Os biocombustíveis são uma alternativa saudável aos combustíveis fósseis? Essa questão, inexistente até alguns anos atrás, tornou-se cada vez mais presente nos fóruns internacionais e nacionais dos países sérios. E o Brasil continua fazendo de conta que estaríamos no melhor dos mundos se os países ricos abrissem as suas portas ao etanol brasileiro, sem apresentar números. Tudo como se as terras agrícolas fossem ilimitadas, como fosse possível passar a ter todo o gado confinado, como se não houvesse demanda de água suplementar, e como se não existissem questões de segurança nacional em jogo.
Anuncia-se que o grupo norte-americano Bunge construirá três novas usinas de álcool no estado de Tocantins com grande euforia. A empresa pretende plantar 100.000 hectares de canaviais, o Estado abriu mão do recolhimento do ICMS por 15 anos, o Supremo aceita uma cautelar para que os exportadores deixem de recolher a Contribuição Social sobre o Lucro Líquido nas exportações, e la nave va.
Os norte-americanos sabem que se transformassem toda s sua produção de milho em etanol, teriam combustível para abastecer apenas 7% da atual demanda de combustíveis líquidos usados em veículos no país. Por essa razão, vêm buscar o etanol brasileiro, desconsiderando completamente quaisquer impactos sócio-econômicos ou ambientais.
Já no início dos anos 80, o Departamento de Energia dos EUA (DoE) conduziu um estudo aprofundado no qual demonstrou que o balanço energético da produção de etanol a partir da biomassa era negativo. Convidados para avaliar o estudo, 26 especialistas independentes confirmaram os seus resultados.
Há poucas semanas, o professor David Pimentel, professor da Faculdade de Agricultura da Universidade de Cornell, e outros, publicaram um artigo intitulado A Produção de Etanol: Energia, Economia e Perdas Ambientais. Nesse estudo, são considerados TODOS os custos da produção de etanol, incluindo o uso da água, desde a irrigação até a destilação final do etanol, além dos custos ambientais com a poluição decorrente do uso de fertilizantes. No total, foram considerados 14 insumos. O resultado foi contundente: para produzir um litro de etanol do milho, que disponibiliza 5.130 Kcal de energia, são necessárias 7.333 Kcal de insumos. Ou seja, o balanço energético é negativo.
Numa única passagem de seu estudo, David Pimentel faz uma referência ao etanol brasileiro.
“Os defensores dos biocombustíveis apontam para o Brasil e ressaltam que a eficiência energética é bastante melhor no caso da produção do etanol a partir da cana-de-açúcar. No entanto, como o balanço energético do etanol é negativo, o Brasil subsidiou durante muito tempo essa atividade. Mais tarde, o governo brasileiro parou de subsidiar diretamente a produção de etanol, que é, hoje, subsidiada pelo consumidor final na bomba dos postos de abastecimento. Esse subsídio foi estimado em 50% da produção de etanol. Isso para não mencionar a remoção de florestas nativas e as altas taxas de erosão dos solos.”
Já é tempo do Brasil fazer um estudo com o mesmo nível de seriedade sobre o balanço energético do etanol, nele incluindo todos os insumos considerados no estudo de Pimentel e, também, os custos de transporte de alimentos associados ao deslocamento das fronteiras agrícolas.
Transformando-se num exportador de commodities e considerando que os canais de exportação estão nas mãos de grandes grupos estrangeiros, o Brasil torna-se mais vulnerável do que consegue ver em decorrência da euforia de ter se transformado em nova fronteira de expansão do capital internacional.
Agora que a tal da globalização acabou, inclusive com as crescentes restrições ao livre fluxo de pessoas, talvez seja chegado o momento de dizer claramente que o objetivo fundamental dos investimentos estrangeiros é enviar lucro de volta para os países de origem.
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Resumos de estudos anteriores de David Pimentel podem ser encontrados, em inglês, em www.news.cornell.edu/stories/july05/ethanol.toocostly.ssl.html ou, em português, em http://resistir.info/energia/biocombustiveis.html. David Pimentel tem quase 500 trabalhos cientificos publicados, além de 20 livros.
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