Sai Marina Silva – Nada a Perder, Tudo a Ganhar

A saída de Marina Silva não é uma derrota do governo, mas um avanço.  A gestão ambiental deixará de ser refém de meia dúzia de ONGs e de idéias antiquadas.  A idéia de que a imagem internacional do Brasil ficará prejudicada não se sustenta por mais do que alguns dias na mídia internacional.  E por muitas razões.

Em primeiro lugar, porque se algum desses países tivesse interesse efetivo na Amazônia, já teriam há muito aceitado pagar não apenas pela sua preservação mas, também, pela qualidade de vida dos brasileiros que habitam na região.  Em segundo, porque é hoje impossível saber se as florestas amazônicas sobreviverão às consequências já inevitáveis das mudanças climáticas causadas por esses mesmos países altamente industrializados ou em fase de rápida industrialização.  Em terceiro, porque ninguém aguentava mais o samba de uma nota só que restringiu a formulação de políticas ambientais ao constante chororô em torno do assunto.

Se Marina Silva e os paulistas “sócio-ambientais” que gerenciavam o Ministério de Meio Ambiente tivessem conseguido formular e implementar uma política sensata para as unidades de conservação e para as florestas nacionais, bem como para as terras devolutas (ou seja, de propriedade do poder público), os resultados já teriam sido notáveis, memoráveis.

No artigo passado, já foi dito, aqui, o óbvio: numa sociedade que confunde crescimento com desenvolvimento sustentável e na qual o consumo é a medida de todas as coisas – inclusive da geração de emprego -, ninguém vive e nem quer viver de extrativismo.  Extrativismo foi um símbolo, apenas, da rebelião contra a uma historia de cafetinagem dos povos da floresta – desde o ciclo da seringa – e contra a grilagem contra a qual Chico Mendes (grilagem que continua), na verdade, lutou, e que terminou recebendo o carimbo de uma luta dos povos da floresta.

Os povos da floresta já não querem caminhar pela mata para colher açaí e deixar na beira do rio para um barqueiro atravessador comprar por menos do que preços de banana ou na volta simplesmente não pagar sob a alegação de que não conseguiu vender por já ter a fruta chegado estragada ao porto de Manaus.

Do extrativismo é preciso passar à regularização fundiária e ao investimento em produtividade, e essa é uma tendência inevitável.  Há gente muito séria, que também ama as florestas e ama ainda mais os brasileiros que nela vivem, trabalhando nesse sentido.  A Embrapa já desenvolveu e distribui variedades de açaí que produzem mais e em menos tempo após o plantio, além de serem plantas mais baixas que facilitam a colheita.  A Universidade Federal do Amazônas já trabalha em excelentes projetos de despolpalmento, pasteurização e frigorificação do açaí em unidades descentralizadas, com ênfase na formação de cooperativas rurais.  E muitos outros trabalham em projetos de produção de biocombustíveis em pequena escala para reduzir os imensos gastos – R$ 3,5 bilhões estimados para 2008 – no subsídio ao transporte de combustíveis para a região.

Marina insistiu no pensamento antiquado.  Todos têm saudade das lutas da juventude, mas até os povos da floresta mudam.  E mudaram.  Numa casa de caboclo, às margens da estrada, o que se encontra na sala são quatro aparelhos de televisão, ainda que três não funcionem (o dono espera conseguir as peças para consertá-los).

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Pouco adiante, é possível sentar num restaurante flutuante às margens do “lago” Meriti.  Meriti era um igarapé, mas com a passagem da estrada o igarapé foi represado e transformou-se no qua agora é um “lago”.  Como o conceito de “áreas de preservação permanente” não se aplica àquilo que pode ser considerado de “interesse público”, na construção da estrada a possibilidade de uma ponte não foi sequer cogitada (foto abaixo).  A conversa no pequeno restaurante é sobre o projeto da prefeitura de ali fazer uma urbanização similar às feitas na totalidade das praias das cidades brasileiras: quiosques, calçadão, quem sabe uma pista para esportes matinais.  Alguém vai dizer que os povos da floresta não têm direito a isso ou devem permanecer nas florestas?

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Sem dúvida, o novo ministro tem a mente mais aberta, é mais pragmático, e não se deixará levar pelo mesmo tipo de chororô.  Com mais dinamismo, os parques nacionais poderão se transformar em… parques nacionais, com hospedagem para a visitação que efetivamente contribui para a tal da educação ambiental e dará ao Brasil maior visibilidade internacional em relação à conservação da natureza.  E aos brasileiros a possibilidade de efetivamente conhecer a Amazônia.

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Aliás, por que não pedir aos EUA que recuperem ao menos uma parte de suas florestas nativas?

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

7 comentários sobre “Sai Marina Silva – Nada a Perder, Tudo a Ganhar”

  1. A troca no ministério representa, sim, mudanças para o política ambiental.
    Mesmo que o nosso presidente diga que a política não era da Marina e sim do governo, acredito que o Minc tenha propriedade intelectual e responsabilidade para cuidar da pasta e implantar projetos com mudanças necessárias.

  2. Muito bom o artigo do Luiz Prado. Mostra com clareza o anacronismo de políticas ambientais marcadas por um exotismo que ainda apresenta a floresta quase como um paraiso do “bom selvagem” e, também esquece o resto do Brasi, além de esquecer totalmente o resto do Brasil, cheio de graves problemas ambientais. Visões toscas e primitivas sobre a gestão ambiental são, no final das contas, prejudiciais aos próprios objetivos conservacionistas, pois constituem presas fáceis para os avassaladores destruidores do meio ambiente devido à sua baixa consistência. Como recomenda Luiz Prado, teremos que compatibilizar pragamatismo com conservacionismo. No século 18, Malthus achava que morreriamos de fome diante da progessão geometrica da população e do crescimento aritmético da oferta de alimentos. A tecnologia e os arranjos institucionais adequados deram cabo ao problema. A compatibilização entre o desenvolvimento e a conservação ambiental é o único e inevitável caminho.

  3. Surpreendente, como sempre.

    Ainda ontem vim aqui pra saber, em meio a tantas opiniões e informações, o que achava Luiz Prado. O que diria ele agora?

    E, quando já acreditava estar construindo um censo coeso e denso, deparo-me com uma opinião amplamente antagônica àquela que vinha obvservando.

    E verdadeira. Precisava mesmo desse contraponto ponderado e realista.

    É triste saber, mas lidar com a complexidade ambiental achando que alguns vão renunciar às “benfeitorias e confortos” da vida moderna em prol de um ambiente saudável e duradouro é uma idéia no mínimo infundada podendo chegar à retroação.

    Ainda preciso “mastigar” um pouco mais essa idéia, mas acredito que tenha encontrado a pulga que me incomodava quando tentava avaliar a gestão Marina.

    Saudações!

  4. O blá-blá-blá em defesa da Amazônia, da biodiversidade e dos povos da floresta talvez acabe.
    Existem tantas questões urgentes a serem tratadas!
    Uma delas, a meu ver, é a questão da demarcação das terras indígenas.
    Outro dia vi num jornal que nem os índios sabem, ao certo, de que lado ficam as “suas” terras. Uns querem a demarcação contínua, outros defendem as “ilhas”, outros – coitados – nem se pronunciam.
    Os que defendem a demarcação “pura” para os indígenas dizem que o STF pode levar a um retrocesso na história do indigenismo visto que alguns ministros já anteciparam, em alguns comentários, o desmembramento em “ilhas” para acomodar alguns arrozeiros que invadiram ilegalmente a reserva alguns anos atrás.

    É trabalho para os ministros…

    Comentário do autor:

    Cris,

    O mais imporrtante não me parece o besteirol da demarcação, mas O NÍVEL DE AUTONOMIA que terão os “índios” para decidir sobre o que querem fazer com as suas terras, de maneira a não serem condenados à pobreza, ao abandono, à vulnerabilidade em relação às pregações das igrejas e às ideologias, e à tutela de fato do estado.
    E se eles quiserem mandar os seus filhos para estudar nas cidades? E se para isso quiserem alugar trechos de suas terras? E se quiserem formar uma cooperativa de produtores e plantar?
    Ou será que os “demarcadores de terras” os querem sob tutela de fato para sempre?

  5. De repente me dei conta que quando pensava na Amazonia me preocupava principalmente, ou, que horror, praticamente só com a floresta. Que bom você trazer estes homens à pauta. Lembrou-me o trecho do poema:

    abancado à escrivaninha
    em São Paulo
    na minha casa da
    rua Lopes Chaves
    de supetão senti um
    friúme por dentro
    fiquei trêmulo, muito
    comovido
    com o livro palerma
    olhando para mim
    não vê que me lembrei que lá
    no norte, meu deus !
    muito longe de mim
    na escuridão ativa da noite que
    caiu
    um homem pálido magro de
    cabelo escorrendo nos olhos,
    depois de fazer uma pele com a
    borracha do dia,
    faz pouco se deitou, está
    dormindo.

    Esse homem é brasileiro que nem eu.

    (Mario de Andrade)

  6. Como sempre, lúcido, na mosca. O que em geral significa em contra-corrente do lugar-comum da mídia, que insiste na viagem da preservação do Eden.
    Pensamento instigante, como sempre.

    Os artigos anteriores, sobre a condição de vida dos pobres na Amazônia, foi clarividente. Antecedeu pouquinha coisa a reciclagem de caciques no ministério.

    Continue, por favor. Alguém precisa esclarecer, fazer brilhar a luz da inteligência, a dita LUCIDEZ, onde só existem holofotes midiáticos…e seus adoradores, mariposas sideradas pelos paraísos perdidos, retóricos da inocência original…. A mesma mentalidade estreita que alimenta a política oficial e orienta os holofotes da grande imprensa, se reproduz nas instituições acadêmicas, em suas posições de uma ” esquerda” falida, fedendo a mofo e naftalina… você traz sangue novo e ar fresco, seu pensamento é um alento no reinado dos MIDIOTAS. Que alívio!

  7. Sào artigos como o do Luiz Prado que dão prá gente um pouquinho de esperança de que ainda há vida inteligente neste país. Muito bom!!!

O que você pensa a respeito?