Angra III e Disposição Final de Rejeitos

Entre as bobagens ditas por aí sobre o licenciamento de Angra III, a mais infantil envolveu ironias em relação à exigência de definição de uma destinação final adequada para os resíduos nucleares.  A alegação foi de que esse tipo de destinação não existe em qualquer lugar do mundo.  Tolices de franchises de ONGs estrangeiras.  Existem destinações finais, sim.  Todas aquelas que têm uma vida útil maior do que a espécie humana são destinações finais.

Se isso parece exagerado, também podem ser considerados finais todas as destinações de resíduos nucleares há décadas utilizadas por países altamente desenvolvidos onde, vale ressaltar, nunca ocorreram problemas com tais resíduos (ainda que tenham ocorrido com as usinas nucleares, o que é outro assunto).  E menos arriscadas do que os arsenais e os submarinos nucleares dos EUA e da Rússia, entre outros – assunto sobre o qual já ninguém fala mais, por conveniência ou cansaço.

O único acidente com material radioativo ocorrido no Brasil deveu-se ao furto de um aparelho utilizado em radioterapias que se encontrava num hospital abandonado em Goiânia.  A cápsula contendo Césio 137 foi, depois, aberta num ferro velho para tentar reaproveitar o chumbo.  Esse foi um acidente grave, mas não o suficiente para justificar a paralisação da construção de usinas nucleares no Brasil.  Outros países vêm retomando os seus programas nucleares  para assegurar o suprimento de energia elétrica pura e simplesmente, ainda quando com o pretexto de buscar uma energia limpa para fazer face à escalada das mudanças climáticas.

Sem sombra de dúvida a energia nuclear é melhor do que o tão aclamado petróleo de Tupi ou as areias betuminosas do Canadá, cuja exploração terá conseqüências decisivas e irreversíveis no sentido da aceleração das mudanças climáticas.  Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.

Acertou o ministro Carlos Minc ao fazer a exigência, errou o presidente da Comissão Nacional de Energia Nuclear – CNEN ao tentar tirar uma casquinha na solução de um problema sério que nunca fez com que essa Comissão sequer se coçasse.  Estranho mesmo, na apatia da CNEN, é que o Brasil continue exportando urânio para ser beneficiado no exterior.

As críticas ao licenciamento de Angra III ocultaram – propositalmente ou por ignorância mesmo – que as usinas térmicas a carvão resultam num índice de contaminação radioativa da população local muitas vezes mais elevado que do as usinas nucleares.

Apesar dos níveis de materiais radioativos presentes no carvão – traços de tório e urânio – serem muito inferiores aos das descargas radioativas rotineiras numa usina nuclear, as quantidades de carvão queimadas numa termelétrica são muito maiores.  Estudos científicos demonstraram que a presença de radiação iônica nos ossos da população que vive nas proximidades de uma usina térmica a carvão são seis vezes mais elevados do que os encontrados na população que vive nas cercanias de uma usina nuclear.

Essa afirmação pode ser confirmada em www.sciam.com/article.cfm?id=coal-ash-is-more-radioactive-than-nuclear-waste.   Mas ninguém parece preocupado com as propostas de avanços das usinas térmicas a carvão feitas nos últimos tempos pelos Agnellis (Companhia Vale do Rio Doce) e Eike Batistas (diversos X) da vida.

Os rumores de que a Comissão Nacional de Energia Nuclear – CNEN pretende leiloar a aceitação dos resíduos radioativos entre os municípios onde se encontrem áreas geologicamente adequadas não são poucos.  Essa, sim, será uma indecência.  A CNEN estaria agindo como cafetina da pobreza e da volatilidade da representação dos prefeitos locais para criar fatos irreversíveis.

Em vez de deixar os prefeitos tomarem a decisão, não seria o caso da convocação de um referendo?  Ah – mas tanta democracia assim ninguém agüenta, ainda que em países como os EUA um grande número de referendos ocorra concomitantemente com cada eleição.  Aliás, por que é mesmo que não temos referendos no Brasil?

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Entre licenciar Angra III e expedir licenças sem que informações adequadas tenham sido fornecidas aos órgãos de meio ambiente vai uma imensa distância.

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Nada de errado em mudar de posições ao longo da vida.  A bobagem maior está em se apegar a posições ideológicas estreitas que mais se esforçam para enquadrar a realidade no pensamento do que em usar o pensamento para compreender o constante dinamismo da realidade.

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

4 comentários sobre “Angra III e Disposição Final de Rejeitos”

  1. Parabéns pelo texto, comecei a ser favorável a energia nuclear após ler o livro “A vingança de Gaia”, e cada vez fico mais confiante de que a única saída para solucionar o problema do aquecimento global é a energia nuclear!

    A minha única restrição quanto à isso, é o que pode ser feito com o lixo atômico? A França que mais de 70% da sua energia é nuclear deve fazer alguma coisa com todo esse lixo=, além de armazená-lo.

    Mais uma vez parabéns!

    E torço para que mais pessoas abracem esta causa.

    Resposta do autor do artigo:

    Sim, Thiago, há uma extensa literatura sobre os procedimentos de estocagem e reprocessamento na França e em outros países. A estocagem em conteineres isolantes – com 3 kg de urânio em cada – é um dos procedimentos adotados na França. Depois, 4-5 conteineres são unidos e colocados dentro de outros conteineres e assim por diante. Informações sobre os regulamentos para a disposição de resíduos radioativos nos EUA podem ser encontradas na página da Comissão de Regulação Nuclear – NRC, em http://www.nrc.gov/waste.html. Mas lá a coisa é para valer e as usinas nucleares são privadas, isto é, não convivem em total promiscuidade com o poder regulatório como aqui. E a Agência de Proteção Ambiental – EPA licencia, sim, e fiscaliza, a disposição final de resíduos nucleares.

  2. Acho que o seu cansaço comprometeu a divulgação de fatos relevantes sobre assunto e para tal auxilio na extenuante tarefa.

    As “crateras” criadas nos E.U.A para acomodar estes resíduos, ao cumprirem todas as especificações seguras para poder acomodá-los, já estão comprometidas e saturadas ao término deste procedimento devido o grande volume produzido de resíduos. E os materiais (conteineres e afins) que o isolam os resíduos, cujo metais empregados são de baixa qualidade frente a periculosidade destes resíduos, são manipulados incorretamente ainda hoje, mesmo depois de “ene” exemplos pelo mundo, não possuindo ao final a durabilidade requerida para assegurar o mínimo de 300 anos de isolamento. Bom, fico a imaginar, depois de séculos, quem haverá de se responsabilizar pela manutenção deste “queijo suíço”? Quantos buraquinhos serão necessários para resolver este problema e atender a demanda populacional crescente? Vamos fazer cálculos?

    Tem mais, esta energia depende 100% da capacidade humana para não haver erros, que caso aconteça (DEUS ME LIVRE E NOS GUARDE), envolverá uma região litorânea e vizinhanças porque tanto pode como deverá ser conduzida ao sabor das correntes de ar.

    Energia nuclear, por estas e outras não é a saída. Nosso país tem que investir na área científica, deixar de pagar bolsas sobrevivência e direcionar esta verba alta para a busca de soluções viáveis e que tenham visão de longo prazo. Esta solução paliativa de demanda energética é ínfima frente as possibilidades de aproveitamento energético que nosso país fornece. Temos clima, ventos, extensão litorânea, mar, muito sol e a possibilidade de obter energia desde micro a macro espécies.

    O que falta é conhecimento, investimento, responsabilidade e confiança sobre as potencialidades viáveis e não prejudiciais ao meios sócio-ambiental.

  3. Indico leitura do artigo Produção de urânio contamina água no estado da Bahia, disponível em: http://noticias.ambientebrasil.com.br/noticia/?id=41350

    Que representa os grandes danos que este tipo de geração de energia já está causando em nosso país.

    Resposta do autor

    Prezada Bruna,

    Não creio que algumas análises feitas fora do país por iniciativa de uma franchise de ONG – o Greenpeace – desqulifique a energia nuclear, ainda que possa questionar o IRB. Vivi e estudei na França por muitos anos, e a França é toda nuclear. A franchise, no entanto, teria a possibilidade de trazer medidores de radioisótopos para o Brasil – eles custam baratinho – e fazer essa demonstração em campo. Qualquer pessoa que trabalha numa usina nuclear usa um crachá que indique índices mínimos de contaminação, e há outros medidores portáteis amplamente disponíveis no mercado externo.

  4. Oi Luiz,
    A questão toda não é qualificação e desqualificação da energia nuclear, pois sabemos de suas benesses e maleficências quanto fonte de energia relacionada aos meios sócio-ambiental, mas sim o que dispomos como mão de obra para lidar com esta tecnologia neste país.

    A gente sabe que tudo aqui culturalmente é feito sempre nas coxas. Veja, se não fosse um órgão internacional meter o bedelho, os baianos usufruiriam de água contaminada por urânio por quanto tempo?
    Precisamos de tragédias, e mais uma mini-tragédia para remediar?

    Imagine um vazamento então!(Deus nos livre!)

    A falta de planejamento, ou seja lá o que for, nos dá um exemplo, nós já temos uma usina nuclear construída em um litoral, local que viceja vida marinha, e como descrita no Google Earth, imprópria para instalação neste local.

    Seguindo esta linha, a intenção do governo é de construir 50 usinas, ditas assim sem buscar nenhum conhecimento sobre o que isso significaria de fato para aos habitantes e ao meio ambiente deste país.

    O povo, os alimentados com milho, acha tudo isso muito bonito. “Teremos mais energia!” Mas a que peso?

    Será que a gente não consegue perder este ranço de imitar o que está lá fora, utilizando a “roda” a torto e a direito? Será que não temos capacidade de buscar novas tecnologias, fontes limpas de energia, e que se encontram tão intimamente relacionadas as potencialidades que dispomos como nação?

    Sabe, o governo desfocou a educação para retirar a reflexão em massa e está dando nisso aí, muito milho distribuído, mas para poucos com massa encefálica.

    Resposta:

    Aí você mudou o eixo da questão, e eu concordo: o Brasil é uma bagunça, tudo meio engatilhado, uma grande gambiarra.

    Mas essas é outra questão e não creio que possamos, com base nela, simplesmente descartar os raros núcleos de pesquisa séria que temos no Brasil sobre essa fonte de energia, em particular a Marinha e em especial quando a Europa inteira está tentando a fusão nuclear, e o Brasil tentando chegar junto.

    Seja como for, devo dizer que (a) concordo inteiramente que a localização de Angra I e II foi totalmente errada, e não consigo entender por que Angra III será feita no mesmo local, (b) quem indicou o problema de contaminação da água na Bahia não foi “um órgão internacional” mas uma franchise de uma ONG estrangeira, (c) o ministro que falou em 50 usinas deve ter tomado uísque paraguaio na véspera e têve apenas um surto psicótico megalômano, e (d) temos que investir em educação e não fazer promessas sobre a educação que viria depois de um pré-sal previsto para o “dia de São Nunca” já que, hoje, ele ainda é tecnologicamente inatingível.

O que você pensa a respeito?