Reciclagem e Redução da Geração de Lixo Urbano

A grande questão planetária é o modelo de produção e de consumo.
Produz-se e consome-se muita bobagem.  Então, vale ficar atento para avaliar em que medida a ênfase na reciclagem não ofusca a necessidade de políticas orientadas para reduzir drasticamente a geração de lixo, começando pelo o consumo de produtos e embalagens inúteis como, por exemplo, Coca-Cola, bebidas gasosas em geral e água de processo industrial do tipo Nestlé.

Há poucas semanas, uma conferência de prefeitos de 250 cidades norte-americanas aprovou uma resolução no sentido de parar de fornecer água engarrafada para os funcionários municipais e até mesmo durante os encontros oficiais.  No lugar de garrafas de plástico, jarras de água nas mesas de reunião e nos locais de trabalho.

Uma organização que luta pela transparência na prestação de contas das corporações estima que as despesas com a coleta e disposição final das embalagens de água mineral engarrafada  geradas nas prefeituras norte-americanas atingem US$ 70 milhões por ano.  A resolução, redigida pelo prefeito de São Francisco, foi imediatamente apoiada pelo prefeito de Nova York.

Agora, há que estender essa campanha a outras instituições, às corporações que afirmam ter um programa de responsabilidade ambiental, e estabelecer uma “contabilidade do lixo” transparente de forma a atingir o grande público.  Não é difícil reanimar a indústria dos antigos e bons bebedouros que existiam nos corredores de qualquer escola, órgão público ou empresa privada.

Hoje, esses bebedouros estão bastante aperfeiçoados e qualquer filtro de carvão ativado é suficiente para remover o cloro e outras sujeiras presentes na água fornecida pelas concessionárias brasileiras de água e esgoto. Há de se ensinar as crianças para não se viciarem nas bebidas-lixo e lutar para que os restaurantes sejam obrigados a servir água filtrada para quem quiser (como, aliás, ocorre nos EUA).

Para não perder mercado, multinacionais como a Coca-Cola, Nestlé e similares, há alguns anos, estão entrando no mercado de água “adicionada de sais” e outras tolices.  No Brasil, já há algum tempo, empresas de água mineral – lideradas pela Nestlé (Caxambu) e pela Minalba e Indaiá, ambas do grupo Edson Queiroz (cearense) –  começaram a diminuir o tamanho das garrafas de água vendidas em restaurantes até o limite mínimo de um copo.  O cliente, sem alternativa, paga muito mais pela embalagem do que pela água.  Novamente em questão a tal da “responsabilidade social e ambiental” dessas empresas.

A campanha iniciada pelos prefeitos norte-americanos deve ser estendida, também, às bebidas-lixo, como Coca-Cola e outras coisas gasosas com muita água e uma quantidade desprezível de xarope vagabundo, adocicado.

Para a produção de um litro de Coca-Cola são necessários – na média mundial – 2,6 litros de água, não contabilizado o consumo de água dos escritórios, áreas de estocagem, laboratórios e sistemas de transporte.  Certamente, a média  bem maior nos países subdesenvolvidos, mas essas informações a Coca-Cola não divulga, talvez por excesso de “responsabilidade social e ambiental”.

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Reciclagem de lixo é um tema que fascina muitos profissionais de diversas formações, que fazem um belo trabalho de organização dos catadores.  Estudos recentes em 5 estados brasileiros mostram que o campeão da reciclagem pós-consumo foi o Rio Grande do Sul, com taxa de 27,6%. Abaixo dele estão Ceará (21,3%) e Rio de Janeiro (18,6%), seguidos da Bahia (9,4%) e Minas Gerais (5,6%). Na região metropolitana de São Paulo o índice ficou em 15,8%.  A estimativa da reciclagem pós-consumo no Brasil é de 17,5%, com a coleta feita na maior parte por catadores informais, contra 22% na Europa, onde a atividade é regulada.  A coleta, transporte e reciclagem mais difícil é a de PET.  Então, as políticas públicas para o setor podem e devem se tornar mais agressivas, com maior responsabilidade para as indústrias que utilizam esse tipo de embalagem.

O lado bom desse trabalho vem sendo feito grande profissionalismo por Pólita Gonçalves, entre outros.  Quem quiser conhecer um pouco mais do belíssimo trabalho de Pólita pode visitar www.lixo.com.br.

O tema, sob outras óticas, foi abordado em artigos anteriores deste blog.  Recomenda-se uma visita à pagina ONG acima mencionada, que luta pela transparência das informações ambientais das grandes corporações, em lugar de apenas aceitar pequenas doações para “mitigar” os problemas ambientais por elas causados.

http://www.stopcorporateabuse.org/cms

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A União Européia tem, desde 1997, diretrizes para os fabricantes que usam embalagens de todos os tipos.  Informações – em inglês – podem ser obtidas em

http://www.wasteonline.org.uk/resources/InformationSheets/Plastics.htm

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

O que você pensa a respeito?