Como São Incômodos, Esses Miseráveis do Congo!

A reportagem de capa da National Geographic na edição brasileira de junho de 2008 é sobre é sobre gorilas e atividades “predatórias” no Parque Nacional de Virunga, no Congo.  Duas fotos absolutamente chocantes e simbólicas fazem parte da reportagem.

A primeira mostra um mulher esquálida, em andrajos, protestando contra dois guarda-parques que apreenderam alguns galhos e tocos de madeira que ela carregava em sua cabeça para vender ou cozinhar.  Na segunda, outra mulher negra de joelhos agarra-se às botas de um indiferente guarda parques que segura um rifle utilizado na apreensão de um saco de carvão e segura um rifle; desesperada, ela implora por perdão, enquanto outra mulher (a filha?), desolada, aparece prostrada em suas costas.

A reportagem fala de um conflito entre humanos sem habitat, vivendo na miséria e vulneráveis à guerra entre milícias locais, de um lado, e a proteção do habitat natural dos gorilas, do outro.  Não é improvável que europeus e instituições financeiras internacionais mandem recursos para a proteção dos gorilas que, em trechos menos violentos do parque, ainda são uma atração turística.  Nenhuma dúvida sobre a importância de proteger o parque e os gorilas.  Nenhuma proposta para assegurar um mínimo a essas populações de humanos subnutridos que necessitam de lenha para cozinhar num país que exporta petróleo.

“A região sustenta não só uma profusão de espécies mas também uma das mais densas populações da África: mais de 400 habitantes por quilômetro quadrado.  Conflitos por recursos e terras irrompem dentro e ao redor do parque, pois milícias, traficantes de carvão, refugiados e líderes políticos competem pelo controle – ou pela sobrevivência.”  Recentes descobertas indicam, também, a existência de uma população de 125.000 gorilas nas florestas do Congo.

A reportagem afirma que o carvão é retirado por “mulas” que abastecem “traficantes”, remunerando-as com menos de 1 dólar por dia.  Nenhum questionamento mais sério sobre a existência de uma demanda pelo carvão decorrente da indisponibilidade de outros energéticos para cozinhar nos campos de refugiados e mesmo nas cidades. 

São bem incômodos, esses miseráveis africanos famintos e maltrapilhos que, além de tudo, dedicam-se a atividades ilegais.

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Uma das fotos mais chocantes dessa reportagem pode ser visualizada em

http://viajeaqui.abril.com.br/ng/materias/ng_slide_284658.shtml.  A National Geographic, feita por uma ONG norte-americana “ambientalista”, parece preferir os gorilas aos humanos (ainda que seja mais do que evidente de que os dois podem conviver, em espaços delimitados), e prefere não falar da corrupção do governo do Congo.

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

One thought on “Como São Incômodos, Esses Miseráveis do Congo!”

  1. É mais ou menos isso que acontece aqui mesmo, por exemplo quando se fala muito em preservar o velho Chico enquanto a população ribeirinha passa fome e sede. Proteção ambiental sem seres humanos.

O que você pensa a respeito?