A "Ética Ambiental" e os Fatos

No início da década de 90, um pequeno grupo de intelectuais do Banco Mundial reunia-se às sextas-feiras no café da manhã para debater a ética no sistema financeiro.  Eu ia, achava divertido, mas insistia em que ética e sistema financeiro são temas excludentes.  Parecia-me algo similar a falar em ética na matemática ou na física quântica.  Ou nos aspectos éticos da relação entre o predador e a presa.

Não muito tempo depois, a roubalheira desenfreada das Enrons e Qaulcomms, que rapidamente se estendeu a centenas de empresas norte-americanas, abriu no caixa dos fundos de pensão e dos pequenos investidores um rombo estimado em US$ 100 bilhões.  Os processos se arrastam até hoje na SEC – o órgão regulador do sistema financeiro norte-americano, sem indício de solução nesse momento em que uma nova crise finaceira ja mostra as suas garras afiadas ao mesmo tempo que o preço dos alimentos bate recordes históricos.

Da mesma forma, falar em ética e meio ambiente tem as marcas do divertimento, um estilo de música ligeira muito difundido no século XVIII, composta sob encomenda pelas cortes para ser executada em eventos de menor importância.

Afinal, no momento em que o maior emissor de gases causadores de mudanças climáticas do mundo – os EUA – comete um genocídio no Iraque para assegurar o acesso a reservas de petróleo, é bem difícil falar na preservação das florestas amazônicas sob o argumento de que elas são “o pulmão do mundo”, ou seja, por razões éticas.  Ainda mais quando o lero-lero das áreas de preservação permanente abre excessões para as atividades de mineração, para as grandes usinas de energia elétrica, para a regularização fundiária para a baixa renda, e outras atividades definidas como “de interesse social” ao sabor dos grupos de pressão. 

Deixemos, pois, a ficção de uma ética aplicada aos inevitáveis conflitos decorrentes da combinação entre a explosão demográfica e a sociedade de consumo.  Afinal, governos e grandes  corporações estão celebrando as propostas para incluir alguns bilhões de consumidores adicionais ao mercado… em nome da ética do combate à pobreza.  “Os Próximos Quatro Bilhões” (de consumidores) é o título de um estudo publicado pela ONG chapa-branca que finge estudar os recursos naturais do mundo – World Resources Institute (www.wri.org).

Na hora do aperto, os bárbaros do capitalismo financeiro que já controlam o etanol brasileiro  querem mesmo é mais dividendos para pagar os iates que aportam na marina de Mônaco.  E, ao final, a ética que prevalecerá é a do dito popular: “farinha pouca, o meu piráo primeiro”.  Ou será que alguém acredita que os ricos vão reduzir os seus padrões de consumo ou que os pobres não vão lutar para ter acesso a esses mesmos padões?

No lugar de livros de aparente sofisticação acadêmica sobre a ética e o meio ambiente – “ah, essa falsa cultura”, diria mestre Millôr Fernandes -, vale recomendar outras leituras.  Entre elas, um livro recentemente publicado no Brasil: “O Colapso – Como as Sociedades Escolhem o Fracasso ou o Sucesso”, de Jared Diamond, geógrafo, professor da Universidade da Califórnia em Los Angeles.

Conduzindo o leitor por um fascinante passeio ao longo de civilizações que depois de alcançar altíssimos níveis de organização e conhecimento simplesmente desapareceram, Jared Diamond chega às socidades contemporâneas, dos genocídios em Ruanda até os desafios com que se defronta a Califórnia, onde a diminuição da formação de neve nas montanhas já causa acentuada escassez de água.

“O que é mais assustador do que o espectro do colapso de uma civilização – os restos dos templos abandonados de Angkor Wat, no Camboja, das cidades maias tomadas pela selva, ou a vigília sombria das estátuas da ilha da Páscoa?  As imagens dessas ruínas sugerem a pergunta.  Será que isso também pode acontecer conosco?” 

Nesse caminho, a ética irá mesmo é para o brejo, algo não muito raro na história da humanidade.  Os países sérios e que têm governos já estão no caminho das “medidas adaptativas”, em lugar de inflar o peito para falar nas maravilhas da exportação de commodities.

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

3 comentários sobre “A "Ética Ambiental" e os Fatos”

  1. Caro Luiz,

    Parabéns por mais este artigo que reúne, na dosagem certa, indignação e humor. De fato, tornou-se comum, nessas duas últimas décadas, o recurso fácil à ética (ou a sua falta) como explicação para determinadas posições, atitudes, fatos e interpretações. O exame, a análise rigorosa dos interesses econômicos e sociais, bem como dos processos históricos cedeu lugar à sustentação de um discurso que, ao pretender se assentar no último supra-sumo de valores éticos, prescinde de qualquer embasamento científico ou mesmo de mero tratamento factual. Ocorre o mesmo quando se tenta estabelecer uma relação entre a ética e a política, como se fossem territórios nos quais uma determinada ética fosse suficiente para mudar os destinos da humanidade! É a volta cíclica de um “novo” e nem tão sofisticado milenarismo.

  2. Caro Luiz,

    Sou Moçambicana, gostei do teu artigo pois estou a cursar Agricultura e Desenvolvimento Rural no ultimo ano. Vim ate o teu web, porque tenho um trabalho investigativo da cadeira de etica ambiental, em que tenho que falar sobre o desenvolvimento tecnologico hoje e o combate a pobreza, acredito eu que isto tera que ter um fundo etico…agradeço que me mande algum artigo.

  3. Prezada Iris,
    Divertido o nome dessa cadeira: ética ambiental. Fiquei a me perguntar em que poderia consistir uma “ética ambiental”. Ética já é um tema tão vasto, e ambiental tão genérico….
    Tecnologia com “fundo ético”. Acho difícil. Depende muito do estágio de desenvolvimenteo da tecnologia e do que se chama de ético. Nos seus estágios iniciais e intermediários de desenvolvimento uma tecnologia não tem qualquer relação com a Ética. Assim, por exemplo, a tecnologia de materiais que permite a fabricação de painéis solares é “ética”? Já os painéis em si, são éticos? E o dumping dos excedentes de produção em regiões remotas da África ou da Amazonia onde eles levarão consigo baterias contendo materiais tóxicos e não funcionarão por mais de alguns meses por falta de inversores, conversores e outros componentes que integram o sistema…. A “tentativa” pode até ter sido ética mas….

O que você pensa a respeito?