O Etanol Brasileiro e a Crise de Alimentos

Os países desenvolvidos ignorarão os pedidos da ONU e a verborragia de Lula contra  os subsídios e barreiras tarifárias no setor agrícola.  Para os europeus, que já viveram muitas guerras, com situações de fome, a segurança alimentar importa mais do que o blá-blá-blá dos economistas do Banco Mundial, do FMI e da própria FAO, incapazes de prever situações críticas como a atual escassez de alimentos.  Para os norte-americanos, também, apesar da abundância, alimentação com baixos preços é um paradigma social e político, acima de qualquer palpite estrangeiro. 

Nos dois casos, as mudanças climáticas fizeram com que segurança alimentar signifique, a cada dia mais, menor dependência de importações.   Importarão, sim, aquilo que lhes parecer conveniente, e desde que as empresas de seus países tenham assumido uma razoável margem de controle do setor no Brasil.

Lula exerce o jus esperneandi – o direito de espernear – contra as petroleiras, afirmando que elas estão por trás de um hipotético boicote ao etanol brasileiro.  Omite que a Petrobras é uma das maiores do mundo e faz bem menos do que muitas outras na área de energias renováveis.

A BP, gigante britânica do petróleo, comprou metade de uma joint venture entre Santelisa Vale e Grupo Maeda para produzir etanol em Goiás. Juntas, vão investir
R$ 1,66 bilhão em açúcar e álcool. A Cosan, gigante brasileira do etanol, adquiriu 100% dos ativos da Esso por US$ 826 milhões.

O presidente fala o que a sociedade de espetáculos quer ouvir e não menciona, por exemplo, que a British Petroleum comprou recentemente cerca de 50% de uma grande empresa brasileira do setor e se prepara para investir mais de R$ 1 bilhão na produção de etanol em Goiás (se bobear, com dinheiro do BNDES).  Além disso, cresce de maneira acelerada a presença de grupos estrangeiros na produção de etanol no Brasil, com o grupo francês Louis Dreyfuss já se posicioanando como segundo maior produtor.

Em Goiás, nos últimos 10 anos, os incentivos para novas indústrias sob a forma de renúncia fiscal foi da ordem de R$ 50 bilhões… para investimentos de apenas R$ 7,8 bílhões.  Só para o setor sucro-alcooleiro, essa renúncia fiscal atingiu, nos últimos 3 anos, cerca de R$ 36 bilhões, ou o equivalente ao triplo da arrecadação anual do estado.  Essa renúncia ao recolhimento do ICMS assume uma forma especialmente perversa já que o imposto pago pelo consumidor não é repassado aos cofres públicos para financiar serviços básicos de educação e saúde.

Na verdade, o Proálcool sempre foi subsidiado pelo bolso dos consumidores, com o governo – e não esta administração, apenas – elevando e diminuindo o teor de etanol na gasolina ao sabor da maximização do lucro do setor.  Então, esbravejar contra os subsídios alheios não faz sentido, em especial poucas semanas depois de renegociar dívidas de R$ 75 bilhões dos grandes e médios produtores rurais.

Então, talvez seja hora de parar de falar contra os subsídios e barreiras comerciais dos outros e começar a definir uma política nacional de segurança alimentar e energética que não se resuma à bolsa-família e às mega-hidrelétricas.  Não é difícil, mas nos dois casos há de mudar o foco.  Quem sabe parar de jogar burro em pé e começar a jogar pelo menos bridge.

***

O conflito pelo uso de terras agriculturáveis não se resume a biocombustíveis X alimentos, como pretende a FAO.  No Brasil, Aracruz e Veracel, ambas controladas por grupos estrangeiros, preparam-se para duplicar a capacidade de produção até 2015.   Tentar “culpar” as barreiras comerciais pela crise de alimentos é uma tolice economicista, nada mais. 

Quando a balança da fronteira agrícola se desloca de acordo com o interesse dos mais fortes, deslocam-se também os pequenos produtores e gêneros alimentícios básicos passam a ser transportados por longas distâncias, criando pressões inflacionárias adicionais e aumentado o consumo de combustível.  É a própria farra do boi! 

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

2 comentários sobre “O Etanol Brasileiro e a Crise de Alimentos”

  1. Oi!
    Meu nome é Raquel tenho 18 anos e ja conclui o 2º grau. Estou num cursinho prè-vestibular e na aula de atualidades desta semana discutimos esse assunto:etanol e a crise dos alimentos. Muitos falaram que isso é só mais um modo de o Brasil progredir, outros falaram que pode mesmo prejudicar o Mundo, eu fiz uma pesquisa e só 1% do territorio brasileiro vai ser ou ja esta sendo utilizado pra as plantações de cana-de-açúcar!! Acho que não é tão prejudicial assim?!!
    Então o que voçês poderia me dizer com isso??!!

    Muito obrigada pelo espaço.

    Resposta do autor

    Essa afirmação de que só 1% do território brasileiro está ocupada pela cana-de-açucar é falaciosa. Um por cento do território ou um por cento das terras agriculturáveis? Um por cento das terras agriculturáveis onde? Nas melhores terras agriculturáveis, nas mais próximas dos grandes centros de distribuição, nas terras mais planas, já que o etanol sempre foi subsidiado pelo bolso do consumidor que não pode comprar gasolina pura e tendo em vista que o governo aumenta ou diminui o teor de etanol na gasolina ao sabor dos interesses dos produtores de etanol?

    Mas, não falamos, aqui, apenas do etanol, mas dos biocombustíveis em geral. O biodiesel está sendo feito de soja.

    E não falamos apenas do momento presente, mas de todas as terras que estão sendo adquiridas para a plantação de cana-de-açucar e de outras fontes de biocombustíveis – ou seja, terras nas quais as culturas já estão migrando de alimentos para esses biocombustíveis, todas situadas nos melhores pontos de escoamento da produção, enquanto as estradas vicinais continuam abandonadas.

    A turma do etanol e do governo, que usa esse argumento, sonega outra informação importante. Nenhuma análise das áreas ocupadas pelo etanol pode ser feita de maneira isolada. Só a Aracruz e a Veracruz – a primeira sendo a maior do setor de celulose – planejam multiplicar por 4 a sua capacidade de produção até 2015. Ou seja, pretendem fazer em 5 anos o que fizeram em 30 ou 40, criando imensos “desertos verdes”. Essa é uma imensa pressão adicional sobre as terras agrícolas antes destinadas à produção de alimentos.

  2. PRODUÇÃO DE ETANOL COM ALGAS

    O Prof. Pengcheng “Patrick” Fu da Universidade de Hawaii (EUA) desenvolveu uma tecnologia inovativa, produzindo em escala etanol com cyanobacterias modificadas (blue-green-algae). Esta fonte nova de etanol não entra em conflito com a produção de ração e de alimentos e consome ainda CO2 no seu cultivo no sistema de photo-bio-reator de baixo custo, usando a luz solar.

    Fu já desenvolveu cepas de cyanobacterias, que produzem etanol como resíduo e ganhou uma patente mundial com a sua invenção.

    O teste no laboratório de biotecnologia em Hawaii utilizou photo-bio-reatores (PBR) com luz artificial e com luz solar. O sol funciona melhor, diz Fu. Transformando um resíduo em uma coisa útil é uma solução importante. As “blue-green-algae” necessitam somente sol e como nutrientes também um pouco açúcar, especialmente à noite no período sem insolação, usando o resultado da produção tradicional de cana, um pouco melasse. Assim temos uma solução interessante para a indústria do setor sucroalcooleiro.

    Brasil e outros países tropicais ganham deste modo uma segunda opção, processando o etanol com o novo feedstock micro-algae. Assim cana de açúcar & algas podem atender juntos a grande demanda de etanol do mercado mundial. A produtividade de algas por hectare é no mínimo 10 até 20 vezes maior do que o rendimento da cana, dependendo só da verticalização do cultivo da altura do sistema de photo-bio-reatores verticais. Assim o Brasil poderia produzir mais e mais etanol, usando menos espaço. A produção em massa de etanol com algas poderia ser realizada em grande parte no Nordeste do país, perto dos portos marítimos, estimulando assim a capacidade de exportação desta região carente.

    Um projeto nacional de produção em escala de etanol com algas seria um desafio, que necessita um projeto de Parceria Pública e Privada (PPP), envolvendo o Governo Federal, EMBRAPA, CTC – Centro de Tecnologia Canaviera, UNICA e Usinas de Álcool e Açúcar, bem como entidades como OCB e REDENET – Rede Norte e Nordeste de Educação Tecnológica e principalmente universidades, especialmente centros de pesquisa de algas (como o LABIOMAR da UFBA e o Setor de Bioenergia da FTC, ambos em Salvador).

    A tecnologia da empresa La Wahie Biotech vai ser ajustada agora para preparar uma planta experimental com alto rendimento, uma BIOFÁBRICA DE ETANOL DE ALGAS, um desafio técnico para o futuro próximo.

    Professor Dr. Pengcheng Fu possui passaporte chinês e americano, foi convidado recentemente pelo Governo da China, de estruturar em Beijing um projeto piloto de etanol de algas. A equipe da empresa La Wahie Biotech Inc. em Hawaii coordena ações da matriz da empresa start-up e de uma ONG criada, da FUNDAÇÃO LA WAHIE INTERNATIONAL.

    No Brasil está em fase de implantação uma filial em Aracaju-SE; representante é o Professor alemão Hans-Jürgen Franke, especialista em bioenergia.

    Fu começou a formação em engenharia química, depois continuou com biologia. Ele estudou na China, Austrália, no Japão e nos Estados Unidos.

    Ele trabalha também com a NASA, pesquisando o potencial energético de cyanobacterias para futuras colonizações na Lua e no Marte. Recentemente a empresa La Wahie Biotech ganhou avards e prêmios no campo de Pesquisa e Desenvolvimento.

    Fu diz, que a produção de etanol na base de plantações do agrobusiness como cana de açúcar ou ainda milho é bastante lenta e gasta muitos recursos. Por esta razão ele optou para as cyanobacterias, que convertem a luz solar e o nocivo dióxido de carbono na sua alimentação e deixam como resíduo oxigênio e etanol.

    Alguns cientistas pesquisam cyanobacterias para fabricar etanol, usando diferentes cepas. Mas a técnica de Prof. Fu é única. Ele resolveu inserir material genético dentro de um tipo de cyanobacterium, e agora o produto de resíduo é somente etanol, separado no circuito do sistema de photo-bio-reator através de uma membrana. Funciona muito bem, fala Prof. Fu.
    O benefício é que a tecnologia de Prof. Fu começa produzir em poucos dias grandes quantidades de etanol com custo inferior do que técnicas convencionais.

    O parceiro de Prof. Fu no Brasil – na representação da empresa La Wahie Biotech Inc. em Aracaju – Prof. Hans-Jürgen Franke – está coordenando o desenvolvimento de um sistema de photo-bio-reator de baixo custo. Prof. Franke vai articular agora projetos pilotos no Brasil.

    Com o sequestro de dióxido de carbono (CO2) a tecnologia revolucionária de produção industrial de etanol de La Wahie Biotech Inc. serve ainda, para combater o aquecimento global.

    Honolulo e Aracaju, 15 de Setembro 2008

    Contatos:
    • Prof. Pengcheng Fu – E-Mail: pengchen2008@gmail.com
    • Prof. Hans-Jürgen Franke – E-Mail: lawahiebiotech.brasil@gmail.com

    Tel.: 079-3243-2209

    Comentário do autor do blog

    Grato pelas informações. Vale dizer que eu acharia importante que o Brasil desenvolvesse uma tecnologia autônoma nessa área para que o país não venha a pagar para produzir biodiesel de algas. Uso o verbo do condicional – “acharia” = por não acreditar que o governo tenha um política de desenvolvimento científico e tecnológico minimamente consistente com objetivos estratégicos, e sequer que tenha objetivos estratégicos.

    Grato pelas informações

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