Aumento do Preço dos Transportes – Declinio da Globalização

Com o aumento nos preços do petróleo, algumas corporações globais começam a reavaliar os custos de transporte.  Levar o ferro brasileiro para fazer o aço na China e de lá envia-lo para a fabricação de máquinas de lavar roupa num ponto dos EUA de onde elas serão distribuídas para todo o país pode deixar de ser uma estratégia sensata.

Num livro recente sobre o assunto – “A Doutrina do Choque – Ascensão do Desastre do Capitalismo”, de Naomi Klein -, pode-se encontrar a seguinte afirmação: “o modelo Wal-Mart consome demasiada energia em cada estágio, e cada um desses estágios já está sofrendo os impactos dos aumentos nos preços do transporte”.

O custo do transporte de um container aumentou quase 300% desde o início da década, enquanto os navios reduziram a sua velocidade em 20% para economizar combustível.  Um estudo de um banco canadense sobre os mercados globais concluiu que “o custo dos transportes, e não as tarifas, são hoje o maior obstáculo que fizeram desaparecer os esforços no sentido da liberalização que ocorreram nas últimas 3 décadas”.

A elevação dos custos de transporte também incide sobre os alimentos. 

“Transportar abacates do Chile ou da África do Sul para Minneapolis, nos EUA, não vai funcionar nessa nova realidade, porque o transporte por via aérea vai levar o seu preço a ser tão alto quanto a melhor carne” – afirma Jeff Rubin, o economista cujo nome está mais em evidência no que se refere aos impactos dos custos de transporte sobre a globalização.

Hoje, o kiwi plantado na Itália leva 18 dias em containeres refrigerados para chegar os EUA e mais de um mês para chegar à Nova Zelândia.    A Inglaterra, em decorrência da pequena duração do período de sua produção de perecíveis, importa atualmente 95% das frutas e mais da metade dos vegetais que consome.

A era em que ainda é possível transportar frango e peixe da Europa para serem processados e empacotados na Ásia em função do diferencial no custo da mão-de-obra e depois enviados de volta para serem consumidos pode estar chegando ao fim.

Em decorrência de acordos internacionais, não incidem impostos sobre o combustível consumido pelo transporte aéreo e marítimo – como incidem sobre os combustíveis utilizados no transporte terrestre.  Mas uma mudança na estrutura de custos desses meios de transporte é inevitável.  A União Européia já decidiu que os vôos saindo da ou chegando na Europa serão incluídos nos programas de redução de emissões de carbono em 2012 e obrigados a comprar créditos de carbono.  Além disso, a União Européia já anunciou que procedimentos similares serão adotados em relação ao transporte marítimo se outras soluções não forem encontadas até o final de 2008.

Simultaneamente, avançam as iniciativas para que as mercadorias vendidas no mercado europeu tragam nos rótulos informações sobre as emissões totais de de carbono incluindo a produção e o transporte (a famosa “pegada carbônica).  Essa iniciativa é resultado das políticas européias de combate às mudanças climáticas e, também, da ampliação das tendências ao consumo de alimentos e outros bens produzidos localmente.

O mundo talvez esteja testemunhando o início do fim da globalização.  Ou, pelo menos, de alguns ajustes nos rumos da economia dos países que têm estratégias de longo prazo compatíveis com as novas realidades decorrentes das mudanças climáticas e da vulnerabilidade da economia baseada no petróleo.

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Hora do Brasil rever algumas das posições que o levaram ao isolamento e à derrota em Doha?  Essa obsessão com a exportação de commodities agrícolas – ou seja, com a exportação de terra e água – já está se tornando monótona… 

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Jeff Rubin, acima citado, é economista-chefe de um dos maiores bancos de investimento do Canadá – o CIBD World Markets, cuja atuação e porte podem ser visualizados em www.cibcwm.com/wm.

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

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