Banco Mundial – Mentiras Sem Meias Verdades

A despeito da retórica oficial – ou da mentira pura e simples, não menos oficial -, o Banco Mundial e o seu braço armado, a Corporação Financeira Internacional – IFC, que faz empréstimos e toma participações acionárias em projetos privados, está, sim, financiando a rápida expansão da indústria sucroalcooleira.

A IFC já investiu em frigoríficos e ampliação da criação de gado na Amazônia e, agora, aprovou um megaprojeto em Goiás.  Infelizmente, ainda apenas em inglês, as informações podem ser encontradas em http://www.ifc.org/ifcext/spiwebsite1.nsf/2bc34f011b50ff6e85256a550073ff1c/4af3a140be617199852573d80070d924?opendocument.

Trata-se da quase duplicação da capacidade de processamento da Usina São João, de 5,5 milhões para 10 milhões de toneladas de cana-de-açúcar, parte com a ampliação da unidade já existente em Quirinópolis e parte com a construção de uma nova unidade em Cachoeira Dourada.  Em números aproximados, para cada 1 milhão de tonelada de cana-de-acúcar são necessárias terras num círculo de 25 km no entorno da unidade de esmagamento.

Com o cinismo usual, a IFC (na sigla em inglês), enfatiza nas informações disponíveis ao público por força dos regulamentos internos do Banco Mundial (impostos na década de 80 pelo governo norte-americano e pela tradição anglo-saxônica) que estará, assim, beneficiando pequenos produtores de cana-de-açúcar.

Mentira!  Nunca, em nenhuma situação, em toda a história da indústria sucroalcooleira no Brasil, pequenos produtores de cana-de-açúcar foram beneficiados.

O contrato já foi assinado – em março de 2008! –  mas o Estudo de Impacto Ambiental ainda não está disponível.  Vale ressaltar que, cinicamente, a IFC incluiu o projeto na Categoria B de riscos ambientais (a categoria A é aquela que tem mais riscos e requer estudos ambientais mais aprofundados, e a B é aplicada quando os riscos não são considerados tão significativos).

E, com cinismo igual, o processo que levou ao contrato foi analisdo e aprovado na mais completa discreção, e o estudo de impacto ambiental completo não foi disponibilizado através da internet.

O projeto inclui, em princípio, a plantação de cana-de-açúcar em 25.100 hecatares de adicionais em terras próprias e em terras de terceiros.  Os investimentos totais serão de US$ 355 milhões ou, ao dólar no ralo em que se encontra, R$ 568 milhões.

Com os subsídios do governo de Goiás para novas atividades – na faixa de R$ 6 para cada R$ 1 investidos -, o rombo nos cofres públicos do estado se amplia, com prejuízos para a educação, a saúde, o saneamento e a habitação.

Seria bem melhor que o Banco Mundial e o braço armado parem de mentir.  E seria bem melhor, também, que Lula acordassse para o fato de que o Brasil também concede elevados incentivos fiscais para os biocombustíveis.  Desde o início do Proálcool, o grosso desses subsídios foi pago pelo consumidor, na bomba de gasolina, já que o setor sucroalcooleiro sempre teve o poder de fazer com que o governo alterasse o teor de álcool na gasolina ao sabor de seus interesses momentâneos.

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A IFC também aprovou US$ 54 milhões para aumentar a produção de gado na India, para a exportação de carne e queijo para países desenvolvidos.  Um subsídio à cadeia Pizza Hut, de comida-lixo (junk-food, em inglês; aquela que causa diabetes e muitas outras doenças).

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“Crédito verde” é só denominação propagandística, inútil, até porque os grandes não precisam de dinheiro dos bancos estatais, já que podem conseguir financiamento muito mais barato lá fora.

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

Um comentário em “Banco Mundial – Mentiras Sem Meias Verdades”

  1. Como podemos ver, Luiz, em pleno século XXI e, diferentemente do que alguns acreditavam, estamos longe de um mundo ideal. A ruptura do equilíbrio do planeta, um momento decisivo na história da humanidade, deu início à mais catastrófica ação humana sobre seu único habitat – o planeta Terra. Colhemos hoje o fruto de diversos erros do passado, somados as frustrantes tentativas de resoluções paliativas aos nossos problemas ambientais, estamos próximos à exaustão dos ativos ecológicos e o colapso dos ecossistemas.

    Como podemos ser tão burros ao ponto de criarmos para nós mesmos uma “bolha de realidade” na tentativa de simular o impossível dentro de nossas mentes. Assim, excluimo-nos do mundo que nos cerca. Deixamos de ver os outros seres viventes deste planeta como iguais, usando-os como se aqui estivessem para nos servir.

    Creio em Fritjof Capra quando afirma que este processo foi intensificado durante o século XVII, com o surgimento do Paradigma Cartesiano, promovendo assim a cisão sujeito/objeto e na tentativa desesperada de depreensão do mundo, fragmentou-o e o homogenizou-o. A cultura cientifica e as técnicas disciplinares passaram a promover o parcelamento e a desunião dos saberes, perdendo a contextualização existente ao Elo que a Tudo une.

    Como estamos nos afastando da simbiose existente entre o Homem e Gaia, que agora se apresentam como estranhos um ao outro!

    Como chegamos ao ponto de sermos regidos pelo capital financeiro, permitindo que as decisões que influenciam o meio ambiente sejam tomadas por um restrito grupo de pessoas e corporações, ao invés de gerenciadas pela coletividade e a observação da disponibilidade de recursos naturais?

    A ascensão desenfreada do consumismo (em espacial a indústria automobilística) aliada ao crescimento populacional (mais clientes em potencial) e à instabilidade das finanças estão acelerando a destruição do Planeta Terra, agora num ritmo frenético e definitivamente letal.

    TEMOS QUE NOS UNIR E TOMAR AS RÉDEAS DO NOSSO PAÍS E, EM ESPECIAL, DE NOSSAS TERRAS AGRICULTÁVEIS, BEM COMO DA NOSSA VASTA BIODIVERSIDADE.

    JÁ CONSUMIMOS MAIS DO QUE A TERRA PODE SUPORTAR.

O que você pensa a respeito?