Monthly Archive for maio, 2008

Petróleo, Mudanças Climáticas e Insanidades Políticas

Email This Post Email This Post

Ao

Rei Abdaullah da Arábia Saudita

Majestade,

Como outros dirigentes de nações do Ocidente, o nosso primeiro ministro, Gordon Brown, está lhe pedindo que aumente a produção de petróleo.  Eu estou lhe escrevendo para lhe pedir que o ignore.  Como os outros líderes, ele está insano e não tem mais condições de tomar decisões.

Aparentemente, há muitas razões para o aumento dos preços do petróleo, e eu já não sei em quem acreditar.

Mas o que o senhor sabe, e eu não, é em que medida esses aumentos refletem a escassez das reservas globais.  O senhor e seus assessores são talvez as únicas pessoas que possam dar uma resposta a essa questão.  Os números publicados são, evidentemente, artimanhas políticas desconectadas da realidade geológica.  As cotas de produção dos países membros da OPEP refletem as reservas que eles afirmam deter e, assim, eles têm uma razão para exagerá-las.  Se não, como explicar que depois de duas décadas de bombeamento intensivo o seu país ainda afirme que tem as mesmas reservas que tinha em 1988?

Vossa Majestade diz que está economizando petróleo para beneficiar as futuras gerações.  Se isso é verdade, essa é uma decisão econômica racional: petróleo no subsolo parece um investimento melhor do que dinheiro no banco.  Mas, ainda relutante em fazê-lo, devo lhe perguntar se a oferta limitada não decorre do fato de que não existe capacidade real de aumento da produção?

Eu não espero ter uma resposta.  Eu sei que as reservas realmente existentes são um segredo guardado de tal forma,  que mesmo os especialistas do setor estão usando, agora, imagens de satélite para tentar avaliar o rebaixamento do solo nos campos de petróleo para tentar avaliar as taxas de redução dessas reservas. 

Na Inglaterra, o governo afirma que está tentando reduzir as emissões de carbono.  E, de fato, pela primeira vez em muitos anos,  os motoristas estão dirigindo menos, os altos executivos estão sendo estimulados pelas corporações a fazer mais vídeoconferências para reduzir as despesas com viagens aéreas. 

Em outras palavras, as limitações da oferta de petróleo – voluntárias ou não – estão ajudando o governo a atingir as suas metas de redução de emissões de carbono.  E como é que o governo reage?  Tentando exigir que a produção seja aumentada de maneira a que os ingleses possam continuar a dirigir os seus veículos e a voar como faziam antes.

Na semana passada, Gordon Brown afirmou que ”o fato de 40% das reservas mundiais de petróleo serem controladas pela OPEP era um escândalo”, e que “a OPEP não pode continuar a recusar-se a aumentar a produção”.  Nos EUA, o cenário é ainda pior, já que o Senado talvez aprove medidas de retaliação caso os membros da OPEP não aumentem a produção de petróleo. 

Isso ilustra o estado psicótico de nossos líderes.  Eles afirmam que querem restringir a demanda de petróleo de maneira a combater as mudanças climáticas e a aumentar a segurança energética, mas, ao mesmo tempo, eles querem “maximizar a recuperação de petróleo, gás natural e carvão das jazidas ainda existentes”.  Eles insistem em tentar não ver que,  de qualquer forma, todo o petróleo extraído será utilizado.

Assim, os únicos países que parecem estar impondo restrições efetivas ao uso de derivados do petróleo são exatamente os membros da OPEP, contra os quais Gordon Brown reclama de maneira tão amarga.

Majestade, nós enlouquecemos, e só o senhor pode nos curar de nossas aflições.  Para tanto, é preciso manter fechadas as torneiras por onde jorra o petróleo.   

Ainda não tendo a mais vaga idéia de quais são efetivamente as reservas de petróleo, nossos líderes estão expandindo rapidamente a infra-estrutura de transporte.  Na Inglaterra, estão sendo construídos ou ampliados milhares de quilômetros de estradas; a capacidade dos aeroportos está sendo duplicada.  E o governo tenta fixar as previsões de preços futuros do petróleo em US$ 70 por barril.

Majestade, eu reconheço que essa não está entre as suas obrigações usuais como rei da Arábia Saudita, mas eu lhe imploro, respeitosamente, que nos salve de nós mesmos.

Sinceramente,

George Monbiot

***

Essa tradução é livre e resumida.  O original pode ser encontrado em www.monbiot.com.  Essa carta é a coisa mais lúcida já dita sobre o comportamento recente das lideranças políticas do Ocidente.  A esquizofrenia sobre a Amazônia, bem como a apatia no que se refere às energias renováveis e à eficiência energética no Brasil não são menores.

Amazônia, Mudanças Climáticas e o Cinismo dos Muito Ricos

Email This Post Email This Post

As empresas de navegação dos países nórdicos e canadenses estão felizes com as mudanças climáticas: já duplicaram, na úlltima década, e ampliam-se rapidamente as condições de trânsito dos grandes cargueiros por rotas do Ártico que até recentemente permaneciam fechadas pelo gelo durante a maior parte do ano.  Até mesmo o trâfego de carga de Nova York a Yokohama (Japão) poderá ser feito por distâncias significativamente menores: de 25.000 km através do Canal de Suez ou 18.500 km pelo Canal do Panamá para 15.000 km pelas “novas” rotas do Ártico.  “O uso comercial dessas rotas é questão de tempo” – comemoram os executivos dessas empresas, ainda que as condições de segurança ideais possam requerer mais 5 anos de derretimento da calota do Polo Norte.

“Com reservas petrolíferas que já foram estimadas pelo Kremlim em 586 bilhões de barris – algo em torno de 100 vezes maior do que o potencial do mega-campo brasileiro de Tupi -, o mar de Barents, entre a Noruega e a Rússia, poderá em breve se transformar em um novo eldorado energético e já afeta as estratégias de defesa desses países” – informa o jornalista Daniel Rittner, de Estocolomo, em publiação do Valor Econômico de 19 de maio de 2008.  A Noruega já encomendou 48 novos caças militares para proteger essas rotas.

Para os “verdes”, que não gostam de Real Politik ambiental, vale dizer que nos dias 27 e 28 de maio, reuniram-se, na capital da Groenlândia, Illulissat, representantes da Rússia, Canadá, EUA, Dinamarca e Noruega para discutir o controle das reservas petrolíferas e minerais que se abrem rapidamente à exploração comercial em decorrência do degelo.  “Cientistas norte-americanos estimam que na região encontram-se 25% das reservas mundiais de petróleo e gás natural”.

A Groenlândia é um “estado” autônomo da Noruega.  Nos termos dos tratados internacionais em vigor, cada país tem direitos exclusivos sobre a exploração dos recursos naturais numa faixa de 200 milhas.  Mas qualquer país pode ir além desses limites se provar que a sua plataforma continental é mais extensa.

Esses países pretendem abocanhar o maior pedaço possível dessa áreas alegando tratar-se de um prolongamento de suas plataformas continentais.  Na prática, as possibilidades maiores são da Rússia, do Canadá e da Dinamarca, mas os EUA não se contiveram e enviaram a tediosa Condoleezza Rice à reunião.

Lutam para queimar mais petróleo, principal causa das mudanças climáticas, e falam em proteger a Amazônia e a biodiversidade.  Maior cinismo é impossível.  Sobretudo quando a Noruega anuncia que será a primeira doadora do Fundo Brasil Amazônia para a proteção das florestas.  Doará talvez o equivalente ao preço dos caças militares comprados para proteger os seus interesses nas jazidas de petróleo agora acessíveis em decorrência do degelo no Ártico.

***

A Anistia Internacional divulgou relatório falando sobre terras indígenas e silenciando sobre o genocídio cometido pelos norte-americanos no Iraque, bem como sobre a decisão dos EUA de expandir as prisões abusivas do tipo Guantánamo para outros países.  Dose adicional de cinismo no tabuleiro das relaçôes internacionais.

Amazônia, Soberania Nacional e Mudança de Estratégia

Email This Post Email This Post

E se os muitos países que metem o bedelho nas questões relacionadas à preservação da Amazônia forem convidados a iniciar um programa de recomposição de 30 ou 40% de seus territórios com florestas nativas?  A humanidade teria muitos “pulmões de mundo”, mais eficientes e mais saudáveis!  Esses países estariam, também, dando uma contribuição tão revolucionária quanto decisiva para a proteção da biodiversidade, que reconhecem ser fundamental para a sobrevivência da própria humanidade.

Essa proposta seria um xeque-mate no intervencionismo que serve apenas às políticas eleitorais desses países e contribuiria de forma decisiva para mudar a correlação internacional de forças, um tema constante nos discursos de Lula.

E se os satélites desenvolvidos para fins militares e logo utilizados para identificar as grandes jazidas de minério fossem adaptados para localizar os núcleos de populações sem qualquer acesso a serviços médicos ou saneamento básico em meio às floretas amazônicas?  E se as informações obtidas por esses países-espiões sobre os minérios existentes no sub-solo dos países em desenvolvimento fossem tornadas públicas, como são as informações sobre os índices de desmatamento?

E se o tolo conceito de “Amazônia Legal” – introduzido para ampliar a área geográfica de concessão de benefícios fiscais – fosse suprimido da lei e do nome do Ministério do Meio Ambiente, de maneira a não mais confundir a cabeça das pessoas ou permitir que o debate e a formulação de políticas públicas não se degrade em debate político-partidário?

E se as FAOs e os Bancos Mundiais da vida calculassem as quantidades efetivas de produção de alimentos em bases sustentáveis necessárias para a alimentação humana, identificando as áreas e tecnologias mais apropriadas para essa produção em lugar de ficar só constatando que os chineses estão comendo mais ou pedindo mais dinheiro para enviar alimentos às populações mais pobres?

E se o Brasil começasse a formular políticas de segurança alimentar e energética a nível de regiões e até de microrregiões dentro de uma perspectiva de adaptação às mudanças climáticas, como já estão fazendo os países sérios?

***

O aumento de 50% para 80% na área de reserva legal das propriedades na Amazônia foi um chute da equipe da FHC para dar satisfações à mídia internacional.  Não funcionou.  Agora, a proposta em tramitação no Congresso de uso de 30% para o plantio de espécies regionais, se aprovada, deverá colocar Lula numa sinuca de bico, já que os governadores de toda a região apoiam o projeto, da mesma forma que o “Ministro do Futuro”, Roberto Mangabeira Unger, encarregado do planejamento estratégico da região pelo próprio Lula.

Lula, Dilma, Minc e as Hidrelétricas do Xingu – O Cru e o Pré-Cozido

Email This Post Email This Post

A presença ou ausência de Dilma Roussef na reunião desta segunda-feira, 19 de maio de 2008, entre Lula e Carlos Minc, será um indicador bastante consistente do que os dois primeiros esperam do último: o licenciamento da usina hidrelétrica de Belo Monte.  Essa, e não a preservação genérica da Amazônia, é a questão central de interesse das grandes construtoras de barragens e, sobretudo, das mineradoras nacionais e estrangeiras.  Os elevados custos sociais e ambientais do grande complexo de usinas hidrelétricas projetado para o Xingu já foram dissecados por numerosos autores e, em particular, pelo professor Oswaldo Sevá Filho, professor do Departamento de Energia da Faculdade de Engenharia Mecânica da Unicamp, ou sob a sua coordenação.

Antes, vale uma referência ao trabalho do jornalista paraense Lúcio Flávio Pinto.  Em “Grandezas e Misérias da Energia e da Mineração no Pará”,  o autor explicita as movimentações de bastidores que uniram interesses privados para conduzir o governo a investir nos projetos de grandes hidrelétricas construídas de interesse de construtoras e de indústrias eletro-intensivas estrangeiras fabricantes de alumínio - Alumar, Albrás e Alunorte.  Todas pagando pela eletricidade  gerada em Tucurui apenas uma fração de seu custo.  E com a segurança, para os gringos, de contratos de longo prazo, alguns renovados na gestão de Dilma Roussef à frente do Ministério de Minas e Energia.  É a nação brasileira subsidiando o alumínio das grandes corporações estrangeiras, a bolsa-família às avessas!

Em 1979, concluiram-se os estudos que previam a construção de cinco usinas hidrelétricas no Xingu e uma no Rio  Iriri.  Tais estudos deram nomes indígenas para essas hidrelétricas: Kararaô, Babaquara, Ipixuna, Kokraimoro, Jarina e Iriri.  Depois, para evitar as previsíveis tensões decorrentes do alagamento de terras indígenas, esses nomes foram sendo substituídos. De Kararaô virou Belo  Monte.   Quanta falta de brasilidade e de caráter!

Aqui, a longa citação de Oswaldo Sevá Filho é mais esclarecedora do que qualquer tentativa de resumi-la.  “Outros estudiosos procuram desvendar as possíveis destinações futuras de tal eletricidade – que podem também exigir altos investimentos em transmissão dessa energia.  Para resumir: ao custo de hoje, se fossem instalar mais de 22 mil megawatts em seis grandes obras no Rio Xingu, trecho paraense, e em seu afluente Iriri, isto custaria R$ 60 bilhões ao longo de um período de dez anos. Uma única eletrovia (linhas de transmissão em voltagem extra-alta) com capacidade de transmitir uma décima parte dessa eletricidade até, digamos, na altura de Goiânia, custaria mais de R$ 3 bilhões.

Assim, pode-se afirmar que o objetivo de Tucuruí e de Belo Monte é o mesmo: a inserção dos recursos brasileiros em uma economia globalizada dos materiais energético-intensivos, principalmente o ferro e aço, o silício, o alumínio, o cobre, o níquel e as várias ligas entre eles, cuja fabricação a partir dos minérios exige muito combustível e muita eletricidade.

“Na seqüência, com o auxílio de dois pesquisadores da Faculdade de Engenharia Elétrica da Unicamp organizei uma nota técnica com os “Dados de vazão do Rio Xingu durante o período 1931-1999 e as estimativas da potência, sob a hipótese do aproveitamento hidrelétrico integral inventariado”.  Para exemplificar a situação: se naquele período histórico existisse somente a usina Belo Monte ao longo do Rio Xingu, a potência assegurada para injetar na rede regional teria sido de 1.356 MW, para uma capacidade instalada de 11.182 MW!

“Mas, o Xingu é rio que seca rápido e que pode permanecer muito tempo bem baixo: quatro meses, digamos.  Os valores de vazão d’água medidos lá na cidade de Altamira, Pará, começam na faixa de 450 a 500 mil litros por segundo, que são as médias mensais dos piores anos, em setembro e outubro; em geral as médias mensais do “verão”, que na Amazonia vai de julho/agosto a outubro/novembro, ficam abaixo de 1 milhão de litros por segundo. Compare-se isto à capacidade de engolimento de uma das 20 turbinas previstas: 700 mil litros por segundo, com potência de 550 megawatts. Com base nesses dados, se as hidrelétricas já tivessem sido construídas, entre 1991 e 1996, durante alguns meses por ano nenhuma turbina operado com carga plena e, em outros meses, apenas uma ou duas das dez máquinas teriam gerado eletricidade.”

A questão do licenciamento ambiental pode não ser exatamente ambiental, mas econômica-financeira e de estratégia nacional.  O problema é que a exigência do Estudo de Impacto Ambiental – EIA faz com que essas dimensões do jogo sejam trazidas à luz, ao conhecimento de todos os cidadãos.  Daí o interesse na simplificação do processo de licenciamento.

Evidentemente, os brasileiros – “ambientalistas” ou não - não desejam que lhes sejam sonegadas informações preciosas sobre as estratégias para o uso de seu potencial hidrelétrico, de seus recursos minerais, e de sua soberania, em benefício de umas poucas “barrageiras” e multinacionais de minérios.

***

Assumindo o Ministério do Meio Ambiente, Carlos Minc certamente não deixará que a agenda do governo seja pautada por franchises de ONGs ambientalistas estrangeiras.  Ao contrário, talvez se possa mesmo considerar a possibilidade de, na agenda de negociações internacionais, virar o jogo e propor que países como os EUA e o conjunto da União Européia dêem início a um programa de reflorestamento de 1/4 de seus territórios para se igualar ao Brasil no que se refere às propostas estrangeiras de preservação integral da Amazonia por razões de interesse global relacionados às mudanças climáticas.  Da mesma forma, o Canadá deveria ser instado a suspender imediatamente as recentes autorizações concedidas para a exploração de areais betuminosas em áreas de florestas centenárias, e a Austrália a interromper o desmatamento de florestas nativas também centenárias para a produção de celulose e papel.  Quem sabe os bancos brasileiros se unem e criam uma ONG cujo objetivo seja fiscalizar o desmatamento e o grau de investimento em reflorestamento com espécies nativas nesses países?

Sai Marina Silva – Nada a Perder, Tudo a Ganhar

Email This Post Email This Post

A saída de Marina Silva não é uma derrota do governo, mas um avanço.  A gestão ambiental deixará de ser refém de meia dúzia de ONGs e de idéias antiquadas.  A idéia de que a imagem internacional do Brasil ficará prejudicada não se sustenta por mais do que alguns dias na mídia internacional.  E por muitas razões.

Em primeiro lugar, porque se algum desses países tivesse interesse efetivo na Amazônia, já teriam há muito aceitado pagar não apenas pela sua preservação mas, também, pela qualidade de vida dos brasileiros que habitam na região.  Em segundo, porque é hoje impossível saber se as florestas amazônicas sobreviverão às consequências já inevitáveis das mudanças climáticas causadas por esses mesmos países altamente industrializados ou em fase de rápida industrialização.  Em terceiro, porque ninguém aguentava mais o samba de uma nota só que restringiu a formulação de políticas ambientais ao constante chororô em torno do assunto.

Se Marina Silva e os paulistas “sócio-ambientais” que gerenciavam o Ministério de Meio Ambiente tivessem conseguido formular e implementar uma política sensata para as unidades de conservação e para as florestas nacionais, bem como para as terras devolutas (ou seja, de propriedade do poder público), os resultados já teriam sido notáveis, memoráveis.

No artigo passado, já foi dito, aqui, o óbvio: numa sociedade que confunde crescimento com desenvolvimento sustentável e na qual o consumo é a medida de todas as coisas – inclusive da geração de emprego -, ninguém vive e nem quer viver de extrativismo.  Extrativismo foi um símbolo, apenas, da rebelião contra a uma historia de cafetinagem dos povos da floresta - desde o ciclo da seringa – e contra a grilagem contra a qual Chico Mendes (grilagem que continua), na verdade, lutou, e que terminou recebendo o carimbo de uma luta dos povos da floresta.

Os povos da floresta já não querem caminhar pela mata para colher açaí e deixar na beira do rio para um barqueiro atravessador comprar por menos do que preços de banana ou na volta simplesmente não pagar sob a alegação de que não conseguiu vender por já ter a fruta chegado estragada ao porto de Manaus.

Do extrativismo é preciso passar à regularização fundiária e ao investimento em produtividade, e essa é uma tendência inevitável.  Há gente muito séria, que também ama as florestas e ama ainda mais os brasileiros que nela vivem, trabalhando nesse sentido.  A Embrapa já desenvolveu e distribui variedades de açaí que produzem mais e em menos tempo após o plantio, além de serem plantas mais baixas que facilitam a colheita.  A Universidade Federal do Amazônas já trabalha em excelentes projetos de despolpalmento, pasteurização e frigorificação do açaí em unidades descentralizadas, com ênfase na formação de cooperativas rurais.  E muitos outros trabalham em projetos de produção de biocombustíveis em pequena escala para reduzir os imensos gastos – R$ 3,5 bilhões estimados para 2008 – no subsídio ao transporte de combustíveis para a região.

Marina insistiu no pensamento antiquado.  Todos têm saudade das lutas da juventude, mas até os povos da floresta mudam.  E mudaram.  Numa casa de caboclo, às margens da estrada, o que se encontra na sala são quatro aparelhos de televisão, ainda que três não funcionem (o dono espera conseguir as peças para consertá-los).

blog-casa-de-caboclo-4-televisoes.jpg

Pouco adiante, é possível sentar num restaurante flutuante às margens do “lago” Meriti.  Meriti era um igarapé, mas com a passagem da estrada o igarapé foi represado e transformou-se no qua agora é um “lago”.  Como o conceito de “áreas de preservação permanente” não se aplica àquilo que pode ser considerado de “interesse público”, na construção da estrada a possibilidade de uma ponte não foi sequer cogitada (foto abaixo).  A conversa no pequeno restaurante é sobre o projeto da prefeitura de ali fazer uma urbanização similar às feitas na totalidade das praias das cidades brasileiras: quiosques, calçadão, quem sabe uma pista para esportes matinais.  Alguém vai dizer que os povos da floresta não têm direito a isso ou devem permanecer nas florestas?

blogamazonasestrada-e-rio-meriti.JPG

***

Sem dúvida, o novo ministro tem a mente mais aberta, é mais pragmático, e não se deixará levar pelo mesmo tipo de chororô.  Com mais dinamismo, os parques nacionais poderão se transformar em… parques nacionais, com hospedagem para a visitação que efetivamente contribui para a tal da educação ambiental e dará ao Brasil maior visibilidade internacional em relação à conservação da natureza.  E aos brasileiros a possibilidade de efetivamente conhecer a Amazônia.

***

Aliás, por que não pedir aos EUA que recuperem ao menos uma parte de suas florestas nativas?

Amazônia – Imagens que Dizem Tudo

Email This Post Email This Post

O infindável blá-blá-blá sobre a preservação das florestas amazônicas não leva em conta inúmeros aspectos relevantes – entre os quais o fato de que 70% das áreas são de propriedade do próprio governo. E, em particular, apela à imagem do paraíso perdido sem considerar que nelas vivem pessoas que já entraram na era da sociedade de consumo e querem mais – as tais classes D e E que passaram a C. Casas de caboclo com mais de um aparelho de televisão ligado o dia todo seria uma surpresa para um alemão?

Algumas imagens falam mais do que palavras. Em todas as cidades, pequenas, médias e mesmo grandes, há favelas e mercados sobre palafitas. As fotos foram tiradas em Manacaparu, às margens do Rio Solimões.

blogmanacaparu-amazonas-favela-as-margens-do-solimoes.JPG

Saneamento? Coleta de lixo? Um mínimo de qualidade de vida para a população local? Esses não parecem ser temas relevantes para os protetores incondicionais da floresta, brasileiros ou estrangeiros, Marinas Silvas e Greenpeaces, entre outros.  Será que o ministro do meio ambiente da Alemanha que recentemente andou por lá discutindo a preservação da floresta viu isso?

blogsolimoes-manacaparu-i.JPG

Afinal, por que será que essas pessoas insistem em viver assim, se é tão fácil praticar o “extrativismo”?  Extrativismo, uma parte da luta de Chico Mendes para defender os “povos da floresta” sempre ameaçados por grileiros por não terem a propriedade das áreas em que trabalhavam, onde ganhavam o seu “pão”, deixou de ser um símbolo e passou a ser uma “realidade” tola.  Nos dias de hoje, ninguém vive apenas de “extrativismo” – isto é, de extrair produtos da floresta.  Nem os esquimós vivem mais sóde caça e pesca!  As pessoas precisam de assistência médica, de educação, e querem ter acesso aos tais modernos meios de comunicação…. que induzem a outros anseios.

blogmanacaparu-margens-do-solimoes-1.JPG

Na região, os cidadãos mais pobres falam em hepatite B como de uma gripe. O catador de açaí comenta que já está na fila do transplante de fígado, como se a fila pudesse andar, ainda que, na maior parte do tempo, ele não disponha de qualquer sistema de comunicação confiável. As condições sanitárias não são mostradas à comunidade internacional, que tanto fala na proteção da Amazônia.  E essas informações também não são mostradas aos brasileiros. Afinal, para esses “ambientalistas” ou “verdes” do tapetão, a limpeza do peixe com a água do rio no próprio local onde são lançados os esgotos talvez seja vista como uma parte da “tradição cultural”, algo bucólico.

blog-limpeza-de-peixe-com-agua-do-solimoes-nas-proxmidades-do-lixo-e-do-esgoto.JPG

Favela, é o nome do que se vê na imagem abaixo. Favela em “área de preservação permanente”, já que no Brasil, ao menos legalmente, isto é, em tese, as margens dos rios devem ser totalmente preservadas.  Dessa regra da preservação total excluem-se as atividades de mineração e todas aquelas que “de interesse social”, à critério do Conselho Nacional de Meio Ambiente – CONAMA.  De acordo com esses critérios, favela pode.

blogp1010988.JPG

***

Alguém já foi informado sobre como ficou a licitação para a concessão de florestas nacionais ocorrida ao final de 2007, quando as luzes da mídia estavam nas festas de fim de ano? Afinal, essa licitação foi durante muito tempo o grande badalo da monotemática Marina Silva e seus fanzines.  Dizia-se que era o início do que se afirmava ser o mais sensacional programa de proteção das florestas amazônicas com as concessões das florestas nacionais à iniciativa privada.  Se além disso o poder público conseguisse administrar as unidades de conservação, seria sensacional.  Desapropriá-las, delimitá-las, e no lugar dos pífios planos de manejo, desenvolver planos de gestão, com metas claras, além de fontes de receitas e participação da iniciativa privada, que tanto fala mas não faz.

***

Perdoem os leitores pelo descaso com o estilo Holywoodiano ou Global, onde sempre se tem um final feliz ou, pelo menos, compensam-se más notícias com outras, sobre casamentos de gente rica e famosa (para eles próprios).

Novos Campos de Petróleo – Verdades e Mentiras

Email This Post Email This Post

O anúncio da descoberta das jazidas petrolíferas de Tupi pelo governo omitiu a informação de que não existe tecnologia para exploração a uma profundidade superior a 6 quilômetros e podendo chegar até 10 quilômetros.

Na ocasião - novembro de 2007 – dona Dilma, discretamente,  fez apenas a ressalva de que o início efetivo da entrada em operação comercial dessas jazidas poderia levar uns 8 anos.  Um outro representante do governo falou em “altíssimos custos de investimento inicial, mas com a garantia da ‘sustentabilidade da auto-suficiência’ no longo prazo” (sic).  Ninguém se estendeu sobre esses temas - tecnologia e viabilidade econômico-financeira – e a imprensa brasileira tampouco interessou-se em aprofundar o tema.

Estima-se que Tupi, na bacia de Santos, tenha entre 5 e 8 bilhões de barris.  Poucos meses depois, a Petrobras anunciou a descoberta de reservas muito maiores nas proximidades de Tupi, algo na faixa de 33 bilhões de barris.  Esse “mega-campo” foi denominado Carioca e a Petrobras afirmou que ainda serão necessários alguns meses para a definição mais precisa de seu potencial.  As profundidades das duas jazidas, bastante próximas, sao similares.

Não é improvável que o prazo para o anúncio do dimensionamento “final” de Carioca se dê um pouco antes das eleições.  Quem se antecipar à data do anúncio oficial pode se dar bem comprando ações da Petrobras.

O que não se disse, nessa lenga-lenga toda de que Deus é brasileiro, é que não existe a tecnologia para chegar a essa profundidade, bem maior do que a alcançada pela Exxon e pela Chevron no Golfo do México, onde, há cerca de 2 anos, os sistemas de tubulação foram esmagados e brocas de diamante desintegraram-se em decorrência das pressões elevadas.  A Exxon abandonou o projeto em 2006.  Mas quem, no afã de divulgar resultados positivos para o governo, se interessaria por um detalhe como esse?

Alguns dizem que a Petrobras já sabia da existência de Tupi há anos, e sempre optou por não divulgar por as informações por temer ironias do mercado internacional diante desse detalhe da inexistência de tecnologia para a produção comercial de petróleo a essas profundidades.

Além da profundidade e da pressão corrrespondente, a temperatura das jazidas brasileiras, encontradas abaixo de espessas camadas de sal – algo em torno de 1,5 quilômetros -, pode atingir 260 graus Celsius, o suficiente para derreter até mesmo  estruturas metálicas utilizadas para transportar urânio para usinas nucleares.

Ao longo dos esforços para extrair petróleo e gás a profundidades bastante inferiores, uma empresa norte-americana – a Anadarko – desenvolveu e está utilizando aços capazes de suportar as pressões da exploração de gás natural a 2.700 metros de profundidade.  Numa entrevista recente, um engenheiro da Anadarko comparou os esforços da empresa à exploração espacial.

“O que fazemos nessas profundidades é semelhante ao que a NASA fez e faz na área do desenvolvimento de materiais para o lançamento de espaçonaves.  Mas a NASA não se defronta com o problema das enormes pressões externas.”

Os especialistas acreditam que essas tecnologias podem ser desenvolvidas e utilizadas comercialmente, em particular com o aumento contínuo dos preços do petróleo.  Afinal, US$ 200 por barril ao final deste ano da graça de 2008 é, hoje, a projeção do mercado de futuros da Bolsa de Chicago.  Mas todos concordam que no atual momento nenhum país ou empresa se arriscaria a fazer investimentos tão elevados na produção comercial em decorrência dos riscos tecnológicos.

Os mais otimistas estimam que com imensos investimentos – se comparados com os necessários para explorar petróleo às profundidades atuais -, Tupi pode entrar em operação até mesmo em 2012.  Mas 2008 já vai quase em meio  e não há sinais da contratação das plataformas para a exploração de Tupi, plataformas cuja mera fabricação demanda esse prazo (e ainda mais quando  considerados os prazos da publicação de editais, impugnações administrativas, e outras mumunhas mais até a assinatura dos contratos.

Não é tão remota a possibilidade do desenvolvimento das tecnologias necessárias.   Engenheiros sempre acham que Deus criou o mundo e a eles cabe a tarefa de aperfeiçoá-lo.  Resta saber qual será o balanço energético dessa exploração, isto é, quantas unidades de energia serão necessárias para extrair e refinar cada unidade de energia obtida a partir do petróleo nessas profundidades.  Em tese, a humanidade pode extrair energia até mesmo do centro da Terra, onde as temperaturas são elevadíssimas.  Mas não o faz por falta dos mesmos detalhes: tecnologia e balanço energético.

Ainda não há estimativas sobre os custos da extração do petróleo de Tupi e de Carioca.  Mas tampouco há dúvidas de que eles serão muito elevados.  E estabelecerão patamares para os aumentos dos preços para os consumidores nas bombas de gasolina.  Depois das eleições, é claro!  Aí, como de hábito, no dia seguinte virão os aumentos enfaticamente negados nos discursos da véspera.

Num país que há muito trocou o transporte ferroviário pelo rodoviário, os riscos inflacionários são elevados com os novos preços dos derivados do petróleo.  E como a alta produtividade agrícola depende de fertilizantes derivados do petróleo, vale preparar-se desde já para as adaptações necessárias às novas realidades, com ou sem mudanças climáticas.

***

O Brasil já produz mais petróleo que países membros da OPEC – a sigla em inglês dos países exportadores de petróleo – tais como Angola, Líbia e Algéria.  A diferença é que o Brasil não é um país exportador.

***

As miçangas do “grau de investimento” foram concedidas ao Peru um mês antes de Brasília comemorá-las.   Nunca se ouvir falar de um gigante estrangeiro que tomasse a decisão de investir ou não no Brasil com base nelas.  As operadoras de telefonia, concessionárias de serviços de eletricidade e muitas grandes empresas privadas foram compradas por grupos estrangeiros com ou sem as bobagens do grau de investimento.  A Standard & Poor’s foi uma dessas que não percebeu ou foi conivente com o tombo que a Enron e muitas outras deram nos fundos de pensão norte-americanos, tendo mantido o bom rating até o colapso.  É esse tipo de “máfia” que dá os certificados de bom comportamento que Brasília comemora.