer decidir até mesmo sobre a estrutura administrativa dos municípios, ao afirmar que só podem fazer o licenciamento ambiental aqueles municípios que tiverem conselhos com poderes deliberativos.  Quanta asneira!

 Da mesma forma, os tribunais superiores confirmam a cada dia mais que muitas restrições ambientais em propriedades privadas são tão exageradas e arbitrárias que as sentenças determinam o pagamento de indenizações por algo que no jargão jurídico é conhecido como “desapropriação branca”.

Em Búzios, por exemplo, para atender a 3 ou 4 ambientalistas que se fazem passar por representantes de segmentos importantes da população, criou-se uma Área de Proteção Ambiental – APA com uma taxa máxima de ocupação de 1%.  APAs são criadas em áreas privadas por atos do poder público, e nelas são feitas restrições administrativas de uso, em tese com a finalidade de assegurar a proteção ambiental.  Talvez o poder público municipal pudesse ter optado por uma taxa máxima de ocupação de 0,1% ou 0,01% para dar a impressão de ser rigoroso na proteção ambiental, como sempre sem qualquer base técnica.

Agora, a cadeia Orient Express – a mesma do Copacabana Palace, que tem presença em lugares ambientalmente sensíveis, bem como nas proximidades de importantes sítios arqueológicos e similares (incluindo a compra recente do magnifício hotel existente no Parque Nacional de Foz do Iguaçu – resolveu investir na área, aceitando essa limitação descabida que preserva 99% da área.  E ainda assim vê-se às voltas com o assanhamento dos órgãos estaduais de meio ambiente e do MP (federal e estadual), que fingem que a única alternativa é não fazer nada.  Mas se a área for abandonada e ali surgir uma favela, pode tudo, já que a regra permite a ocupação até mesmo de áreas de preservação permanente para fins de “regularização fundiária” – além de mineração, projetos de geração de eletricidade, linhas de transmissão, gasodutos, telecomunicações e outros.

Por trás dessas atitudes, misturam-se graves erros de percepção, jogos de cena para as arquibancadas, interesses velados que impedem ou adiam o desenvolvimento local de cima para baixo.

Espera-se que os municípios comecem, também, a impor-se mediante o apelo ao Judiciário.  Afinal, qual a proposta desses “ambientalistas” que, com atitudes assim lembram “o abraço do afogado”?  Ecossistemas sem seres humanos?  As ações desse tipo, que já ultrapassaram todos os limites do bom senso, criam mais antipatias do que simpatias pelos órgãos ambientais.  Ao contrário do que aconteceu nos países sérios, onde os rios e lagos estão limpos, o lixo não reciclado é disposto em aterros sanitários de verdade, os esgotos são tratados, e assim por diante.

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O “abraço do afogado” é a denominação dada à desesperada e irracional tentativa da pessoa que está se afogando quando tenta agarrar-se a quem está tentando salvá-la, levando ambos para o fundo.

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A idéia de que a lei ambiental brasileira é boa e o que falta é a sua aplicação é uma canoa furada.  A lei, em muitos aspectos, é ultrapassada, retrógrada, inapropriada para aplicação em todo o território  nacional, e um fator de atraso na gestão ambiental.

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Evidentemente, esses comentários não se aplicam a funcionários individuais do IBAMA.  Há profissionais dedicados e competentes em todas as áreas.  Trata-se, aqui, de políticas públicas e percepções sobre as formas de aplicá-las.

A "Ética Ambiental" e os Fatos

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No início da década de 90, um pequeno grupo de intelectuais do Banco Mundial reunia-se às sextas-feiras no café da manhã para debater a ética no sistema financeiro.  Eu ia, achava divertido, mas insistia em que ética e sistema financeiro são temas excludentes.  Parecia-me algo similar a falar em ética na matemática ou na física quântica.  Ou nos aspectos éticos da relação entre o predador e a presa.

Não muito tempo depois, a roubalheira desenfreada das Enrons e Qaulcomms, que rapidamente se estendeu a centenas de empresas norte-americanas, abriu no caixa dos fundos de pensão e dos pequenos investidores um rombo estimado em US$ 100 bilhões.  Os processos se arrastam até hoje na SEC – o órgão regulador do sistema financeiro norte-americano, sem indício de solução nesse momento em que uma nova crise finaceira ja mostra as suas garras afiadas ao mesmo tempo que o preço dos alimentos bate recordes históricos.

Da mesma forma, falar em ética e meio ambiente tem as marcas do divertimento, um estilo de música ligeira muito difundido no século XVIII, composta sob encomenda pelas cortes para ser executada em eventos de menor importância.

Afinal, no momento em que o maior emissor de gases causadores de mudanças climáticas do mundo – os EUA – comete um genocídio no Iraque para assegurar o acesso a reservas de petróleo, é bem difícil falar na preservação das florestas amazônicas sob o argumento de que elas são “o pulmão do mundo”, ou seja, por razões éticas.  Ainda mais quando o lero-lero das áreas de preservação permanente abre excessões para as atividades de mineração, para as grandes usinas de energia elétrica, para a regularização fundiária para a baixa renda, e outras atividades definidas como “de interesse social” ao sabor dos grupos de pressão. 

Deixemos, pois, a ficção de uma ética aplicada aos inevitáveis conflitos decorrentes da combinação entre a explosão demográfica e a sociedade de consumo.  Afinal, governos e grandes  corporações estão celebrando as propostas para incluir alguns bilhões de consumidores adicionais ao mercado… em nome da ética do combate à pobreza.  “Os Próximos Quatro Bilhões” (de consumidores) é o título de um estudo publicado pela ONG chapa-branca que finge estudar os recursos naturais do mundo – World Resources Institute (www.wri.org).

Na hora do aperto, os bárbaros do capitalismo financeiro que já controlam o etanol brasileiro  querem mesmo é mais dividendos para pagar os iates que aportam na marina de Mônaco.  E, ao final, a ética que prevalecerá é a do dito popular: “farinha pouca, o meu piráo primeiro”.  Ou será que alguém acredita que os ricos vão reduzir os seus padrões de consumo ou que os pobres não vão lutar para ter acesso a esses mesmos padões?

No lugar de livros de aparente sofisticação acadêmica sobre a ética e o meio ambiente – “ah, essa falsa cultura”, diria mestre Millôr Fernandes -, vale recomendar outras leituras.  Entre elas, um livro recentemente publicado no Brasil: “O Colapso – Como as Sociedades Escolhem o Fracasso ou o Sucesso”, de Jared Diamond, geógrafo, professor da Universidade da Califórnia em Los Angeles.

Conduzindo o leitor por um fascinante passeio ao longo de civilizações que depois de alcançar altíssimos níveis de organização e conhecimento simplesmente desapareceram, Jared Diamond chega às socidades contemporâneas, dos genocídios em Ruanda até os desafios com que se defronta a Califórnia, onde a diminuição da formação de neve nas montanhas já causa acentuada escassez de água.

“O que é mais assustador do que o espectro do colapso de uma civilização – os restos dos templos abandonados de Angkor Wat, no Camboja, das cidades maias tomadas pela selva, ou a vigília sombria das estátuas da ilha da Páscoa?  As imagens dessas ruínas sugerem a pergunta.  Será que isso também pode acontecer conosco?” 

Nesse caminho, a ética irá mesmo é para o brejo, algo não muito raro na história da humanidade.  Os países sérios e que têm governos já estão no caminho das “medidas adaptativas”, em lugar de inflar o peito para falar nas maravilhas da exportação de commodities.

Hidrelétricas, Faixas Marginais de Proteção e Monoculturas

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Como o Ministério do Meio Ambiente da corte se apega a generalidades por falta de propostas, vale a imagem de uma usina de álcool a poucos metros do rio logo à jusante da hidrelétrica de Marimbondo.  A hidrelétrica, no rio Grande, na fronteira entre Minas Gerais e São Paulo, é a segunda de maior potência de Furnas, com 1.440 MW.  Tendo sido concluída em 1975, com um reservatório tem 438 km2, até hoje não há passagem para a migração dos peixes que buscam a desova.  As autoridades acreditam ou fingem acreditar na usual lenga-lenga do “peixamento”, isto é, da produção de alevinos em laboratório para o povoamento do lago.

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Sentar-se num pequeno restaurante chamado Peixe Vivo, de onde foi tirada a foto, e conversar com os mais velhos é bom para ouvir histórias.  Entre elas, as de que na época da piracema – a subida dos peixes que migram para reproduzir – alguns poucos jogam as redes nas proximidades da barragem e pimba, lá se vai o peixe direto para caminhões frigoríficos.  “Aqui morrem muitos enormes quantidades de peixes que não conseguem subir” – afirma o garçom.

Logo à jusante da barragem (que pode ser vista ao fundo, à direita da foto), uma enorme usina de álcool encontra-se quase colada às margens do rio, ou seja, naquilo que deveria ser uma área de preservação permanente.  Não há informações sobre o licenciamento da usina e tampouco de planos para remover os sistemas de tancagem mostrados na foto.  O conceito genérico de áreas de preservação permanente evidentemente não tem aplicabilidade prática do Oiapoque ao Chuí.  Mas, nesse caso, poderia e deveria ser aplicado.  Afinal, sistemas de tancagem são usualmente cercados por sistemas de contenção para os casos de vazamento.

Percorrendo a estrada que vai de São José do Rio Preto, em São Paulo, até Frutal, em Minas Gerais, a paisagem é quase exclusivamente de cana-de-açúcar.  Nenhum indício de reservas legais.  Ao longo do caminho, muitas pequenas pontes sobre rios, riachos e córregos.  O motorista explica que “antigamente” eles não secavam, mas com a chegada da cana-de-açúcar essa já é uma ocorrência comum.  Afinal, que percentual dos grandes produtores de cana-de-açúcar, promovidos a heróis por Lula, se interessa por reservas legais genéricas?

O impacto da monocultura é visível nas pequenas cidades mineiras, onde já se consome leite. iogurte e até pão-de-queijo industrializados (este último com o nome Forno de Minas mas fabricado pela Unilever, Colgate-Palmolive ou outra dessas bobagens sem sabor).  O arroz vem de Goiás ou do Rio Grande do Sul; o feijão nem se sabe de onde.  É a monocultura que expande os seus tentáculos em todos os sentidos, no afã de exportação de produtos primários.  Em seu Tristes Trópicos, Lévi-Strauss já falava na previsível monocultura mental.

Um cidadão mais idoso pode levar o visitante para ver os remanescentes de enormes troncos de árvores cortadas durante a construção da barragem.  Nunca houve qualquer determinação de reflorestamento das tais áreas de preservação permanente nas faixas marginais de proteção, ou plano integrado de usos múltiplos dos reservatórios.

Afinal, para que ações tão simples se as generalidades satisfazem a mídia?  E Furnas faz um bocado de publicidade de suas ações de responsabilidade ambiental.  Se bobear, tem até certificação dada por alguma ONG amiga!

Água e Segurança Internacional

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O governo da Alemanha estima que até 2020 milhões de africanos e asiáticos sofrerão de grave escassez ou total falta de disponibilidade de água em decorrência das mudanças climáticas, que já se fazem sentir.  Nada de até 2100, como em geral afirmam os documentos do Painel Intergovernamental Sobre Mudanças Climáticas.  A experiência e a liderança alemã no que se refere à gestão de recursos hídricos é notória entre os especialistas, e por essa razão iniciou-se, hoje, em Berlim, uma conferência internacional sobre estratégias para evitar ou reduzir conflitos causados pela escassez de água. 

A posição alemã é simples e contundente: há necessidade de políticas de adaptação às novas realidades, que envolvem, além da questão fundamental da água, as perdas de terras agriculturáveis.

“Investimentos para mitigar esses impactos e alternativas para a adaptação ao inevitável devem caminhar de mãos dadas quando se trata dos desafios à segurança internacional causados pelas mudanças climáticas.  Ambos devem ser vistos como partes de uma política de segurança preventiva.”

A afirmação, contida no documento intitulado Mudanças Climáticas e Segurança Internacional consta da abertura de uma apresentação feita Conselho Europeu.  A versão em inglês do documento pode ser encontrada em www.auswaertiges-amt.de/diplo/en/Aussenpolitik/Themen/EnergieKlima/Downloads/Zentralasien-Strategie-Text-D.pdf.

No norte da África, as perdas de solos agriculturáveis podem chegar aos 75%, e um relatório do IPCC aprovado ao final de março estima entre 75 e 250 milhóes de africanos gravemente afetados pela seca até o final de 2.020.

“Já no presente, as mudanças climáticas estão tendo um impacto contundente em Darfur e em suas cercanias.  No sul da Ásia, as mudanças no regime de chuvas (monções) e a redução das geleiras que abastecem regiões inteiras afetarão mais de 1 bilhão de pessoas.  No sul da Ásia, a escassez de água terá impactos tanto sobre a agricultura quanto sobre a geração de eletricidade.  “O Cazaquistão perdeu cerca de 1.000 geleiras nas últimas 4 décadas.  Em consequência, há um considerável potencial de conflitos na região que (…)impactarão direta ou indiretamente os interesses da Europa.” – afirma o relatório alemão.

E no Brasil, o que é mesmo que está sendo feito para proteger os recursos hídricos, além do anúncio frequente da cobrança de novas taxas sobre o uso das águas, com a arrecadação de recursos financeiros desprezíveis e que quase nunca retornam às bacias hidrográficas onde foram arrecadados?  Qual era mesmo a função da Agência Nacional de Águas – ANA?

Fala-se genericamente em áreas de preservação permanente e em reservas legais, sem nenhuma ação concreta para a identificação, proteção ou recuperação das áreas de nascentes.  Ao contrário, a cana-de-açúcar avança rapidamente sobre as nascentes do rio São Francisco, em Minas Gerais.  Da mesma forma, o discurso - sempre genérico – sobre as áreas de preservação permanente não resulta em iniciativas de caráter abrangente para que se determine pelo menos o reflorestamento das faixas marginais de proteção dos reservatórios das hidrelétricas (algo que pode ser feito por Resolução do abúlico Conselho Nacional de Meio Ambiente – CONAMA ou das secretarias de estado de meio ambiente).  Já seria um bom começo, nesses tempos em que se discute quanto o poder público vai arrecadar com a renovação das concessões das hidrelétricas mais antigas.

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A iniciativa do encontro sobre a escassez de água em Berlim foi do Ministério das Relações Exteriores da Alemanha.  Nenhuma semelhança com as tardias negociações entre o nosso Itamaraty para que o governo da Espanha  esclareça melhor a documentação necessária até mesmo para os passageiros em trânsito, ou para permitir o acesso a meros telefones, daqueles que forem retidos pela truculência da imigração espanhola, nobre herdeira do Generalíssimo Francisco Franco, que se auto-intitulou Caudilho de Espanha pela Graça de Deus.  À época do Brasil-colônia, Portugal era conhecido na Europa como “o cais da Inglaterra”.  Agora, é caos da Europa no vergonhoso papel de evitar a entrada de migrantes de todos os tipos.

“A Europa deve preparar-se para um aumento substancial das pressões migratórias” – afirma o relatório alemão.  Essa é a questão central que não chega a disfarçar o blá-blá-blá sobre ajuda humanitária.  Já no Brasil, dá-se vistos de trabalho sem critérios, sempre que solicitados pelos investidores internacionais, o bezerro de ouro venerado pela dupla FHC – Lula.