Hidrelétricas, Faixas Marginais de Proteção e Monoculturas

Como o Ministério do Meio Ambiente da corte se apega a generalidades por falta de propostas, vale a imagem de uma usina de álcool a poucos metros do rio logo à jusante da hidrelétrica de Marimbondo.  A hidrelétrica, no rio Grande, na fronteira entre Minas Gerais e São Paulo, é a segunda de maior potência de Furnas, com 1.440 MW.  Tendo sido concluída em 1975, com um reservatório tem 438 km2, até hoje não há passagem para a migração dos peixes que buscam a desova.  As autoridades acreditam ou fingem acreditar na usual lenga-lenga do “peixamento”, isto é, da produção de alevinos em laboratório para o povoamento do lago.

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Sentar-se num pequeno restaurante chamado Peixe Vivo, de onde foi tirada a foto, e conversar com os mais velhos é bom para ouvir histórias.  Entre elas, as de que na época da piracema – a subida dos peixes que migram para reproduzir – alguns poucos jogam as redes nas proximidades da barragem e pimba, lá se vai o peixe direto para caminhões frigoríficos.  “Aqui morrem muitos enormes quantidades de peixes que não conseguem subir” – afirma o garçom.

Logo à jusante da barragem (que pode ser vista ao fundo, à direita da foto), uma enorme usina de álcool encontra-se quase colada às margens do rio, ou seja, naquilo que deveria ser uma área de preservação permanente.  Não há informações sobre o licenciamento da usina e tampouco de planos para remover os sistemas de tancagem mostrados na foto.  O conceito genérico de áreas de preservação permanente evidentemente não tem aplicabilidade prática do Oiapoque ao Chuí.  Mas, nesse caso, poderia e deveria ser aplicado.  Afinal, sistemas de tancagem são usualmente cercados por sistemas de contenção para os casos de vazamento.

Percorrendo a estrada que vai de São José do Rio Preto, em São Paulo, até Frutal, em Minas Gerais, a paisagem é quase exclusivamente de cana-de-açúcar.  Nenhum indício de reservas legais.  Ao longo do caminho, muitas pequenas pontes sobre rios, riachos e córregos.  O motorista explica que “antigamente” eles não secavam, mas com a chegada da cana-de-açúcar essa já é uma ocorrência comum.  Afinal, que percentual dos grandes produtores de cana-de-açúcar, promovidos a heróis por Lula, se interessa por reservas legais genéricas?

O impacto da monocultura é visível nas pequenas cidades mineiras, onde já se consome leite. iogurte e até pão-de-queijo industrializados (este último com o nome Forno de Minas mas fabricado pela Unilever, Colgate-Palmolive ou outra dessas bobagens sem sabor).  O arroz vem de Goiás ou do Rio Grande do Sul; o feijão nem se sabe de onde.  É a monocultura que expande os seus tentáculos em todos os sentidos, no afã de exportação de produtos primários.  Em seu Tristes Trópicos, Lévi-Strauss já falava na previsível monocultura mental.

Um cidadão mais idoso pode levar o visitante para ver os remanescentes de enormes troncos de árvores cortadas durante a construção da barragem.  Nunca houve qualquer determinação de reflorestamento das tais áreas de preservação permanente nas faixas marginais de proteção, ou plano integrado de usos múltiplos dos reservatórios.

Afinal, para que ações tão simples se as generalidades satisfazem a mídia?  E Furnas faz um bocado de publicidade de suas ações de responsabilidade ambiental.  Se bobear, tem até certificação dada por alguma ONG amiga!

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

3 comentários sobre “Hidrelétricas, Faixas Marginais de Proteção e Monoculturas”

  1. Concordo com estela: clareza e concisão.
    Dá-lhe Luiz.

    Hélio

  2. Sim, mas olhem para Itaipu como exemplo de recuperação ambiental. Nem tudo está perdido. Mãos à obra.

    Comentário do autor:

    Itaipu pode ter feito algumas coisas boas, sem dúvida. Mas não cuidou da passagem para peixes, que seria fácil (essa história de “peixamento” é história para boi dormir, e tampouco fez qualquer estudo de engenharia e de viabilidade econômica e financeira da construção de eclusas para a integração hidroviária com a bacia do Prata.

O que você pensa a respeito?