O Blefe do Biodiesel da Mamona e o "Golpe na Praça"

No início de 2004, o governo federal anunciava a redenção do semi-árido nordestino – no velho e bom estilo do Padinha Cícero – através do uso da mamona para a fabricação de bioidiesel.  Na mesma época, o governador do Piauí batia no peito e anunciava, com o orgulho de quem tivesse inventado a roda ou a pólvora, sobre “reforma agrária privada”.  Essa reforma se ddaria  com a cessão de terras com grande disponibilidade de água no aqüífero subterrâneo para o assentamento de centenas de famílias de pequenos agricultores que se comprometiam a plantar e a fornecer mamona para uma empresa chamada Brasil Eco-Diesel por 10 anos.  Condições no mínimo suspeitas para uma reforma agrária e para a comercialização de produtos da pequena agricultura familiar.   Ao final desse período, eles receberiam o título de propriedade da terra.

A Brasil Ecodiesel transitava com facilidade nos corredores do poder e esse era apenas um de vários projetos similares, e seria replicado em diversas outras localidades do Piauí e do Ceará.  Até mesmo O Estado de São Paulo, conhecido por suas posições conservadoras, caiu no conto do vigário e publicou matéria com o título “O petróleo verde jorra no interior do Piauí”.

Poucos anos depois, esses pequenos agricultores abandonavam as terras prometidas, sem que a imprensa concedesse ao fato a devida cobertura.  Afinal, a Brasil Eco-Diesel já havia conseguido os financiamentos que desejava com o Banco do Nordeste do Brasil – BNB para a construção de unidades esmagadoras, que chegaram a operar com soja, e não com a mamona produzida no assentamento Canto do Buriti, no Piauí.  O projeto foi aprovado com a previsão de níveis de produtividade de mamona muito superiores aos alcançados no Brasil.

Recentemente, a Agência Nacional do Petróleo aprovou regulamento que inviabiliza o uso da mamona na produção de biodiesel em função da viscosidade do óleo dela extraído.  O governo silenciou, como se o assunto nunca tivesse existido.

De fato, qualquer profissional com um mínimo de informação sobre o óleo de mamona sabia que isso tudo era uma balela.  Mesmo sem considerar a questão da viscosidade, a verdade é que o óleo de mamona tem, historicamente, no mercado internacional, preço muito superior ao diesel, em vista de características físico-químicas que permite o seu uso em centenas de aplicações, incluindo ccomo componente de aditivos de aviação, insubstituível até mesmo nas aeronaves da NASA.  Quem consegue produzir óleo de mamona não vai perder dinheiro vendendo-o para fazer biodiesel!

Por trás da Brasil Ecodiesel, um empresário brasileiro mas, também, um fundo de investimentos administrado pelo Deutsch Bank, sem que nunca viesse a público os nomes dos investidores por trás do tal fundo.

Em novembro de 2006, com o aval da Comissão de Valores Mobiliários – CVM, foi feita uma Oferta Pública de ações da Brasil Ecodiesel na Bolsa de Valores de São Paulo – BOVESPA.  O preço atribuído à empresa foi de R$ 1.553 milhões e as ações foram vendidas a R$ 12,00.  Na semana passada, como a divulgação de um relatório da Crédit Suisse avaliando a empresa pelo chamado “valor de liquidação”, as ações caíram para R$ 1,79.  No final de março, a Brasil Ecodiesel tinha R$ 5,8 milhões disponíveis para o pagamento de uma dívida de R$ 235 milhões.

O Banco do Nordeste do Brasil – BNB, que recebe fundos constitucionais não divulgou qualquer nota sobre a possibilidade de recuperação dos empréstimos feitos à Brasil Ecodiesel.

Terá sido esse apenas um blefe bem programado para dar um golpe na praça, à exemplo do que fizeram empresas norte-americanas como a Enron?

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Dias depois do anúncio do Crédit Suisse de que o valor da empresa era o de liquidação, a Brasil Ecodiesel anunciou a renegociação de sua dívida financeira – superior a R$ 200 milhões – com um pool de bancos.  Evidentemente, nenhum banco, individualmente, assumirá um mico desse tamanho, nem mesmo tendo como garanria 5 unidades industriais, 18 fazendas e os parques de máguinas de usinas localizadas no Rio Grande do Sul e no Maranhão.

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A Brasil Ecodiesel foi com frequência acusada pelos competidores de oferecer preços muito baixos para vencer os mega-leilões de biodiesel estranhamente realizados pela Agência Nacional do Petróleo – ANP (afinal, o que é mesmo que a ANP tem a ver com isso?).  Não consta que qualquer empresa que tenha vendido e não cumprido o compromisso de entrega do produto tenha sido multada ou de qualquer forma punida.

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

O que você pensa a respeito?