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Arquivo de julho, 2008

Etanol e Estudos Sérios Sobre Balanços Energéticos

Os biocombustíveis são uma alternativa saudável aos combustíveis fósseis?  Essa questão, inexistente até alguns anos atrás, tornou-se cada vez mais presente nos fóruns internacionais e nacionais dos países sérios.  E o Brasil continua fazendo de conta que estaríamos no melhor dos mundos se os países ricos abrissem as suas portas ao etanol brasileiro, sem apresentar números.  Tudo como se as terras agrícolas fossem ilimitadas, como fosse possível passar a ter todo o gado confinado, como se não houvesse demanda de água suplementar, e como se não existissem questões de segurança nacional em jogo.

Anuncia-se que o grupo norte-americano Bunge construirá três novas usinas de álcool no estado de Tocantins com grande euforia.  A empresa pretende plantar 100.000 hectares de canaviais, o Estado abriu mão do recolhimento do ICMS por 15 anos, o Supremo aceita uma cautelar para que os exportadores deixem de recolher a Contribuição Social sobre o Lucro Líquido nas exportações, e la nave va.

Os norte-americanos sabem que se transformassem toda s sua produção de milho em etanol, teriam combustível para abastecer apenas 7% da atual demanda de combustíveis líquidos usados em veículos no país.  Por essa razão, vêm buscar o etanol brasileiro, desconsiderando completamente quaisquer impactos sócio-econômicos ou ambientais.

Já no início dos anos 80, o Departamento de Energia dos EUA (DoE) conduziu um estudo aprofundado no qual demonstrou que o balanço energético da produção de etanol a partir da biomassa era negativo.  Convidados para avaliar o estudo, 26 especialistas independentes confirmaram os seus resultados.

Há poucas semanas, o professor David Pimentel, professor da Faculdade de Agricultura da Universidade de Cornell, e outros, publicaram um artigo intitulado A Produção de Etanol: Energia, Economia e Perdas Ambientais.  Nesse estudo, são considerados TODOS os custos da produção de etanol, incluindo o uso da água, desde a irrigação até a destilação final do etanol, além dos custos ambientais com a poluição decorrente do uso de fertilizantes.  No total, foram considerados 14 insumos.  O resultado foi contundente: para produzir um litro de etanol do milho, que disponibiliza 5.130 Kcal de energia, são necessárias 7.333 Kcal de insumos.  Ou seja, o balanço energético é negativo.

Numa única passagem de seu estudo, David Pimentel faz uma referência ao etanol brasileiro.

“Os defensores dos biocombustíveis apontam para o Brasil e ressaltam que a eficiência energética é bastante melhor no caso da produção do etanol a partir da cana-de-açúcar.  No entanto, como o balanço energético do etanol é negativo, o Brasil subsidiou durante muito tempo essa atividade.  Mais tarde, o governo brasileiro parou de subsidiar diretamente a produção de etanol, que é, hoje, subsidiada pelo consumidor final na bomba dos postos de abastecimento.  Esse subsídio foi estimado em 50% da produção de etanol.  Isso para não mencionar a remoção de florestas nativas e as altas taxas de erosão dos solos.”

Já é tempo do Brasil fazer um estudo com o mesmo nível de seriedade sobre o balanço energético do etanol, nele incluindo todos os insumos considerados no estudo de Pimentel e, também, os custos de transporte de alimentos associados ao deslocamento das fronteiras agrícolas.

Transformando-se num exportador de commodities e considerando que os canais de exportação estão nas mãos de grandes grupos estrangeiros, o Brasil torna-se mais vulnerável do que consegue ver em decorrência da euforia de ter se transformado em nova fronteira de expansão do capital internacional.

Agora que a tal da globalização acabou, inclusive com as crescentes restrições ao livre fluxo de pessoas, talvez seja chegado o momento de dizer claramente que o objetivo fundamental dos investimentos estrangeiros é enviar lucro de volta para os países de origem.

***

Resumos de estudos anteriores de David Pimentel podem ser encontrados, em inglês, em  www.news.cornell.edu/stories/july05/ethanol.toocostly.ssl.html ou, em português, em http://resistir.info/energia/biocombustiveis.html.  David Pimentel tem quase 500 trabalhos cientificos publicados, além de 20 livros.

Parques, Reservas e Estações Ecológicas – Aos Trancos e Barrancos

O ministro de meio ambiente, Carlos Minc, tem pela frente uma tarefa muitas vezes mais difícil do que conceder a licença ambiental de Angra III, uma banalidade que recebeu excessiva atenção da imprensa pelo avanço que representou em relação à lerdeza mental anterior.  Banalidade porque em muitos países licenças ambientais de usinas nucleares foram e continuam sendo concedidas sem tanto alarde.

Essa tarefa é a regularização fundiária das unidades de conservação que,  pela lei, devem ser de propriedade do estado. Entre elas, as estações ecológicas e parques nacionais.

No passado, as unidades de conservação eram criadas e depois se iniciava a discussão sobre as desapropriações, que se estendiam e ainda se estendem por falta de agilidade ou desinteresse (ou por interesse) da máquina pública.  E os tais gestores das unidades de conservação ficavam tentando “dar um cansaço” nos proprietários que aos poucos se retraiam e abandonavam as suas terras, ou tinham condições de pagar bons advogados.

Assim, a falta de regularização da situação fundiária das unidades de conservação é mais a norma do que a excessão.  Mesmo no  caso dos parques mais antigos, o governo frequentemente não tem a documentação que comprove a propriedade da terra.  Trata-se de um posseiro a mais, e ainda assim sem os requisitos que caracterizam a posse, isto é, sem a presença física no local.

Com a Constituição de 1988 e a lei que regulamenta o sistema nacional de unidades de conservação as coisas deveriam ter mudado.  A criação de novos parques nacionais – ou a ampliação dos parques existentes – deveria ter passado a ser precedida ou ser imediatamente sucedida de justa indenização.  Não sendo assim, o cidadão brasileiro dorme na legalidade e acorda na ilegalidade.

Os procedimentos para que os proprietários ou posseiros apresentem a documentação necessária para comprovar a sua situação  fundiária não são complicados e podem ser feitos através de editais.

Mas que nada.  Dane-se a Constituição e a lei.  O poder executivo – e não apenas o federal – continua com o péssimo hábito de criar unidades de conservação que, depois, não têm a sua situação fundiária regularizada.

Essa talvez seja a principal razão pelo fracasso dos leilões das 3.500 cabeças de gado apreendidas na Estação Ecológica Terra do Meio, no Pará.  Esse gado era mesmo ilegal?  A União criou a Reserva e legalizou a sua propriedade sobre as mesmas?  Ou havia, na área, proprietários e posseiros?

Num artigo publicado na página de notícias do Instituto Sócio-Ambiental (muito ligado ao ex-secretário-geral do Ministério do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco), mais de um ano depois da criação dessa unidades de conservação, lê-se o seguinte:

“Afinal, a Estação Ecológica da Terra do Meio, com 3,3 milhões de hectares, e o Parque Nacional da Serra do Pardo, com 445 mil hectares, não saíram do papel mais de um ano e meio depois de sua decretação.  As primeiras etapas para a implantação das duas unidades de conservação federais – a demarcação de seus perímetros, o levantamento  fundiário das posses existentes em seu interior e o mapeamento dos pontos críticos de desmatamento – ainda não foram realizadas.  Apenas algumas poucas placas indicativas foram instaladas no Parque Nacional.

O artigo está em www.socioambiental.org/nsa/nsa/nsa/detalhe?id=2331.

O autor do texto escreveu “levantamento fundiário das posses” num sentido genérico ou simplesmente desconsiderando a possibilidade da existência de propriedades nessa imensa área que totaliza 3,745 milhões de hectares.

Grilagem de um lado e grilagem do outro?  O Estado agindo ilegalmente?  Nenhuma previsão orçamentária para efetivamente adquirir ou desapropriar as terras onde são criados os parques, as estações ecológicas, as reservas?

Numa recente conversa com um jovem, brilhante e muito ativo Promotor de Justiça que atua na área de meio ambiente, ouvi o seguinte desabafo:

- E aí, o que fazer quando no capítulo sobre a ordem econômica da Constituição lê-se que a propriedade privada deve ser respeitada e no capítulo sobre o meio ambiente a função social da propriedade é definida de forma tão vaga que permite uma colisão entre esses dois princípios constitucionais?

Há, sim, o que fazer.  Mandados de segurança preventivos ainda na fase de consulta pública pedindo a anulação do ato, com base nos princípios constitucionais e na própria lei do Sistema Nacional de Unidades de Conservação -SNUC são apenas um dos bons camnhos na via judicial e à correta previsão orçamentária para fins de desapropriação dessas áreas.  Ainda assim, os cadáveres dos parques criados no passado  continuarão a se mover nos armários da burocracia e se constitue num sério desafio para a gestão ambiental no Brasil.

Agora, é torcer para que a equipe do ministro consiga colocar-lhe nas mãos um planejamento consistente para resolver não apenas a questão da nomeação de gestores para as unidades de conservação mas, também, a regularização fundiária e a presença física do poder público – e do público – nas mesmas.

Sem isso, tudo será como antes, o sistema continuará operando aos trancos e barrancos, e o futuro será igual ao passado.

***

As estatísticas sobre o número de visitantes aos parques brasileiros já são péssimas.  Se considerado o tempo em que os visitantes permanceram dentro dos parques – o que nunca foi feito -, essas estatísticas vão para o vinagre.  Entrar, pagar ingresso, estacionar nas proximidades de um centro de visitação onde podem ser encontrados alguns papeluchos sobre o parque, esperar as crianças brincarem por uma hora, e sair, é algo bem diferente de hospedar-se ou acampar por alguns dias, ou mesmo de passar um dia inteiro numa visita, caminhando por trilhas bem feitas ou passeando de bicicleta.

O Mecanismo de Desenvolvimento Limpo e o Naufrágio do Titanic

A farsa do Protocolo de Kyoto e do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo – MDL, ambos inventados sob o alto patrocínio dos economistas burocratas do Banco Mundial, já vem fazendo água há bastante tempo.  Mas agora toma ares de Titanic colidindo com o iceberg, já que o modelo de desenvolvimento  econômico e os esforços para mitigar as mudanças climáticas entraram em colisão frontal.  Enquanto isso, as ONGs, burocratas de todos os tipos e empresas de consultoria internacional bailam nos salões do Titanic.

Na Alemanha, durante um recente encontro entre representantes do Ministério do Meio  Ambiente e da Autoridade de Comércio de Emissões, de um lado, e empresários, do outro, a cobra fumou e a vaca foi para o brejo.  Os mecanismos de mercado são totalmente inadequados e mesmo inúteis para solucionar os problemas globais.  Os tais mecanismos de mercado servem ao mercado, e o que o mercado quer é produzir mais e gerar mais riqueza.

Os preços das emissões de carbono cobrados pelo governo da Alemanha de maneira a atingir as metas do Protocolo de Kyoto vêm se elevando tanto que os empresários reagiram de forma vigorosa durante o tal encontro: se as regras são essas, mudaremos as nossas atividades para a Ucrânia ou para um outro país onde não existam restrições às emissões de carbono.

Em palavras mais simples, os empresários mandaram o governo e os tais interesses globais da humanidade às favas, como não poderia deixar de ser.  Nos últimos 12 meses, o preço da emissão de cada tonelada de carbono na Bolsa Européia de Energia subiu de 23 para 30 Euros, um aumento de quase 30%.  O impacto direto sobre os preços da energia tornou-se excessivo para as indústrias eletrointensivas.  Um analista do setor estima que no  caso de unidades de geração de energia à carvão mais antigas esse aumento nos preços cobrados pelas emissões é igual ao custo marginal da geração de eletricidade.  Para as modernas usinas a gás, o aumento nos preços do produto final – isto é, a eletricidade – atingirá o percentual de 30%.

“Se a indústria do cimento for gradualmente arrastada ao comércio de permissões de emissões de carbono, as empresas transferirão sua produção para países que não participam do esquema”, afirmou Andreas Kern, presidente da Federação da Indústria do Cimento Alemã.  Se vierem para o Brasil, arrisca serem brindadas com isenções tributárias, empréstimos subsidiados do BNDES, e até com a presença do presidente Lula tirando uma casquinha política do “quem dá mais” que é o Brasil de hoje.  Se pedirem vistos de trabalho aqui, obterão quantos quiserem.  Sem qualquer compromisso da tal responsabilidade social e ambiental, e sem gerar impostos para os seus produtos exportados.

Para que se aponte o dedo no fato mais do que evidente de que o rei está nu, é preciso que a contabilidade das emissões de carbono mude de lado e não seja feita no país onde se dá a emissão, mas no país onde se dá o CONSUMO dos produtos.  Se o governo brasileiro, através do já cambaleante Itamaraty, não tem coragem de defender essa radical mudança conceitual, a China e a Índia o farão, em breve.

Com as atuais regras da União Européia, as emissões globais não ser reduzirão, mas a Europa terá atingido as suas metas e ainda fará cara de boa moça.

 ***

Seria útil se a imprensa mais equipada de bons profissionais comparasse o rigor do licenciamento de Angra III com o rigor de qualquer outra usina nuclear licenciada nos EUA ou em outro país sério nas últimas décadas.  Só assim será possível saber quais as exigências de controle ambiental “monstruosas” de pelúcia e quais os avanços reais.

Reciclagem e Redução da Geração de Lixo Urbano

A grande questão planetária é o modelo de produção e de consumo.
Produz-se e consome-se muita bobagem.  Então, vale ficar atento para avaliar em que medida a ênfase na reciclagem não ofusca a necessidade de políticas orientadas para reduzir drasticamente a geração de lixo, começando pelo o consumo de produtos e embalagens inúteis como, por exemplo, Coca-Cola, bebidas gasosas em geral e água de processo industrial do tipo Nestlé.

Há poucas semanas, uma conferência de prefeitos de 250 cidades norte-americanas aprovou uma resolução no sentido de parar de fornecer água engarrafada para os funcionários municipais e até mesmo durante os encontros oficiais.  No lugar de garrafas de plástico, jarras de água nas mesas de reunião e nos locais de trabalho.

Uma organização que luta pela transparência na prestação de contas das corporações estima que as despesas com a coleta e disposição final das embalagens de água mineral engarrafada  geradas nas prefeituras norte-americanas atingem US$ 70 milhões por ano.  A resolução, redigida pelo prefeito de São Francisco, foi imediatamente apoiada pelo prefeito de Nova York.

Agora, há que estender essa campanha a outras instituições, às corporações que afirmam ter um programa de responsabilidade ambiental, e estabelecer uma “contabilidade do lixo” transparente de forma a atingir o grande público.  Não é difícil reanimar a indústria dos antigos e bons bebedouros que existiam nos corredores de qualquer escola, órgão público ou empresa privada.

Hoje, esses bebedouros estão bastante aperfeiçoados e qualquer filtro de carvão ativado é suficiente para remover o cloro e outras sujeiras presentes na água fornecida pelas concessionárias brasileiras de água e esgoto. Há de se ensinar as crianças para não se viciarem nas bebidas-lixo e lutar para que os restaurantes sejam obrigados a servir água filtrada para quem quiser (como, aliás, ocorre nos EUA).

Para não perder mercado, multinacionais como a Coca-Cola, Nestlé e similares, há alguns anos, estão entrando no mercado de água “adicionada de sais” e outras tolices.  No Brasil, já há algum tempo, empresas de água mineral – lideradas pela Nestlé (Caxambu) e pela Minalba e Indaiá, ambas do grupo Edson Queiroz (cearense) -  começaram a diminuir o tamanho das garrafas de água vendidas em restaurantes até o limite mínimo de um copo.  O cliente, sem alternativa, paga muito mais pela embalagem do que pela água.  Novamente em questão a tal da “responsabilidade social e ambiental” dessas empresas.

A campanha iniciada pelos prefeitos norte-americanos deve ser estendida, também, às bebidas-lixo, como Coca-Cola e outras coisas gasosas com muita água e uma quantidade desprezível de xarope vagabundo, adocicado.

Para a produção de um litro de Coca-Cola são necessários – na média mundial – 2,6 litros de água, não contabilizado o consumo de água dos escritórios, áreas de estocagem, laboratórios e sistemas de transporte.  Certamente, a média  bem maior nos países subdesenvolvidos, mas essas informações a Coca-Cola não divulga, talvez por excesso de “responsabilidade social e ambiental”.

*** 

Reciclagem de lixo é um tema que fascina muitos profissionais de diversas formações, que fazem um belo trabalho de organização dos catadores.  Estudos recentes em 5 estados brasileiros mostram que o campeão da reciclagem pós-consumo foi o Rio Grande do Sul, com taxa de 27,6%. Abaixo dele estão Ceará (21,3%) e Rio de Janeiro (18,6%), seguidos da Bahia (9,4%) e Minas Gerais (5,6%). Na região metropolitana de São Paulo o índice ficou em 15,8%.  A estimativa da reciclagem pós-consumo no Brasil é de 17,5%, com a coleta feita na maior parte por catadores informais, contra 22% na Europa, onde a atividade é regulada.  A coleta, transporte e reciclagem mais difícil é a de PET.  Então, as políticas públicas para o setor podem e devem se tornar mais agressivas, com maior responsabilidade para as indústrias que utilizam esse tipo de embalagem.

O lado bom desse trabalho vem sendo feito grande profissionalismo por Pólita Gonçalves, entre outros.  Quem quiser conhecer um pouco mais do belíssimo trabalho de Pólita pode visitar www.lixo.com.br.

O tema, sob outras óticas, foi abordado em artigos anteriores deste blog.  Recomenda-se uma visita à pagina ONG acima mencionada, que luta pela transparência das informações ambientais das grandes corporações, em lugar de apenas aceitar pequenas doações para “mitigar” os problemas ambientais por elas causados.

http://www.stopcorporateabuse.org/cms

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A União Européia tem, desde 1997, diretrizes para os fabricantes que usam embalagens de todos os tipos.  Informações – em inglês – podem ser obtidas em

http://www.wasteonline.org.uk/resources/InformationSheets/Plastics.htm

Guerreiro do Lixo – Arquitetura Para Um Planeta em Colapso

Ziggurats eram enormes construções feitas de terra (adobe) erguidas desde 3.000 anos AC, ou seja, há cerca de 5.000 anos, originalmente na Suméria, e depois na Assíria e na Babilônia. A Suméria pode ser considerada o berço da civilização humana, ou pelo menos um dos berços da civilização humana, já que ali foram encontrados os mais antigos escritos, em caracteres cuneiformes, e um clássico da literatura mundial, O Épico de Gilgamesh. Gilgamesh tornou-se herói por conduzir o seu povo através das florestas de cedro e estabelecer uma cidade. Já nesse texto se encontram referências ao grande dilúvio, depois incorporado pela Bíblia cristã.

Como ziggurats modernos, o arquiteto Michael Reynolds já no início da década de 70 começou a construir “casas do futuro”, feitas de “lixo”: pneus cheios de terra, latas, garrafas de plástico.

Reynolds deu uma designação genérica ao seu conceito: “Navio-Terra Biotectura”, e as construções aos poucos incorporaram painéis solares e energia geotérmica para assegurar o aquecimento e o resfriamento das casas, além de coleta de água e reciclagem de água da chuva, bem como instalações sanitárias.

Contestado várias vezes pelas associações de arquitetos e pelas leis que estabelecem padrões de arquitetura dos EUA, Michael Reynolds viu diversas de suas construções serem interditadas por não disporem de meras instalações de água quente.

Mas Reynolds prosseguiu seu trabalho.  No início de 2005, foi para a ilha de Nicobar, no oceano Índico, que acabava de ser devastada por um tsunami, na esperança de que a calamidade e a falta de infraestrutura fizessem com que as “sutilezas burocráticas” pudessem ser postas de lado.

Hoje já existem mais de 1.000 “navios-terra” no estado do Novo México, nos EUA.  Centenas de outros “navios-terra” estão sendo construídos nos EUA, na Escócia, na França, na Espanha e até na Sibéria. Em 2007, a cidade de Brigthon, na Inglaterra, concedeu licenças para a construção de 16 “navios terra”.

No momento, Reynolds dedica-se a um projeto denominado Fênix – nome do pássaro que na mitologia grega renasceu das cinzas: uma casa para quatro pessoas capaz de mantê-las vivas “em quaisquer circunstâncias”.

“Em minha opinião, a situação do planeta é tão crítica que temos que fazer tudo o que pudermos” – ele afirma.

Agora, um documentário sobre a sua trajetória e a sua obra já se encontra nos cinemas dos países desenvolvidos: Guerreiro do Lixo. Um trailer do filme pode ser visto em www.garbgewarrior.com, onde também há muitas informações sobre a trajetória e a obra de Mike Reynolds (em inglês).  A página do filme na internet merece uma visita.

A seguir, outros links interesssantes para compreender o assunto:

www.mesopotamia.co.uk/ziggurats/home_set.html

http://en.wikipedia.org/wiki/Mike_Reynolds_(architect)

http://www.unb.br/fau/pos_graduacao/paranoa/edicao2005/kalunga.pdfhttp

www.unb.br/fau/pos_graduacao/paranoa/edicao2005/adobe.pdf

Políticas Ambientais e Trapaças Globais

De que valem os tratados internacionais? Para proteger os interesses dos mais ricos!

Agora, o escândalo ocorre na aplicação dos tratados destinados à proteção dos estoques pesqueiros do planeta. Cientistas da Universidade de British Columbia denunciam o fato de, ao longo dos últimos 50 anos, as estatísticas da FAO subestimaram amplamente os verdadeiros volumes capturados. Há sérios indicadores de que esses volumes são três vezes superiores àqueles reportados.

Essa distorção nas estatísticas se deve ao fato de que são contabilizadas apenas as pescas comerciais – o que é bem mais confortável para os bem pagos e bem sentados burocratas dos organismos internacionais.

Com essa preguiçosa prática de coletar apenas números oficiais para fazer estatísticas, o panorama se agrave muito, em especial porque fica evidente que a trapaça é geral: alguns países pobres que reportam volumes de pesca muito inferiores aos reais vendem as suas cotas – estabelecidas em tratados internacionais -  para os países ricos.

Nas palavras de um dos cientistas da equipe liderada pela Universidade de British Columbia, Daniel Pauly, essa é a antítese da parábola de Robin Hood, já que as omissões da FAO possibilitam que se roube dos pobres para dar aos ricos.

Mas, afinal, não foi sempre assim?

O relatório da Universidade de British Columbia pode ser encontrado em www.seaaroundus.org.
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A Agência Espacial Européia alerta para o fato de que é iminente o desprendimento de uma placa de gelo do Ártico com cerca de 14.500 quilômetros quadrados. Essa área da calota polar é equivalente à área do desmatamento ocorrido na Amazônia em 2007.

Os cientistas da Agência Espacial Européia esperavam que essa placa de gelo ao sul da península do Ártico – conhecida como Wilkins Shelf – só se desprenderia em torno de 2020 e mostraram-se surpresos com o fato de que o seu degelo e “descolamento” tenha se acelerado tanto.

É um gravíssimo sinal da aceleração do aquecimento global, mas é mais confortável para os países ricos e para os Greenpeaces da vida falar apenas da Amazônia.  E o Brasil entra no jogo.

Essa será a oitava gigantesca placa de gelo a entrar em colapso nos últimos anos.  Uma versão animada desse fenômeno pode ser encontrada na página da Agência Espacial Européia, em www.esa.int/esaCP/SEM2U5THKHF_index_0.html.

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A única maneira justa de estabelecer metas para as emissões de gases causadores das mudanças climáticas não é a prevista pelo fracassado Protocolo de Kyoto.  As metas não podem ser por país, o que congelaria a desigualdade entre eles nos níveis de 1990.   Tais metas podem e devem considerar níveis máximos de emissões per capita.

Além disso, as emissões devem ser calculadas com base na produção ou no consumo?  Quem fica com a responsabilidade: os paises produtores ou para os países consumidores?

Para o Brasil, essa questão é crucial, já que há muito as multinacionais transferiram para cá as indústrias intensivas no uso de energia que exportam para lá.

Estabelecer uma referência para as emissões por país em 1990 simplesmente “congela” as desigualdades naquele ano, dada a elevada correlação entre consumo de energia e desenvolvimento econômico.

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O ministro Carlos Minc dá indícios de que não será refém de ONGs de fundo de quintal ou de grifes gringas como foi Marina Silva.

Agravam-se os Sinais das Mudanças Climáticas – As Reuniões Continuam Sem Nenhuma Luz Sequer No Começo dos Túneis

A semana que passou foi de notícias sombrias.  Reúne-se o Grupo dos 8 países mais ricos nesta segunda-feira em Hokaido, no Japão, para discutir mudanças climáticas e crise de alimentos, entre outras coisas.  A imprensa e o público em geral não parecem ter qualquer expectativa de que alguma decisão minimamente séria sobre saia de mais esta reunião sobre temas que já parecem desgastados.  Nos países sérios, o blá-blá-blá sobre desenvolvimento sustentável já foi substituido pela pela formulação de políticas de adaptação às mudanças climáticas e de garantia da segurança alimentar de suas populações.  Os demais, que se virem.

O presidente do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), Rajendra Pachauri, informou que a humanidade tem apenas sete anos – até 2015 – para estabilizar a emissão de gases causadores de mudanças climáticas.  Ou seja, para que a emissão desses gases pare de aumentar, o que significa que cesse o crescimento econômico dos países em desenvolvimento e da aviação comercial, e também que os países muito ricos mudem de atitude (há exceções honrosas, como a Alemanha).  A inércia do sistema econômico, político e social é de tal ordem que não há a mais vaga possibilidade de que essa estabilização das emissões ocorra.

Pachauri ressaltou que as mudanças climáticas estão ocorrendo numa velocidade muito maior do que a prevista pelos cientistas até recentemente, e ressaltou algo também noticiado pela imprensa nos dias anteriores: pela primeira vez na história da humanidade é provável que o Ártico fique sem gelo neste verão.  E ainda que isso não aconteça totalmente, o gelo que lá estará será de formação recente, e não aquele formado ao longo de centenas ou milhares de anos, como ocorria até recentemente.

Na mesma semana, o governo da Inglaterra admitiu que a contribuição do país para as mudanças climáticas é bem maior do que antes de afirmava.  O documento com a informação de que as emissões da Inglaterra são 37% maiores do que antes se afirmava, recebeu um título calhorda que não revela o seu conteúdo: Desenvolvimento de Indicadores de Emissões Ocultas de Carbono.  O governo inglês havia informado até o momento que as emissões do país tinham sido reduzidas em 5% – comparadas com as emissões de 1990.  O novo documento mostra que, na verdade, elas subiram 18%.  A diferença se deve ao fato de que até agora não se contabilizavam as emissões inglesas decorrentes da aviação e do transporte marítimo internacional, e nem as emissões decorrentes da produção de bens produzidos em outros países e consumidos pela Inglaterra.  Esse é um novo conceito que merece análise mais aprofundada.

O cinismo e a mentira dominam o cenário político da Inglaterra, quando isso é de interesse do poder.  Nada muito diferente do que acontece em outros países.

Na mesma semana, o pesquisador George Monbiot (www.monbiot.com) publicou no The Guardian um artigo com uma proposta radicalmente inovadora sobre as formas de contabilizar e responsabilizar os países por suas emissões de gases causadores de mudanças climáticas: cada país deve ter a mesma cota de emissão per capita.  Se os países em desenvolvimento adotarem esse conceito, as possibilidades de um consenso planetário cairão a zero.  E abaixo de zero se as emissões oriundas de produtos de exportação forem levadas à conta dos países importadores, muito mais ricos e que consomem muito mais.

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O fim da era do petróleo está mais próximo do que se pensa.  Uma pesquisa com grande número de especialistas da área de petróleo publicada pela revista New Scientist concluiu que a maioria acredita que a produção desse combustível fóssil atingirá o seu pico máximo em 2010.

Todo o lero-lero em torno do petróleo de águas profundas pode resultar em muito pouco ou nada,  em decorrência de um simples balanço energético: se a extração de cada barril desse petróleo consumir a energia de um barril de petróleo, ou pouco mais, ou pouco menos, a economia não poderá girar na base de trocar 6 por meia dúzia.  Já se sabe que a extração de petróleo das areias xistosas no Canadá tem um balanço energético precário: consome a energia de 1 barril para extrair 2 barris.

Ainda assim os tolos tentam atribuir a rápida elevação dos preços do petróleo à mera especulação financeira.