Novamente o Degelo – Constatações Científicas e Omissões Políticas

 A semana passada foi marcada por notícias preocupantes sobre o degelo no Ártico e na Groenlândia, às quais acresceram-se as informações dos cientistas de que mudanças climatícas drásticas podem ocorrer em prazos muito inferiores àqueles constantes dos relatórios do Painel Intergovernamental da ONU, cujos relatórios são altamente influenciados pela política e pela diplomacia.  Em lugar de “até 2.100”, pode-se ler, agora, algo como “entre 2.030 e 2.050”.  E, também, que uma vez desencadeada a fase mais aguda do processo, todo o degelo pode ocorrer em apenas um ano.

A mídia, ávida por novidades que serão esquecidas nos dias seguintes, não tem mais tempo ou vontade de contar que as notícias não são tão novas assim.  Já se vão alguns anos desde que o Centro Nacional de Informações Sobre a Neve e o Gelo dos EUA alerta para a rápida diminuição das geleiras, inclusive com fotos, para que as pessoas de outras áreas profissionais VEJAM o que já vem sendo observado há muito tempo.  Afinal, uma imagem vale mais do que mil palavras.

Abaixo, fotos da Geleira Muir, situada no Alasca, no Parque Nacional dos Glaciais da Baía.

A primeira, tirada em agosto de 2001, pelo pesquisador William O. Field, e a segunda em agosto de 2004, pelo geólogo Bruce F. Molnia, do Serviço de Avaliações Geológicas dos EUA.

Muir Glacier - 1941

 muir2.jpg

Molnia estima que nesse período essas geleiras recuaram em 12 quilômetros e tiveram a sua espessura reduzida em 800 metros.  A água do mar encheu o vale e podem ser vistas árvores frondosas onde antes só existiam rochas.

E os países ditos do “primeiro mundo”, maiores responsáveis pelas mudanças climáticas, metendo o bedelho na Amazônia.  E ainda se preparando para a exploração de jazidas de petróleo em áreas até o presente totalmente protegidas, e outras, onde o degelo começa a permitir os avanços sobre a extração – e a queima, é claro – de mais combustíveis fósseis.

Essa é mais uma oportunidade para o governo brasileiro sair da defensiva nessas questões e cobrar seriedade dos países ricos, que prometem doações de trocados para a proteção das florestas amazônicas.  Bush, criminoso de guerra, não têm políticas para energias renováveis, Gordon Brown, o anêmico primeiro-ministro da Inglaterra só pensa em mais petróleo barato, a Noruega compra caças militares para assegurar a proteção das novas jazidas petrolíferas do Ártico (e doa menos do que isso para a Amazônia), Sarkozy só se preocupa com a mídia e a Carla Bruni, e por aí vai, com a honrosa excessão da Alemanha.  Esse é um retrato em 3 X 4 das chamadas “lideranças políticas” do planeta.

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Uma bela galeria de fotos de geleiras pode ser encontrada na página do National Snow and Ice Data Center, em http://nsidc.org/gallery/

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Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

One thought on “Novamente o Degelo – Constatações Científicas e Omissões Políticas”

  1. Prezado Luis Prado,

    Parabéns pela sua clareza e persistência. Realmente a situação agrava-se diariamente e a população preocupada com o futebol… Possivelmente os desastres venham a ocorrer antes de 2030! A solução que vejo para isso é iniciarmos projetos auto-sustentáveis de forma pessoal e/ou empresarial. Aguardar por governos e instituições parece perda de tempo. O petrõleo pior que o tabaco, um vício dos mais difíceis de extirpar.
    Recebi fotos de carros elétricos desenvolvidos pela GM que foram simplesmente destruídos. Há muita grana investida no petróleo e os investidores parece preferirem a morte a perderem seus investimentos estúpidos…

    Parabéns!

O que você pensa a respeito?