Golpe de Misericórdia nos Biocombustíveis?

“Os EUA e a União Européia tiveram uma atuação criminosa ao contribuir para o aumento explosivo dos preços globais dos alimentos em decorrência dos estímulos ao uso colheitas para a produção de biocombustíveis”- afirmou o relator da ONU (www.un.org/apps/news/story.asp?NewsID=26478&Cr=food&Cr1=ziegler).  A declaração foi feita durante o encontro sobre a crise global de alimentos que se iniciou ontem na Suíça.

No mesmo pronunciamento, ele propôs uma moratória de 5 anos na produção de biocombustíveis.

Esse pode ser considerado o golpe de misericórdia na ilusão de que seria possível uma expansão indefinida das fronteiras agrícolas do mundo de maneira a assegurar a substituição tanto do petróleo quanto de seus derivados.  Ilusão, sim.  Não porque não exiistam as tecnologias, mas em função da população já existente no planeta e de seu contínuo crescimento.

Jean Ziegler, o relator especial da ONU, enfatizou, também, a manipulação dos mercados internacionais por empresas como a Cargill, que controla 25% da produção mundial de cereais, e pediu novas medidas medidas regulatórias para conter esse poder dos oligopólios e dos mercados futuros sobre a produção e os preços dos alimentos. 

Nada muito diferente do poder quase sem limites que os produtores de soja e de etanol têm sobre o governo brasileiro, inclusive fazendo Lula circular pelo mundo como um antiquado vendedor de enciclopédias clamando pelo fim dos subsídios europeus e  norte-americanos à produção agrícola.  Em especial quando isso aconteceu nos mesmos dias em que o governo brasileiro aceitou os termos impostos pela bancada ruralista para perdoar ou adiar o pagamento de dívidas bilionárias, reduzindo os juros a patamares desprezíveis.  Ou seja, uma política de fortes subsídios aos poderosos, em nada diferente do que fizeram governos anteriores.

Ziegler também criticou  “a política aberrante” do FMI e do Banco Mundial que estimularam países pobres a orientarem a produção agrícola para a exportação em substituição à produção de alimentos para consumo de suas populações.   Tudo com o único objetivo de assegurar o pagamento de dívidas externas.

Vale ressaltar que todo esse caos já se configura quando a regra, no caso brasileiro, é a adição de apenas 2% de óleos vegetais ao diesel e de um percentual que oscila em torno de 20% de etanol à gasolina (percentual sempre manipulado em função dos interesses da indústria sucro-alcooleira, controlada por 3 ou 4 grandes grupos, e sob o domínio crescente de fundos de investimento estrangeiros puramente financeiros).

Isso sem falar na massiva aquisição de terras por grupos estrangeiros para a produção de biocombustíveis para a exportação nos anos recentes.  Essas monoculturas geram poucos empregos e aumentam a pressão no sentido do êxodo rural para a periferia das grandes cidades.  Também nas cidades de porte médio a favelização é visível e se acentua a cada dia.

Afirmar que o aumento da demanda de alimentos pela China é o principal fator do aumento dos preços é mera enganação de má-fé, já que o uso de alimentos para a… alimentação é apenas natural e inevitável.

Falar em “modernização das técnicas agrícolas” de maneira a evitar a expansão da fronteira agrícola em direção à Amazônia e ao Pantanal também é enganação.  Essa modernização pressupõe taxas mais elevadas de aplicação de fertilizantes derivados do petróleo e mecanização.

Além disso, os europeus que fazem politicagem buscando a certificação devem saber perfeitamente que eles podem importar biocombustíveis produzidos em outras regiões do Brasil sem deixar de contribuir para o aumento das pressões no sentido aa inevitável expansão das fronteiras agrícolas nos ecossistemas que fingem querer proteger.

Já é tempo de se desenhar uma política de segurança alimentar que não seja restrita à bolsa-família.   E isso não ocorrerá através do “zoneamento econômico-ecológico” cuja ênfase esteja na proteção de uma biodiversidade ainda pouco conhecida.  São necessárias políticas de verdade para a segurança alimentar e energética.

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Sistemas similares à bolsa-família foram usados em muitos países hoje altamente industrializados durante quase todo o seçulo XX, em particular nos momentos de crise.  Mas em conjunto com outras políticas públicas, sistêmicas e de longo prazo, inexistentes no Brasil há bastante tempo.

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O secretário-geral da ONU ressaltou, em seu discurso de encerramento da conferência, a crescente possibilidade de “distúrbios sociais”, mesmo nas áreas urbanas, em função da escassez e dos preços dos alimentos.  A melhor denominação para tais “distúrbios” é violência mesmo.

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

One thought on “Golpe de Misericórdia nos Biocombustíveis?”

  1. Como sempre, o blog aborda temas sérios. Tomara que pessoas sérias, com poder de decisão, levem em conta o tema, os
    fatos e as consequências da ausencia de políticas setoriais ou da continuidade do “vale-tudo” atual.

O que você pensa a respeito?