Petróleo, Mudanças Climáticas e Insanidades Políticas

Ao

Rei Abdaullah da Arábia Saudita

Majestade,

Como outros dirigentes de nações do Ocidente, o nosso primeiro ministro, Gordon Brown, está lhe pedindo que aumente a produção de petróleo.  Eu estou lhe escrevendo para lhe pedir que o ignore.  Como os outros líderes, ele está insano e não tem mais condições de tomar decisões.

Aparentemente, há muitas razões para o aumento dos preços do petróleo, e eu já não sei em quem acreditar.

Mas o que o senhor sabe, e eu não, é em que medida esses aumentos refletem a escassez das reservas globais.  O senhor e seus assessores são talvez as únicas pessoas que possam dar uma resposta a essa questão.  Os números publicados são, evidentemente, artimanhas políticas desconectadas da realidade geológica.  As cotas de produção dos países membros da OPEP refletem as reservas que eles afirmam deter e, assim, eles têm uma razão para exagerá-las.  Se não, como explicar que depois de duas décadas de bombeamento intensivo o seu país ainda afirme que tem as mesmas reservas que tinha em 1988?

Vossa Majestade diz que está economizando petróleo para beneficiar as futuras gerações.  Se isso é verdade, essa é uma decisão econômica racional: petróleo no subsolo parece um investimento melhor do que dinheiro no banco.  Mas, ainda relutante em fazê-lo, devo lhe perguntar se a oferta limitada não decorre do fato de que não existe capacidade real de aumento da produção?

Eu não espero ter uma resposta.  Eu sei que as reservas realmente existentes são um segredo guardado de tal forma,  que mesmo os especialistas do setor estão usando, agora, imagens de satélite para tentar avaliar o rebaixamento do solo nos campos de petróleo para tentar avaliar as taxas de redução dessas reservas. 

Na Inglaterra, o governo afirma que está tentando reduzir as emissões de carbono.  E, de fato, pela primeira vez em muitos anos,  os motoristas estão dirigindo menos, os altos executivos estão sendo estimulados pelas corporações a fazer mais vídeoconferências para reduzir as despesas com viagens aéreas. 

Em outras palavras, as limitações da oferta de petróleo – voluntárias ou não – estão ajudando o governo a atingir as suas metas de redução de emissões de carbono.  E como é que o governo reage?  Tentando exigir que a produção seja aumentada de maneira a que os ingleses possam continuar a dirigir os seus veículos e a voar como faziam antes.

Na semana passada, Gordon Brown afirmou que “o fato de 40% das reservas mundiais de petróleo serem controladas pela OPEP era um escândalo”, e que “a OPEP não pode continuar a recusar-se a aumentar a produção”.  Nos EUA, o cenário é ainda pior, já que o Senado talvez aprove medidas de retaliação caso os membros da OPEP não aumentem a produção de petróleo. 

Isso ilustra o estado psicótico de nossos líderes.  Eles afirmam que querem restringir a demanda de petróleo de maneira a combater as mudanças climáticas e a aumentar a segurança energética, mas, ao mesmo tempo, eles querem “maximizar a recuperação de petróleo, gás natural e carvão das jazidas ainda existentes”.  Eles insistem em tentar não ver que,  de qualquer forma, todo o petróleo extraído será utilizado.

Assim, os únicos países que parecem estar impondo restrições efetivas ao uso de derivados do petróleo são exatamente os membros da OPEP, contra os quais Gordon Brown reclama de maneira tão amarga.

Majestade, nós enlouquecemos, e só o senhor pode nos curar de nossas aflições.  Para tanto, é preciso manter fechadas as torneiras por onde jorra o petróleo.   

Ainda não tendo a mais vaga idéia de quais são efetivamente as reservas de petróleo, nossos líderes estão expandindo rapidamente a infra-estrutura de transporte.  Na Inglaterra, estão sendo construídos ou ampliados milhares de quilômetros de estradas; a capacidade dos aeroportos está sendo duplicada.  E o governo tenta fixar as previsões de preços futuros do petróleo em US$ 70 por barril.

Majestade, eu reconheço que essa não está entre as suas obrigações usuais como rei da Arábia Saudita, mas eu lhe imploro, respeitosamente, que nos salve de nós mesmos.

Sinceramente,

George Monbiot

***

Essa tradução é livre e resumida.  O original pode ser encontrado em www.monbiot.com.  Essa carta é a coisa mais lúcida já dita sobre o comportamento recente das lideranças políticas do Ocidente.  A esquizofrenia sobre a Amazônia, bem como a apatia no que se refere às energias renováveis e à eficiência energética no Brasil não são menores.

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

Um comentário em “Petróleo, Mudanças Climáticas e Insanidades Políticas”

  1. Petróleo no subsolo é como dinheiro no banco?
    se vc me responder isso ficarei Grato.
    Boa Resenha!

    Comentário do autor:

    Há duas vertentes de pensamento:

    1. Se os países sérios conseguirem alavancar energias renováveis, incluindo a geotérmica, petróleo será considerado uma fonte de energia suja, que estará disponível para os países eternamente “emergentes”, como o Brasil;

    2. Se as fontes renováveis não forem levadas à escala comercial, o preço do petróleo pode subir até que os países “emergentes” não tenham condições de pagar por eles.

    De toda forma, é interessante saber de que petróleo estamos falando. O do tal “pré-sal” é uma grande jogada de marketing, apenas.

O que você pensa a respeito?