Monthly Archive for agosto, 2008

Resíduos Radioativos e Bagunça Generalizada nos EUA – Um Alerta para o Brasil

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Menos de um mês depois do ministro Carlos Minc colocar o dedo na ferida da disposição final dos resíduos nucleares de Angra III, a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA, na sigla em inglês)  deixou vazar para a imprensa um relatório considerado “devastador” por algumas das mais altas autoridades do setor.  Dezenas de milhares de contêineres com esses resíduos radioativos têm altas chances de apresentar vazamentos antes de serem enterrados em depósitos subterrâneos selados de maneira segura.  Segundo as autoridades ambientais dos EUA, esses resíduos permanecem letais por… dezenas de milhares de anos.

O relatório mostra que muitos contêineres contendo resíduos radioativos são feitos de materiais de má qualidade que os torna vulneráveis à corrosão, além de serem manuseados de forma inapropriada.  Conclusão: “pode-se assumir que uma parcela significante desses contêineres apresentará vazamentos, e modelos computacionais indicam que cerca de 40% deles já podem estar em risco”.

Na Inglaterra, que pretende ampliar rapidamente a sua capacidade de geração nuclear mas ainda têm sistemas de estocagem e disposição final de resíduos radioativos considerados inseguros, o professor Gordon MacKerron, que até recentemente presidiu o Comitê para a Gestão de Resíduos Radioativos, depois de ler o relatório declarou que as informações nele contidas eram “um prego no caixão” das propostas de que os resíduos sejam mantidos acessíveis por dezenas de anos antes de selados e enterrados de maneira segura.  “Se nós vamos buscar uma disposição final para os resíduos, isso deve ser feito da maneira mais rápida possível”, afirmou. 

A situação é confusa.  Os planos atuais do governo norte-americano prevêem que esses contêineres permanecerão onde estão por até 150 anos antes de serem transferidos para depósitos subterrâneos que levariam cerca de 50 anos para serem preenchidos e depois permaneceriam abertos e monitorados por 300 anos antes de serem selados.

O relatório sugere que esses contêineres não foram feitos com aços inoxidáveis apropriados para resistir à corrosão, revela que as suas partes internas não receberam tratamento adequado contra a mesma corrosão, e ainda afirma que foram manuseados por operadores sem luvas, o que aumenta os riscos de corrosão em função da umidade das mãos.

“Cerca 17.000 contêineres têm resíduos nucleares que reagem com o cimento utilizado em sua fabricação e apresentarão fraturas em 140 anos ou menos.”

Ou seja, uma bagunça total.  Isso sim é que é desenvolvimento sustentável para as gerações presentes e futuras.

A imprensa, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência – SBPC (que já foi mais atuante), a Associação Brasileira de Energia Nuclear – ABEN, a Sociedade Brasileira de Física e outros não podem deixar a exigência feita no licenciamento de Angra III ser objeto de tergiversações e cair no esquecimento, continuando a ser empurrado com a barriga como aconteceu até hoje com os resíduos de Angra i e II (com o alto patrocínio de muitos contratos de consultoria para comprar o silêncio da comunidade científica).

Aliás, por que foi mesmo que a exigência feita a Angra III não se estendeu a Angra I e II?

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Pelo jeito, pelo menos uma parte da EPA sobreviveu às muitas interferências da Casa Branca e indicações de políticos sem qualificações para os cargos de direção da Agência na administração George W. Bush.  Parabéns à equipe que elaborou o relatório, e também aos que o fizeram vazar para a imprensa.

Ouro ou Salmão? Referendo Popular no Alasca

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A sociedade de consumo e o desenvolvimento sustentável são incompatíveis.  Sobre isso, já há amplo consenso entre os cientistas.  Os assim chamados ambientalistas e o restante das sociedades terão que se defrontar, cada vez mais, com escolhas.  Nos países sérios, escolhas são frequentemente feitas através do referendo popular.

Na próxima terça-feira, dia 26 de agosto, no Alasca, uma dessas escolhas será feita: de um lado, recursos minerais; do outro, a proteção de recursos hídricos e pesqueiros.

A descoberta de uma quantidade tão grande quanto ainda inestimável de cobre e ouro numa região onde abundam rios de água cristalina e salmão, nas redondezas de uma pequena cidade na baía de Bristol, colocou a população diante de um dilema que será apenas parcialmente resolvida no referendo.  Anteriormente, em situações similares, a população do Alasca optou por tentar compatibilizar a exploração de todas as riquezas: petróleo, madeira, minérios e recursos pesqueiros.

Com a aproximação do referendo popular, acirram-se as tensões entre esquimós e outros povos nativos, de um lado, e os pescadores, do outro.  Os primeiros querem os empregos e a geração de renda das minas.

A escolha é aparentemente simples: US$ 300 bilhões em ouro e cobre, com a geração de milhares de empregos na exploração de recursos não renováveis ou garantias de sustentabilidade da pesca do salmão, uma indústria que rende US$ 300 milhões por ano.  A proposta de mineração a céu aberto e em profundidade vai requerer o uso de grandes quantidades de substâncias altamente tóxicas e a abertura de estradas até localidades hoje só acessíveis por helicópteros.

 “Talvez tenha sido Deus que colocou esses recursos lado a lado, só para ver o que as pessoas fariam com eles” – afirma o presidente de um consórcio de empresas de mineração.

As pesquisas indicam que o apoio à mineração terá o dobro do número de votos.

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No Brasil, o problema seria federal.  E resolvido nos gabinetes, onde se negocia o que é ou não de interesse social.  Ou, numa penada  carregada de ideologia, antecedida de uma ou outra consulta pública mixuruca, um ministro ou tribunal decidiria que alguns grupos sociais têm que viver do extrativismo, ou que os índios não podem dispor de suas terras e de suas riquezas como bem entenderem.  Sem consultá-los, é claro.  Por decreto, MP ou mero ato normativo.  Nada de referendos populares, ainda que a Constituição preveja esse mecanismo de consulta pública.

Ainda Sobre Angra III e a Destinação Final de Materiais Radioativos

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O blá-blá-blá pretensamente ambientalista sobre a inexistência de uma “destinação final” para resíduos nucleares não xe sustenta nas próprias pernas.

Depois de analisar o assunto sob a ótica das usinas de geração de energia, vale lembrar o peso dos materiais radiotivos que pairam sob as nossas cabeças sem que o assunto seja sequer mencionado.

Só os EUA e a Rússia têm, hoje, entre 12.000 e 19.000 armas nucleares cada, prontas para serem disparadas, e ninguém pia.  Muitas delas passeiam pelos oceanos em submarinos militares também nucleares.  Outras passeiam pelos ares com regularidade ou permanentemente.  Cada um desses países poderia destruir o mundo centenas de vezes e as informações sobre o seu lixo nuclear armamentista são mantidas em sigilo (ainda que, nos EUA, a Agência de Proteção Ambiental dê uns “pitacos” sobre o assunto.

Em terceiro lugar vem a França, com 482 ogivas nucleares montadas em artefatos de longo alcance.

A China não fornece sequer indicadores, mas os especialistas suspeitam que a sua capacidade nuclear é equivalente a da França.  Esses números já estão sendo revisados.  Afinal, depois dos EUA e da Rússia, a China é o único país do mundo que já comprovou a sua capacidade para destruir um satélite inimigo em órbita, podendo, assim, neutralizar ou reduzir em muito a capacidade de ataque dos outros.

De resto, a Índia e o Paquistão têm armas nucleares.

Entre 1983 e 2006, o governo dos EUA gastou entre US$ 120 e 150 bilhões com esses inúteis programas de mísseis.  A “administração” Bush pediu mais US$ 62 bilhões para os próximos 5 anos.  A contabilidade dos recursos dispendidos com esses programas é considerada um tanto nebulosa até mesmo para o General Accounting Office (O TCU deles, só que bem mais sério).

As ONGs multinacionais ambientalistas não dão sequer um pio sobre isso tudo.  Então, o que será que está por trás do lero-lero sobre a inexistência de destinação final para os resíduos nucleares logo após o licenciamento ambiental de Angra III?   O desejo de negar o acesso do Brasil a essas tecnologias, inclusive ao domínio do ciclo completo do enriquecimento do urânio, que ainda é feito no exterior e cafetinado pelas grandes potências?

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Afinal, a Noruega vai doar US$ 250 milhões para a proteção da Amazônia nos próximos cinco anos.  Stephan Schmidheiny, ligado à nobreza norueguesa, vendeu a sua participação na Aracruz Celulose por US$ 850 milhões.  Ele já anunciou que dividirá a fortuna entre os filhos e doará um pedacinho para projetos ambientais.  A imensa fortuna foi feita com a “mineração do solo” nacional, disputando espaço com a produção de alimentos e resultando em impactos ambientais altamente negativos.
 

Amazônia – Reserva Legal e Pequenos Produtores

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É positiva a decisão de concordar com o plantio de “espécies exóticas” na Amazônia, reduzindo na prática o percentual da reserva legal de 80% para 50%.  Afinal, esse percentual foi elevado de 50% para 80% por Medida Provisória – isto é, do dia para a noite – por FHC e sua turma mais para agradar à imprensa internacional do que para encontrar uma solução sensata para o desmatamento na Amazônia. 

Entre outras coisas, essa decisão pode resultar numa imensa economia do diesel cujo transporte para a região é subsidiado através da Conta de Consumo de Combustíveis – CCC.  O montante desses subsídios deverá atingir R$ 3,5 bilhões em 2008.  O óleo de dendê, cujo plantio de já amplamente difundido no Pará, pode substituir o diesel no parque gerador de centenas de cidades e vilarejos não conectados à rede de distribuição de energia elétrica, com benefícios significativos para a região e para todo o Brasil.

O mesmo ocorre com o babaçu, originário da Amazônia.  Na Amazônia Oriental, há extensos babaçuais hoje sem qualquer aproveitamento ou benefício para a população local.  Com um mínimo de boa vontade, os ambientalistas poderiam estar mais atentos a essa oportunidade de substituição de combustível fóssil por fontes renováveis de energia.  E ainda com a realocação desses recursos financeiros para atividades mais benéficas para a população local.

Essa produção de óleo (biodiesel) pode ser feita de forma descentralizada, com unidades modulares de esmagamento e produção de óleo por produtores de todos os portes.  A tecnologia nacional nessa área já se encontra desenvolvida.  E os grupos geradores podem operar com B-100, se houver boa vontade da ANP e do MME para enfrentar o lobby da CCC.

Com um pouco de esforço na formação de cooperativas, associações de produtores e outras formas de organização social que propiciem uma melhor participação na geração de renda para as populações mais pobres que vivem do extrativismo, além das usuais culturas de subsistência, como a mandioca, o feijão e até o milho, entre outras. Iniciativas que ainda merecem a atenção do governo nesse momento de transição incluem a concessão de títulos de propriedade para os pequenos produtores da região, que não têm acesso às mesmas facilidades que os grandes para processar papéis e percorrer os corredores da burocracia.

Essa iniciativa, com o uso de GPS e uma injeção de recursos na advocacia pública não é – ou não deveria – ser difícil, mas o jogo de poder na região sem dúvida a dificulta muito. Da mesma forma, é preciso pensar no fato de que os pequenos produtores não têm como elaborar planos de manejo para as áreas de onde tiram o seu sustento.  Para que o façam, é fundamental um grande reforço nos serviços de extensão rural, que deixam muito a desejar, quando não são simplesmente inexistentes.

A possibilidade de que os pequenos vendam as suas terras se regularizada a situação fundiária é alta devido à atração que as grandes cidades exercem numa sociedade de consumo e à influência da televisão.  Essa tendência pode ser retardada ou contrabalançada pelo acesso a serviços básicos de saúde e educação, que ainda são escassos quando consideradas os núcleos populacionais menores e mais dispersos.

É hora de investir maciçamente na formação dos pequenos produtores para que deixem de ser apenas “mão de obra” e passem a ter mais acesso à tecnologia e às formas de organização da produção que aumentem a sua geração de renda e auto-estima.

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Usar a expressão “introdução de espécies exóticas” para falar da nova realidade pode não ser adequado para a percepção que os brasileiros têm da mudança nas regras do jogo.  O dendê e o coco também são espécies exóticas.  A questão é saber se devem ser consideradas como estranhas à vida da população da Amazônia, num momento em que o mero extrativismo já se revelou, na prática, insuficiente ou mesmo inviável como alternativa econômica para o conjunto dos pequenos produtores da região.

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As reservas legais em propriedades rurais não encontram paralelos em outros países, e isso talvez seja suficiente para uma reflexão sobre o tema.

O Blefe do Biodiesel da Mamona e o "Golpe na Praça"

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No início de 2004, o governo federal anunciava a redenção do semi-árido nordestino – no velho e bom estilo do Padinha Cícero - através do uso da mamona para a fabricação de bioidiesel.  Na mesma época, o governador do Piauí batia no peito e anunciava, com o orgulho de quem tivesse inventado a roda ou a pólvora, sobre “reforma agrária privada”.  Essa reforma se ddaria  com a cessão de terras com grande disponibilidade de água no aqüífero subterrâneo para o assentamento de centenas de famílias de pequenos agricultores que se comprometiam a plantar e a fornecer mamona para uma empresa chamada Brasil Eco-Diesel por 10 anos.  Condições no mínimo suspeitas para uma reforma agrária e para a comercialização de produtos da pequena agricultura familiar.   Ao final desse período, eles receberiam o título de propriedade da terra.

A Brasil Ecodiesel transitava com facilidade nos corredores do poder e esse era apenas um de vários projetos similares, e seria replicado em diversas outras localidades do Piauí e do Ceará.  Até mesmo O Estado de São Paulo, conhecido por suas posições conservadoras, caiu no conto do vigário e publicou matéria com o título “O petróleo verde jorra no interior do Piauí”.

Poucos anos depois, esses pequenos agricultores abandonavam as terras prometidas, sem que a imprensa concedesse ao fato a devida cobertura.  Afinal, a Brasil Eco-Diesel já havia conseguido os financiamentos que desejava com o Banco do Nordeste do Brasil – BNB para a construção de unidades esmagadoras, que chegaram a operar com soja, e não com a mamona produzida no assentamento Canto do Buriti, no Piauí.  O projeto foi aprovado com a previsão de níveis de produtividade de mamona muito superiores aos alcançados no Brasil.

Recentemente, a Agência Nacional do Petróleo aprovou regulamento que inviabiliza o uso da mamona na produção de biodiesel em função da viscosidade do óleo dela extraído.  O governo silenciou, como se o assunto nunca tivesse existido.

De fato, qualquer profissional com um mínimo de informação sobre o óleo de mamona sabia que isso tudo era uma balela.  Mesmo sem considerar a questão da viscosidade, a verdade é que o óleo de mamona tem, historicamente, no mercado internacional, preço muito superior ao diesel, em vista de características físico-químicas que permite o seu uso em centenas de aplicações, incluindo ccomo componente de aditivos de aviação, insubstituível até mesmo nas aeronaves da NASA.  Quem consegue produzir óleo de mamona não vai perder dinheiro vendendo-o para fazer biodiesel!

Por trás da Brasil Ecodiesel, um empresário brasileiro mas, também, um fundo de investimentos administrado pelo Deutsch Bank, sem que nunca viesse a público os nomes dos investidores por trás do tal fundo.

Em novembro de 2006, com o aval da Comissão de Valores Mobiliários – CVM, foi feita uma Oferta Pública de ações da Brasil Ecodiesel na Bolsa de Valores de São Paulo – BOVESPA.  O preço atribuído à empresa foi de R$ 1.553 milhões e as ações foram vendidas a R$ 12,00.  Na semana passada, como a divulgação de um relatório da Crédit Suisse avaliando a empresa pelo chamado “valor de liquidação”, as ações caíram para R$ 1,79.  No final de março, a Brasil Ecodiesel tinha R$ 5,8 milhões disponíveis para o pagamento de uma dívida de R$ 235 milhões.

O Banco do Nordeste do Brasil – BNB, que recebe fundos constitucionais não divulgou qualquer nota sobre a possibilidade de recuperação dos empréstimos feitos à Brasil Ecodiesel.

Terá sido esse apenas um blefe bem programado para dar um golpe na praça, à exemplo do que fizeram empresas norte-americanas como a Enron?

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Dias depois do anúncio do Crédit Suisse de que o valor da empresa era o de liquidação, a Brasil Ecodiesel anunciou a renegociação de sua dívida financeira – superior a R$ 200 milhões – com um pool de bancos.  Evidentemente, nenhum banco, individualmente, assumirá um mico desse tamanho, nem mesmo tendo como garanria 5 unidades industriais, 18 fazendas e os parques de máguinas de usinas localizadas no Rio Grande do Sul e no Maranhão.

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A Brasil Ecodiesel foi com frequência acusada pelos competidores de oferecer preços muito baixos para vencer os mega-leilões de biodiesel estranhamente realizados pela Agência Nacional do Petróleo – ANP (afinal, o que é mesmo que a ANP tem a ver com isso?).  Não consta que qualquer empresa que tenha vendido e não cumprido o compromisso de entrega do produto tenha sido multada ou de qualquer forma punida.

Angra III e Disposição Final de Rejeitos

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Entre as bobagens ditas por aí sobre o licenciamento de Angra III, a mais infantil envolveu ironias em relação à exigência de definição de uma destinação final adequada para os resíduos nucleares.  A alegação foi de que esse tipo de destinação não existe em qualquer lugar do mundo.  Tolices de franchises de ONGs estrangeiras.  Existem destinações finais, sim.  Todas aquelas que têm uma vida útil maior do que a espécie humana são destinações finais.

Se isso parece exagerado, também podem ser considerados finais todas as destinações de resíduos nucleares há décadas utilizadas por países altamente desenvolvidos onde, vale ressaltar, nunca ocorreram problemas com tais resíduos (ainda que tenham ocorrido com as usinas nucleares, o que é outro assunto).  E menos arriscadas do que os arsenais e os submarinos nucleares dos EUA e da Rússia, entre outros – assunto sobre o qual já ninguém fala mais, por conveniência ou cansaço.

O único acidente com material radioativo ocorrido no Brasil deveu-se ao furto de um aparelho utilizado em radioterapias que se encontrava num hospital abandonado em Goiânia.  A cápsula contendo Césio 137 foi, depois, aberta num ferro velho para tentar reaproveitar o chumbo.  Esse foi um acidente grave, mas não o suficiente para justificar a paralisação da construção de usinas nucleares no Brasil.  Outros países vêm retomando os seus programas nucleares  para assegurar o suprimento de energia elétrica pura e simplesmente, ainda quando com o pretexto de buscar uma energia limpa para fazer face à escalada das mudanças climáticas.

Sem sombra de dúvida a energia nuclear é melhor do que o tão aclamado petróleo de Tupi ou as areias betuminosas do Canadá, cuja exploração terá conseqüências decisivas e irreversíveis no sentido da aceleração das mudanças climáticas.  Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.

Acertou o ministro Carlos Minc ao fazer a exigência, errou o presidente da Comissão Nacional de Energia Nuclear – CNEN ao tentar tirar uma casquinha na solução de um problema sério que nunca fez com que essa Comissão sequer se coçasse.  Estranho mesmo, na apatia da CNEN, é que o Brasil continue exportando urânio para ser beneficiado no exterior.

As críticas ao licenciamento de Angra III ocultaram – propositalmente ou por ignorância mesmo – que as usinas térmicas a carvão resultam num índice de contaminação radioativa da população local muitas vezes mais elevado que do as usinas nucleares.

Apesar dos níveis de materiais radioativos presentes no carvão – traços de tório e urânio – serem muito inferiores aos das descargas radioativas rotineiras numa usina nuclear, as quantidades de carvão queimadas numa termelétrica são muito maiores.  Estudos científicos demonstraram que a presença de radiação iônica nos ossos da população que vive nas proximidades de uma usina térmica a carvão são seis vezes mais elevados do que os encontrados na população que vive nas cercanias de uma usina nuclear.

Essa afirmação pode ser confirmada em www.sciam.com/article.cfm?id=coal-ash-is-more-radioactive-than-nuclear-waste.   Mas ninguém parece preocupado com as propostas de avanços das usinas térmicas a carvão feitas nos últimos tempos pelos Agnellis (Companhia Vale do Rio Doce) e Eike Batistas (diversos X) da vida.

Os rumores de que a Comissão Nacional de Energia Nuclear – CNEN pretende leiloar a aceitação dos resíduos radioativos entre os municípios onde se encontrem áreas geologicamente adequadas não são poucos.  Essa, sim, será uma indecência.  A CNEN estaria agindo como cafetina da pobreza e da volatilidade da representação dos prefeitos locais para criar fatos irreversíveis.

Em vez de deixar os prefeitos tomarem a decisão, não seria o caso da convocação de um referendo?  Ah – mas tanta democracia assim ninguém agüenta, ainda que em países como os EUA um grande número de referendos ocorra concomitantemente com cada eleição.  Aliás, por que é mesmo que não temos referendos no Brasil?

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Entre licenciar Angra III e expedir licenças sem que informações adequadas tenham sido fornecidas aos órgãos de meio ambiente vai uma imensa distância.

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Nada de errado em mudar de posições ao longo da vida.  A bobagem maior está em se apegar a posições ideológicas estreitas que mais se esforçam para enquadrar a realidade no pensamento do que em usar o pensamento para compreender o constante dinamismo da realidade.

Aumento do Preço dos Transportes – Declinio da Globalização

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Com o aumento nos preços do petróleo, algumas corporações globais começam a reavaliar os custos de transporte.  Levar o ferro brasileiro para fazer o aço na China e de lá envia-lo para a fabricação de máquinas de lavar roupa num ponto dos EUA de onde elas serão distribuídas para todo o país pode deixar de ser uma estratégia sensata.

Num livro recente sobre o assunto – “A Doutrina do Choque – Ascensão do Desastre do Capitalismo”, de Naomi Klein -, pode-se encontrar a seguinte afirmação: “o modelo Wal-Mart consome demasiada energia em cada estágio, e cada um desses estágios já está sofrendo os impactos dos aumentos nos preços do transporte”.

O custo do transporte de um container aumentou quase 300% desde o início da década, enquanto os navios reduziram a sua velocidade em 20% para economizar combustível.  Um estudo de um banco canadense sobre os mercados globais concluiu que “o custo dos transportes, e não as tarifas, são hoje o maior obstáculo que fizeram desaparecer os esforços no sentido da liberalização que ocorreram nas últimas 3 décadas”.

A elevação dos custos de transporte também incide sobre os alimentos. 

“Transportar abacates do Chile ou da África do Sul para Minneapolis, nos EUA, não vai funcionar nessa nova realidade, porque o transporte por via aérea vai levar o seu preço a ser tão alto quanto a melhor carne” – afirma Jeff Rubin, o economista cujo nome está mais em evidência no que se refere aos impactos dos custos de transporte sobre a globalização.

Hoje, o kiwi plantado na Itália leva 18 dias em containeres refrigerados para chegar os EUA e mais de um mês para chegar à Nova Zelândia.    A Inglaterra, em decorrência da pequena duração do período de sua produção de perecíveis, importa atualmente 95% das frutas e mais da metade dos vegetais que consome.

A era em que ainda é possível transportar frango e peixe da Europa para serem processados e empacotados na Ásia em função do diferencial no custo da mão-de-obra e depois enviados de volta para serem consumidos pode estar chegando ao fim.

Em decorrência de acordos internacionais, não incidem impostos sobre o combustível consumido pelo transporte aéreo e marítimo – como incidem sobre os combustíveis utilizados no transporte terrestre.  Mas uma mudança na estrutura de custos desses meios de transporte é inevitável.  A União Européia já decidiu que os vôos saindo da ou chegando na Europa serão incluídos nos programas de redução de emissões de carbono em 2012 e obrigados a comprar créditos de carbono.  Além disso, a União Européia já anunciou que procedimentos similares serão adotados em relação ao transporte marítimo se outras soluções não forem encontadas até o final de 2008.

Simultaneamente, avançam as iniciativas para que as mercadorias vendidas no mercado europeu tragam nos rótulos informações sobre as emissões totais de de carbono incluindo a produção e o transporte (a famosa “pegada carbônica).  Essa iniciativa é resultado das políticas européias de combate às mudanças climáticas e, também, da ampliação das tendências ao consumo de alimentos e outros bens produzidos localmente.

O mundo talvez esteja testemunhando o início do fim da globalização.  Ou, pelo menos, de alguns ajustes nos rumos da economia dos países que têm estratégias de longo prazo compatíveis com as novas realidades decorrentes das mudanças climáticas e da vulnerabilidade da economia baseada no petróleo.

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Hora do Brasil rever algumas das posições que o levaram ao isolamento e à derrota em Doha?  Essa obsessão com a exportação de commodities agrícolas – ou seja, com a exportação de terra e água – já está se tornando monótona… 

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Jeff Rubin, acima citado, é economista-chefe de um dos maiores bancos de investimento do Canadá – o CIBD World Markets, cuja atuação e porte podem ser visualizados em www.cibcwm.com/wm.

Humanos X Biodiversidade – Um Conflito Inevitável

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A natureza da vida é querer viver e se expandir.  Para ”resolver” a primeira parte, ela se reproduz (além de evitar a morte a todo custo, é claro).  Para atender à segunda, ela se adapta a diferentes condições através da diferenciação das espécies.  “Evolução’, em Darwin, não significa superioridade de uma espécie sobre a outra, mas apenas maior capacidade de sobrevivência em condições ambientais determinadas.

O ser humano é uma culminância desse processo, pois conseguiu se adaptar a condições ambientais extremas - das regiões mais frias às mais quentes, e também às mais diversas dietas – garantindo a sua descendência.  Comseguiu, também, tornar-se o predador supremo ou pelo menos defender-se do ataque da quase totalidade de outras espécies, garantindo a sobrevivência de sua descendência.

Com todo o seu potencial para “subjugar” os recursos naturais, o ser humano colocou-se em risco de extinção, criando, também, o mesmo risco para grande número de outras espécies, não apenas em decorrência das mudanças climáticas, já irreversíveis, mas também do aumento exponencial da pressão sobre os recursos naturais.

A colisão ou os “conflitos de interesse” com outras espécies continuaa crescendo até mesmo em áreas de interesse econômico e alimentar, como ocorre no caso dos estoques pesqueiros.

As propostas de criação de novas unidades de conservação através da ação do poder público conquistam a simpatia de uma parcela dos meios de comunicação, mas não reduzem as tensões entre a apropriação humana dos recursos naturais e a biodiversidade.  A criação de unidades de conservação envolve custos, largamente desconsiderados em países como o Brasil.  Como esses países têm parques de papel (criados no papel e nunca efetivamente implantados para atingir as suas finalidades), é mais comum ver animais silvestres numa auto-estrada na Alemanha ou um urso entrando num pequeno mercado norte-americano do que num parque nacional brasileiro ou mexicano.

A Convenção Internacional Sobre a Diversidade Biológica – nunca ratificada pelos EUA – já foi para o brejo há muito tempo.   Venceu, com larga margem de vantagem, a apropriação privada dos recursos genéticos, uma área na qual os lucros já superam os US$ 110 bilhões por ano.  A pesquisa sobre biotecnologia agrícola, por exemplo, é controlada por 15 grandes empresas privadas, sendo 13 norte-americanas de 2 européias.

E a Noruega, que anuncia contribuições para a proteção da Amazônia, não perde o foco e se concentra mesmo é na ampliação de seu banco de sementes.

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A Suprema Corte dos EUA reconhece o direito à patente de qualquer forma de vida desde 1980.  Os EUA nunca assinaram e nem assinarão a Convenção Sobre a Diversidade Biológica, mas o Brasil se curvou e assinou os acordos internacionais sobre patentes.  Por sua excessiva ênfase na exportação de produtos agrícolas, não tinha um plano B para Doha, onde foi o maior derrotado.  Achar que a exportação de commodities é uma visão um bocado estreita.  Vale dar uma espiada em:

www.medioambienteonline.com/site/root/resources/feature_article/6807.html, na versão em espanhol, ou em

www.portofentry.com/site/root/resources/feature_article/6807.htmlm na versão em inglês.

Como São Incômodos, Esses Miseráveis do Congo!

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A reportagem de capa da National Geographic na edição brasileira de junho de 2008 é sobre é sobre gorilas e atividades “predatórias” no Parque Nacional de Virunga, no Congo.  Duas fotos absolutamente chocantes e simbólicas fazem parte da reportagem.

A primeira mostra um mulher esquálida, em andrajos, protestando contra dois guarda-parques que apreenderam alguns galhos e tocos de madeira que ela carregava em sua cabeça para vender ou cozinhar.  Na segunda, outra mulher negra de joelhos agarra-se às botas de um indiferente guarda parques que segura um rifle utilizado na apreensão de um saco de carvão e segura um rifle; desesperada, ela implora por perdão, enquanto outra mulher (a filha?), desolada, aparece prostrada em suas costas.

A reportagem fala de um conflito entre humanos sem habitat, vivendo na miséria e vulneráveis à guerra entre milícias locais, de um lado, e a proteção do habitat natural dos gorilas, do outro.  Não é improvável que europeus e instituições financeiras internacionais mandem recursos para a proteção dos gorilas que, em trechos menos violentos do parque, ainda são uma atração turística.  Nenhuma dúvida sobre a importância de proteger o parque e os gorilas.  Nenhuma proposta para assegurar um mínimo a essas populações de humanos subnutridos que necessitam de lenha para cozinhar num país que exporta petróleo.

“A região sustenta não só uma profusão de espécies mas também uma das mais densas populações da África: mais de 400 habitantes por quilômetro quadrado.  Conflitos por recursos e terras irrompem dentro e ao redor do parque, pois milícias, traficantes de carvão, refugiados e líderes políticos competem pelo controle – ou pela sobrevivência.”  Recentes descobertas indicam, também, a existência de uma população de 125.000 gorilas nas florestas do Congo.

A reportagem afirma que o carvão é retirado por “mulas” que abastecem “traficantes”, remunerando-as com menos de 1 dólar por dia.  Nenhum questionamento mais sério sobre a existência de uma demanda pelo carvão decorrente da indisponibilidade de outros energéticos para cozinhar nos campos de refugiados e mesmo nas cidades. 

São bem incômodos, esses miseráveis africanos famintos e maltrapilhos que, além de tudo, dedicam-se a atividades ilegais.

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Uma das fotos mais chocantes dessa reportagem pode ser visualizada em

http://viajeaqui.abril.com.br/ng/materias/ng_slide_284658.shtml.  A National Geographic, feita por uma ONG norte-americana “ambientalista”, parece preferir os gorilas aos humanos (ainda que seja mais do que evidente de que os dois podem conviver, em espaços delimitados), e prefere não falar da corrupção do governo do Congo.