Parques Nacionais, Parques de Papel e Políticas Retrógradas

Apenas 1,5% dos 185 milhões de brasileiros visita os parques nacionais.  Esse absurdo foi relatado pela Andréa Zimmermann em tese de mestrado defendida na Universidade de Brasília.  Ainda supondo que cada uma dessas pessoas visita mais de um parque por ano, o número total de visitações é irrisório quando comparado aos 272,6 milhões de visitas aos parques nacionais dos EUA em 2006, numa população estimada em 280 milhões.  Noves fora pequenas diferenças nos métodos estatísticos, a diferença é gritante e serve como alerta para o novo ministro de Meio Ambiente, Carlos Minc.

Para mudar essa tendência, Carlos Minc terá que se defrontar com a cultura – ou incultura – institucional do Ibama e das ONGs, que preferem o que ele mesmo, certa vez, denominou “parques muralhas”, numa referência aos parques sem estrutura real de visitação, sem estradas cênicas, sem trilhas bem definidas para as várias idades, sem alojamentos de todos os tipos (nem sequer campings), sem locais para refeições e para pequenas compras do dia-a-dia.  Essa é a turma que vê nos visitantes uma ameaça e se esquece que a lei prevê outras categorias de unidades de conservação para a proteção integral.

No Brasil, traduziu-se mal e porcamente a expressão management plan (plano de gestão) adotada nos parques anglo-saxônicos por plano de manejo, que não quer dizer nada.  Visitas?  Só guiadas por guardas-parque que não existem ou que só atendem àqueles jovens que podem carregar mochilas com mantimentos, sacos de dormir, lampiões, lanternas, e tudo o que for necessário para uma estadia de 2-3 dias nos parques.  À excessão do Parque Nacional de Foz do Iguaçu, onde já existia o “hotel da Varig” cuja concessão foi recentemente transferida para a caríssima cadeia Orient Express (Copacabana Palace), os “gestores” dos parques brasileiros – federais e estaduais – preferem que as pousadas fiquem fora deles.

Essa cultura – ou falta de cultura – institucional foi bem definida por Vilmar Berna, fundador da Rede Brasileira de Informação Ambiental: “os parques são administrados por biólogos, zoólogos, botânicos ou apadrinhados políticos interessados em cargos; nada de gente que tenha interesse em gente”.

Em 2006, dos 62 parques nacionais brasileiros, apens 19 eram abertos a algum tipo de visitação.  Como afirmou Andréa Zimmermann, “o que parece uma falta de interesse dos brasileiros refleta, na verdade, a precariedade da gestão dos parques nacionais”.  Nessa área, os nossos vizinhos latino-americanos têm desempenho superior.

Segundo os dados do próprio Ministério do Meio Ambiente, 22,5% dos parques restringem as visitas a caminhadas de um dia, e só 19% permitem banhos de rio, lago ou mar.  “A cultura do Instituto Btasileiro de Meio Ambiente – Ibama é focada na restrição do acesso, o que atrapalha o aproveitamento dos locais”, em colisão frontal com o objetivo fundamental.  A mesma coisa ocorre com os parques estaduais.

Enquanto os parques continuam no papel, os bois pastam dentro dos limites dos parques – cuja titularidade da terra o poder público quase nunca tem –  e a descoberta de fazendas e pistas de pouso dentro de seus limites vira estardalhaço na imprensa.

O mais divertido é que essa mesmo turma de ambientalistas apoiou incondicionalmente a concessão de florestas nacionais à iniciativa privada.  Mas resistirá a qualquer tentativa de procedimentos similares em relação à gestão dos parques.

Carlos Minc tem todas as condições de virar esse jogo de maneira favorável aos parques e aos brasileiros.  Se agir com rapidez e sem hesitações.  Conhecimento dessa situação,  disposição para ter um excelente desempenho na gestão dos parques e apoio político no nesse início de sua gestão não lhe faltam.  Só não fará se optar pelas luzes da ribalta da Amazônia.

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E isso para não falar nos parques urbanos, como é o caso do Parque Estadual da Pedra Branca, que vai aos poucos sendo comido pelas bordas exatamente por falta de um plano de ocupação, como mostra a imagem abaixo.  Ao sul, pelas casas dos ricos em Vargem Grande; a oeste, pela classe média de Jacarepagua; e ao norte, pelas camadas mais pobres nos subúrbios do Rio.

Essas invasões seriam facilmente contidas com uma delimitação física que inclua trilha de boa largura para a passagem de motos de guardas-parque, concessão de trechos para a implantação de pousadas e similares em locais mais vulneráveis, e outras iniciativas criativas, de mero bom senso.

Parque Estadual da Pedra Branca

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

One thought on “Parques Nacionais, Parques de Papel e Políticas Retrógradas”

  1. O plano de manejo é fundamental e estratégico para a ordenação do uso bem como para a sustentabilidade socio-ambiental-econômica dos nossos parques e reservas. Entretanto, para ter utilidade deve, no mínimo, ser divulgado e disponibilizado ao público, em sistema de mão dupla, que tanto atenda ao público que quer e pode ir até onde a informação está disponível, quanto levar a informação até aonde o público de interesse está, numa atitude pró-ativa, o que não ocorre hoje. Quanto existe plano de manejo, este é privilégio de conhecimento de uns poucos técnicos. Sem informação acessível, o público interessado no uso e preservação das Unidades de Conservação, não tem como fazer parte do manejo e, mais grave, tem cada vez maior dificuldade para exercer sua cidadania ambiental.

    Os investimentos mais importante a serem feitos visando a preservação das unidades de conservação está na informação ambiental e na educação ambiental, para que a sociedade tome como seu patrimônio os parques e reservas, e não vê-los como um patrimônio do Governo. Enquanto os parques e reservas naturais continuarem sendo visto como do Ibama, do Estado ou de Prefeituras, não haverá guarda suficiente para proteger este rico patrimônio natural. O problema é que os atuais gestores são escolhidos entre biólogos, botânicos e outras especialidades voltadas para o estudo dos aspectos ambientais, e que não receberam em suas capacitações conhecimento e treinamento para lidar com a informação ambiental, em última análise, com gente.

    Então, é muito prático e conveniente que os parques e reservas sejam espaços mais para bichos e plantas que para gente, e que as pessoas sejam mantidas o mais afastadas possível. Trata-se de um equívoco a ser esclarecido, por isso este seu artigo é de grande relevância e chega num momento mais que oportuno.

    Resposta do autor do artigo

    O Plano de Manejo – leia-se zoneamento – é um primeiro passo, útil, necessário, mas LARGAMENTE insuficiente. Em particular quando tenta transformar um parque numa reserva ou estação ecológica, com amplos trechos onde não se pode NADA. Logo após o Plano de Manejo, ou simultaneamente, há que fazer o PLANO DE GESTÃO, localizando estradas cências, acessos, locais para diversos tipos de hospedagem (inclusive campings) e outras atividades. Um plano de gestão tem que ter metas, custos, identificação de alternativas de financiamento, etc. Sem isso, tudo continuará exatamente como está, isto é, os parques continuarão a ser parques de papel. Mesmo os visitantes do Parque Nacional de Foz do Iguaçu – o mais visitado do Brasil – só podem desfrutar da vista ou de um passeio até as cataratas, numa área que corresponde a uma fração irrisória do parque.

O que você pensa a respeito?