Água e Segurança Internacional

O governo da Alemanha estima que até 2020 milhões de africanos e asiáticos sofrerão de grave escassez ou total falta de disponibilidade de água em decorrência das mudanças climáticas, que já se fazem sentir.  Nada de até 2100, como em geral afirmam os documentos do Painel Intergovernamental Sobre Mudanças Climáticas.  A experiência e a liderança alemã no que se refere à gestão de recursos hídricos é notória entre os especialistas, e por essa razão iniciou-se, hoje, em Berlim, uma conferência internacional sobre estratégias para evitar ou reduzir conflitos causados pela escassez de água. 

A posição alemã é simples e contundente: há necessidade de políticas de adaptação às novas realidades, que envolvem, além da questão fundamental da água, as perdas de terras agriculturáveis.

“Investimentos para mitigar esses impactos e alternativas para a adaptação ao inevitável devem caminhar de mãos dadas quando se trata dos desafios à segurança internacional causados pelas mudanças climáticas.  Ambos devem ser vistos como partes de uma política de segurança preventiva.”

A afirmação, contida no documento intitulado Mudanças Climáticas e Segurança Internacional consta da abertura de uma apresentação feita Conselho Europeu.  A versão em inglês do documento pode ser encontrada em www.auswaertiges-amt.de/diplo/en/Aussenpolitik/Themen/EnergieKlima/Downloads/Zentralasien-Strategie-Text-D.pdf.

No norte da África, as perdas de solos agriculturáveis podem chegar aos 75%, e um relatório do IPCC aprovado ao final de março estima entre 75 e 250 milhóes de africanos gravemente afetados pela seca até o final de 2.020.

“Já no presente, as mudanças climáticas estão tendo um impacto contundente em Darfur e em suas cercanias.  No sul da Ásia, as mudanças no regime de chuvas (monções) e a redução das geleiras que abastecem regiões inteiras afetarão mais de 1 bilhão de pessoas.  No sul da Ásia, a escassez de água terá impactos tanto sobre a agricultura quanto sobre a geração de eletricidade.  “O Cazaquistão perdeu cerca de 1.000 geleiras nas últimas 4 décadas.  Em consequência, há um considerável potencial de conflitos na região que (…)impactarão direta ou indiretamente os interesses da Europa.” – afirma o relatório alemão.

E no Brasil, o que é mesmo que está sendo feito para proteger os recursos hídricos, além do anúncio frequente da cobrança de novas taxas sobre o uso das águas, com a arrecadação de recursos financeiros desprezíveis e que quase nunca retornam às bacias hidrográficas onde foram arrecadados?  Qual era mesmo a função da Agência Nacional de Águas – ANA?

Fala-se genericamente em áreas de preservação permanente e em reservas legais, sem nenhuma ação concreta para a identificação, proteção ou recuperação das áreas de nascentes.  Ao contrário, a cana-de-açúcar avança rapidamente sobre as nascentes do rio São Francisco, em Minas Gerais.  Da mesma forma, o discurso – sempre genérico – sobre as áreas de preservação permanente não resulta em iniciativas de caráter abrangente para que se determine pelo menos o reflorestamento das faixas marginais de proteção dos reservatórios das hidrelétricas (algo que pode ser feito por Resolução do abúlico Conselho Nacional de Meio Ambiente – CONAMA ou das secretarias de estado de meio ambiente).  Já seria um bom começo, nesses tempos em que se discute quanto o poder público vai arrecadar com a renovação das concessões das hidrelétricas mais antigas.

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A iniciativa do encontro sobre a escassez de água em Berlim foi do Ministério das Relações Exteriores da Alemanha.  Nenhuma semelhança com as tardias negociações entre o nosso Itamaraty para que o governo da Espanha  esclareça melhor a documentação necessária até mesmo para os passageiros em trânsito, ou para permitir o acesso a meros telefones, daqueles que forem retidos pela truculência da imigração espanhola, nobre herdeira do Generalíssimo Francisco Franco, que se auto-intitulou Caudilho de Espanha pela Graça de Deus.  À época do Brasil-colônia, Portugal era conhecido na Europa como “o cais da Inglaterra”.  Agora, é caos da Europa no vergonhoso papel de evitar a entrada de migrantes de todos os tipos.

“A Europa deve preparar-se para um aumento substancial das pressões migratórias” – afirma o relatório alemão.  Essa é a questão central que não chega a disfarçar o blá-blá-blá sobre ajuda humanitária.  Já no Brasil, dá-se vistos de trabalho sem critérios, sempre que solicitados pelos investidores internacionais, o bezerro de ouro venerado pela dupla FHC – Lula.

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

O que você pensa a respeito?