Ouro ou Salmão? Referendo Popular no Alasca

A sociedade de consumo e o desenvolvimento sustentável são incompatíveis.  Sobre isso, já há amplo consenso entre os cientistas.  Os assim chamados ambientalistas e o restante das sociedades terão que se defrontar, cada vez mais, com escolhas.  Nos países sérios, escolhas são frequentemente feitas através do referendo popular.

Na próxima terça-feira, dia 26 de agosto, no Alasca, uma dessas escolhas será feita: de um lado, recursos minerais; do outro, a proteção de recursos hídricos e pesqueiros.

A descoberta de uma quantidade tão grande quanto ainda inestimável de cobre e ouro numa região onde abundam rios de água cristalina e salmão, nas redondezas de uma pequena cidade na baía de Bristol, colocou a população diante de um dilema que será apenas parcialmente resolvida no referendo.  Anteriormente, em situações similares, a população do Alasca optou por tentar compatibilizar a exploração de todas as riquezas: petróleo, madeira, minérios e recursos pesqueiros.

Com a aproximação do referendo popular, acirram-se as tensões entre esquimós e outros povos nativos, de um lado, e os pescadores, do outro.  Os primeiros querem os empregos e a geração de renda das minas.

A escolha é aparentemente simples: US$ 300 bilhões em ouro e cobre, com a geração de milhares de empregos na exploração de recursos não renováveis ou garantias de sustentabilidade da pesca do salmão, uma indústria que rende US$ 300 milhões por ano.  A proposta de mineração a céu aberto e em profundidade vai requerer o uso de grandes quantidades de substâncias altamente tóxicas e a abertura de estradas até localidades hoje só acessíveis por helicópteros.

 “Talvez tenha sido Deus que colocou esses recursos lado a lado, só para ver o que as pessoas fariam com eles” – afirma o presidente de um consórcio de empresas de mineração.

As pesquisas indicam que o apoio à mineração terá o dobro do número de votos.

***

No Brasil, o problema seria federal.  E resolvido nos gabinetes, onde se negocia o que é ou não de interesse social.  Ou, numa penada  carregada de ideologia, antecedida de uma ou outra consulta pública mixuruca, um ministro ou tribunal decidiria que alguns grupos sociais têm que viver do extrativismo, ou que os índios não podem dispor de suas terras e de suas riquezas como bem entenderem.  Sem consultá-los, é claro.  Por decreto, MP ou mero ato normativo.  Nada de referendos populares, ainda que a Constituição preveja esse mecanismo de consulta pública.

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

Um comentário em “Ouro ou Salmão? Referendo Popular no Alasca”

  1. Se optarem pelo salmão, continuarão a ter o ouro no caixa.
    Se optarem pelo ouro, haverá o colapso socio-econômico da região para as futuras gerações. Sem mencionar a degradação dps recursos hídricos.

    Essa é a questão usual.

O que você pensa a respeito?